I. – Ao seu Pai.
LINCOLN COLLEGE, 19 de dezembro de 1729.
CARO SENHOR,
Outro dia, enquanto estava examinando superficialmente o Discurso sobre a Ressurreição de Cristo do Sr. Ditton, encontrei, perto do final, uma espécie de ensaio sobre a Origem do Mal. Imaginei que a sua brevidade, se não alguma outra coisa, poderia fazer com que o Sr. desejasse lê-lo, embora muito provavelmente não iria encontrar muito nele que não tenha ocorrido aos seus pensamentos anteriormente.
“Visto que o Ser supremo deve necessariamente ser infinitamente e essencialmente bom, assim como sábio e poderoso, estima-se que não é nada fácil mostrar como o mal entrou no mundo. Unde malum [de onde veio o mal] é uma pergunta gigantesca” (p. 424).
Houve alguns que, a fim de respondê-la, imaginaram que há dois princípios supremos, dominantes, sendo um bom e um mal, e que o segundo ficou independente ou de igual força que o primeiro, sendo o autor de tudo que se tornou irregular ou mau no universo. Neste monstruoso esquema os maniqueus caíram e muito melhoraram, mas eles foram suficientemente refutados por Santo Agostinho, que teve motivo para particularmente se familiarizar com suas doutrinas.
Mas a verdade clara é que a hipótese não requer nada mais para a sua refutação do que meramente propô-la. Dois princípios supremos, independentes, está bem perto de ser uma contradição de termos. É exatamente o mesmo, em resultado e consequência, que afirmar dois infinitos absolutos, e quem afirma dois, afirma dez ou cinquenta, ou qualquer outro número. E ainda, se pode haver dois infinitos essencialmente distintos e absolutos, pode haver uma infinidade desses infinitos absolutos. Isto é o mesmo que dizer que nenhum deles seria um infinito absoluto ou que nenhum deles seria propriamente e realmente infinito. “Pois a verdadeira infinidade é infinidade completa e absoluta, e somente isso.”
“Da natureza da liberdade e do livre-arbítrio, podemos deduzir uma explicação muito possível e satisfatória (talvez a única explicação justa possível) da origem do mal.
Há, e necessariamente deve haver, algumas harmonias e desarmonias, conformidades e não-conformidades originais, intrínsecas, de certas coisas e circunstâncias, uma com a outra, que são antecedentes de todas as leis positivas, fundadas na própria natureza dessas coisas e circunstâncias, consideradas em si mesmas, e em sua relação umas com as outras.
“Como todas estas caem dentro da compreensão de uma mente infinita, perspicaz, que é igualmente retidão e razão infinita, essencial, então as de um lado devem necessariamente (falando à maneira dos homens) ser escolhidas ou aprovadas por ele, como as outras odiadas e desaprovadas, e isto como resultado de sua concordância ou discordância eterna, intrínseca, delas.
“Ainda: Isto de forma alguma depreciou qualquer perfeição de um Ser infinito, dotar outros seres que ele fez com aquele poder que chamamos liberdade, isto é, concedê-las capacidades, disposições e princípios de ação, para que lhes fosse possível observarem ou se desviarem dessas regras e normas eternas de conformidade e concordância, com respeito a certas coisas e circunstâncias, que eram tão consistentes com a retidão infinita de sua própria vontade, e da qual a razão infinita deve necessariamente revelar. Agora, o mal é um afastamento dessas normas de ordem e razão eterna, infalível, não para escolher o que é digno de ser escolhido, e é apropriadamente escolhido por tal vontade como a divina. E para ocasionar isto, nada mais é necessário do que exercer certos atos desse poder que chamamos livre-arbítrio. Por esse poder somos capacitados a escolher ou recusar, e decidir agir correspondentemente. Portanto, sem recorrer a qualquer princípio mal, podemos convenientemente explicar a origem do mal da possibilidade de um uso diverso de nossa liberdade, ao mesmo tempo que a própria capacidade ou possibilidade está ultimamente fundada na falibilidade e limitação de uma natureza criada.”
Sou, caro senhor,
Seu obediente e afetuoso filho
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