quinta-feira, 24 de novembro de 2022

Como o arminiano responde a Hb 12.2, “autor e consumador da fé”?

 

O escritor de Hebreus pede agora aos seus leitores que voltem o olhar para Jesus, exaltado acima de todos e assentado à destra do trono de Deus.

O verbo  olhar  – em  olhando firmemente  – é  aphorontes  (Αφορωντες), que significa tirar a vista das coisas que estão perto e desviam a nossa atenção e, conscientemente, fixar os olhos em Jesus como o nosso grande alvo. Significa ainda interesse que absorve por completo, perfeitamente expresso pelas palavras  com olhos só para Jesus.

A expressão  autor e consumador da nossa fé  tem sido interpretada de várias maneiras. A palavra traduzida como  autor  é  archegon  (Αρχηγος),  líder,  pioneiro, sendo o mesmo vocábulo traduzido como  capitão  (da nossa salvação) em Hebreus 2.10 (KJ). A palavra  consumador   é  teleioten  (τελειωτής),  aperfeiçoador,  que completa  (cp. Hb 10.14).

Em  olhando firmemente para Jesus, o Autor e Consumador da   nossa  fé, o possessivo  nossa  [que aparece nas versões KJ e na NVI, mas não na ARA e na ARC], antes de  fé, está em itálico ou entre parêntesis, pois no grego temos apenas a  fé. No entanto, não significa a  fé  no sentido objetivo, como o fundamento cristão, mas subjetivo, como o princípio que rege o coração e a vida do ser humano.

A escolha da palavra  archegon,  líder   ou  pioneiro, em vez de  aitios  (αἴτιος),  autor, no sentido de  originador, é muito significativa. Como observou Davidson, na presente acepção, as palavras não “podem significar que Cristo, como Autor, originou a fé em nós e, como Aperfeiçoador, sustém-na e a leva a um resultado perfeito”, isto é, incondicionalmente quanto ao conceder e ao aperfeiçoar; a ênfase é, antes, sobre Cristo como o grande Pioneiro da fé que, na Sua vida terrena, tendo perfeitamente alcançado o ideal e terminado a corrida, está agora assentado à destra do trono de Deus.

Em Hebreus 2.10 a palavra  archegon, como  capitão  (KJ), refere-se em especial à preparação de Jesus para a liderança; neste caso, Ele se tornou o Alvo da realização, o Centro de toda a visão cristã. No entanto, é ainda o  Líder, que do Seu trono nos céus ministra pelo Espírito a força, a perseverança, paciência e toda a graça necessária em meio ao sofrimento e aos conflitos. Para os que o seguem com confiança, Ele se tornará o aperfeiçoador,  quando vier para ser glorificado nos seus santos e ser admirado em todos os que creram  (2 Ts 1.10 ARA).

A seguir, o autor da Epístola aos Hebreus passa a uma consideração da experiência de humilhação de Jesus, vividamente descrita para encorajamento dos leitores – palavras que são apenas a amplificação de Sua obra como  o autor e consumador da fé.

O escritor encontra três semelhanças entre os heróis da fé e Jesus. Pela fé, aqueles passaram por grandes lutas e aflições, em parte porque foram exibidos como espetáculo ignominioso, em parte porque se tornaram companheiros dos que foram alvos daquelas tribulações. Assim também Jesus,  em troca da alegria que lhe estava proposta, suportou a cruz, não fazendo caso da ignomínia  (Hb 12.2b). Esta oração é introduzida pela palavra  anti  (ἀντί), que significa dar em troca ou, especialmente aqui, em consideração de.

O vocábulo traduzido como  alegria  é  charas  (χαρά) – não aquilo a que Jesus renunciou ao encarnar, mas  a alegria que lhe estava proposta. Era a alegria como recompensa do Seu autossacrifício pela salvação dos homens; um autossacrifício que em si mesmo era uma recompensa satisfatória. Mas significava também a alegria de ser exaltado ao trono de Deus e levar consigo a Sua natureza e a nossa, coroando assim a obra redentora por toda a eternidade. Era a alegria de administrar do trono a Sua vida celestial mediante o Espírito Santo, e assim aperfeiçoar para sempre os que são santificados (Hb 10.14). Esta foi  a alegria que lhe foi proposta  – uma alegria que enche com a Sua glória.

 O que fez Jesus pra ter essa alegria? Suportou a cruz. Temos aqui de novo a palavra  hupemeinem  (ὑπομένω), anteriormente traduzida como  paciência, mas aqui mais propriamente traduzida como  suportou com perseverança.

A palavra traduzida como  cruz  é  stauron  (σταυρός),  viga  ou  poste  introduzido no chão para execução de criminosos, vindo depois a significar a cruz.

A frase  não fazendo caso da ignomínia  ou  desprezando a afronta  (ARC) foi chamada  o grande paradoxo. Desprezar a afronta  não significa que Cristo a tinha por desprezível, mas por pequena, comparada com a alegria  que lhe foi proposta.

As palavras  cruz  e  vergonha  (NVI) são usadas sem o artigo para salientar a qualidade – coisas como a cruz e a vergonha, e assim servem para colocar em maior relevo a profundidade da abnegação de Cristo. Jesus, sendo santo em si mesmo, foi intensamente sensível à vergonha da cruz, morrendo aos olhos da Lei como um criminoso, mas não permitiu que isso fizesse vacilar Sua lealdade à vontade do Pai.


H. Orton Wiley,  A Excelência da Nova Aliança em Cristo: Comentário Exaustivo da Carta aos Hebreus, pp. 509, 510

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