segunda-feira, 26 de dezembro de 2022

O Apologista, a administração do Tempo e a Leitura

 

Por Walson Sales


Douglas Groothuis diz no curso de Apologetics 101 da Credo House que a meta da apologética é tentar tornar conhecidas as realidades de Deus por meio da razão e das evidências. Ou seja, ele propõe uma apologética a favor da apologética para tentar discutir as razões pelas quais podemos crer e também contrastar a visão de mundo cristã com outras visões de mundo. 

A única coisa que oculta a existência de Deus para os incrédulos é o pecado. Deus tem se revelado a raça humana por meio da natureza, da escritura, e por meio de Cristo, mas a rebelião e a pecaminosidade humana suprime a verdade nas consciências humanas. O apologista que visa proclamar e defender o cristianismo como verdadeiro e racional vai de encontro a ignorância e a tudo o que se levante contra o conhecimento de Deus (II Co 10:5). Para considerarmos a possibilidade de adentrarmos os portais da defesa da fé, devemos mergulhar neste mundo de resistência, desinformação e distorções para tentarmos retirar todos os obstáculos que fazem com que as pessoas não considerem a fé cristã como uma visão de mundo válida, viva, pujante, acessível e verdadeira, para podermos honrar e glorificar a Deus a medida que as pessoas possam ter um relacionamento de salvação com Deus por meio do evangelho e, de fato, com a Bíblia por inteiro. 

O propósito deste curso como um todo e do texto escrito, bem como com o meu interesse com o tema é o de preparar pessoas para o diálogo entre cosmovisões e enfatizar a missão de Deus sobre a terra, a saber, enfatizar o evangelismo e a defesa da fé. Pense comigo: se o propósito de Deus é que cada pessoa na terra escute o evangelho e a vontade de Deus é que cada pessoa no globo ouça sobre Jesus, e se diante disso, você não se preocupa com o evangelismo e com a defesa da fé, principalmente diante de um fenômeno cultural de nossos dias que é a hostilidade com que o cristianismo é visto, então você precisa se engajar mais na missão principal de Deus. Digo isto, porque não há mais como dissociar o evangelismo da defesa da fé. Não devemos negligenciar o fato de que deveríamos ser um santuário do conhecimento bíblico, teológico, lógico, histórico e cultural. O conhecimento é algo que gera medo nas pessoas em nossa cultura, principalmente o conhecimento do que realmente é importante, diante de uma geração fraca, emocionalista, sensível, politicamente correta, pluralista e relativista, o que é realmente estranho, pois vivemos na era da informação. Contudo, informação não é a mesma coisa que conhecimento. Conhecimento tem relação com crenças bem fundamentadas que são verdadeiras, então se pretendemos reestabelecer o conhecimento de Deus na nossa cultura, teremos que enfrentar todos os tipos de distorções e distrações. Tenho a esperança de que os cristãos atuais possam se consagrar como verdadeiros santuários do conhecimento, dedicando seriamente o nosso tempo, esforços e recursos para pensarmos sobre as coisas de Deus e sobre as críticas contra as coisas de Deus. A melhor forma de perseguir essa meta é tentar unificar todos os esforços em uma tarefa de cada vez. Pense numa pessoa meio que polivalente, ou seja, alguém que faz muitas coisas ao mesmo tempo, ouvir música, assistir tv, falar com um interlocutor, atender o celular, assinar um documento, etc., este é um exemplo bem útil para mostrar o que quero dizer. Em se tratando de estudar, ler, pesquisar em áreas da filosofia e teologia, mais detidamente aqui em nosso propósito, fazer apologética, a melhor forma de angariar conhecimento consistente, de forma paulatina e contínua, é focar em tarefas isoladas por vez. Focar no tópico de estudo, mergulhar fundo no tema e tentar juntar e internalizar o máximo de informações. Lembro-me de ter lido um dos livros de Josh McDowell sobre a ressurreição de Jesus e ele diz na introdução do livro que leu durante 700 horas para escrever aquele livro. Pense comigo. Josh McDowell é uma das maiores autoridades no assunto, junto a outros apologistas e ele diz que leu e catalogou em um banco de dados, tudo catalogado em um banco de horas de 700 horas e se tornou um especialista em um assunto específico. 

Um dos grandes problemas da sociedade contemporânea é a questão do tempo. A vida é tão corrida que ninguém tem tempo para mais nada, não é verdade? Mas se você se dedicar em ler sobre um tema específico, como por exemplo, a Divindade de Jesus, ou sobre Teologia Natural, ou ainda sobre os Argumentos Naturalistas para a existência de Deus, ou mais ainda, especificamente sobre apenas um dos argumentos, seja o Cosmológico, Ontológico ou outro qualquer, você se tornaria um especialista no assunto, em apenas dois anos, lendo apenas uma hora por dia! Agora é o momento que você se lamenta por ter perdido tanto tempo conversando nas esquinas, ou assistindo tv ou vendo coisas nas redes sociais. A cultura das redes sociais foi estabelecida com a intenção principal de fazer com que as pessoas desperdicem tempo com passatempos sem importância, jogando nossa capacidade de raciocínio e de interpretação pelo ralo.[1] O afastamento da prática da leitura e a aproximação das características imediatistas das redes sociais está formando uma geração de zumbis que se apresentam como presas fáceis do argumento tosco, por causa da falta de capacidade de raciocínio, interpretação e concentração. 

Então, imergir em uma leitura de um determinado tópico para escrutiná-lo devagar, com cuidado, com aprofundamento, olhando as nuances, detalhes e implicações, e não apenas ficar na superfície de um incontável número de tópicos e não ser profundo ou especialista em nada, ou seja, ser superficial em todos. Caso a obra ou tema que você está debruçado esteja em uma linguagem ou conteúdo um pouco inacessível para você, não desista, corra para os principais especialistas na área e não desista enquanto não se apropriar com conteúdo. Nunca devemos deixar de depender de Deus como também não podemos negligenciar as mentes privilegiadas do passado e do presente. Um fato ocorrido com o filósofo persa Ibn Sīnā,[2] mais conhecido como Avicena é bem esclarecedor. É conhecido que Avicena, ávido por conhecer e internalizar a Metafísica de Aristóteles, leu 40 vezes a Metafísica, até sabê-la de cor, e não entendeu nada do conteúdo nem o objetivo da obra. Mas certo dia, ao passar por um mercado, um homem lhe ofereceu um pequeno livro. A princípio Avicena não se interessou. No entanto, dada a insistência do vendedor, acabou comprando-o: era o livro de al-Fārābī Sobre o objetivo da Metafísica de Aristóteles. De imediato Avicena foi para casa e leu a pequena obra. A partir daí, então, entendeu a Metafísica de Aristóteles. “Fiquei contente com isto”, afirmou Avicena. No outro dia distribuiu esmolas aos pobres para agradecer a Deus pelo ocorrido.[3] Há um debate muito intenso entre os escolásticos Católicos e Muçulmanos se os persas e árabes entenderam corretamente a metafísica, mas isto não vem ao caso aqui. o que chama a atenção é a pujança do interesse em Avicena em aprender e internalizar determinado assunto. 

Então, apologética é a arte de defender e recomendar a fé cristã como uma visão de mundo racional, verdadeira, confiável em todos os aspectos da vida, agora, para levar a cabo tal tarefa, teremos que treinar a nossa mente com os melhores argumentos. Para tal, é importante sabermos o que é uma disputa ou debate. Em um sentido filosófico, uma disputa não é apenas discordar de alguém ou ganhar um debate ou discussão no grito. Este sentido falso vem dos filmes, novelas, programas de televisão, programas de debates onde as pessoas são rudes e agressivas umas com as outras. Para mim, uma disputa é uma discussão fundamentada de uma questão importante. Então, a tarefa do apologista é fornecer um argumento persuasivo, convincente em defesa da fé cristã. Devemos fornecer argumentos, razões para crer no cristianismo e razões para não crer nas visões de mundo concorrentes. Qualquer defensor do cristianismo precisa ter clareza do que é um argumento e conhecer também os diferentes tipos de argumentos que existem. Trataremos sobre alguns tipos de argumentos mais adiante e tentarei apresentá-los da forma mais clara e simples possível. Entraremos um pouco na tradição da filosofia analítica ao analisarmos os diferentes tipos de argumentos para aprendermos como funcionam as premissas e as conclusões de um argumento, com suas formas e possíveis refutações. Essa tarefa mental de antecipação de uma possível refutação é muito importante para o apologista. 


Notas:

[1] Apenas para termos uma ideia, pense em quantas pessoas estão a nossa volta há tantos anos e nunca leram a Bíblia toda. Esse número cai drasticamente se procurarmos pessoas que leram a Bíblia toda mais de uma vez. Outro ponto importante, as leituras clássicas. Quantos jovens são incentivados nas escolas ou pelos pais em casa a lerem os clássicos da literatura? Livros de leitura recreativa que mobilizam as emoções e despertam a criatividade, elevam a capacidade de raciocínio, de articulação e de expressão, além de aumentar e afinar consideravelmente o vocabulário em erudição. Livros como A Ilíada e a Odisséia de Homero, Moby Dick de Herman Melville, As Aventuras de Robinson Crusué de Daniel Dafoe, A Volta ao Mundo em 80 Dias, Viagem ao Centro da Terra, Vinte Mil Léguas Submarinas de Júlio Verne, As Roupas Novas do Imperador, A Garota Judia de Hans Christian Andersen, bem como dos clássicos cristãos como As Crônicas de Nárnia de C. S. Lewis, O Véu Rasgado de Gulshan Esther, O Refúgio Secreto de Corrie ten Boon, O Contrabandista de Deus do irmão André, Fundador da Missão Portas Abertas, Por Esta Cruz te Matarei de Bruce Olson, O Peregrino de John Bunyan, entre outros. Ainda me recordo com emoção e as vezes com lágrimas nos olhos de trechos desses livros que li há muitos anos. Meu coração ainda treme quando me recordo de Odisseu entrando em sua casa anos depois, como um mendigo desconhecido e sendo zombado por todos no desafio do arco, e fico petrificado quando ele pega o arco e o domina com maestria, para a surpresa e desespero de todos. Poderia resumir cada um desses livros citados acima, livros que saíram da minha biblioteca, passaram pelas mãos de minha filha e agora estão em posse de meu filho caçula. Temos que incentivar os nossos filhos a leitura e os nossos jovens na igreja também.

[2] Abu Ali Huceine ibne Abdala ibne Sina (lugar de nascimento, Afshana, atual Uzbequistão c. 980 – Hamadan, Irã, e faleceu em junho de 1037), conhecido como Ibn Sīnā ou por seu nome latinizado Avicena, foi um polímata persa que escreveu tratados sobre variado conjunto de assuntos, dos quais aproximadamente 240 chegaram aos nossos dias. Em particular, 150 destes tratados se concentram em filosofia e 40 em medicina. Para mais curiosidades, assista ao filme O Físico.

[3] ISKANDAR, J. I. Introdução. In: AVICENA (IBN SĪNĀ). A origem e o retorno Introdução e aparelho crítico: Jamil Ibrahim Iskandar. São Paulo: Martins Fontes, 2005. p. XXIII-XXXIII.

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