Thomas à Kempis - A Imitação de Cristo
CAPÍTULO 11
Como Devemos Examinar e Moderar os Desejos do Coração
Jesus: Filho, muitas coisas deves ainda aprender, que não sabes bem.
A alma: Que coisas são estas, Senhor?
Jesus: Que conformes completamente teu desejo[1] a meu beneplácito e não sejas amante de ti mesmo, mas zeloso cumpridor de minha vontade.
Muitas vezes se inflamam teus desejos, e com veemência te impelem; examina, porém, o que mais te move, se minha honra ou teu próprio interesse. Se for eu o motivo, ficarás bem contente, qualquer que seja o sucesso do empreendimento; mas, se lá se ocultar algum interesse próprio,[2] eis que isto logo te embaraça e aflige. Guarda-te, pois, de confiar demasiadamente em preconcebidos desejos que tens sem me consultar, para que não suceda que te arrependas e te desagrade o que primeiro te agradou e procuraste com zelo, por te haver parecido melhor. Porém nem todo desejo que pareça bom logo devemos seguir, nem tampouco a todo sentimento contrário logo havemos de fugir.
2. Convém, às vezes, refrear mesmo os bons empenhos e desejos, para que as preocupações não te distraiam o espírito; para que não dês escândalo por falta de discrição; para que, enfim, não te perturbe a resistência dos outros e desfaleças. Outras vezes, ao contrário, é preciso usar de violência[3] e rebater varonilmente os apetites dos sentidos sem atender ao que a carne quer ou não quer,[4] mas trabalhando por sujeitá-la ao Espírito,[5] ainda que se revolte. Cumpre castigá-la e curvá-la à sujeição, a tal ponto, que esteja disposta para tudo, sabendo contentar-se com pouco e deleitar-se com a simplicidade, sem resmungar por qualquer incômodo.
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[1] Sl 108.1; Mt 6.10.
[2] Fp 2.21.
[3] Fp 2.12.
[4] Rm 8.1-13; 2Co 4.10; 10.3.
[5] 1Co 9.27.
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