segunda-feira, 2 de janeiro de 2023

Os Limites Claros da Apologética Cristã

 

Por Walson Sales


Sempre é bom termos clareza de que o apologista cristão não deve ter a pretensão de vencer debates. Existem limites no uso da apologética e uma das principais é a questão da vontade (ou má vontade) do interlocutor. Imagine se você perguntar a um interlocutor ateu “se eu provar que Deus existe, você abandona o ateísmo e aceita Jesus?” e ele responder “ainda se você conseguir me provar que Deus existe, eu não conseguiria acreditar nele”. Como lutar com pessoas assim? Contudo, é aqui que entra algo que nunca deve desaparecer da vida de um apologista, a dependência total e irrestrita da ação de convencimento do Espírito Santo (João 16: 8-11, 13, 14). O apologista tem a obrigação inerente de ler, se preparar, conhecer os desafios, estar sempre atento e preparado para, com sutileza e educação, entrar em um debate (I Pedro 3:15). Esta é a responsabilidade humana. Entretanto, a responsabilidade humana ou o nível de preparo que ele ache que tem não deve suplantar a verdadeira e total dependência que o apologista deve ter do Espírito de Deus, pois até mesmo no diálogo com um cético ou adepto de outra religião, o apologista deve dialogar sempre em espírito de oração, evocando a presença e o poder de convencimento do Espírito Santo. Sem essa dependência, o apologista cristão deixa de ser um apologista cristão para ser apenas um cristão racionalista, o que seria uma tragédia.

Em duas aulas do Curso de Apologética Cristã em mp3 eu falo sobre A Experiência Imediata de Deus e sobre O Argumento da Experiência Religiosa. Por que a experiência é importante? Porquê é marcante e inesquecível! Trazendo o exemplo descrito acima, se você dialogar com um cético e apresentar a ele bons argumentos e o deixar sem resposta e ele se comportar com o argumento acima, ou seja, dizer que ainda que você provar algo para ele, ele não acreditaria, você chegou ao limite da apologética (deixando claro que esse é apenas um dos limites). O que fazer a partir daqui? Deixar os resultados com o Espírito Santo e descansar em Deus. Não há nada mais reconfortante do que isso para o apologista, pois os resultados virão de alguma forma, ou seja, ou a pessoa se endurece mais ainda, ou se amolece e com o passar do tempo reconhece o senhorio de Deus e se converte, às vezes até mesmo anos depois. Alguns ainda podem até não se converter, mas podem reconhecer a fraqueza da sua visão de mundo e a força da visão de mundo cristã e até aliviar na forma com que dialoga com outros cristãos. Os resultados são os mais diversos, mas eles sempre aparecerão. Apenas confie.

Tive uma experiência há alguns anos que me marcou e que me despertou para esta realidade da dependência do Espírito Santo. Eu trabalhava com um amigo no Mercado Eufrásio Barbosa em Olinda. Ele era muito brincalhão, de bem com a vida e um grande amigo. Desde o primeiro dia comecei a evangelizá-lo com um Novo Testamento dos Gideões que andava no bolso. Às vezes ele fugia e mudava de assunto, às vezes me confrontava com um desses argumentos que os críticos acham que é insuperável e eu sempre respeitava cada estágio da receptividade dele. Eu realmente amava quando ele chegava com perguntas e quando ele não chegava com perguntas, eu o incitava indiretamente a fazer algumas. Era um diálogo muito divertido com ele. 

Mas um dia ele chegou calado, com o semblante pesado e pensei que naquele dia não haveria uma troca tão proveitosa e eu estava enganado. Pois o que seria o pior dia se tornou no dia mais importante, exatamente porquê ele colocou um limite insuperável para a minha apologética e evangelismo e eu tive que transferir tudo para o Espírito Santo naquele momento em oração. A coisa aconteceu mais ou menos assim. Ele chegou calado e triste. Semblante pesado. Percebi que era algum problema pessoal. O cumprimentei e fiquei calado, tentando um meio de quebrar o gelo. De repente ele solta uma pergunta que se desdobrou em outras. Ele perguntou, do nada: “existem ex-ladrões na igreja?”, eu disse que sim. Ele perguntou novamente, “existem ex-prostitutas na igreja?”, eu disse que sim. “existem ex-traficantes na igreja?”, eu disse que sim. “existem ex-homossexuais na igreja?”, eu disse que sim. “existem ex-viciados na igreja?”, eu disse que sim. Então ele me disse, “então me prove biblicamente porque eu não acredito que Jesus liberta. Essa é uma das maiores mentiras das igrejas”. Assustado, mas ao mesmo tempo empolgado e sentindo a responsabilidade e o clima pesado, retirei o NT dos Gideões do bolso e disse, vamos ler juntos alguns textos aqui. O primeiro texto que lemos juntos foi João 8: 32, 36:


E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará. Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres. João 8:32-36


Perguntei a ele se ele percebia que o texto diz que Jesus liberta. Ele disse que sim. Então fomos para outro texto, o de 2 Coríntios 5:17:


Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo. 2 Coríntios 5:17


Perguntei a ele se ele percebia que o texto também diz que Jesus liberta. Ele concordou novamente. Então disse a ele, vamos ler agora o texto mais abrangente que prova que Jesus liberta o pecador mais inveterado, perdido e desesperado que existe e abri em 1 Coríntios 6:9-11:


Não sabeis que os injustos não hão de herdar o reino de Deus? Não erreis: nem os devassos, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os sodomitas, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os bêbados, nem os maldizentes, nem os roubadores herdarão o reino de Deus. E é o que alguns têm sido; mas haveis sido lavados, mas haveis sido santificados, mas haveis sido justificados em nome do Senhor Jesus, e pelo Espírito do nosso Deus. 1 Coríntios 6:9-11


Li e reli com ele os pontos com grifos, destaquei cada tipo de pessoa no texto e lemos juntos o que Jesus havia feito com essas pessoas que Paulo afirma no texto que eram membros da igreja em Corinto. Ele balançou a cabeça afirmativamente. Pensei comigo “xeque mate!” Então ele jogou a barreira intransponível para mim: “Olha, você me provou pela Bíblia que Jesus liberta, o único problema é que eu não acredito. Isso é tudo mentira, essa história de que Jesus liberta. Não existem ex-ladrões, ex-viciados, ex-homossexuais, ex-traficantes, é tudo mentira”. Foi aqui que aprendi a grande lição de depender exclusivamente do Espírito Santo. Respondi a ele o seguinte naquele clima tenso: “Veja bem, para mim esta conversa está encerrada, pois não há nada que eu possa fazer ou dizer para fazer você mudar de ideia, pois você está irredutível em sua postura. As duas únicas coisas que podia fazer já fiz que foi provar biblicamente e apresentar meu próprio testemunho de que Jesus me libertou. Agora é com você e Deus. Se você não acredita em mim e nem no que a Bíblia afirma, Deus vai, ele pessoalmente, te provar que Jesus liberta. Isso se ele quiser. Agora é com você e Deus”. 

Ficamos em silêncio. Eu chateado e ele com aquele semblante pesado desde o início. Ninguém falava nada. Eu fiquei orando tipo “mas Senhor, ele não creu na tua palavra. Faz alguma coisa porque eu não posso fazer mais nada”. Ficamos cinco minutos em silêncio. Até que entrou um personagem para quebrar o gelo. Chegou um senhor baixinho e nos deu um bom dia bem animado. Respondemos e o homem me olhou e disse “O senhor é crente?” Respondi que sim e ele me cumprimentou com a paz do Senhor. Apertou nossas mãos e meu colega calado olhando para ele. E esse homem disse a ele “tá lembrado de mim não?” Ele disse de forma seca “Eu não lhe conheço”. E o homem disse “Eu sou fulano de tal, fomos vizinhos em Rio Doce por muitos anos. Éramos amigos e inclusive como está o seu irmão?” Neste momento eu olhei para o rosto dele e vi que ele estava com os olhos arregalados, assustado. Ele disse “você está muito diferente, muito mudado. O que aconteceu com você para você ter uma mudança dessas?” E aquele homem deu uma resposta de 1 milhão de dólares, ele disse “Eu aceitei Jesus e Jesus me libertou! Eu agora sou uma nova criatura em Jesus Cristo!” E eu ali meio que querendo chorar, sentindo a presença e a providência poderosa de Deus. Meu amigo perguntou novamente “e o que aconteceu mais?” ao que o nosso interlocutor disse “Deus me deu uma família, me casei, me deu um emprego, uma casa, dois filhos, um carro, que inclusive está estacionado ali”. Olhamos e o carro estava a 300 metros, parado e com o alerta ligado. Ele disse, passei e vi você aqui e resolvi parar para cumprimentá-lo. Apertaram as mãos, se abraçaram e o irmão me cumprimentou novamente e antes de sair disse a mim, olhando nos meus olhos e sem saber de nada “irmão, Deus é fiel”. Disse que tinha que trabalhar e que já estava atrasado e se foi. 

O silêncio mortal imperou novamente até que o meu amigo disse, “olha, esse rapaz foi meu vizinho em Rio Doce por muitos anos quando éramos adolescentes”, ao que respondi “sim, isso já sei. Deu pra perceber com a conversa de vocês”. Então ele deu um relato assustador: “Olha, esse rapaz era um amigo, mas depois se afastou da gente por causa das drogas. Virou um esqueleto vivo por causa do crack. Sumiu por uns tempos e reapareceu vendendo drogas e traficando, só andava com gente da pesada. Sumiu por causa de dívidas com as drogas, pois foi ameaçado de morte e quando reapareceu, surgiu muito diferente, vestido de mulher e fazendo programas para sustentar o vício. Uma história triste para a família e um exemplo vivo do poder destrutivo das drogas. Foi então que ele sumiu definitivamente e fazem mais ou menos 15 anos que não o via. Pensávamos até que havia morrido e agora ele reaparece aqui assim, depois da conversa que tivemos, OLHA, EU AGORA ACREDITO QUE JESUS LIBERTA”.

Fiquei pensativo. Como Deus trabalha! Aprendi essa grande lição que agora passo para vocês em forma de texto. Não devemos nos preocupar em ganhar debates, não devemos nos preocupar com os resultados da apologética e do evangelismo, pois o resultado final é de Deus. A glória é dele e é ele quem faz. Nossa missão é a de apenas tentar descobrir quais são os empecilhos que fazem com que uma pessoa não queira se entregar a Jesus e tentar remover esses empecilhos por meio da apologética, mas sempre dependendo de Deus em tudo e em todos os momentos. Outros exemplos de experiências virão no curso e em forma de artigos. Nunca mais tive contato com esse meu colega, pois fui transferido de setor e não sei se ele aceitou a Jesus ou não. Mas a semente foi plantada e nós, ambos, recebemos uma grande lição de Deus naquele dia e espero que você tenha recebido também hoje ao ler este texto.

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