Por Robert Bowman Jr.
Traduzido,
adaptado e ampliado por Walson Sales
Sobre
o ensino contido nos três primeiros capítulos de Genesis, principalmente no que
diz respeito às origens, o livro de Genesis tem muitas informações importantes
e cruciais. Agora, sobre o assunto da idade do universo ou da idade da terra,
esse é um tema secundário, pois não está relacionado entre os temas centrais da
fé cristã, principalmente no que diz respeito a salvação. Ninguém vai ser salvo
ou condenado se crer que a terra é jovem ou antiga. Naquele dia apenas
saberemos se estávamos certos ou errados sobre algumas doutrinas contidas nas
nossas tradições. É vital que coloquemos este assunto sobre a idade da terra em
um contexto mais amplo dentro dos ensinos dos três primeiros capítulos de
Genesis, ainda que você chegue a uma conclusão particular sua sobre esse tema
polêmico, é importante focar nos ensinos mais significativos do trecho para a
fé cristã, principalmente com respeito a doutrina da criação, que é claramente
ensinada na Bíblia.
Pegue
sua Bíblia agora e leia Genesis 1, independente se você já tem uma
interpretação sobre o assunto, principalmente sobre a idade da terra. Leia com
atenção, com cuidado e leia devagar e tente ver o que realmente o texto está
ensinando. Perceba que não está como tema central ali a idade da terra ou a
evolução das espécies. Talvez a passagem tenha algumas implicações sobre esses
assuntos. Contudo, esses não são o foco central desse capítulo. Vamos dar uma
olhada sobre o que realmente o texto está dizendo e ver as implicações para as
cosmovisões, algo crucial neste primeiro capítulo da Bíblia e as pessoas
geralmente não se apercebem o que a Bíblia está atacando e anulando aqui. A
primeira coisa crucial e com implicações gigantescas é que Deus criou todas as
coisas. Céus e terra é a forma idiomática de dizer todas as coisas. É como
dizer “de alto a baixo, de A a Z, do Alpha ao Ômega”. Essas duas coisas e todo
o resto entre elas. Quando a Bíblia afirma que Deus criou os céus e a terra no
início, isso significa tudo. Essa afirmação tem implicações de cosmovisão, pois
outras visões que defendem que o mundo foi criado por um deus inferior ou que o
mundo é produto de uma intenção maligna, uma divindade descontrolada e cheia de
más intenções é descartada sumariamente. Ou seja, Deus é o responsável por
todas as coisas que existem. Genesis 1 exclui o dualismo metafísico, a crença
de que o cosmos é balanceado entre luz e trevas, bem e mal, como as realidades
últimas em um balanço cósmico, doutrina viva conhecida como taoísmo, como o
yng/yang, ideologia encontrada nas visões religiosas transcendentalistas que
são vedetes da modernidade, principalmente nos filmes de George Lucas (a força)
que é conceitualizada dessa forma dualista.
O
fato de Deus ter criado o universo no início também exclui a narrativa de que o
universo é eterno. Essa questão está resolvida cientificamente e não tínhamos
essa confirmação até a modernidade. As informações que confirmavam eram apenas
da revelação especial e das implicações filosóficas. Não tínhamos uma forma de
confirmar ou verificar se o universo teve um início. Essa foi uma descoberta
dramática. Foi uma descoberta frustrante para os cientistas comprometidos com o
naturalismo descobrirem que o universo teve um início, pois a implicação é de
um “pé divino na porta”. Um universo infinito e necessário era esperado por
eles para justificar um universo aleatório, randômico e uma evolução cega sem
Deus. A confirmação da criação do universo foi uma derrota para eles. Sabemos
hoje que o universo é muito maior do que pensavam os medievais, bem como
Galileu e Copérnico, mas é um ponto estabelecido que o universo é finito e
limitado e isso é filosoficamente e metafisicamente importante porque assim o
universo não pode ser identificado com o infinito ou com a realidade
transfinita.
Assim,
se formos procurar qual é a realidade última, teremos que procurar além das
fronteiras do universo criado. A realidade última tem que ser transcendente e a
única alternativa para os que desejavam que o universo fosse eterno era que o
universo fosse um fato bruto que não precisa de explicação. Essa ideia foi
excluída das possibilidades de explicação e quando alguém recorre a ela hoje,
essa pessoa não conhece o desdobramento do caso ou está apelando para a
ignorância do interlocutor. O grande problema para eles hoje é que a evidência
na ciência apoia o que a Bíblia já vem ensinando há quatro mil anos sobre o
assunto. E você há de concordar comigo que existe uma diferença abissal em
dizer que o universo tem 10 bilhões de anos e dizer que o universo é infinito.
Qual a diferença em dizer que o universo tem 10 bilhões de anos ou 10 mil anos
comparado a dizer que o universo é infinito? Nada. O fato significativo em
dizer que o universo foi trazido a existência do nada por um ser transcendente
e que a própria realidade quadrimensional do universo formada de
tempo/espaço/matéria/energia passou a existir quando o universo foi trazido a
existência, pois é exatamente o relato bíblico sobre o universo. A visão cristã
de mundo descreve a natureza do universo com riqueza de precisão. O universo não
foi derivado de uma matéria prima pré-existente, algo que já existia. Não! Isso
também significa que Deus está totalmente no controle como a realidade última e
toda abrangente, em como ele gerencia o universo pelas leis da natureza e
quando decide intervir com ações miraculosas. Ou seja, Deus pode intervir, não
intervir, modificar. Ele está no comando.
De
acordo com Genesis 1, Deus apenas não criou o universo do nada, mas depois de
criar do nada, Deus modelou, arrumou, organizou e criou novas coisas a partir
das coisas já criadas do nada. Podemos ver isso em Genesis 1: 20, 24; 2: 7, 19,
22 – a medida que Deus vai ordenando, Deus vai criando, plantando, fazendo as
coisas acontecerem no processo. Portanto, a ação de Deus na criação não está
limitada a trazer tudo a existência apenas naquele princípio de Genesis 1:1. O
caso ali não é o Deísmo, segundo o qual Deus cria, mas não interfere, não age,
não organiza e não cria novas coisas e isso é repetidamente contraditado na
narrativa do Genesis.
Genesis
também ensina o teísmo, especificamente o Teísmo Monoteísta. Deus criou o universo
pelo seu próprio poder e autoridade e não criou outras deidades menores, o que
exclui o politeísmo.
Também
vemos em Genesis que nós, os seres humanos, somos completamente dependentes de
Deus. Deus existe e criou a humanidade (Gn 1:26, 27). Fomos criados pela livre
vontade de Deus e Deus nos deu a liberdade para fazermos uso livre de tudo o
que Deus criou para o nosso deleite. Ele criou o mundo para nós e depois nos
criou. Tudo o que temos provém de Deus e ainda Deus nos capacitou com
articulação racional ampla, poderosa e profunda, apesar da queda, para podermos
dominar a criação, entender a criação, nos beneficiar da criação e explorar a
criação. Por isso o homem hoje tanto explora o espaço quanto o mais profundo
oceano, a mente e corpo, mesmo com todas as limitações inerentes a queda. O
senhorio de Deus ao dizer exatamente como devemos viver nos fala diretamente
sob este prisma.
Tudo
o que Genesis 1 enfatiza sobre a criação é a bondade de Deus e a característica
intrinseca de bondade nas coisas criadas. Vemos repetidamente em Genesis Deus
criando as coisas e vendo que aquilo era bom. Nada é intrinsecamente mau. Os
aspectos materiais da vida, o corpo que Deus criou por um ato pessoal e direto.
Os alimentos, Deus proveu a alimentação para as suas criaturas.
Até
o sexo é bom. Deus ordena que os seres humanos se reproduzam e Deus projetou o
corpo dotado de características sexuais que dão prazer e alegria. Contudo, tudo
deve ser feito dentro dos padrões que Deus estabeleceu, homem e mulher, macho e fêmea. Muitas religiões e, eu diria que a maioria, entende que os aspectos
materiais da criação são um grande problema para os seres humanos, pois
supostamente prejudicam o relacionamento dos seres humanos coma divindade. O
Hinduísmo, o Budismo e o Gnosticismo são exemplos clássicos, pois afirmam que os
seres humanos precisam transcender a matéria, como se o corpo material fosse a
prisão da alma. Envolvida nesta ideia está a doutrina da reencarnação, pois
supostamente o homem ficaria voltando em outro corpo até atingir um número de
reencarnações para não precisar mais reencarnar, o que seria um conceito de
salvação como espírito puro, independente do corpo. O que eles ensinam para que
a pessoa possa chegar mais perto da condição de não precisar mais reencarnar? Eles
se privam de comida, se privam de atividade sexual, mesmo se forem casados, a
fim de supostamente alcançarem a experiência do divino. Até mesmo na história
do cristianismo, podemos identificar pessoas praticando o ascetismo a fim de
ganhar uma experiência maior com Deus e entrarem em um caminho de fanatismo
(veja a história do monasticismo). A Bíblia não ensina nada disso. A comida e o
sexo podem ser abusados para prejuízo pessoal das pessoas, mas são coisas boas
que Deus criou.
O
ensino de Genesis de que tudo o que Deus criou é bom é uma ideia radical e é
uma inovação na história das religiões. Isso significa que a salvação não
significa ser liberto da matéria e da esfera física para uma esfera etérea,
espiritual. Logo, aqui está o fundamento, não o ensino, mas o fundamento, de
que em Genesis, Deus já pretendia que a ressurreição do corpo fosse uma
realidade, pois quando Deus criou os seres humanos, ele já pretendia que os
seres humanos fossem seres com corpos. Nas outras visões de mundo o corpo ou a
matéria são vistos como uma queda ou como algo mau. Um estado incorpóreo não é
a meta final de salvação na fé cristã e não há apoio bíblico para tal ensino.
Também
vemos nos primeiros capítulos de Genesis que a vida tem um propósito e um
significado. Deus tem um plano, um propósito para a humanidade. Deus criou os
seres humanos com corpos físicos, para viverem no espaço físico, no tempo e na
história. A história é significativa, pois na cultura judaico-cristã a história
é linear, formada de início, desenvolvimento e fim, o que também é uma inovação
radical em comparação com as religiões orientais, pois estas entendem a
história como sendo um ciclo interminável de reencarnações. É na história
linear que Deus fala, se revela, opera, age, apesar de transcender a história e
governar sobre ela. Outro pensamento que domina o Hinduísmo é que a história e
a realidade são ilusões, que não existem de fato. Não existe significado para
eles porque tudo o que é submetido a mudança é ilusório.
Vemos
também em Genesis que toda a criação merece respeito e cuidado. Deus criou o
mundo de uma forma cuidadosa e metódica e ele comissiona o ser humano desde o
Éden para cuidar das coisas criadas, subjugar e dominar. A doutrina da criação
tem um fundamento sólido para que cuidemos do meio ambiente.
E
por fim, o que se pode depreender de Genesis 1 e 2 é que apenas Deus merece e
deve ser adorado. Nenhuma coisa criada é digna de adoração, mas apenas Deus, o
criador. O pensamento judaico-cristão destaca duas coisas bem fortes: 1. Apenas
Deus é o responsável pela criação; 2. E apenas ele é e deve ser o objeto de
devoção religiosa e adoração. Essa também foi uma concepção radical, inovadora
e singular no mundo antigo, pois os povos antigos acreditavam que todas as
forças da natureza eram divinas ou eram manifestações das divindades. O
politeísmo era a visão e entendimento dominante no mundo de então. O ensino
claro do AT é que Deus é o único responsável e deixa claro a intenção de
excluir todas as divindades do mundo antigo, pois não existem. Essa também foi
uma concepção radical para a época, porque todos eram politeístas. Para termos
uma ideia da força dessa revelação, os céus que foram criados em Genesis 1.1
não eram a moradas dos deuses como era defendido pelos pagãos, mas antes os
céus foram criados por Deus. Logo, Deus transcende os céus. Essa era uma
revelação revolucionária e extraordinária logo no primeiro versículo da Bíblia.
No verso 2 aparece as profundezas dos oceanos que não eram divinos e que o
Espírito de Deus era quem dominava por aquelas bandas também. A luz no verso três
não aparece como uma emanação do divino, mas é uma criação de Deus também. Da
mesma forma o sol e a lua foram criados por Deus e naqueles dias os povos
antigos adoravam o sol e a lua e o que é interessante, existem as palavras
hebraicas para sol e lua, mas elas não são usadas em Genesis 1 e nos versos
14-16 temos uma referência genérica a luz maior e a luz menor (luzeiros) e as
estrelas. É negada totalmente e radicalmente a ideia de que essas luzes sejam
divindades, mas que elas são apenas sinais de que o Deus criador as colocou lá.
Elas não são divinas nem sobrenaturais. No verso 21 são apresentados os
monstros marinhos que Deus criou e os colocou lá também. Nos contos antigos
entre os habitantes do oriente próximo médio, esses monstros marinhos eram os
agentes do caos que aterrorizavam as águas e a ordem só era reestabelecida
pelos deuses, e Genesis revela que esses monstros eram apenas grandes peixes
que Deus criou e colocou lá.
Por fim, vemos em Genesis 1 que Deus criou os
seres humanos. O incrível é que Deus criou “adam”, ou seja, “a humanidade” a
sua imagem e semelhança, macho e fêmea. Ao dizer isso, todos os seres humanos
são representados por Adão, o pai. Note que ambos, macho e fêmea, foram criados
a imagem e semelhança de Deus. Entre os povos antigos, os homens podiam ser relacionados
como imagem de uma divindade, a saber, um governador ou um rei, que eram
considerados como a manifestação de uma divindade, como um representante que
governava aquela terra. Genesis erradica essa visão de que alguns homens são
deuses ou que são os representantes dos deuses. Antes, todos os seres humanos
são ontologicamente iguais, pois compartilham a imagem e semelhança de Deus.
Perceba que até agora, você não vê nada sendo
dito sobre a idade da terra. Não existe essa implicação clara dentro do
contexto das religiões do período, porque Genesis 1 tem muito a dizer sobre os
atributos de Deus e muito a revelar sobre os enganos dos povos antigos. Repetindo,
só existe um único Deus e Deus Elohim criou todas as coisas. Algumas pessoas
criticam e ficam confusas com a forma Elohim por causa da forma plural, mas o
hebraico às vezes usa a forma plural como verbo singular para denotar
completude para algo ou alguém. Então, quando o AT se refere a Deus como
Elohim, não significa uma pluralidade de seres divinos, porque a forma plural
Elohim regularmente assume a forma de verbo no singular e isso ocorre em
Genesis 1. Em Genesis 2 Elohim é identificado como Jeová, como Deus, não uma
pluralidade de deuses, ou seja, um Deus que detém todo o poder e autoridade e
que criou e governa sobre todas as coisas. Você só deve encarar e responder a
apenas um Deus e isso é bem simples. Só existe um Deus a quem você deve servir
e agradar e esse é todo o resumo da ópera. Se também ele criou o céu, logo ele
não mora no céu como uma habitação no conceito que temos de habitação, pois ele
transcende os céus. Mas ele também é imanente, pois interage dentro da criação.
Se Deus fosse apenas imanente, então ele estaria sujeito ao tempo, logo estaria
passível a mudança e o panteísmo seria a visão de mundo correta. Se Deus fosse
apenas transcendente, o Deísmo estaria correto, pois teria criado o universo e
se isolado, virado as costas para a criação. Mas o Deus que criou é transcendente
e imanente. Deus é eterno porque criou o tempo, e é onisciente e perfeitamente
sábio pois criou o universo de forma ordenada, organizada, e perfeitamente
equilibrada.
Sua onipotência é demonstrada pela forma em que
ele cria o universo praticamente sem esforço, pelo poder da palavra. Bem como
pelo fato de que Deus é pessoal, porque fala na primeira pessoa, avalia o que
criou e diz que tudo é bom. Deus é autossuficiente, pois não criou nada para seu
próprio benefício e nas culturas pagãs os deuses precisam das ações religiosas
dos homens em alguma medida. Então, perceba que Genesis 1 e 2 tem muito a dizer
sobre a criação e sobre o Deus da criação e seus atributos, responde a muito da
cultura pagã circundante, mas não fala nada sobre a idade da terra, apenas que
a terra tem uma idade, mas além disso, Genesis está realmente fixado em revelar
e esclarecer outras coisas mais importantes do que a idade da terra. Então,
como evangélicos bíblicos, devemos focar nas coisas que realmente são
importantes.
Tendo falado tudo isso, temos que reconhecer que
Genesis revela que a terra tem uma idade. Agora, não vejo relevância em colocar
o assunto sobre a idade da terra acima dos assuntos mais importantes que foram
revelados. Para mim é indiferente se alguém acredita na terra jovem ou antiga,
isso não tem implicações para a salvação. Agora, é importante destacar que nem
todos os criacionistas da terra jovem acreditam que o universo seja jovem. O
fato é que existe alguma diversidade sobre a questão.
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