terça-feira, 28 de março de 2023

Cosmogonias: Teorias da Criação - O que os três primeiros capítulos de Gênesis realmente ensinam? TEXTO COMPLETO

 

Por Robert Bowman Jr.

Traduzido, adaptado e ampliado por Walson Sales

 

Sobre o ensino contido nos três primeiros capítulos de Genesis, principalmente no que diz respeito às origens, o livro de Genesis tem muitas informações importantes e cruciais. Agora, sobre o assunto da idade do universo ou da idade da terra, esse é um tema secundário, pois não está relacionado entre os temas centrais da fé cristã, principalmente no que diz respeito a salvação. Ninguém vai ser salvo ou condenado se crer que a terra é jovem ou antiga. Naquele dia apenas saberemos se estávamos certos ou errados sobre algumas doutrinas contidas nas nossas tradições. É vital que coloquemos este assunto sobre a idade da terra em um contexto mais amplo dentro dos ensinos dos três primeiros capítulos de Genesis, ainda que você chegue a uma conclusão particular sua sobre esse tema polêmico, é importante focar nos ensinos mais significativos do trecho para a fé cristã, principalmente com respeito a doutrina da criação, que é claramente ensinada na Bíblia.

Pegue sua Bíblia agora e leia Genesis 1, independente se você já tem uma interpretação sobre o assunto, principalmente sobre a idade da terra. Leia com atenção, com cuidado e leia devagar e tente ver o que realmente o texto está ensinando. Perceba que não está como tema central ali a idade da terra ou a evolução das espécies. Talvez a passagem tenha algumas implicações sobre esses assuntos. Contudo, esses não são o foco central desse capítulo. Vamos dar uma olhada sobre o que realmente o texto está dizendo e ver as implicações para as cosmovisões, algo crucial neste primeiro capítulo da Bíblia e as pessoas geralmente não se apercebem o que a Bíblia está atacando e anulando aqui. A primeira coisa crucial e com implicações gigantescas é que Deus criou todas as coisas. Céus e terra é a forma idiomática de dizer todas as coisas. É como dizer “de alto a baixo, de A a Z, do Alpha ao Ômega”. Essas duas coisas e todo o resto entre elas. Quando a Bíblia afirma que Deus criou os céus e a terra no início, isso significa tudo. Essa afirmação tem implicações de cosmovisão, pois outras visões que defendem que o mundo foi criado por um deus inferior ou que o mundo é produto de uma intenção maligna, uma divindade descontrolada e cheia de más intenções é descartada sumariamente. Ou seja, Deus é o responsável por todas as coisas que existem. Genesis 1 exclui o dualismo metafísico, a crença de que o cosmos é balanceado entre luz e trevas, bem e mal, como as realidades últimas em um balanço cósmico, doutrina viva conhecida como taoísmo, como o yng/yang, ideologia encontrada nas visões religiosas transcendentalistas que são vedetes da modernidade, principalmente nos filmes de George Lucas (a força) que é conceitualizada dessa forma dualista.

O fato de Deus ter criado o universo no início também exclui a narrativa de que o universo é eterno. Essa questão está resolvida cientificamente e não tínhamos essa confirmação até a modernidade. As informações que confirmavam eram apenas da revelação especial e das implicações filosóficas. Não tínhamos uma forma de confirmar ou verificar se o universo teve um início. Essa foi uma descoberta dramática. Foi uma descoberta frustrante para os cientistas comprometidos com o naturalismo descobrirem que o universo teve um início, pois a implicação é de um “pé divino na porta”. Um universo infinito e necessário era esperado por eles para justificar um universo aleatório, randômico e uma evolução cega sem Deus. A confirmação da criação do universo foi uma derrota para eles. Sabemos hoje que o universo é muito maior do que pensavam os medievais, bem como Galileu e Copérnico, mas é um ponto estabelecido que o universo é finito e limitado e isso é filosoficamente e metafisicamente importante porque assim o universo não pode ser identificado com o infinito ou com a realidade transfinita.

Assim, se formos procurar qual é a realidade última, teremos que procurar além das fronteiras do universo criado. A realidade última tem que ser transcendente e a única alternativa para os que desejavam que o universo fosse eterno era que o universo fosse um fato bruto que não precisa de explicação. Essa ideia foi excluída das possibilidades de explicação e quando alguém recorre a ela hoje, essa pessoa não conhece o desdobramento do caso ou está apelando para a ignorância do interlocutor. O grande problema para eles hoje é que a evidência na ciência apoia o que a Bíblia já vem ensinando há quatro mil anos sobre o assunto. E você há de concordar comigo que existe uma diferença abissal em dizer que o universo tem 10 bilhões de anos e dizer que o universo é infinito. Qual a diferença em dizer que o universo tem 10 bilhões de anos ou 10 mil anos comparado a dizer que o universo é infinito? Nada. O fato significativo em dizer que o universo foi trazido a existência do nada por um ser transcendente e que a própria realidade quadrimensional do universo formada de tempo/espaço/matéria/energia passou a existir quando o universo foi trazido a existência, pois é exatamente o relato bíblico sobre o universo. A visão cristã de mundo descreve a natureza do universo com riqueza de precisão. O universo não foi derivado de uma matéria prima pré-existente, algo que já existia. Não! Isso também significa que Deus está totalmente no controle como a realidade última e toda abrangente, em como ele gerencia o universo pelas leis da natureza e quando decide intervir com ações miraculosas. Ou seja, Deus pode intervir, não intervir, modificar. Ele está no comando.

De acordo com Genesis 1, Deus apenas não criou o universo do nada, mas depois de criar do nada, Deus modelou, arrumou, organizou e criou novas coisas a partir das coisas já criadas do nada. Podemos ver isso em Genesis 1: 20, 24; 2: 7, 19, 22 – a medida que Deus vai ordenando, Deus vai criando, plantando, fazendo as coisas acontecerem no processo. Portanto, a ação de Deus na criação não está limitada a trazer tudo a existência apenas naquele princípio de Genesis 1:1. O caso ali não é o Deísmo, segundo o qual Deus cria, mas não interfere, não age, não organiza e não cria novas coisas e isso é repetidamente contraditado na narrativa do Genesis.

Genesis também ensina o teísmo, especificamente o Teísmo Monoteísta. Deus criou o universo pelo seu próprio poder e autoridade e não criou outras deidades menores, o que exclui o politeísmo.

Também vemos em Genesis que nós, os seres humanos, somos completamente dependentes de Deus. Deus existe e criou a humanidade (Gn 1:26, 27). Fomos criados pela livre vontade de Deus e Deus nos deu a liberdade para fazermos uso livre de tudo o que Deus criou para o nosso deleite. Ele criou o mundo para nós e depois nos criou. Tudo o que temos provém de Deus e ainda Deus nos capacitou com articulação racional ampla, poderosa e profunda, apesar da queda, para podermos dominar a criação, entender a criação, nos beneficiar da criação e explorar a criação. Por isso o homem hoje tanto explora o espaço quanto o mais profundo oceano, a mente e corpo, mesmo com todas as limitações inerentes a queda. O senhorio de Deus ao dizer exatamente como devemos viver nos fala diretamente sob este prisma.

Tudo o que Genesis 1 enfatiza sobre a criação é a bondade de Deus e a característica intrinseca de bondade nas coisas criadas. Vemos repetidamente em Genesis Deus criando as coisas e vendo que aquilo era bom. Nada é intrinsecamente mau. Os aspectos materiais da vida, o corpo que Deus criou por um ato pessoal e direto. Os alimentos, Deus proveu a alimentação para as suas criaturas.

Até o sexo é bom. Deus ordena que os seres humanos se reproduzam e Deus projetou o corpo dotado de características sexuais que dão prazer e alegria. Contudo, tudo deve ser feito dentro dos padrões que Deus estabeleceu, homem e mulher, macho e fêmea. Muitas religiões e, eu diria que a maioria, entende que os aspectos materiais da criação são um grande problema para os seres humanos, pois supostamente prejudicam o relacionamento dos seres humanos coma divindade. O Hinduísmo, o Budismo e o Gnosticismo são exemplos clássicos, pois afirmam que os seres humanos precisam transcender a matéria, como se o corpo material fosse a prisão da alma. Envolvida nesta ideia está a doutrina da reencarnação, pois supostamente o homem ficaria voltando em outro corpo até atingir um número de reencarnações para não precisar mais reencarnar, o que seria um conceito de salvação como espírito puro, independente do corpo. O que eles ensinam para que a pessoa possa chegar mais perto da condição de não precisar mais reencarnar? Eles se privam de comida, se privam de atividade sexual, mesmo se forem casados, a fim de supostamente alcançarem a experiência do divino. Até mesmo na história do cristianismo, podemos identificar pessoas praticando o ascetismo a fim de ganhar uma experiência maior com Deus e entrarem em um caminho de fanatismo (veja a história do monasticismo). A Bíblia não ensina nada disso. A comida e o sexo podem ser abusados para prejuízo pessoal das pessoas, mas são coisas boas que Deus criou.

O ensino de Genesis de que tudo o que Deus criou é bom é uma ideia radical e é uma inovação na história das religiões. Isso significa que a salvação não significa ser liberto da matéria e da esfera física para uma esfera etérea, espiritual. Logo, aqui está o fundamento, não o ensino, mas o fundamento, de que em Genesis, Deus já pretendia que a ressurreição do corpo fosse uma realidade, pois quando Deus criou os seres humanos, ele já pretendia que os seres humanos fossem seres com corpos. Nas outras visões de mundo o corpo ou a matéria são vistos como uma queda ou como algo mau. Um estado incorpóreo não é a meta final de salvação na fé cristã e não há apoio bíblico para tal ensino.

Também vemos nos primeiros capítulos de Genesis que a vida tem um propósito e um significado. Deus tem um plano, um propósito para a humanidade. Deus criou os seres humanos com corpos físicos, para viverem no espaço físico, no tempo e na história. A história é significativa, pois na cultura judaico-cristã a história é linear, formada de início, desenvolvimento e fim, o que também é uma inovação radical em comparação com as religiões orientais, pois estas entendem a história como sendo um ciclo interminável de reencarnações. É na história linear que Deus fala, se revela, opera, age, apesar de transcender a história e governar sobre ela. Outro pensamento que domina o Hinduísmo é que a história e a realidade são ilusões, que não existem de fato. Não existe significado para eles porque tudo o que é submetido a mudança é ilusório.

Vemos também em Genesis que toda a criação merece respeito e cuidado. Deus criou o mundo de uma forma cuidadosa e metódica e ele comissiona o ser humano desde o Éden para cuidar das coisas criadas, subjugar e dominar. A doutrina da criação tem um fundamento sólido para que cuidemos do meio ambiente.

E por fim, o que se pode depreender de Genesis 1 e 2 é que apenas Deus merece e deve ser adorado. Nenhuma coisa criada é digna de adoração, mas apenas Deus, o criador. O pensamento judaico-cristão destaca duas coisas bem fortes: 1. Apenas Deus é o responsável pela criação; 2. E apenas ele é e deve ser o objeto de devoção religiosa e adoração. Essa também foi uma concepção radical, inovadora e singular no mundo antigo, pois os povos antigos acreditavam que todas as forças da natureza eram divinas ou eram manifestações das divindades. O politeísmo era a visão e entendimento dominante no mundo de então. O ensino claro do AT é que Deus é o único responsável e deixa claro a intenção de excluir todas as divindades do mundo antigo, pois não existem. Essa também foi uma concepção radical para a época, porque todos eram politeístas. Para termos uma ideia da força dessa revelação, os céus que foram criados em Genesis 1.1 não eram a moradas dos deuses como era defendido pelos pagãos, mas antes os céus foram criados por Deus. Logo, Deus transcende os céus. Essa era uma revelação revolucionária e extraordinária logo no primeiro versículo da Bíblia. No verso 2 aparece as profundezas dos oceanos que não eram divinos e que o Espírito de Deus era quem dominava por aquelas bandas também. A luz no verso três não aparece como uma emanação do divino, mas é uma criação de Deus também. Da mesma forma o sol e a lua foram criados por Deus e naqueles dias os povos antigos adoravam o sol e a lua e o que é interessante, existem as palavras hebraicas para sol e lua, mas elas não são usadas em Genesis 1 e nos versos 14-16 temos uma referência genérica a luz maior e a luz menor (luzeiros) e as estrelas. É negada totalmente e radicalmente a ideia de que essas luzes sejam divindades, mas que elas são apenas sinais de que o Deus criador as colocou lá. Elas não são divinas nem sobrenaturais. No verso 21 são apresentados os monstros marinhos que Deus criou e os colocou lá também. Nos contos antigos entre os habitantes do oriente próximo médio, esses monstros marinhos eram os agentes do caos que aterrorizavam as águas e a ordem só era reestabelecida pelos deuses, e Genesis revela que esses monstros eram apenas grandes peixes que Deus criou e colocou lá.

Por fim, vemos em Genesis 1 que Deus criou os seres humanos. O incrível é que Deus criou “adam”, ou seja, “a humanidade” a sua imagem e semelhança, macho e fêmea. Ao dizer isso, todos os seres humanos são representados por Adão, o pai. Note que ambos, macho e fêmea, foram criados a imagem e semelhança de Deus. Entre os povos antigos, os homens podiam ser relacionados como imagem de uma divindade, a saber, um governador ou um rei, que eram considerados como a manifestação de uma divindade, como um representante que governava aquela terra. Genesis erradica essa visão de que alguns homens são deuses ou que são os representantes dos deuses. Antes, todos os seres humanos são ontologicamente iguais, pois compartilham a imagem e semelhança de Deus.

Perceba que até agora, você não vê nada sendo dito sobre a idade da terra. Não existe essa implicação clara dentro do contexto das religiões do período, porque Genesis 1 tem muito a dizer sobre os atributos de Deus e muito a revelar sobre os enganos dos povos antigos. Repetindo, só existe um único Deus e Deus Elohim criou todas as coisas. Algumas pessoas criticam e ficam confusas com a forma Elohim por causa da forma plural, mas o hebraico às vezes usa a forma plural como verbo singular para denotar completude para algo ou alguém. Então, quando o AT se refere a Deus como Elohim, não significa uma pluralidade de seres divinos, porque a forma plural Elohim regularmente assume a forma de verbo no singular e isso ocorre em Genesis 1. Em Genesis 2 Elohim é identificado como Jeová, como Deus, não uma pluralidade de deuses, ou seja, um Deus que detém todo o poder e autoridade e que criou e governa sobre todas as coisas. Você só deve encarar e responder a apenas um Deus e isso é bem simples. Só existe um Deus a quem você deve servir e agradar e esse é todo o resumo da ópera. Se também ele criou o céu, logo ele não mora no céu como uma habitação no conceito que temos de habitação, pois ele transcende os céus. Mas ele também é imanente, pois interage dentro da criação. Se Deus fosse apenas imanente, então ele estaria sujeito ao tempo, logo estaria passível a mudança e o panteísmo seria a visão de mundo correta. Se Deus fosse apenas transcendente, o Deísmo estaria correto, pois teria criado o universo e se isolado, virado as costas para a criação. Mas o Deus que criou é transcendente e imanente. Deus é eterno porque criou o tempo, e é onisciente e perfeitamente sábio pois criou o universo de forma ordenada, organizada, e perfeitamente equilibrada.

Sua onipotência é demonstrada pela forma em que ele cria o universo praticamente sem esforço, pelo poder da palavra. Bem como pelo fato de que Deus é pessoal, porque fala na primeira pessoa, avalia o que criou e diz que tudo é bom. Deus é autossuficiente, pois não criou nada para seu próprio benefício e nas culturas pagãs os deuses precisam das ações religiosas dos homens em alguma medida. Então, perceba que Genesis 1 e 2 tem muito a dizer sobre a criação e sobre o Deus da criação e seus atributos, responde a muito da cultura pagã circundante, mas não fala nada sobre a idade da terra, apenas que a terra tem uma idade, mas além disso, Genesis está realmente fixado em revelar e esclarecer outras coisas mais importantes do que a idade da terra. Então, como evangélicos bíblicos, devemos focar nas coisas que realmente são importantes.

Tendo falado tudo isso, temos que reconhecer que Genesis revela que a terra tem uma idade. Agora, não vejo relevância em colocar o assunto sobre a idade da terra acima dos assuntos mais importantes que foram revelados. Para mim é indiferente se alguém acredita na terra jovem ou antiga, isso não tem implicações para a salvação. Agora, é importante destacar que nem todos os criacionistas da terra jovem acreditam que o universo seja jovem. O fato é que existe alguma diversidade sobre a questão.

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário