segunda-feira, 6 de março de 2023

O Problema dos Cananeus - Parte 8 - FINAL

 

Nós não odiamos o pecado – Por isso não conseguimos entender o que aconteceu com os Cananeus

Um Adendo aos Argumentos do “Genocídio Divino” no Antigo Testamento

[PARTE VIII - FINAL]

 

Por Clay Jones

Christian Apologetics Program

Biola University

La Mirada, California

 

Os Nossos Pecados

 

Uma leitura superficial de pelo menos as ideias correntes na cultura Americana geralmente parece uma sequência das práticas Cananeias. Claro, não é como se as pessoas com ascendência Cananéia, que vivem nos Estados Unidos, fossem as culpadas por escrever essa sequência. De fato, a sequência é escrita em todas as gerações, independentemente da cultura, etnia ou grupo de pessoas. É persistentemente escrito porque flui do coração humano e de sua condição. Mas talvez a hipocrisia, com toda a sua potência racionalizadora, não nos ajude a ver com clareza o coração e sua real condição.

Por exemplo, em uma cultura que gravita em torno de “Donas de casa desesperadas”, sites de adultério como o de Ashley Madison, que possui “mais de 3.180.000 membros com ideias semelhantes”,[62] pessoas que vivem sob o lema “a vida é curta, tenha um caso”. Isso, é claro, não incomoda os ateus iluminados. Dawkins escreve que “Nós, seres humanos, damo-nos tanta importância que até elevamos nossos minúsculos "pecadilhos" ao nível de relevância cósmica!”[63] Dawkins pergunta por que os cristãos evangélicos são “obcecados” com “inclinações sexuais privadas, como a homossexualidade, que não interfere na vida de mais ninguém”.[64] E o aparentemente não obcecado Christopher Hitchens considera a “repressão sexual perigosa” tão séria que a chama de uma das “quatro objeções irredutíveis à fé religiosa”.[65] Assim, Judith Levine, em seu livro vencedor do prêmio Los Angeles Times de 2002, Harmful to Minors: The Perils of Protecting Children from Sex [cuja tradução livre é: Prejudicial para menores: os perigos de proteger as crianças do sexo], argumenta que “normal é o que uma determinada cultura ou era histórica chama: a homossexualidade masculina era considerada normal na Grécia clássica; o sexo intergeracional tem sido normal como iniciação sexual em muitas sociedades pré-industriais; até mesmo o estupro tem sido historicamente normal em tempos de guerra.”[66]

Considere o problema do incesto. Embora ninguém que eu conheça defenda ativamente o incesto (pois causa das deformidades de nascimento), algumas pessoas como Levine dizem que alguns tipos de incestos podem não ser prejudiciais,[67] e muitas outras pessoas buscam a diminuição da idade de consentimento, o que permitiria mais incesto.[68] Enfim, se um menino de oito anos pode dar o consentimento para um não membro da família, então ele pode dar o consentimento para um membro da família. Existe até “um fórum para pessoas envolvidas em discussões acadêmicas sobre a compreensão e a emancipação das relações mútuas entre crianças ou adolescentes e adultos”.[69] Muitos filmes populares transformaram o incesto em uma piada ou em algo excitante.[70] Então não é de admirar que em nossa sociedade “pesquisas indiquem que 1 em cada 5 meninas e 1 em cada 10 meninos serão vitimizados sexualmente antes da idade adulta.”[71]

Quando estudei sobre Moloque pela primeira vez, pensei que era impossível que alguém sacrificasse seu filho às chamas, mas depois considerei que nos Estados Unidos quase 50 milhões de bebês tiveram partes de seus corpos aspirados, foram queimados com solução salina e até mesmo tiveram seus cérebros sugados através de aborto parcial. Indiscutivelmente, os “deuses” que merecem o sacrifício são variados: minha carreira, minha escolha ou “eu queria um menino”.

Agora, alguém como Morriston pode objetar que o aborto não justifica o infanticídio, mas o especialista em ética de Princeton, Peter Singer, não objetaria. Ele “admitiu” que “a posição que assumi sobre o aborto também justifica o infanticídio”.[72] Claro, esta é uma das poucas vezes que o movimento pró-vida pensará que Singer falou com total clareza e leva naturalmente à sua conclusão de que “matar uma criança deficiente” “muitas vezes não é nada errado.”[73] Tenho certeza de que os Cananeus que tiveram crianças deformadas como resultado de incesto elogiariam o livro de Singer. Mas, para Singer, a criança nem precisa ser incapacitada porque “o erro intrínseco de matar o feto tardio e o erro intrínseco de matar o recém-nascido não são muito diferentes”. Para Singer isso não justifica “matar bebês aleatoriamente” porque o legítimo “infanticídio só pode ser equiparado ao aborto quando os mais próximos da criança não querem que ela viva”.[74]

Nada mais precisa ser dito sobre a homossexualidade.

Levítico 18 lista a bestialidade por último e, de fato, é a degradação final tolerada quando tudo o mais foi tentado. Assim, a Humane Society relata que muitos sites pornográficos incluem o abuso sexual de animais: “Um site [de bestialidade] forneceu quase 200 links, e apenas este site relata receber aproximadamente 46.000 visitas por dia”.[75] Claro, a maioria percebe que existe pornografia animal, mas a bestialidade não é mais evitada e está recebendo aprovação social.

Até o eticista Peter Singer acha que está tudo bem: “Somos animais. . . . Isso não torna normal ou natural o sexo além da barreira da espécie, seja lá o que essas palavras tão mal utilizadas possam significar, mas implica que deixa de ser uma ofensa ao nosso status e dignidade como seres humanos.”[76]

Considere os comentários do crítico de cinema do Los Angeles Times, Kenneth Turan, sobre o filme “Zoo” de 2007:

 

“Zoo”, estreando diante de uma platéia extasiada na noite de sábado como em um êxtase religioso, consegue ser um filme poético sobre um assunto proibido, um casamento perfeito entre um diretor frio e contemplativo. . . assunto potencialmente incendiário: sexo entre homens e animais. Nada que possa ser censurado, este filme estranho e estranhamente belo combina entrevistas em áudio com recriações visuais melancólicas destinadas a evocar o humor e o espírito das situações.[77]

 

Considere também o filme de 2007 “Sleeping Dogs Lie”, em que uma jovem que um dia fez sexo com seu cachorro decide ser honesta e contar ao noivo – que, após saber, cancela o casamento. Peter Travers, da Rolling Stone, escreveu que o filme “possui um raciocínio rápido e uma ternura cativante para com Amy enquanto a honestidade destrói sua vida. É doce, que se dane.” Observe que, para Travers, não foi o sexo com um cachorro que destruiu a vida de Amy, mas a honestidade dela.[78]

Depois, há músicas como "e daí?" do álbum Garage Inc do Metallica. O álbum de 1998 ganhou disco de platina triplo.[79]

 

e eu transei com uma ovelha,

eu transei com uma cabra

Eu bati meu p *** da forma certa

na garganta

e daí, e daí

e daí, e daí, seu chato

Vá se danar[80]

 

A partir de uma leitura superficial das ideias acima, podemos ver que Morriston está certo sobre uma coisa: “É impressionante que não haja nada exclusivamente ‘Cananeu’ sobre essas coisas. Todas, ou quase todas, essas práticas – desde a relação sexual durante o período menstrual de uma mulher até o comportamento homossexual e a bestialidade – ainda são comuns”.[81] Mas esse é o meu ponto: não apreciamos [não reconhecemos] as profundezas de nossa própria depravação, o horror do pecado e a justiça de Deus. Consequentemente, não é surpresa que quando vemos o julgamento de Deus sobre aqueles que cometeram os pecados que cometemos, aquela reclamação e protesto surge em nossos corações: “Isso é barbárie divina!” ou “Isso é genocídio divino!” Mas estudar essas coisas ao longo dos anos me levou a pensar se os Cananeus não poderiam se levantar no dia do julgamento e condenar esta geração.[82]

 

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Fonte:

 

PhilosoPhia Christi Vol. 11, No. 1 © 2009, pp. 52 – 72

 

Tradução Walson Sales

 

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Notas:

 

[62] AshleyMadison.com. Acessado em 17 de janeiro de 2009. Quando visitei o site pela primeira vez em outubro de 2008, eles tinham apenas 2.400.000 membros.

[63] Dawkins, God Delusion, 238.

[64] Ibidem.

[65] Christopher Hitchens, God Is Not Great: How Religion Poisons Everything (Boston: Twelve Books, 2007), 4.

[66] Judith Levine, Harmful to Minors: The Perils of Protecting Children from Sex (Nova York: Thunder's Mouth, 2003), 66.

[67] “Mesmo o incesto entre irmãos . . . não é ipso facto traumático” (Levine, Harmful to Minors, 57).

[68] Levine: “o sexo não é prejudicial para as crianças. . . . Há muitas maneiras pelas quais até as crianças menores podem participar” (Levine, Harmful to Minors, p. 225).

[69] http://www.ipce.info/ipceweb/index.htm. Considere também as palavras do professor de psicologia da UCLA, Dr. Paul Okami: “Indo direto ao ponto, pelo menos algumas pessoas afirmam que suas experiências sexuais na infância com adultos aumentaram sua autodeterminação sexual, não a sobrecarregaram. Eu entrevistei essas pessoas (Okami, 1991). Então o que fazemos com essas reivindicações? . . . Qual é a verdadeira origem [do ódio à pedofilia]? Suspeito que seja multiplamente determinado, mas a versão Ocidental provavelmente tem origem na herança sexual de São Paulo e Santo Agostinho, que caracterizam o sexo como perigoso, sujo, pecaminoso, feio, destrutivo e assim por diante (Rubin, 1984)” (Paul Okami, “The Dilemma of the Male Pedophile,” Archives of Sexual Behavior 31 [2002]: 473-477, citado em Fred S. Berlin, Wolfgang Berner, Vern L. Bullough, Alan F. Dixson, et al., “Peer Commentaries on Green (2002) and schmidt (2002),” Archives of Sexual Behavior 31 [2002]: 492 –3, 494).

[70] Por exemplo, Borat: Cultural Learnings of America for Make Benefit Glorious Nation of Kazakhstan (2007), R; National Security (2003) R; South Park: Bigger, Longer & Uncut (1999), R; Analyze This (1999), R; Joe Dirt (2001), PG-13; Freddy Got Fingered (2001), R; Eurotrip (2004), R; Not Another Teen Movie (2001), R; Mission Impossible III (2006), PG-13; The Departed (2006), R; Date Movie (2006), PG-13; Superhero Movie (2008), PG-13.

[71] Centro Nacional para Crianças Desaparecidas e Exploradas, “FaQ: Child sexual Exploitation,” http://www.missingkids.com/missingkids/servlet/Pageservlet?LanguageCountry=en_Us&PageId = 2815. É claro que nem toda vitimização vem de familiares, parte vem de estranhos e cuidadores.

[72] Peter Singer, Practical Ethics, 2ª ed. (Cambridge: Cambridge University Press, 1993), 173.

[73] Ibidem, 191.

[74] Ibidem, 173.

[75] The Humane Society dos Estados Unidos, “folheto acerca dos fatos sobre abuso sexual de animais”, http://www.vactf.org/pdfs/bestiality-factsheet.pdf. Por abuso sexual, eles não querem dizer que o animal sofreu danos físicos permanentes.

[76] Peter Singer, “Heavy Petting: review of Midas Dekkers, 'Dearest Pet: On Bestiality' (Londres, 2000),” Nerve.com, 2001, http://www.nerve.com/opinions/singer/heavypetting/ main.asp. O fato de mais humanos em nossa cultura não poderem realmente participar de bestialidade não é o ponto. O ponto principal é que muitos, embora talvez enojados com a ideia de bestialidade, aprovarão o comportamento daqueles que o praticam. Cf. Rm. 1:32: “Embora eles conheçam o decreto de Deus de que aqueles que fazem tais coisas merecem a morte, eles não apenas as fazem, mas aprovam aqueles que as praticam.” Afinal, o que é pior, deixar-se levar pela luxúria do momento ou aprovar desapaixonadamente o comportamento de quem o faz?

[77] Kevin Turan, “'Zoo' Is Not Just 'Eeew'”, Los Angeles Times, 22 de janeiro de 2007.

[78] Há uma série de filmes que tratam a bestialidade como uma piada ou como uma excitação: Clerks II (2006), R; Scary Movie 3 (2003), PG-13; Wild Hogs (2007), PG-13; American Wedding (2003), R; The Animal (2003), R; The 40-Year-Old Virgin (2005), R; Anger Management (2003), PG-13; Walk Hard: The Dewey Cox Story (2007), PG-13; Hostel (2005), R; Pushing Tin (2007), PG-13; Austin Powers in Goldmember (2002), PG-13; South Park: Bigger, Longer & Uncut (1999), R; Grind (1999), R; Nutty Professor II: The Klumps (2000), PG-13; Dodgeball: A True Underdog Story (2005), PG-13; The Dukes of Hazzard (2005), PG-13; Deuce Bigalow, European Gigolo (2005), R; Borat: Cultural Learnings of America for Make Benefit Glorious Nation of Kazakhstan (2007), R; Freddy Got Fingered (2001) R; Scary Movie 3 (2003), PG-13; Date Movie (2006), PG-13.

[79] Disponível Online, http://www.pluggedinonline.com/music/music/a0000685.cfm.

[80] disponível Online, http://www.asklyrics.com/display/Metallica/so_What_Lyrics/310

411.htm. Outros álbuns que mencionam a bestialidade: Blink-182, Enema of the State, “Anthen” (o melhor entre 10 albuns); Barenaked Ladies, Maroon (rock, chegou ao número 5); Insane Clown Posse, The Amazing Jeckel Brothers (rap, chegou ao número 4).

[81] Morriston, “Did Command Genocide?” 16.

[82]. Isso não nos dá a capacidade de determinar que horrores como o 11 de setembro tenham sido o julgamento de Deus sobre o mundo. Podemos, no entanto, ter certeza de que Seu julgamento virá. Considere Lucas 10:13–15: “Ai de ti, Corazim, ai de ti, Betsaida! Porque, se em Tiro e em Sidom se fizessem as maravilhas que em vós foram feitas, já há muito, assentadas em saco e cinza, se teriam arrependido. Portanto, para Tiro e Sidom haverá menos rigor, no juízo, do que para vós. E tu, Cafarnaum, que te levantaste até ao céu, até ao inferno serás abatida.” Tiro e Sidon eram cidades Cananéias.

Preciso agradecer a George Giacumakis, professor da Biola University e Presidente de History, Government, and social science, especializado em história do Antigo Oriente Próximo, por sua revisão deste artigo; como sempre, aprecio imensamente as muitas, muitas sugestões úteis feitas por Joseph Gorra; e sou grato a minha esposa, Jean E. Jones, por ela ter lido centenas de páginas de documentos de fontes primárias e secundárias do Antigo Oriente Próximo e suas muitas sugestões.

 

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