Nós não odiamos o pecado – Por isso não
conseguimos entender o que aconteceu com os Cananeus
Um Adendo aos Argumentos do “Genocídio
Divino” no Antigo Testamento
[PARTE
VIII - FINAL]
Por Clay Jones
Christian Apologetics Program
Biola
University
La
Mirada, California
Os Nossos Pecados
Uma
leitura superficial de pelo menos as ideias correntes na cultura Americana
geralmente parece uma sequência das práticas Cananeias. Claro, não é como se as
pessoas com ascendência Cananéia, que vivem nos Estados Unidos, fossem as
culpadas por escrever essa sequência. De fato, a sequência é escrita em todas
as gerações, independentemente da cultura, etnia ou grupo de pessoas. É
persistentemente escrito porque flui do coração humano e de sua condição. Mas
talvez a hipocrisia, com toda a sua potência racionalizadora, não nos ajude a
ver com clareza o coração e sua real condição.
Por
exemplo, em uma cultura que gravita em torno de “Donas de casa desesperadas”,
sites de adultério como o de Ashley Madison, que possui “mais de 3.180.000
membros com ideias semelhantes”,[62] pessoas que vivem sob o lema “a vida é
curta, tenha um caso”. Isso, é claro, não incomoda os ateus iluminados. Dawkins
escreve que “Nós, seres humanos, damo-nos tanta importância que até elevamos
nossos minúsculos "pecadilhos" ao nível de relevância cósmica!”[63]
Dawkins pergunta por que os cristãos evangélicos são “obcecados” com
“inclinações sexuais privadas, como a homossexualidade, que não interfere na
vida de mais ninguém”.[64] E o aparentemente não obcecado Christopher Hitchens
considera a “repressão sexual perigosa” tão séria que a chama de uma das
“quatro objeções irredutíveis à fé religiosa”.[65] Assim, Judith Levine, em seu
livro vencedor do prêmio Los Angeles Times
de 2002, Harmful to Minors: The Perils of
Protecting Children from Sex [cuja tradução livre é: Prejudicial para menores:
os perigos de proteger as crianças do sexo], argumenta que “normal é o que
uma determinada cultura ou era histórica chama: a homossexualidade masculina
era considerada normal na Grécia clássica; o sexo intergeracional tem sido
normal como iniciação sexual em muitas sociedades pré-industriais; até mesmo o
estupro tem sido historicamente normal em tempos de guerra.”[66]
Considere
o problema do incesto. Embora ninguém que eu conheça defenda ativamente o
incesto (pois causa das deformidades de nascimento), algumas pessoas como
Levine dizem que alguns tipos de incestos podem não ser prejudiciais,[67] e
muitas outras pessoas buscam a diminuição da idade de consentimento, o que
permitiria mais incesto.[68] Enfim, se um menino de oito anos pode dar o
consentimento para um não membro da família, então ele pode dar o consentimento
para um membro da família. Existe até “um fórum para pessoas envolvidas em
discussões acadêmicas sobre a compreensão e a emancipação das relações mútuas
entre crianças ou adolescentes e adultos”.[69] Muitos filmes populares
transformaram o incesto em uma piada ou em algo excitante.[70] Então não é de
admirar que em nossa sociedade “pesquisas indiquem que 1 em cada 5 meninas e 1
em cada 10 meninos serão vitimizados sexualmente antes da idade adulta.”[71]
Quando
estudei sobre Moloque pela primeira vez, pensei que era impossível que alguém
sacrificasse seu filho às chamas, mas depois considerei que nos Estados Unidos
quase 50 milhões de bebês tiveram partes de seus corpos aspirados, foram
queimados com solução salina e até mesmo tiveram seus cérebros sugados através
de aborto parcial. Indiscutivelmente, os “deuses” que merecem o sacrifício são
variados: minha carreira, minha escolha ou “eu queria um menino”.
Agora,
alguém como Morriston pode objetar que o aborto não justifica o infanticídio,
mas o especialista em ética de Princeton, Peter Singer, não objetaria. Ele
“admitiu” que “a posição que assumi sobre o aborto também justifica o
infanticídio”.[72] Claro, esta é uma das poucas vezes que o movimento pró-vida
pensará que Singer falou com total clareza e leva naturalmente à sua conclusão
de que “matar uma criança deficiente” “muitas vezes não é nada errado.”[73]
Tenho certeza de que os Cananeus que tiveram crianças deformadas como resultado
de incesto elogiariam o livro de Singer. Mas, para Singer, a criança nem
precisa ser incapacitada porque “o erro intrínseco de matar o feto tardio e o
erro intrínseco de matar o recém-nascido não são muito diferentes”. Para Singer
isso não justifica “matar bebês aleatoriamente” porque o legítimo “infanticídio
só pode ser equiparado ao aborto quando os mais próximos da criança não querem
que ela viva”.[74]
Nada
mais precisa ser dito sobre a homossexualidade.
Levítico
18 lista a bestialidade por último e, de fato, é a degradação final tolerada
quando tudo o mais foi tentado. Assim, a Humane Society relata que muitos sites
pornográficos incluem o abuso sexual de animais: “Um site [de bestialidade]
forneceu quase 200 links, e apenas este site relata receber aproximadamente
46.000 visitas por dia”.[75] Claro, a maioria percebe que existe pornografia
animal, mas a bestialidade não é mais evitada e está recebendo aprovação
social.
Até
o eticista Peter Singer acha que está tudo bem: “Somos animais. . . . Isso não
torna normal ou natural o sexo além da barreira da espécie, seja lá o que essas
palavras tão mal utilizadas possam significar, mas implica que deixa de ser uma
ofensa ao nosso status e dignidade como seres humanos.”[76]
Considere
os comentários do crítico de cinema do Los
Angeles Times, Kenneth Turan, sobre o filme “Zoo” de 2007:
“Zoo”,
estreando diante de uma platéia extasiada na noite de sábado como em um êxtase
religioso, consegue ser um filme poético sobre um assunto proibido, um
casamento perfeito entre um diretor frio e contemplativo. . . assunto
potencialmente incendiário: sexo entre homens e animais. Nada que possa ser
censurado, este filme estranho e estranhamente belo combina entrevistas em
áudio com recriações visuais melancólicas destinadas a evocar o humor e o
espírito das situações.[77]
Considere
também o filme de 2007 “Sleeping Dogs Lie”, em que uma jovem que um dia fez
sexo com seu cachorro decide ser honesta e contar ao noivo – que, após saber,
cancela o casamento. Peter Travers, da Rolling
Stone, escreveu que o filme “possui um raciocínio rápido e uma ternura
cativante para com Amy enquanto a honestidade destrói sua vida. É doce, que se
dane.” Observe que, para Travers, não foi o sexo com um cachorro que destruiu a
vida de Amy, mas a honestidade dela.[78]
Depois,
há músicas como "e daí?" do álbum Garage
Inc do Metallica. O álbum de 1998 ganhou disco de platina triplo.[79]
e
eu transei com uma ovelha,
eu
transei com uma cabra
Eu
bati meu p *** da forma certa
na
garganta
e
daí, e daí
e
daí, e daí, seu chato
Vá
se danar[80]
A
partir de uma leitura superficial das ideias acima, podemos ver que Morriston
está certo sobre uma coisa: “É impressionante que não haja nada exclusivamente
‘Cananeu’ sobre essas coisas. Todas, ou quase todas, essas práticas – desde a
relação sexual durante o período menstrual de uma mulher até o comportamento
homossexual e a bestialidade – ainda são comuns”.[81] Mas esse é o meu ponto:
não apreciamos [não reconhecemos] as profundezas de nossa própria depravação, o
horror do pecado e a justiça de Deus. Consequentemente, não é surpresa que
quando vemos o julgamento de Deus sobre aqueles que cometeram os pecados que
cometemos, aquela reclamação e protesto surge em nossos corações: “Isso é
barbárie divina!” ou “Isso é genocídio divino!” Mas estudar essas coisas ao
longo dos anos me levou a pensar se os Cananeus não poderiam se levantar no dia
do julgamento e condenar esta geração.[82]
____________________
Fonte:
PhilosoPhia
Christi Vol. 11, No. 1 © 2009,
pp. 52 – 72
Tradução
Walson Sales
____________________
Notas:
[62]
AshleyMadison.com. Acessado em 17 de janeiro de 2009. Quando visitei o site
pela primeira vez em outubro de 2008, eles tinham apenas 2.400.000 membros.
[63] Dawkins, God
Delusion, 238.
[64] Ibidem.
[65] Christopher Hitchens, God Is Not Great: How Religion Poisons Everything (Boston: Twelve
Books, 2007), 4.
[66] Judith Levine, Harmful to Minors: The Perils of Protecting Children from Sex (Nova
York: Thunder's Mouth, 2003), 66.
[67]
“Mesmo o incesto entre irmãos . . . não é ipso
facto traumático” (Levine, Harmful to
Minors, 57).
[68]
Levine: “o sexo não é prejudicial para as crianças. . . . Há muitas maneiras
pelas quais até as crianças menores podem participar” (Levine, Harmful to Minors, p. 225).
[69]
http://www.ipce.info/ipceweb/index.htm. Considere também as palavras do
professor de psicologia da UCLA, Dr. Paul Okami: “Indo direto ao ponto, pelo
menos algumas pessoas afirmam que suas experiências sexuais na infância com
adultos aumentaram sua autodeterminação sexual, não a sobrecarregaram. Eu
entrevistei essas pessoas (Okami, 1991). Então o que fazemos com essas
reivindicações? . . . Qual é a verdadeira origem [do ódio à pedofilia]? Suspeito
que seja multiplamente determinado, mas a versão Ocidental provavelmente tem
origem na herança sexual de São Paulo e Santo Agostinho, que caracterizam o
sexo como perigoso, sujo, pecaminoso, feio, destrutivo e assim por diante (Rubin,
1984)” (Paul Okami, “The Dilemma of the Male Pedophile,” Archives of Sexual Behavior 31 [2002]: 473-477, citado em Fred S.
Berlin, Wolfgang Berner, Vern L. Bullough, Alan F. Dixson, et al., “Peer
Commentaries on Green (2002) and schmidt (2002),” Archives of Sexual Behavior 31 [2002]: 492 –3, 494).
[70] Por exemplo, Borat:
Cultural Learnings of America for Make Benefit Glorious Nation of Kazakhstan
(2007), R; National Security (2003) R;
South Park: Bigger, Longer & Uncut (1999),
R; Analyze This (1999), R; Joe Dirt (2001), PG-13; Freddy Got Fingered (2001), R; Eurotrip (2004), R; Not Another Teen Movie (2001), R; Mission Impossible III (2006), PG-13; The Departed (2006), R; Date
Movie (2006), PG-13; Superhero Movie
(2008), PG-13.
[71]
Centro Nacional para Crianças Desaparecidas e Exploradas, “FaQ: Child sexual
Exploitation,”
http://www.missingkids.com/missingkids/servlet/Pageservlet?LanguageCountry=en_Us&PageId
= 2815. É claro que nem toda vitimização vem de familiares, parte vem de
estranhos e cuidadores.
[72] Peter Singer, Practical
Ethics, 2ª ed. (Cambridge: Cambridge University Press, 1993), 173.
[73] Ibidem, 191.
[74]
Ibidem, 173.
[75]
The Humane Society dos Estados Unidos, “folheto acerca dos fatos sobre abuso
sexual de animais”, http://www.vactf.org/pdfs/bestiality-factsheet.pdf. Por
abuso sexual, eles não querem dizer que o animal sofreu danos físicos
permanentes.
[76]
Peter Singer, “Heavy Petting: review of Midas Dekkers, 'Dearest Pet: On Bestiality'
(Londres, 2000),” Nerve.com, 2001,
http://www.nerve.com/opinions/singer/heavypetting/ main.asp. O fato de mais
humanos em nossa cultura não poderem realmente participar de bestialidade não é
o ponto. O ponto principal é que muitos, embora talvez enojados com a ideia de
bestialidade, aprovarão o comportamento daqueles que o praticam. Cf. Rm. 1:32:
“Embora eles conheçam o decreto de Deus de que aqueles que fazem tais coisas
merecem a morte, eles não apenas as fazem, mas aprovam aqueles que as praticam.”
Afinal, o que é pior, deixar-se levar pela luxúria do momento ou aprovar
desapaixonadamente o comportamento de quem o faz?
[77] Kevin Turan, “'Zoo' Is Not Just 'Eeew'”, Los Angeles Times, 22 de janeiro de
2007.
[78] Há uma série de filmes que tratam a bestialidade
como uma piada ou como uma excitação: Clerks
II (2006), R; Scary Movie 3
(2003), PG-13; Wild Hogs (2007),
PG-13; American Wedding (2003), R; The Animal (2003), R; The 40-Year-Old Virgin (2005), R; Anger Management (2003), PG-13; Walk Hard: The Dewey Cox Story (2007),
PG-13; Hostel (2005), R; Pushing Tin (2007), PG-13; Austin Powers in Goldmember (2002),
PG-13; South Park: Bigger, Longer &
Uncut (1999), R; Grind (1999), R;
Nutty Professor II: The Klumps
(2000), PG-13; Dodgeball: A True Underdog
Story (2005), PG-13; The Dukes of
Hazzard (2005), PG-13; Deuce Bigalow,
European Gigolo (2005), R; Borat:
Cultural Learnings of America for Make Benefit Glorious Nation of Kazakhstan
(2007), R; Freddy Got Fingered (2001)
R; Scary Movie 3 (2003), PG-13; Date Movie (2006), PG-13.
[79] Disponível
Online, http://www.pluggedinonline.com/music/music/a0000685.cfm.
[80] disponível
Online, http://www.asklyrics.com/display/Metallica/so_What_Lyrics/310
411.htm.
Outros álbuns que mencionam a bestialidade: Blink-182, Enema of the State, “Anthen” (o melhor entre 10 albuns); Barenaked
Ladies, Maroon (rock, chegou ao
número 5); Insane Clown Posse, The
Amazing Jeckel Brothers (rap, chegou ao número 4).
[81]
Morriston, “Did Command Genocide?” 16.
[82].
Isso não nos dá a capacidade de determinar que horrores como o 11 de setembro tenham
sido o julgamento de Deus sobre o mundo. Podemos, no entanto, ter certeza de
que Seu julgamento virá. Considere Lucas 10:13–15: “Ai de ti, Corazim, ai de ti, Betsaida! Porque, se em
Tiro e em Sidom se fizessem as maravilhas que em vós foram feitas, já há muito,
assentadas em saco e cinza, se teriam arrependido. Portanto, para Tiro e Sidom
haverá menos rigor, no juízo, do que para vós. E tu, Cafarnaum, que te
levantaste até ao céu, até ao inferno serás abatida.” Tiro e Sidon eram
cidades Cananéias.
Preciso
agradecer a George Giacumakis, professor da Biola University e Presidente de History,
Government, and social science, especializado em história do Antigo Oriente
Próximo, por sua revisão deste artigo; como sempre, aprecio imensamente as
muitas, muitas sugestões úteis feitas por Joseph Gorra; e sou grato a minha
esposa, Jean E. Jones, por ela ter lido centenas de páginas de documentos de
fontes primárias e secundárias do Antigo Oriente Próximo e suas muitas
sugestões.
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