Sobre Muhammad – a tradição muçulmana ensina que Muhammad nasceu em Meca em 570 d.C., depois se mudou para Medina em 622 d. C., (ambas as cidades na Arábia Central). 622 é uma data importante para o Islamismo, pois é considerada a data oficial do início do islã com a Hégira, ou seja, a mudança de Muhammad de Meca para Medina. É nesse período que Muhammad alegadamente recebeu e continuou recebendo as revelações que supostamente vieram a ser o que é conhecido como Alcorão, que é o paradigma do islã e da prática religiosa islâmica.
Mas o que as fontes históricas revelam sobre o Muhammad histórico, usando evidências do século 7 e até mais antigas e comparando com o ensino tradicional do Islã?
Essa é uma área que poucas pessoas investigam e muito do que vou dizer aqui é provavelmente novo para a maioria das pessoas. Para isso, precisamos investigar três áreas:
A primeira é a própria cidade de Meca. A segunda área diz respeito às fontes do Islã primitivo, cujo objetivo é realmente tentar desvendar quem é Muhammad, de onde ele veio e se ele realmente existiu. A terceira área é geralmente sobre o contexto do surgimento do próprio Alcorão. Essa questão do Alcorão é um tópico muito vasto.
Nunca esqueça: o Islã depende de três coisas:
O livro – O Alcorão;
O homem – Muhammad;
e o lugar que é Meca.
Se umas destas três áreas forem questionadas e sucumbirem, as outras desabam, pois elas estão intrinsecamente conectadas. Essas três áreas são fundamentais para o Islã. Então não devemos, por agora, investigar essas três áreas, especificamente sobre o que as pessoas dos séculos 9 e 10 disseram sobre elas. Analisaremos agora o século sétimo, onde essas três áreas são colocadas em contexto, ou seja, na parte central da Arábia, chamada de Hijaz, repito, do século sétimo.
Então, vamos observar o problema das fontes do islã. Este é um dos motivos pelos quais as fontes do Islã deveriam estar situadas bem no início do Islã. Mas é o que quero enfatizar aqui, pois antes de olharmos para o próprio Muhammad, precisamos olhar para a origem de todo esse material que fala sobre Muhammad e sobre a origem do Islã. Precisamos saber de onde vieram essas fontes.
Então, vamos começar com os problemas das fontes, ou seja, onde se originou o que sabemos sobre o Islã, sobre o Alcorão, sobre Muhammad e sobre o contexto? Aqui está o mapa (salvar mapa da palestra). O mapa mostra o que olhar e onde olhar, ou seja, na parte central do Oriente Médio e no norte da África. De acordo com as tradições islâmicas, segundo a narrativa islâmica padrão, o império de Muhammad alcançou toda essa parte marrom do mapa que estou apontando agora. Esta é a área que o Islã nos diz que esteve sob o controle islâmico, desde o período da morte de Muhammad em 632 d. C., quando Abu Bakr, Omar, Ulthman e Ali, os quatro Califas guiados, reinaram e o império islâmico alcançou essa área laranja. Essa é conhecida como a era de ouro do islã, conforme a narrativa islâmica padrão, esse foi um período de cerca de 30 anos – de 632 a 661 – quando Ali foi assassinado na batalha de Siffin.
A partir daqui nós temos o primeiro Califa da dinastia Umayyad que vai de 661 a 750, período que durou cerca de 90 anos. Depois o império se expandiu para essa área roxa. No mapa, essa é a área que nós realmente não estamos preocupados, pois o período que essa área foi alcançada é um período muito tardio. Estou mais preocupado com as áreas marrom e laranja que são os locais onde a história do Islã e de Muhammad ocorreu.
Agora vamos olhar para a linha do tempo, porque essa é a história oficial padrão do islã, é o que os muçulmanos falam quando fazem uma apresentação da história e desenvolvimento do Islã, concernentes as tradições islâmicas sobre o surgimento do Islã:
As tradições islâmicas nos dizem que:
Muhammad nasceu em 570 d. C., em Meca;
O Alcorão começou a ser revelado a Muhammad em 610 d. C.;
Em 621 d. C., no meio da noite, em Meca, Muhammad foi acordado pelo anjo Gabriel e ordenado a subir no lombo de um jumento/cavalo e voou nesse cavalo voador chamado Burak até Jerusalém, de onde ele ascendeu aos sete céus e encontrou com Allah e Allah disse a ele para ele rezar 50 vezes ao dia, e quando ele desceu ao quinto céu, encontrou Moisés no quinto céu e Moisés lhe perguntou: quantas vezes você foi ordenado a rezar? Ele respondeu que foi ordenado a rezar 50 vezes. Então Moisés disse, não. Volte lá e veja se você consegue reduzir o número de orações. Então ele ficou oscilando entre o quinto e sétimo céu e conseguiu diminuir de 50 para 45, depois para 20, depois para 15, depois para 10, até chegar a 5 orações. Quando ele conseguiu chegar a 5 orações, Moisés disse, ok, tá bom, pode voltar a terra, é suficiente. Esse é o número de orações que o islã pratica hoje. Isso, conforme a tradição islâmica, ocorreu em 621 d. C.
No ano seguinte, em 622 d. C., Muhammad deixa Meca e se muda para Medina ao norte de Meca e lá ele criou o primeiro califado, sob sua própria autoridade.
Em 630 d. C., ele retorna e conquista Meca e então expande seu império em direção a Arábia central e a controla.
Em 632 d. C., ele morre envenenado por sua própria esposa judia.
Essa é a vida de Muhammad, de 570 a 632 d. C. Isso é o que os Muçulmanos conhecem e ensinam e é o que conhecemos aqui no Ocidente. Essa é a única narrativa que somos ensinados, é o relato oficial do islã. Após a morte de Muhammad, Abu Bakr, seu sogro, pai de sua esposa preferida, Aisha, assume o califado e morre dois anos depois, pacificamente, em 634. Nesses dois anos ele expandiu o alcance muçulmano para além da Arábia central em direção ao norte e ao Ocidente e Oriente. Após a morte de Abu Bakr, Omar, assume o califado e então ele impetra a grande expansão, empurrando o império islâmico em todas as direções, para o Afeganistão ao Oriente, Turquia ao norte e Trípoli ao Ocidente. Ele é assassinado em 644 d. C., dez anos depois de assumir. Ulthman então assume o califado e ele é conhecido como aquele que compilou o Alcorão em sua forma completa. Então, o Alcorão que temos em nossas mãos hoje é o Alcorão que foi compilado por Ulthman, segundo a tradição e narrativa oficial do islamismo. Essa compilação ocorreu em 652 d. C. Ulthman é morto em 656 d. C., e Ali, o filho adotivo de Muhammad, assume o califado e governa por apenas 5 anos. Todos esses quatro homens governam de Medina, cidade conhecida como sendo o quartel general do império Muçulmano. Então ele é morto na batalha de Siffin em 661 d. C., pelo homem que criou a dinastia Umayyd. Essa é a história do Islã.
Perceba que o Islã foi formado completamente no Hijaz em 661 d. C., e aqui está a pergunta de 1 milhão de dólares: como todas essas informações chegaram até nós hoje? Qual a fonte ou as fontes dessas informações? De onde veio esse material? Como ficamos sabendo sobre o nascimento de Muhammad ou sobre sua morte? Como ficamos sabendo como se deu o processo de revelação do Alcorão a Muhammad? Como ficamos sabendo sobre a sucessão dos califas depois da morte de Muhammad?
Vamos olhar outra linha do tempo e vamos ver o que essa outra timeline nos informa sobre o relato oficial do islã sobre essas coisas. O interessante é que o que vamos ver nessa outra timeline vem da mesma tradição islâmica. Essa timeline diz que Muhammad morreu em 632 d. C., e como sabemos disso? Por causa da Biografia de Muhammad, conhecida como SIRA. A Sira foi escrita por Ibn Isaq. Perceba a data da morte de Ibn Isaq: ele morreu em 765 d. C. Opa. Espera um minuto, Muhammad morreu em 632 d. C. e Ibn Isaq morreu em 765 d. C., ou seja, nós recebemos a primeira Biografia de Muhammad 130 anos após sua morte. Contudo a coisa fica pior: a Biografia de Muhammad não foi escrita por Ibn Isaq como somos informados na capa da Sira. A real fonte da Biografia de Muhammad vem de outro cara, Ibn Ishan. Ibn Ishan morreu em 833 d. C. Ibn Ishan é o cara que nos fornece a história de Muhammad. Ele pega algumas informações de Ibn Isaq, mas descarta muita coisa porque não confiou nas demais informações recebidas e escreveu apenas o que quis.
Então, realmente, a Biografia de Muhammad não vem de Ibn Isaq, mas de Ibn Ishan. Então vamos descartar Ibn Isaq. Não precisamos dele porque não temos nada escrito por ele. Temos outra Biografia escrita por Al Waqidi, que também morreu em 835 d. C. Então, você percebe quanto tempo estamos da morte de Muhammad? Observe as datas. Para os muçulmanos a Sira não é importante. O que é mais importante para eles são os Hadiths, que são os ditados de Muhammad. Esses ditados foram coletados e escritos primeiramente por al-Bukari que morreu em 870 d. C. Outro coletor e escritor de Hadiths é o Sarih Muslim que morreu em 875 d. C. Outro é o at-Tirmidh que morreu em 884 d. C. Outro é Ibn Marjah que morreu em 887 d. C. Outro é o Abu Dawud que morreu em 899 d. C. Outro é o an-Nisai que morreu em 915 d. C. Esses são os Hadiths de Muhammad. Gente, são cerca de 240 anos após a morte de Muhammad.
Mas essas não são todas as tradições, existem outras formas de tradições conhecidas como Tafsir e o Takrik, os comentários e as histórias, e o primeiro a escrever esse gênero literário foi Al-Tabari que morreu em 1923, ou seja, no século 20. Logo, recebemos algo escrito sobre Muhammad ou sobre o islã primitivo ou sobre o surgimento do islã em cerca de 200 anos após a morte de Muhammad.
Vou colocar Abdul Al Malik aqui porque ele surge em 692 d. C., porque foi ele quem introduziu o nome “Muhammad”. Foi ele quem colocou esse nome no Domo da Rocha, em inscrições e em moedas. Vamos falar sobre ele depois, mas estamos falando de 141 anos antes de Ibn Ishan escrever a Biografia. Mas há 140 anos entre o nome de Muhammad ter sido cunhado e a escrita da primeira Biografia. Mas foi esse povo, o Abásside, que chegou ao poder em 749-750 que nos deu o “Muhammad” que temos hoje. Eles quem introduziram a narrativa oficial do Islã que conhecemos hoje. Antes desse período nós não temos a mesma narrativa, porque? Porque vamos olhar o que aconteceu antes da dinastia Abásside para descobrir o que aconteceu.
Então, dando uma recapitulada, temos o seguinte:
Muhammad foi revelado 84 anos após os Abássides terem criado ele; 141 anos após ele ter sido introduzido/apresentado e ainda 201 anos após ele ter supostamente vivido. Percebe o tamanho e a gravidade do problema? Eu vou ter que provar isso? Claro que sim!
Ainda tem mais, olhe para a distância e as direções opostas desses diferentes autores que apresentam as tradições islâmicas desses acontecimentos dessas duas cidades, Meca e Medina, na parte central da Arábia no lado ocidental. Todos os escritores dessas tradições operam em Bagdá, que fica a 1.200 milhas ao norte, ou seja, Ishan o que escreveu a Sira é de Basra, mas ele cresceu no Cairo, Egito. Perceba que ele viveu entre 900 a 1.200 milhas de distância. Al-Bukari, que escreveu os hadiths, é de Bukara, que fica no Uzbequistão, que fica 2.600 milhas de distância de Meca e Medina. Al-Tabari, que escreveu o Tafsir e o Tafrik, é do Tabagistão, que fica a 1.700 milhas do Hijaz, região de Meca e Medina.
Nenhum desses escritores tradicionais viveram ou trabalharam em Meca e Medina, nem foram contemporâneos dos eventos ou do profeta. Eles eram de muito distante, ao norte de Meca e vieram do ocidente e oriente de Bagdá, todos da região norte, onde os Abássides se originaram. Então, olhando para o lado norte do Hijaz, vamos recapitular o que já dissemos até agora.
Perceba que quando olhamos para essa hegemonia do norte da tradição islâmica que é a fonte de praticamente tudo o que aconteceu em Meca e Medina, na região conhecida como Hijaz (parte da Arábia central) e ainda o fato de todos os escritores dessas tradições terem trabalhado em Bagdá, que fica a 1.100 milhas (cerca de 1.771 km) ao norte. Toda essa herança nortista está onde a dinastia Abásside se originou e, pior ainda, todos os escritores dessas tradições trabalharam e viveram nos séculos 9 e 10, logo a conclusão lógica é que todos eles escreveram seus materiais das tradições islâmicas centenas de milhas de distância e centenas de anos depois dos eventos.
O problema central é esse: o material que narra os eventos sobre Muhammad e sobre o surgimento do Islã foram escritos por pessoas que viveram e escreveram seus materiais muitos anos depois dos eventos e muito distante geograficamente dos locais onde supostamente os eventos ocorreram. Então, esse material, todo ele, perde credibilidade.
E sobre o Novo Testamento?
Não temos o mesmo problema com o Cristianismo. Se contextualizarmos, não temos os mesmos problemas com os Hadiths, nem com a Sira, nem com os Tafsirs, nem com os Tariks sobre Jesus, porque todos os 4 gêneros literários do islã existem no Cristianismo, por isso a contextualização. Agora, sobre as fontes cristãs, vou usar uma análise bem franca, e vou utilizar as datas mais liberais que tenho, apenas para mostrar a diferença.
De acordo com o Novo Testamento, de acordo com a nossa tradição cristã, todos concordam que Jesus morreu em 33 d. C. Jesus morreu sob o governo de Tibério César. Recebemos essa informação de Tácito, historiador Romano, que nos informa essa data. O livro de Atos, poderia ser comparado com os Tariks, as histórias, como no caso do islã. O livro de Atos é a história da Igreja Primitiva/apostólica, escrita por Lucas entre 52 e 62 d. C., o que representa cerca de 20 a 30 anos após a morte de Cristo. As cartas do Apóstolo Paulo, os Tafsirs, foram escritas entre 48 e 65 d. C., o que significa entre 15 a 34 anos após a morte de Cristo. O evangelho de Marcos, que comparamos com a Sira e os Hadiths, ditados de Jesus, ou seja, o Hadith e a História (biografia) de Jesus. Marcos escreveu entre os anos 70 e 80, o que significa mais ou menos 37 anos após a morte de Cristo. Mateus e Lucas, que também escreveram a Sira e o Hadith de Jesus, morreram no Irã no ano 80. Isso significa 47 anos após a morte de Jesus. Por fim, temos João, a última Sira e Hadith foi escrita por ele. Ele morreu por volta do ano 90 d. C., o que corresponde a 57 anos após a morte de Cristo.
Então, entre 29 a 57 anos após a morte de Cristo, temos todo o Novo Testamento. Não se tem como comparar a Sira e o Hadith do islã com a “Sira” e o “Hadith” do Cristianismo. Para piorar a situação das fontes do islã, os escritores do Novo Testamento viveram no mesmo lugar e na mesma época de Jesus e eles ou foram testemunhas oculares dos fatos e conheceram Jesus pessoalmente ou conheceram pessoalmente as testemunhas oculares dos fatos. Você consegue perceber a diferença?
[ Nota do tradutor: tenha ainda em mente que existe uma interpretação muito forte sobre a antiguidade dos livros do NT, a saber, a ideia de que todos os livros do NT devem ter sido escritos ANTES do ano 70 d. C., com exceção do Apocalipse, pois em nenhum lugar do NT é mencionada a invasão romana de Jerusalém no ano 70 D. C., onde o General Romano Tito, cercou Jerusalém, invadiu a cidade, destruiu o templo e matou milhares de judeus, levando o restante dos sobreviventes cativos. Como este evento catastrófico não é mencionado em nenhum lugar do NT, logo, todo o NT deve ter sido escrito antes deste evento].
Quando comparamos os escritos e os escritores do islã com os do Cristianismo, vemos que enquanto os escritos do Cristianismo foram escritos entre 15 a 60 anos após a morte de Cristo, no islã, os escritores viveram a centenas de milhas ao norte e escreveram a cerca de 200 a 300 anos depois.
Qual fonte tem mais autoridade?
Imagine se no Cristianismo as fontes tivessem sido escritas no terceiro século? Os críticos cairiam em cima, pois Jesus só apareceria como personagem histórico no terceiro século.
No caso do islã, como podemos confiar, se as fontes do islã são tão tardias? Como essas fontes podem ser confiáveis com uma distância temporal e geográfica tão grande? Como elas podem representar com fidelidade o que aconteceu no século sétimo?
Lembre-se que eu perguntei: quem criou a biografia de Muhammad? A primeira fonte foi de um livro escrito por Ibn Isaq, mas depois foi descoberto que quem realmente escreveu o livro foi Ibn Ishan, muito tempo depois, e que Ibn Ishan pegou apenas algumas informações de Ib Isaq e descartou o resto como não fidedigno. Esse livro foi traduzido para o inglês por Alfred Guillaume (traduzido do francês). Mas não havia nada escrito sobre Muhammad antes da Sira. Contudo, nos dias atuais, de onde veio essa Sira? Quem descobriu esse material e o apresentou ao Ocidente? Pois não tínhamos nada sobre esse material até 1819. A pessoa que descobriu, editou e apresentou esse material ao Ocidente foi Heirinch Ferdinand Wustenfeld. Ele compilou a Sira quando pesquisou sobre o assunto em 4 universidades da Alemanha e depois esse material foi traduzido para o inglês por Guillaume.
Em 1967, Fouad Sergin compilou outra Sira de documentos encontrados no Marrocos. Ferdinand compilou esse material da Sira de Ibn Ishan há apenas 160 anos atrás, mil anos depois dos eventos. Então, a principal fonte de informações sobre o profeta do Islã foi compilado há 160 anos e mil anos depois dos pretensos fatos.
Alguns eruditos, chamados de orientalistas, afirmam que o islã, como o conhecemos hoje, não existia no século sétimo, mas se desenvolveu por um período de 2 ou 3 séculos e, sendo assim, o Alcorão não foi revelado a um homem no século sétimo, por um período de 22 anos, mas por um período de 50 a 100 anos.
Conclusão: A história do islã, pelo menos no tempo do califa Abdul Malik e antes, é uma fabricação posterior.
Fonte: https://youtu.be/walncNs3sOw?si=QXnsz_bC--73nizz
Tradução Walson Sales
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