domingo, 16 de fevereiro de 2025

Diálogo com um médico cético

 Por Walson Sales 

Como já fiz anteriormente em outros momentos deste livro, venho contar mais um encontro e diálogo que tive com um cético. Esse diálogo, completamente intempestivo, inesperado e atípico, me pegou de surpresa, confesso. O que demonstra a necessidade de estarmos sempre atentos e preparados, com as nossas leituras em dia e em um espírito de alerta. Esse diálogo demonstra também o valor da apologética cristã no testemunho, no evangelismo e no debate respeitoso, bem como nos garante que ninguém, de qualquer área do conhecimento, poderá lhe derrotar se você estiver com as informações certas, no contexto certo e fazer as observações e perguntas corretas.

Pois bem, há alguns anos, fui fazer a renovação da minha habilitação. Realizei todos os procedimentos administrativos e me dirigi para uma clínica em Paulista/PE, cidade próxima de onde resido. Chegando lá, entrei na clínica e senti um clima pesado. Antes de entrar, já escutei meio que uma discussão acalorada. Quando entrei, a discussão cessou e tudo estava em um silêncio mortal. Havia ali três pessoas no recinto. Um homem muito alto e bem corpulento, em pé, encostado na parede. Uma senhora na recepção, atrás do balcão. Estava assustada e com cara de choro. Tinha também um homem no sofá, mais jovem que eu, mas também um pouco perplexo. Fiquei sem entender, mas como sempre, tentei fazer a leitura do ambiente para ver se era algum assalto em andamento e não identifiquei isso. Cumprimentei com o usual bom dia e todos responderam. Me dirigi ao balcão da recepção e me identifiquei dizendo que estava ali para realizar o exame para a renovação da habilitação. A recepcionista solicitou minha identidade e o agendamento do Detran/PE o que forneci de imediato. Ela disse que estava confirmado o exame e que agora eu só deveria esperar o médico chamar. Agradeci e me dirigi à parede, onde me encostei e fiquei olhando cada um direto nos olhos. 

O silêncio durou cerca de 30 segundos e, de repente, o gigante que também estava em pé, começou a falar. Foi ali que tudo fez sentido. Eles estavam em um debate caloroso sobre questões religiosas e esse homem corpulento era completamente anticristão, provavelmente ateu e começou a falar de forma totalmente agressiva contra a senhora da recepção. Então entendi tudo. Ele era ateu e a senhora da recepção era cristã e ele estava atacando a fé cristã dela. O homem sentado no sofá era um cliente que, como eu, estava ali para o exame de renovação da habilitação.

Ele falava alto, quase gritando. Falou coisas graves contra a fé cristã que, caso fossem verdade, o Cristianismo não passaria de uma estória inventada. Fiquei ali, catalogando em minha mente, as inúmeras acusações contra a fé cristã, contra a Bíblia, contra a história do Cristianismo e contra a pessoa de nosso Senhor Jesus Cristo. Fiquei calado, ouvindo tudo. Ele disse coisas nessa ordem:

A senhora é uma ignorante, vive sendo enganada na igreja. Não conhece história. Passa o dia todo aí nesse balcão lendo um livro cheio de mentiras. A senhora é uma semianalfabeta, por isso vive sendo enganada por esses pastores enganadores que só querem o seu dinheiro. [a irmã resmungava, balbuciava algo do tipo “terra seca”, mas não tinha uma defesa real contra as acusações dele e ele prosseguia]. Então ele saiu das acusações pessoais e começou a fazer acusações concretas que poderiam ser refutadas. Ele começou a dizer que Jesus não existiu, que Jesus é um personagem inventado e que o Novo Testamento foi criado, escrito e inventado no Concílio de Nicéia em 325 d. C., e que a própria igreja havia surgido ali com a invenção do Novo Testamento. 

À medida que ele falava, ele olhava para o homem sentado no sofá e dizia algo do tipo, “não estou certo?” e o homem, meio assustado, acenava positivamente com a cabeça. Fiquei ali, meu coração acelerado e uma vontade incontrolável de entrar no diálogo, mas pensei, “ele está visivelmente alterado e pode ser que se eu entrar e começar a questionar aquelas informações completamente equivocadas, ele poderia me excluir da conversa com uma frase do tipo ‘quem te perguntou alguma coisa?’” Fiquei calado e em espírito de oração dizendo, Jesus, me coloca no centro dessa conversa. Lembro que na hora me lembrei de um texto bíblico em I João 5: 14 que diz “E esta é a confiança que temos nele: que, se pedirmos alguma coisa, segundo a sua vontade, ele nos atende.” E não demorou muito, aquele homem me olhou e perguntou: o que é que o senhor tem a dizer sobre tudo o que falei aqui?

Ha-ha, bingo! Estava dentro da conversa e por convite. Agora ninguém poderia me expulsar. Respondi bem serenamente: o senhor quer realmente saber o que penso sobre sua atitude e sobre o conteúdo de suas palavras? Ele disse que sim, então comecei. Disse a ele, 

Olhe, na minha humilde opinião, o senhor é um total estúpido, tanto na forma quanto no conteúdo. O senhor não deveria falar assim com uma mulher, isso é inaceitável. Segundo, o senhor é um completo ignorante sobre o Cristianismo histórico e sobre a Bíblia. O senhor mencionou coisas completamente falsas e facilmente refutáveis sobre a fé cristã, coisas que beiram a irresponsabilidade e posso provar. [ele disse que me desafiava a provar]. Então continuei, olhe, o senhor disse que Jesus não existiu como personagem da história, confirma? Ele confirmou. Então, prossegui, olhe, Jesus é citado por historiadores romanos, judeus, gregos e pagãos e tudo fora do Novo Testamento e essas citações, todas elas, são do primeiro ou do segundo século, ou seja, muitos anos antes do Concílio de Nicéia acontecer. Se seguirmos o que essas fontes históricas mencionaram sobre o Jesus histórico e compararmos o que o Novo Testamento registra sobre Jesus, podemos dizer com 100% de certeza que estamos falando da mesma figura histórica antiga e antes do Concílio de Nicéia. 


Veja o que essas fontes extra bíblicas falaram sobre Jesus: 

1 – Viveu durante o tempo de Tibério César; 

2 – Ele viveu uma vida virtuosa; 

3 – Realizou Maravilhas; 

4 - Teve um irmão chamado Tiago; 

5 – Foi aclamado como Messias; 

6 – Foi crucificado a mando de Pôncio Pilatos; 

7 – Foi crucificado na véspera da Páscoa Judaica; 8 – Trevas e um terremoto aconteceram quando ele morreu; 

9 – Seus discípulos acreditaram que ele ressuscitara dos mortos; 

10 – Seus discípulos estavam dispostos a morrer por sua crença; 

11 – O cristianismo espalhou-se rapidamente, chegando até Roma; 

12 – Seus discípulos negavam os deuses romanos e adoravam Jesus como Deus; 


fontes: Josefo; Tácito; Plínio, o jovem; Flegon; Talo; Suetônio; Luciano; Celso; Mara Bar-Serapião; e o Talmude de Babilônia.

Sendo assim, sua afirmação de que Jesus não é um personagem da história não passa de uma afirmação completamente deslocada da realidade. A maioria dessas fontes que mencionam Jesus são fontes hostis e inimigas do Cristianismo. Então, por favor, tome mais cuidado quando for utilizar informações retiradas da internet sem um escrutínio mais rigoroso. [ele aqui já estava mais humilde, falando mais baixo e a irmã disse algo que não entendi, seguido de um RA-RAI...]

A segunda afirmação ousada que o senhor fez foi a de que a própria igreja foi criada e inventada no Concílio de Nicéia, em 325 d. C., e eu não preciso ir muito longe para provar a falsidade dessa afirmação. Se olharmos para a história simples do Império Romano, veremos que durante o governo de Nero de 54 a 68 d. C., ocorreu um incêndio em Roma no ano de 64 d. C., que devastou 70% da cidade. Nero colocou a culpa nos Cristãos e a partir disso decorreu a primeira grande perseguição aos Cristãos, que o senhor acabou de dizer que não existiam até serem inventados no Concílio de Nicéia em 325 d. C., informação totalmente indigna de crédito. Como os cristãos não poderiam existir se são citados lá, no olho do furação? Tendo inclusive dois apóstolos, Pedro e Paulo, sendo martirizados nessa primeira perseguição. O que o senhor tem a dizer sobre isso? Ao que ele respondeu que iria verificar as fontes que ele utilizou.

E continuei, o senhor fez outra afirmação ousada e totalmente equivocada e inverídica na sua fala que foi a de que os documentos do Novo Testamento também foram criados e inventados em Nicéia em 325 d. C., e apesar de ser um assunto mais difícil e mais acadêmico, também é uma informação fácil de ser demonstrada falsa. Pense comigo, uma amostra simples do papel desempenhado pelos pais da igreja primitiva prova que essa informação é falsa. Se pegarmos os escritos dos pais da igreja primitiva até 325 d. C., veremos que eles citaram o Novo Testamento mais de 36 mil vezes. Como pode um documento ser citado tão extensivamente antes de existir como documento histórico? Só Orígenes, pai da Igreja primitiva que faleceu em 254 d. C., citou o Novo Testamento 18 mil vezes em seus escritos. Um segundo detalhe importante mas embaraçoso para o senhor é o papel desempenhado pelos três pais apostólicos, Clemente de Roma, Policarpo de Esmirna e Inácio de Antioquia. Estes pais, cujas cartas são datadas entre 95 a 110 d. C., citam 25 dos 27 livros do Novo Testamento. Outro dado ainda mais interessante é que em nenhum lugar do Novo Testamento a queda de Jerusalém é citada. O que essa informação ressalta para nós? Todo o Novo Testamento foi escrito antes da queda de Jerusalém no ano 70 d. C., quando o General Romano Tito, durante a primeira revolta judaica, cerca Jerusalém, destrói o Templo, a cidade e mata os judeus, levando o restante em cativeiro. Seria impossível alguém escrever sobre eventos em Jerusalém depois da queda da cidade e do Templo e não citar estes eventos que marcaram a história da descendência de Abraão. Se este evento não é citado em nenhum lugar no Novo Testamento, logo o Novo Testamento foi escrito antes dessa tragédia.

Terminei com a pergunta: o que o senhor tem a dizer sobre isso? A impressão que tive é que ele não esperava que Jesus iria levar alguém ali que já leu e escreveu sobre esses assuntos e que Jesus lembraria com riquezas de detalhes sobre o tema. Ele estava atônito. A irmã com um sorriso no rosto. Ao que ele respondeu: o senhor pode me acompanhar? Me siga, por favor. Falou e seguiu em direção a um corredor, abriu uma porta, entrou, me deu passagem, me pediu pra sentar e sentou na cadeira por trás da mesa e disse

 “irmão, essa irmã é fanática, fica o dia todo pregando o evangelho para as pessoas que vem aqui e insiste, é agressiva e eu não aguento mais, estou tentando dar um basta nisso.” 

Ao que respondi: olhe, o senhor não pode tratá-la do jeito que tratou. Isso fica feio pra o senhor e ainda com informações totalmente fora de contexto e falsas. Por isso resolvi entrar na conversa. Ele disse que entendia, pediu desculpas e me pediu o documento do Detran, e assinou e disse tá aprovado, tá liberado. Foi aí que percebi que ele era o médico. Agradeci e sai.

Pois bem, esse é o relato. Muitas coisas que ele disse eu não precisei abordar porque até onde fui foi suficiente para dar um basta naquela situação vexatória. Contudo, confesso que fiquei feliz em poder representar bem a fé cristã e retirar algumas objeções contra a fé cristã da mente dele. Na saída, cumprimentei o homem do sofá, que eu havia passado na frente dele no atendimento e a irmã da recepção e fui embora. Quando eu estava me dirigindo para a parada de ônibus, pois estava sem carro na época, escutei alguém me chamando na rua. Era a irmã da recepção. Ela veio me agradecer, quase chorando, dizendo que estava sofrendo na mão daquele homem. Fui direto com ela e disse, irmã, a senhora não pode impor o evangelho às pessoas. Seja gentil e fale para as pessoas que estão abertas a ouvir. Se ele não se abriu para ouvir, ore por ele e não insista. Outra coisa, preserve o seu trabalho, pois ele pode lhe demitir e colocar outra pessoa no seu lugar. Peça sabedoria a Deus e Deus vai lhe orientar. Ela agradeceu e voltou.

Pronto, este é mais um relato em primeira mão de algo que aconteceu comigo e espero que também sirva para edificar a fé dos leitores.

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