O conceito de concorrência divina em Luís de Molina é um aspecto crucial de sua teologia que busca explicar como a ação de Deus e o livre arbítrio humano podem coexistir sem conflito. Essa ideia é parte do esforço mais amplo de Molina para reconciliar a providência divina com a liberdade humana e é um conceito importante na discussão sobre a relação entre a graça divina e o livre arbítrio.
DEFINIÇÃO DE CONCORRÊNCIA DIVINA
Concorrência divina é o conceito de que Deus coopera com as ações humanas sem violar a liberdade das criaturas. Em outras palavras, é a maneira pela qual Deus está presente e atua em todas as ações das criaturas, tanto boas quanto más, enquanto ainda permite que essas ações sejam realizadas de acordo com o livre arbítrio das pessoas.
Aspectos Principais da Concorrência Divina
1. Cooperação na Ação:
Deus não é apenas um observador passivo das ações humanas, mas atua ativamente em cada ação. A concorrência divina implica que Deus é uma causa eficiente que trabalha juntamente com a causa secundária (ou seja, a ação humana). Ele contribui para a realização das ações sem forçar ou coagir a vontade humana.
2. Preservação da Liberdade:
A ação divina cooperativa é compatível com o livre arbítrio. Deus não causa diretamente cada ação humana, mas oferece suporte e orientação que não interfere na liberdade das decisões das criaturas. Essa cooperação garante que as escolhas feitas pelos seres humanos sejam verdadeiramente livres, apesar da presença e influência contínua de Deus.
3. Sustentação do Mundo:
Além de cooperar em ações específicas, a concorrência divina também se refere à maneira pela qual Deus sustenta o mundo em funcionamento. Deus não apenas cria o mundo e depois se afasta, mas continua a sustentar e coordenar as ações dentro da criação, garantindo a ordem e o funcionamento contínuo do universo.
4. Relação com a Providência:
A concorrência divina é uma parte da providência de Deus. Deus não apenas conhece todas as possibilidades e resultados (como no conhecimento médio), mas também está ativamente envolvido no direcionamento e sustentação das ações das criaturas para cumprir Seus propósitos divinos.
CONCORRÊNCIA NEUTRA
Dentro do conceito de concorrência divina, há um sub-conceito importante conhecido como concorrência neutra. A concorrência neutra refere-se ao tipo de cooperação divina que não impõe uma direção específica ou resultado à ação humana, mas simplesmente sustenta e permite a realização da ação de acordo com a escolha livre do agente.
Características da Concorrência Neutra
1. Neutralidade em Relação ao Resultado:
A concorrência neutra implica que Deus coopera com as ações humanas sem favorecer um resultado específico. Deus não interfere diretamente na escolha ou nos resultados da ação; Ele simplesmente garante que as capacidades e os meios para que a ação aconteça estejam disponíveis.
2. Apoio à Liberdade:
A ideia de concorrência neutra é importante para assegurar que a liberdade humana não seja comprometida. Deus fornece a força e os recursos necessários para a realização das ações humanas, mas não determina nem controla os resultados específicos das escolhas humanas.
3. Sustentação da Ordem:
Enquanto a concorrência divina pode envolver uma cooperação mais ativa na realização de propósitos específicos, a concorrência neutra refere-se a uma forma de sustentar e permitir a ordem natural e a realização de ações sem direcionar ou influenciar diretamente o conteúdo das escolhas livres.
Exemplo de Concorrência Neutra
Suponha que alguém decida iniciar um projeto pessoal, como escrever um livro. Segundo o conceito de concorrência neutra, Deus coopera fornecendo as habilidades cognitivas e a energia necessária para que o projeto possa ser realizado, mas não dirige o conteúdo do livro nem interfere na decisão do autor sobre o que escrever. Deus garante que a capacidade e as condições para realizar o projeto estejam presentes, mas a escolha do conteúdo e os resultados do projeto dependem da decisão e do livre arbítrio do autor.
CONCLUSÃO
A concorrência divina, de acordo com Luís de Molina, é uma tentativa de conciliar a soberania de Deus com o livre arbítrio humano. Dentro desse conceito, a concorrência neutra é uma forma de Deus cooperar com as ações humanas de maneira que respeita plenamente a liberdade das criaturas, sem determinar ou influenciar os resultados das suas escolhas. Esse conceito é essencial para compreender a interação entre a ação divina e o livre arbítrio na teologia de Molina.
Walson Sales.
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