quarta-feira, 19 de fevereiro de 2025

Richard Coords, “Lógica Circular no Calvinismo”

Os calvinistas frequentemente usam o próprio calvinismo para provar o calvinismo, o que é conhecido como “Lógica Circular”. Isso acontece quando se parte de uma premissa já aceita como verdade. Por exemplo, seria aceitável que dois cristãos discutindo o calvinismo concordem sobre a existência de Deus e a autoridade das Escrituras. No entanto, essa premissa não pode ser assumida em um debate com um ateu. É como dizer: “Sabemos que Deus existe e que a Bíblia é verdadeira, então por que você é ateu?” O cristão deve primeiro provar que Deus existe e que a Bíblia é verdadeira. Da mesma forma, ao debater com cristãos não calvinistas, os calvinistas não devem assumir o “determinismo” como verdade sem antes prová-lo. Muitas vezes, eles fazem isso sem perceber, assumindo os princípios do calvinismo como evidência e questionando por que os não calvinistas duvidam do calvinismo. Vejamos alguns exemplos.

Exemplo 1: Quando se afirma que “o calvinismo restringe a salvação apenas aos eleitos”,[126] os não calvinistas podem questionar: “Então, você está dizendo que Satanás quer condenar a todos, mas Deus não quer salvar a todos?” Os calvinistas respondem que isso é verdade para qualquer um que não seja um "universalista". Mas por que? Em que premissa os calvinistas baseiam essa conclusão?

No calvinismo, se Deus realmente deseja algo, isso é evidenciado pelo que Ele consegue. Se Deus deseja algo, Ele o realiza. No entanto, eu, como não calvinista, acredito que Jesus realmente quer que todos O conheçam, mas isso não significa que Ele força Seu amor sobre todos. Acredito que Deus quer que todos sejam salvos livremente, sem coerção. Os calvinistas assumem sua própria premissa como fato para chegar a uma conclusão calvinista. Para evitar a Lógica Circular, os calvinistas devem primeiro provar que Deus sempre obtém o que deseja, em vez de simplesmente assumir isso como verdade. Não calvinistas citam Ezequiel 18:23 e Mateus 6:10 para argumentar que Deus testemunha que Sua vontade ainda não sendo realizada na Terra como no Céu, mas que um dia o será.

Exemplo 2: Se você acredita que Deus é onisciente e conhece todas as coisas, então, segundo o calvinismo, você deve acreditar no determinismo. Afinal, se Deus sabe o que você fará amanhã e Seu conhecimento é perfeito, como você pode evitar fazer o que Ele sabe que acontecerá? E se você não pode evitar, como é livre no sentido de livre-arbítrio? Os calvinistas então argumentam que, se você acredita em livre-arbítrio, deve ser um “Teísta Aberto”.

Em outras palavras, a premissa calvinista é que a onisciência divina está ligada ao determinismo, ou seja, Deus deve saber o que decreta e, como Ele decreta tudo, deve saber tudo. Para evitar a Lógica Circular, os calvinistas devem provar, e não apenas assumir, que o conhecimento de Deus está restrito apenas ao que Ele faz ou decreta. Não calvinistas acreditam que Deus sabe o que você fará amanhã porque Ele existe fora do tempo, na eternidade. O erro está em confundir certeza com necessidade. Deus sabe com certeza o que faremos amanhã, mas o que escolheremos não é necessário, pois nós fazemos nossas próprias escolhas. Assim, o conhecimento de Deus não causa nossas escolhas, mas Ele está ciente de quais serão essas escolhas.

O desafio principal ao promover o calvinismo é fazer com que o não calvinista aceite suas premissas. Quando você rejeita a premissa assumida, o calvinismo não parece necessário, o que frustra os calvinistas. Portanto, é essencial isolar e identificar a premissa central de cada argumento calvinista.

Exemplo 3: Se você rejeita o calvinismo, então você estaria rejeitando a soberania divina, o que implicaria que Deus não está mais no controle.

O que os calvinistas pressupõem? Eles assumem que Deus não optou por criar seres autônomos e livres. Na visão calvinista, se houvesse uma única molécula no universo fora do controle de Deus, essa molécula poderia hipoteticamente desafiar Deus.[127] De fato, alguns calvinistas acreditam que qualquer cristão que rejeite o determinismo exaustivo pode ser um ateu.[128] Para evitar a Lógica Circular, os calvinistas não devem assumir que Deus deve controlar todos os aspectos para manter o controle. Eles devem provar sua premissa de que Deus não pode ser soberano sem determinismo exaustivo. Como não calvinista, não acredito que Deus precise determinar o que os demônios ou os pedófilos pensam e fazem para ser soberano.

Exemplo 4: No Arminianismo, aqueles que creem em Cristo o fazem porque há algo diferente agindo sobre eles.

Ao afirmar isso, os calvinistas pressupõem uma causa externa que diferencia uns dos outros, o que pressupõe determinismo para provar determinismo. Para evitar a Lógica Circular, os calvinistas não devem assumir uma causa externa, mas considerar a premissa não calvinista de uma causa interna, onde um indivíduo é dotado por seu Criador com autonomia de razão, permitindo que sua própria vontade escolha um caminho ou outro [sob a ação da graça].

Exemplo 5: “Se a decisão final sobre a salvação dos pecadores caídos dependesse exclusivamente deles mesmos, perderíamos toda a esperança de que alguém seria salvo.”[129]

Em outras palavras, sem a Graça Irresistível (na qual os calvinistas afirmam que Deus toma a “decisão final” por nós), ninguém escolheria Cristo e seria salvo. Mas por que assumir isso como certo? A resposta é que os calvinistas acreditam — como uma premissa — que a humanidade está tão caída e depravada que não pode confessar seus pecados e aceitar o perdão oferecido por Deus. Para evitar a Lógica Circular, os calvinistas devem questionar sua própria premissa. Algum apóstolo já disse que o homem caído é completamente incapaz de acreditar no evangelho sem a Graça Irresistível? Certamente, o homem caído não pode manter perfeitamente o padrão moral de Deus, mas pode reconhecer suas falhas e aceitar a redenção oferecida por Deus.

Exemplo 6: “De onde vem a inclinação do homem para pecar? Se ele foi criado com um desejo de pecado, isso compromete a integridade do Criador. Se ele foi criado sem esse desejo, então precisamos entender de onde surgiu esse desejo.”[130]

Os calvinistas assumem uma causa externa, em vez de uma causa interna. Eles não consideram que o desejo de Adão e Eva de pecar veio de dentro deles mesmos como criaturas autônomas. Para evitar a Lógica Circular, os calvinistas não devem assumir o determinismo como certo. Não calvinistas acreditam que Deus criou os seres humanos com autonomia e inteligência para serem cuidadores adequados dos caminhos de Deus. Claro, os não calvinistas precisam provar suas próprias premissas, mas o ponto é que os calvinistas apresentam o debate como se a única possibilidade fosse o determinismo, quando exatamente essa é a questão debatida. Em outras palavras, você não pode simplesmente pressupor o que está tentando provar. Cada lado tem suas próprias premissas, que devem ser sustentadas e não apenas assumidas.

Silogismos

Um silogismo é uma estrutura lógica que envolve duas premissas seguidas por uma conclusão. Muitos erros lógicos cometidos por calvinistas poderiam ser evitados se usassem argumentos lógicos, como silogismos bem construídos. Frequentemente, calvinistas apresentam apenas uma premissa, seguida de várias conclusões, resultando em falácias lógicas, como o “falso dilema”. Aqui está um exemplo de um silogismo lógico:

Premissa 1: Efésios 1:3 afirma que Deus nos abençoou com “toda” bênção espiritual nos lugares celestiais “em Cristo”.

Premissa 2: A regeneração e a habitação do Espírito Santo são dois exemplos das bênçãos espirituais de Deus.

Conclusão: Logo, a regeneração e a habitação do Espírito Santo devem ser “em Cristo”.

Claro, silogismos podem levar a conclusões errôneas se as premissas forem defeituosas, mas o uso cuidadoso de silogismos bem construídos pode melhorar a argumentação e reduzir falácias.

Tradução Walson Sales

Fonte:

Richard Coords, “Circular Logic” - Society of Evangelical Arminians

Referências:

126 R.C. Sproul, Chosen By God (Wheaton, Illinois: Tyndale House Publishers, Inc., 1986), 33.

127 “Se houver uma única molécula neste universo que esteja solta e totalmente fora do controle de Deus, não podemos garantir que nenhuma das promessas de Deus será cumprida.” R.C. Sproul, Chosen By God (Wheaton, Illinois: Tyndale House Publishers, Inc., 1986), 26-27.

128 Ibid., 25.

129 R.C. Sproul, Chosen By God (Wheaton, Illinois: Tyndale House Publishers, Inc., 1986), 33.

130 Ibid., 29.

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