Por Walson Sales
Nesta aula, vamos abordar algumas objeções ao Teísmo Cristão e à Bíblia, notadamente ao Antigo Testamento (AT), à luz de tudo o que já tratamos até aqui e à luz do Argumento Cumulativo a favor da fé cristã. Temos que considerar seriamente as críticas, preocupações e dúvidas concernentes ao AT, que são levantadas contra a Bíblia e contra a lógica da visão de mundo cristã. Apesar de esse tema ser extenso, abordarei apenas certos aspectos dos problemas levantados, tentando fornecer uma chave para que o aluno do curso possa entender as questões e responder às críticas.
Existem áreas e temas do AT que não podem ser aceitos pelos críticos e incrédulos por razões morais óbvias, mas, como veremos, tais críticas são baseadas em interpretações falsas ou superficiais das passagens em questão. É importante termos um esboço mental dessas críticas e uma resposta bem fundamentada. O segredo é entender as passagens difíceis do AT dentro de seu contexto histórico, cultural, social, político, religioso e linguístico, buscando compreender as mentes das pessoas da época, sem projetar sobre elas o nosso contexto moderno. Precisamos nos transportar para o tempo e o lugar delas, ao invés de trazê-las para o nosso presente. Existe um abismo geográfico, temporal e cultural enorme que precisa ser colocado em perspectiva para que as passagens do AT sejam interpretadas de maneira fiel. Esse é exatamente o erro dos críticos: tentam interpretar passagens isoladas do AT fora de seu contexto múltiplo e aplicá-las aos dias de hoje sem uma chave hermenêutica adequada e honesta.
Precisamos ler o texto dentro do contexto, observando como ele se relaciona com outras passagens (contexto paralelo próximo, distante ou profético, etc.) e com o contexto imediato, para trazer uma resposta simples, rápida e objetiva. Há muitos autores especializados no AT que tratam desse tipo de crítica, como Paul Copan, Richard Hess, Gleason Archer Jr., Clay Jones, William Lane Craig, entre outros. Para você ter uma ideia, Gleason Archer lia em 25 idiomas e dialetos, e fez parte da comissão de tradução das tábuas de Ebla em cuneiforme babilônico. Ele é um erudito de ponta.
Vamos abordar algumas das passagens mais recorrentes utilizadas pelos críticos (fora de contexto) e explicá-las em seus contextos para verificar os resultados. Um grupo de neoateus, conhecidos como “Os 4 Cavaleiros do Apocalipse”, é composto por Richard Dawkins, Sam Harris, Daniel Dennett e Christopher Hitchens (este último falecido recentemente de câncer no esôfago). Qual é a diferença entre os neoateus e os ateus tradicionais? Por que o termo “neoateus”? Os novos ateus são radicais, inimigos ferozes da religião em geral (especialmente da fé cristã), e fazem proselitismo a favor do ateísmo, com o objetivo de ganhar adeptos. O próprio Richard Dawkins fez duas declarações bastante graves. Uma está em seu livro Deus, um Delírio, onde ele afirma que espera que quem leia o livro se torne ateu. A outra está em uma entrevista que concedeu à Revista Superinteressante em 2007 (edição 242 de agosto de 2007), em que ele disse que seu sonho é a destruição de todas as religiões do mundo.
A principal crítica dos neoateus é contra um entendimento superficial do Deus do AT (lembra do argumento do espantalho?). Sam Harris escreveu O fim da fé, Richard Dawkins escreveu Deus, um Delírio, Christopher Hitchens escreveu Deus não é grande (uma alusão clara ao brado dos terroristas islâmicos quando gritam "Allahu Akbar", ou seja, "Deus é grande"), e Daniel Dennett escreveu Quebrando o encanto. Todos esses livros são ferozes ataques à religião, que eles consideram a raiz de todos os males da sociedade, especialmente após os ataques de 11 de setembro. Contudo, o alvo principal deles é a fé cristã. (Pretendo gravar uma aula sobre a acusação de que a religião é a raiz de todos os males). O grande problema dessas críticas é que elas são superficiais, rasas, injustas, fora de contexto e desonestas.
Vamos abordar algumas dessas objeções. Por exemplo, Sam Harris disse que “a Bíblia não é confiável e é de fato imoral porque ordena que os pais apedrejem os filhos”. Ele argumenta que isso significaria, nos dias de hoje, que devemos executar nossos filhos apenas porque foram a uma aula de ioga, e que, por isso, o Deus da Bíblia é falso. Veja como esse argumento é fraco. Ele tenta provar que Deus não existe, mas falha completamente. Se Deus existe e ordenasse que os pais apedrejassem seus filhos por frequentarem aulas de ioga, isso ainda não provaria que Deus não existe, apenas que o ateísmo está errado. O problema é que Deus não deseja que isso aconteça hoje. Esse é um argumento "reductio ad absurdum", pois aplica uma passagem do AT aos dias de hoje de forma inadequada. Nenhum judeu ou cristão aplicaria esse texto hoje, como Harris sugere. O que ele tenta é causar impacto, chocar e manipular aqueles que já têm preconceito contra a religião.
Como podemos abordar questões desse tipo? O segredo é olhar para a lei sob o princípio teocrático do AT e entender que essas leis foram dadas para mostrar a santidade de Deus e como Ele pretendia gerar um povo santo, totalmente separado dos usos, costumes e práticas dos povos ao redor. O contexto é muito específico, pois Deus buscava um relacionamento particular com o povo de Israel, e quando a lei foi promulgada, o povo sabia quais eram as infrações e as penalidades, para evitar cometer esses pecados. O Novo Testamento (NT) nunca nos ordena punir os transgressores da lei do AT nesses termos, ou seja, aplicar a lei civil do AT, que deveria ser aplicada apenas em um período específico da história da salvação. Já passamos do AT para o NT, e não estamos mais em um período de teocracia.
Os estudiosos geralmente dividem a lei do AT em cerimonial, sacrificial, civil e moral. A lei cerimonial já foi cumprida em Cristo, e a lei civil não é mais aplicável, pois não estamos sob o mesmo pacto. No entanto, a lei moral permanece, embora não apliquemos as punições prescritas. Negar a moralidade da lei seria negar a própria natureza da moralidade revelada em Deus, que é a fonte de toda moralidade. As leis morais (não as punições) são mantidas no NT e devem ser observadas como aspectos da vontade de Deus.
Sam Harris chega a insinuar que as ordens para a invasão de Canaã foram o aval para as cruzadas. Isso é absurdo! Ele não entende o contexto do AT, nem a natureza das cruzadas. Seu preconceito contra a fé guia sua interpretação. As cruzadas foram ações militares com o objetivo de recuperar as terras bíblicas dos muçulmanos e libertar os cristãos que viviam sob opressão islâmica, algo bem conhecido na época. Os cruzados tinham algum amparo bíblico? Não. O cristianismo deve ser responsabilizado pelas decisões de políticos cristãos com uma visão peculiar da fé? Claro que não!
Agora, vamos analisar Richard Dawkins. Ele afirma que o julgamento de Deus na época de Noé foi uma grande injustiça e reflete uma visão depreciativa da humanidade. Por isso, ele se levanta contra a Bíblia hebraica, afirmando que ela é imoral. Chega a dizer que o Deus do AT “é talvez o personagem mais desagradável da ficção: ciumento, orgulhoso, controlador mesquinho, genocida, vingativo, sedento de sangue, misógino, homofóbico, racista, infanticida, pestilento, megalomaníaco, sadomasoquista, malévolo" (DAWKINS, Richard. Deus, um Delírio. 1ª edição. São Paulo: Companhia das Letras, 2019, p. 43).
Dawkins pode ter um certo poder retórico, mas é fraco em lógica e filosofia. A interpretação que ele faz das Escrituras é superficial. Mas, e quanto ao julgamento de Deus sobre a geração de Noé? Primeiro, devemos atentar aos detalhes: Deus deu àquela geração cerca de 120 anos para que se arrependessem, mas eles não se arrependeram. O juízo veio sobre assassinos contumazes, em uma época em que a violência havia se multiplicado na terra (Gn 6:5, 11, 12). O dilúvio foi precedido pela pregação de Noé, que convocava as pessoas ao arrependimento (2 Pedro 2:5). O texto nos mostra um Deus justo e santo, que não tolera o mal, mas que é também misericordioso, pois deu tempo para que se arrependessem. Deus tem o direito de julgar.
Dawkins também se revolta com o tratamento que Ló deu às suas filhas, pelo fato de ter oferecido suas filhas para serem abusadas por uma turba de pervertidos (Gn 19:1-8). Contudo, essa interpretação de Dawkins é um erro primário, pois ele parece dar a entender que, se algo ocorreu na Bíblia, então esse ato tinha necessariamente a aprovação de Deus, o que definitivamente não é o caso. Existem na Bíblia muitas histórias que não têm a intenção de ser um padrão de comportamento nem têm a aprovação de Deus, semelhante ao relato de Ló em Gênesis 19. Essa história não é uma ordenança para que os servos de Deus ajam assim em situações semelhantes. Não há nenhum endosso de Deus por trás da ação, nem é estabelecido nenhum princípio para que as pessoas ajam da mesma forma. Isso é tão básico em hermenêutica que você não precisa ser especialista em interpretação para saber. Nem todos os textos bíblicos são prescritivos (mandamentos de como devemos agir). A maioria dos textos é descritiva (apenas descreve como a história se processou sem nenhum endosso ou apoio de Deus).
O que esses ateus estão fazendo é algo como: "algo muito ruim aconteceu na Bíblia, logo a Bíblia e o Deus da Bíblia são maus". Mas, espera um minuto, o que se exige minimamente de um crítico? Um pouco de honestidade literária, no mínimo.
Outro exemplo de ataque a um relato do Antigo Testamento vem de Christopher Hitchens, acerca do Decálogo (Êxodo 20), principalmente os versos 4-6, que dizem:
"Não farás para ti imagem de escultura, nem alguma semelhança do que há em cima nos céus, nem embaixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. Não te encurvarás a elas nem as servirás; porque eu, o Senhor teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniquidade dos pais nos filhos, até a terceira e quarta geração daqueles que me odeiam. E faço misericórdia a milhares dos que me amam e aos que guardam os meus mandamentos."
Hitchens diz que o inocente está sendo punido pelos pecados dos pais, ou seja, o inocente sendo punido pela culpa do verdadeiro culpado. Certamente não é justo que os filhos sejam punidos pelos pecados dos pais. Ele está certo em pensar assim. O problema é que o texto não está dizendo isso. O que o texto diz é que, quando você abandona a Deus, adora ídolos e faz imagens de Deus, junto com os cultos aberrantes que regiam a cultura religiosa do Oriente Médio da época, isso impõe uma mancha na família que irá se perpetuar em toda a descendência posterior. A questão aqui é que os pecados dos pais estarão sempre sendo perpetuados nas ações dos filhos que receberam essa tradição religiosa, a prática pecaminosa por tradição. O texto não diz que os filhos serão punidos apesar de não cometerem os mesmos pecados dos pais. O que o texto diz é que "Deus visitará os pecados dos pais nos filhos". O pecado herdado por tradição pelos filhos estará sendo praticado também pelos filhos. É isso que o texto está dizendo. O texto não está afirmando que o inocente será punido pelo pecado de outra pessoa, mesmo sendo inocente. O que o texto diz, repito, é que o pecado é repassado como tradição e padrão de conduta para a descendência posterior, que também será punida por incorrer no mesmo tipo de pecado. Ou seja, os filhos também cometerão os mesmos pecados. Agora, essa tradição pode ser quebrada se os filhos se arrependerem e pararem de adorar os falsos deuses, deixando de seguir suas práticas cultuais aberrantes (Ez 18:32; 33:11). O que o texto nos informa é que Deus será benéfico a milhares de gerações que forem fiéis a Ele. A interpretação de Hitchens é simplista, rasa, desconsidera o contexto e é totalmente equivocada.
Para ilustrar como o legado de um patriarca pode influenciar gerações inteiras de descendentes, há uma pesquisa que foi realizada na América do Norte há mais ou menos 160 anos. Foi feito um estudo genealógico sobre a descendência de dois homens por uma universidade americana. Essa pesquisa foi concluída em 1986.
O primeiro: Edward Jonathan – era crente, casou-se com uma moça crente e, no seu lar, predominavam a oração e a leitura da Bíblia.
Durante 150 anos, teve 729 descendentes: 300 se tornaram pregadores da Palavra; 65, professores em escolas superiores; 13, catedráticos; 3, deputados; e 1, Vice-presidente dos EUA.
O segundo: Max Junkers – era ateu, casou-se com uma moça ateia e viveram conforme o seu ideal.
Durante 150 anos, tiveram 1.026 descendentes: dos quais 300 morreram prematuramente; 100 foram condenados à prisão; 190 eram prostitutas; e 100 eram alcoólatras.
Percebe sobre o que o texto bíblico está falando e alertando? No exemplo citado dessa pesquisa, não significa que, em ambos os lados, essa tradição não possa ser anulada pela conversão ou pela apostasia. É um grande exemplo para nós.
O que temos que entender aqui é que os ataques feitos pelos ateus ao Antigo Testamento são feitos com uma grande dose de ignorância, pois as críticas são irresponsáveis, rasas, desconsideram o contexto, eles não entendem e não procuram entender a história da salvação no Antigo Testamento, nem se dão ao trabalho de aplicar uma hermenêutica básica. O que eles fazem é procurar detalhes que acham repugnantes para nossa cultura, retiram do contexto, apresentam essas passagens como horrendas, como se fossem mandamentos para hoje, com a aprovação de Deus, e fazem uma generalização totalmente irresponsável, lançando-a para o público. Eles atingem muitas pessoas que nunca tirarão tempo para analisar, com uma hermenêutica sadia e honesta, se as coisas são de fato assim. E pior, essas pessoas irão repassar, via de regra, com um ar bem intelectual, essa interpretação distorcida de forma indiscriminada, até encontrarem um aluno do nosso curso. Olha só, estou confiante, hein? Mas é sério.
Esse ciclo de acusações falsas só vai parar quando o receptor/propagador dessas interpretações ridículas se deparar com alguém que realmente estudou a passagem, aplicou as chaves interpretativas corretas, respeitando a cultura, geografia, religião, história, sociedade, e responder com mansidão, coragem e paciência. O interlocutor só vai continuar propagando a interpretação equivocada se for realmente desonesto.
Não pretendo, e nem teria como, abordar todas as acusações que eles fazem, mas espero que as poucas que abordarei sejam modelos representativos que possam servir de princípio e chave para abordar as demais. Espero que possamos perceber que os ataques dos novos ateus não são ataques sérios e comprometidos com a verdade. O contrário é que é verdadeiro. Entretanto, não podemos deduzir que todas as pessoas que têm dúvidas sérias — mesmo aquelas lançadas irresponsavelmente pelos novos ateus — sejam pessoas que queiram apenas zombar ou desfazer da Bíblia. Algumas pessoas são realmente sinceras e estão, de forma honesta, buscando paz para suas mentes por meio de respostas sensatas. Temos que pensar nessas com carinho e atenção.
Não devemos recuar diante desses ataques com desculpas do tipo "eu apenas sei que a Bíblia é a verdade e que o cristianismo é verdadeiro". Essa postura não vai representar bem a defesa da fé, muito menos o seu testemunho cristão. O que precisamos fazer é isolar a crítica/acusação, ler o texto atentamente dentro de todos os contextos, considerar as nuances, o ocorrido dentro da história da salvação, e então responder. Tenho visto, na minha experiência, o quão afoitos são os críticos da Bíblia quando se deparam com cristãos despreparados, e a real mudança que ocorre na postura deles quando encontram um cristão minimamente preparado. Eles mudam drasticamente a postura e passam a dar um tratamento mais respeitoso, comedido e cauteloso.
Então, leve isso em consideração com muita responsabilidade. Algumas questões serão realmente difíceis de responder, outras nem tanto. Por isso, indico novamente o livro de Gleason Archer Jr., Enciclopédia de Temas Bíblicos. Seria excelente se não precisássemos consultar livros, autores, especialistas e enciclopédias, mas estamos fora do contexto das terras bíblicas e da cronologia bíblica, com todas as suas nuances e detalhes. Portanto, precisamos entender a cultura da época dentro de todos os contextos. Às vezes, interpretar a Bíblia corretamente não é tão simples. Mas tudo bem, temos que estudar. Deus nos deu uma mente racional, recursos, tempo e muita vontade de crescer na graça e no conhecimento, para que pudéssemos estudar essas questões. Repito o que disse antes: ainda que exista um texto aparentemente insuperável para nós respondermos (apesar de achar que esse texto não exista, falo hipoteticamente), isso não significa que a Bíblia não seja a verdade, e isso também não significa que o cristianismo não seja verdadeiro ou que a Bíblia não seja confiável. Significa apenas que existe um problema de difícil interpretação em um tema ou texto específico, o que não implica necessariamente sobre o Teísmo Cristão. Isso não poderia excluir a teologia natural, a confiabilidade do Novo Testamento, a divindade de Jesus ou a ressurreição de Jesus. Seria apenas um problema a ser resolvido, e problemas devem ser encarados de frente, com integridade e inteligência.
O tema que abordaremos agora é a alegada relação entre Deuteronômio, Josué e o genocídio. Ateus e críticos dizem frequentemente coisas do tipo: "Se Deus realmente ordenou esse genocídio, eu não quero ter nenhuma relação com Ele", "Deus seria injusto e cruel", ou "Não pode existir um Deus desse tipo; poderia existir um outro tipo de Deus, mas não esse". Outros, abertamente em rebelião contra Deus, poderiam apenas dizer: "Mesmo que Deus existisse com esse tipo de caráter, eu jamais O seguiria ou adoraria". As frases de efeito, com apelo emocional, são as mais diversas. A ideia é de que a criatura finita, dependente, sem conhecimento pleno das coisas, sem sabedoria e sem o atributo da onisciência, totalmente corrompida, pode se levantar contra Deus e dizer ao Criador o que Ele deve ou não fazer. Algumas pessoas já chegaram a esse nível de rebelião. Alguns crentes, ao se depararem com as críticas sobre o tema em questão, simplesmente dirão algo do tipo: "Eu não ligo se Deus fez isso ou aquilo na história, eu apenas O seguirei e O adorarei". Agora, sejamos sinceros, esse tipo de resposta ajuda em alguma coisa? Acho que apenas "confirma" a acusação do ateu e confessa uma ignorância e uma falta de vontade de estudar a Palavra de Deus. Existe um tipo de resposta mais apropriada, acertada e equilibrada, que surtirá um efeito maior. Precisamos entender o contexto, a linguagem, a cultura, e o que se passa nas entrelinhas do texto para compreender melhor a situação.
Agora, primeiro, de fato, Deus realmente ordenou a guerra em alguma medida. Isso é um fato. Nesse caso, contra os cananeus, e a ordem foi destruir tudo, inclusive pessoas perversas. No entanto, essas ordenanças não devem ser universalizadas, como se fossem aplicáveis para hoje. Aquela ordenança não deve ser tomada como um princípio vitalício válido para toda a história da humanidade, como a destruição de outros povos ou a promoção da guerra em nome de Deus. A guerra contra os cananeus tem uma jurisdição e uma época específicas, e a ordem foi dada por alguém que realmente tem autoridade para agir assim. Deus leva em consideração a impiedade daquele povo, sua condição moral corrompida e seu estilo de vida totalmente destrutivo, para derramar o Seu justo juízo, ainda considerando Sua longanimidade e misericórdia (Gn 15:13-16). Deus, por Sua natureza santa e justa, jamais fará algo injusto na Terra. Mas temos que perceber que essa ordenança é limitada e específica ao seu contexto, para que possamos realmente compreender o que acontecia naquela época e naquelas culturas. Vamos ler um texto de Levítico, capítulo 25, e ver o que os cananeus aprontavam:
Falou mais o SENHOR a Moisés, dizendo: Fala aos filhos de Israel, e dize-lhes: Eu sou o Senhor vosso Deus. Não fareis segundo as obras da terra do Egito, em que habitastes, nem fareis segundo as obras da terra de Canaã, para a qual vos levo, nem andareis nos seus estatutos. Fareis conforme os meus juízos, e os meus estatutos guardareis, para andardes neles. Eu sou o Senhor vosso Deus. Portanto, os meus estatutos e os meus juízos guardareis; os quais, observando-os o homem, viverá por eles. Eu sou o Senhor. Nenhum homem se chegará a qualquer parenta da sua carne, para descobrir a sua nudez. Eu sou o Senhor. Não descobrirás a nudez de teu pai e de tua mãe: ela é tua mãe; não descobrirás a sua nudez. Não descobrirás a nudez da mulher de teu pai; é nudez de teu pai. A nudez da tua irmã, filha de teu pai, ou filha de tua mãe, nascida em casa, ou fora de casa, a sua nudez não descobrirás. A nudez da filha do teu filho, ou da filha de tua filha, a sua nudez não descobrirás; porque é tua nudez. A nudez da filha da mulher de teu pai, gerada de teu pai (ela é tua irmã), a sua nudez não descobrirás. A nudez da irmã de teu pai não descobrirás; ela é parenta de teu pai. A nudez da irmã de tua mãe não descobrirás; pois ela é parenta de tua mãe. A nudez do irmão de teu pai não descobrirás; não te chegarás à sua mulher; ela é tua tia. A nudez de tua nora não descobrirás: ela é mulher de teu filho; não descobrirás a sua nudez. A nudez da mulher de teu irmão não descobrirás; é a nudez de teu irmão. A nudez de uma mulher e de sua filha não descobrirás; não tomarás a filha de seu filho, nem a filha de sua filha, para descobrir a sua nudez; parentas são; maldade é. E não tomarás uma mulher juntamente com sua irmã, para fazê-la sua rival, descobrindo a sua nudez diante dela em sua vida. E não chegarás à mulher durante a separação da sua imundícia, para descobrir a sua nudez, Nem te deitarás com a mulher de teu próximo para cópula, para te contaminares com ela. E da tua descendência não darás nenhum para fazer passar pelo fogo perante Moloque; e não profanarás o nome de teu Deus. Eu sou o Senhor. Com homem não te deitarás, como se fosse mulher; abominação é; Nem te deitarás com um animal, para te contaminares com ele; nem a mulher se porá perante um animal, para ajuntar-se com ele; confusão é. Com nenhuma destas coisas vos contamineis; porque com todas estas coisas se contaminaram as nações que eu expulso de diante de vós. Por isso a terra está contaminada; e eu visito a sua iniqüidade, e a terra vomita os seus moradores. Levítico 18:1-25
Outras informações oriundas da cultura religiosa são ainda mais cruentas, como a questão da prostituição cultual.
Agora, as pessoas geralmente dizem que a Bíblia e o Alcorão ordenam, de forma semelhante, a guerra e que ambas as religiões representadas pelos dois livros são más. Alguns até dizem que o cristianismo é pior que o islã. Mas a diferença é abissal e crucial. No islã, a jihad é perpétua, como um princípio de intimidação para submeter o mundo inteiro a Alá. Na Bíblia hebraica, em relação ao Antigo Testamento, a guerra santa é limitada à terra e a seus objetivos. A guerra contra os cananeus não tinha como motivação a propagação da religião ou do reino de Deus. Essa é realmente uma distinção muito significativa. Além do fato de que a linguagem utilizada em Deuteronômio e em Josué era uma linguagem militar, relacionada à destruição de centros militares. O termo traduzido como "cidade" é *ir*. Este termo não se refere necessariamente a um grande centro urbano, como tendemos a pensar hoje. Na Bíblia, ele pode descrever uma vila (Belém, em 1 Samuel 20:6), acampamentos de tendas (Juízes 10:4) e uma cidadela (2 Samuel 12:26), ou uma fortaleza, como Sião em Jerusalém (2 Samuel 5:7, 9). O contexto é militar. Essas "cidades" não eram o lar do povo comum, mas representavam a liderança, os militares e os mais envolvidos com a opressão e o domínio da terra. Assim, o comando em Deuteronômio 20 diz respeito à destruição completa daqueles exércitos e fortalezas que representavam uma fé religiosa e uma ideologia que se opunham diretamente à de Israel e ao seu Deus.
Quando o texto diz "destrua tudo", a linguagem é hiperbólica, como defendem Paul Copan e Richard Hess. A maior prova disso é que não há registros de que tenha ocorrido um genocídio. Basta olhar para o texto, a linguagem e o contexto. Incrível é que, após o povo entrar e possuir a terra, os cananeus ainda estavam lá, vivendo entre os hebreus (Josué 23:7, 12). Isso mostra que a guerra ocorreu, mas apenas em centros militares, cidades com localização estratégica para proteger a região de Canaã. O genocídio nunca foi pretendido; a guerra contra centros militares, sim. Além disso, devemos lembrar que Deus havia prometido a terra à descendência de Abraão, então o ato foi como uma reintegração de posse. Outra coisa importante a lembrar é que essas guerras não eram prescritivas, ou seja, não foram ordens para guiar a expansão do cristianismo ou a conduta dos cristãos. E ainda que não consigamos entender o motivo pelo qual Deus ordenou essas guerras, esses fatos por si só não descredibilizam ou anulam a existência de Deus, a veracidade da Bíblia ou o cristianismo, muito menos a divindade de Cristo ou a ressurreição de Jesus.
Pense em uma visão de mundo ou em um conjunto de crenças que definem uma visão sobre a realidade. Ninguém pode apresentar uma visão de mundo sem dificuldades ou problemas. A questão é minimizar as tensões e os problemas da melhor forma possível, com integridade, sinceridade e lógica, e comparar essa visão de mundo com outras. Tenho quase 100% de certeza de que as visões de mundo concorrentes ao cristianismo terão muito mais problemas insolúveis para resolver do que a visão cristã. Logo, ser cristão não significa saber todas as respostas ou ter 100% de certeza sobre todas as coisas. Devemos procurar vencer apenas no quesito coerência em um debate entre visões de mundo. Podemos ter conhecimento sem ter 100% de certeza, e fazemos isso o tempo todo – em relacionamentos, negócios, parcerias, e assim por diante. Recentemente, assisti a um debate entre Frank Turek e um ateu, cujo nome não me recordo, no qual o ateu passou quase o debate inteiro utilizando o Teorema de Bayes, que é indutivo por natureza e altamente complexo, para tentar provar que Deus não existe. Eu mesmo usei o Teorema de Bayes no meu TCC no curso de filosofia da UFPE, e quase explodi de tanto pensar. Bem, na seção de perguntas e respostas, o ateu perguntou a Frank Turek se ele não iria responder nada sobre o Teorema de Bayes, e Turek respondeu: "Eu não entendi nada do que você disse sobre o Teorema, e acho que ninguém da plateia também entendeu". A plateia caiu na risada, e mesmo assim Turek claramente venceu aquele debate!
Certa vez, um crítico me disse que Davi odiava cegos e aleijados, e que isso era imoral. Perguntei qual era o texto, e ele me disse. O texto é este:
"E partiu o rei com os seus homens a Jerusalém, contra os jebuseus que habitavam naquela terra; e falaram a Davi, dizendo: Não entrarás aqui, pois os cegos e os coxos te repelirão, querendo dizer: Não entrará Davi aqui. Porém Davi tomou a fortaleza de Sião; esta é a cidade de Davi. Porque Davi disse naquele dia: Qualquer que ferir aos jebuseus, suba ao canal e fira aos coxos e aos cegos, a quem a alma de Davi odeia. Por isso se diz: Nem cego nem coxo entrará nesta casa." (2 Samuel 5:6-8)
O que aconteceu aqui foi o seguinte: a fortaleza era praticamente inexpugnável, impenetrável, de tal forma que os jebuseus zombavam, dizendo algo mais ou menos assim: "A cidade é tão bem protegida que até cegos e aleijados podem defendê-la". Mas Davi, que era pastor de ovelhas a apenas 8 quilômetros de Jerusalém, com certeza já conhecia essa passagem subterrânea que possibilitava a entrada na cidade. Então Davi mandou seus homens por essa entrada, tomou a cidade e zombou da zombaria, dizendo "fira os coxos e os cegos", porque os jebuseus disseram que seriam esses que defenderiam a cidade, o que não era verdade.
Podemos ser cristãos com integridade intelectual sem termos todas as respostas para as objeções levantadas contra a visão de mundo cristã. Por mais que a crítica possa parecer destrutiva ou difícil de refutar, ela não pode destruir a Bíblia ou o cristianismo em si. Recomendo a leitura de *Deus é um Monstro Moral?* e *Deus Realmente Ordenou o Genocídio?*, ambos de Paul Copan. São ótimos para se especializar nessas questões do Antigo Testamento, que, por mais complexas que pareçam, não são insuperáveis. Só esse tema já pode deixar um apologista bem ocupado, mas é um assunto extremamente enriquecedor. Traduzi dois capítulos de Paul Copan: um sobre a acusação de que não existe diferença entre as guerras ordenadas no Alcorão e as guerras ordenadas na Bíblia; e o outro é uma resposta à acusação de que o Deus do Antigo Testamento não é o mesmo Deus do Novo Testamento. Vale muito a pena ler. Quem quiser, pode solicitar, que eu coloco no grupo. A diferença é gritante e grotesca.
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