segunda-feira, 17 de março de 2025

A Relação Entre Ciência e Teísmo: Desmistificando a Afirmação de que a Ciência Refutou Deus

Por Walson Sales

A relação entre ciência e teísmo tem sido um tema amplamente debatido, especialmente na afirmação recorrente de que "a ciência refutou Deus". Este artigo examina essa declaração, abordando a circularidade do raciocínio que a sustenta e as premissas fundamentais que a ciência e a fé compartilham. Através de exemplos e argumentos, buscamos esclarecer como a ciência e a crença em Deus podem coexistir de forma racional e harmoniosa.

1. A Circularidade do Raciocínio

A afirmação de que "a ciência refutou Deus" é, no mínimo, estranha, pois pressupõe duas verdades mutuamente exclusivas: primeiro, a ciência é o estudo do universo físico; e segundo, nenhum teísta de credibilidade considera Deus como parte do universo físico. Essa confusão revela um raciocínio circular, onde a própria lógica da negação de Deus desmorona sob os critérios que se utilizam para identificar a verdade.

Um exemplo emblemático ocorreu no debate de 1993 entre Frank Zindler, então presidente da Associação Americana dos Ateus, e o apologista cristão William Lane Craig. Durante o debate, Zindler afirmou: "Hoje nós já conseguimos ver, por meio de telescópios potentes, o espaço mais distante e nunca conseguimos ver Deus, anjos ou demônios. Também conseguimos construir os microscópios mais potentes e ver no mais íntimo do ser humano e não conseguimos enxergar a alma ou o espírito humano." Essa afirmação ilustra uma confusão de esferas. Telescópios e microscópios são ferramentas projetadas para observar apenas objetos e realidades físicas. Portanto, a incapacidade de observar realidades não físicas, como a alma ou Deus, não é uma evidência de que tais entidades não existem; é uma simples constatação da limitação das ferramentas científicas em captar o transcendente.

Bob Perry no artigo Defrocking the Priests of Scientism (2010) destaca que sem essa lógica circular, o cientificismo perde seu suporte, tornando evidente que a ciência e a fé não precisam estar em conflito.

2. A Limitação do Materialismo

A ideia de que apenas o mundo material existe é um equívoco. Quando o filósofo William Lane Craig debateu com o químico ateu Peter Atkins, este último alegou que a ciência poderia responder a todas as questões do mundo. Craig, reconhecendo a falácia desse argumento, afirmou que existem verdades que são racionais de se acreditar, mesmo que não sejam entidades materiais ou acessíveis pela ciência. Entre essas verdades, ele destacou:

I. Matemática e Lógica;

II. Verdades metafísicas (como a existência de outras mentes além da nossa);

III. Julgamentos éticos (a moralidade não pode ser provada cientificamente);

IV. Julgamentos estéticos (beleza e bondade não são questões científicas);

V. A própria ciência (a crença no método científico não pode ser provada pelo próprio método).

Esse debate fez a plateia perceber o quanto os ateus, como Atkins, muitas vezes utilizam argumentos racionais para negar outras realidades igualmente racionais.

3. A Dependência da Ciência em Relação à Matemática

Perry menciona que é irônico como os ateus, que defendem o cientificismo, parecem ignorar a própria linguagem da ciência. A matemática, por exemplo, é a base que dá sentido à ciência. Estruturas matemáticas, descritas como "entidades abstratas imutáveis que existem fora do espaço e do tempo", são fundamentais para a ordem observada na natureza. Até mesmo o ateu Bertrand Russell comentou sobre a relação entre matemática, verdade e beleza. Assim, a matemática, embora não física, é uma realidade inegável que fundamenta o discurso científico.

4. Pressuposições dos Cientistas

Os cientistas, por sua vez, fazem suposições epistemológicas, metafísicas e éticas fundamentais que não podem ser comprovadas pela ciência. Eles pressupõem que:

- O conhecimento é possível (epistemologia);

- O universo é regular (metafísica);

- Os cientistas devem ser honestos (ética).

Sem essas premissas, a justificativa dos métodos científicos se torna insustentável, levando a um colapso nas pesquisas científicas.

Conclusão

A afirmação de que "a ciência refutou Deus" não se sustenta ao examinar as verdades fundamentais sobre a ciência e o teísmo. A circularidade do raciocínio, a limitação do materialismo e a dependência da ciência em relação à matemática e a pressuposições epistemológicas revelam que a fé e a razão não são necessariamente antagônicas. Em vez de se oporem, ambas podem coexistir e oferecer uma compreensão mais rica da realidade e da experiência humana.

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