Por Walson Sales
A doutrina da soberania divina é um dos pilares fundamentais da teologia reformada. No entanto, ao longo dos séculos, diferentes teólogos têm oferecido interpretações variadas sobre a relação de Deus com o mal e o pecado. Este artigo visa analisar a inconsistência entre as afirmações de dois importantes pensadores reformados, João Calvino e R. C. Sproul, acerca da "permissão" divina em relação ao pecado. Através de uma análise das citações de ambos os teólogos, será evidenciada a incoerência interna entre suas posições. Também abordaremos as implicações dessas divergências e como elas entram em conflito com as Escrituras, especificamente os textos de Ezequiel 18 e 33.
1. A Citação de R. C. Sproul: A Permissão de Deus
R. C. Sproul, em seu livro Eleitos de Deus, traz a seguinte afirmação:
"Nós sabemos que Deus é soberano porque sabemos que Deus é Deus. Portanto, DEVEMOS CONCLUIR QUE DEUS PREORDENOU O PECADO. O que mais podemos concluir? Podemos concluir que a decisão de Deus de PERMITIR que o pecado entrasse no mundo foi uma boa decisão. Isto não quer dizer que nosso pecado seja uma boa coisa, mas meramente que a PERMISSÃO de Deus para que pequemos, o que é mau, é uma boa coisa. Que Deus permitiu o mal é bom, mas o mal que ele permite ainda é mau. O ENVOLVIMENTO DE DEUS EM TUDO É PERFEITAMENTE JUSTO. Nosso envolvimento nisso é mau. O fato de ter Deus decidido permitir que pecássemos não nos absolve de nossa responsabilidade pelo pecado" (Eleitos de Deus, p. 22).
Sproul reconhece a soberania absoluta de Deus, mas tenta equilibrá-la com a noção de "permissão" divina. Ele afirma que Deus "preordenou o pecado", mas simultaneamente "permitiu" sua entrada no mundo, sem ser o autor direto do mal. Sproul utiliza a palavra "permitir" de forma ambígua, tentando explicar que Deus "decidiu permitir" o pecado, mas sem anular a responsabilidade humana pelo pecado.
2. A Citação de João Calvino: A Rejeição da Permissão
Em contraste com Sproul, João Calvino expressa uma posição mais direta e determinista em relação à soberania de Deus sobre o mal. Em Institutas da Religião Cristã, ele argumenta:
"Aqui recorre-se à distinção de VONTADE e PERMISSÃO, segundo A QUAL QUEREM MANTER QUE OS ÍMPIOS PERECEM PELA MERA PERMISSÃO DIVINA, NÃO PORQUE DEUS ASSIM O QUEIRA. Mas, POR QUE DIREMOS QUE O PERMITE, SENÃO PORQUE ASSIM O QUER? Pois NÃO É PROVÁVEL QUE O HOMEM TENHA BUSCADO SUA PERDIÇÃO PELA MERA PERMISSÃO DE DEUS, E NÃO POR SUA ORDENAÇÃO. Como se realmente Deus não haja estabelecido em qual condição quisesse estar a principal de suas criaturas. Portanto, não hesitarei, com Agostinho, em simplesmente confessar que “a vontade de Deus é a necessidade das coisas”, e que haverá necessariamente de ocorrer aquilo que ele quis, da mesma forma que aquelas coisas que previu verdadeiramente haverão de vir à existência" (Institutas, versão clássica, Vol III, p. 417).
Calvino rejeita claramente a distinção entre "vontade" e "permissão", afirmando que, se algo acontece, é porque Deus o quis, e não porque meramente o permitiu. Para ele, a ideia de "permissão" é inadequada para explicar a soberania divina sobre o mal. Deus, segundo Calvino, não apenas "permite" o pecado, mas o ordena diretamente dentro de Sua soberania.
3. A Inconsistência entre Sproul e Calvino
Aqui encontramos uma clara incoerência teológica. Enquanto Sproul tenta manter uma distinção entre a permissão de Deus e Sua vontade soberana, Calvino refuta essa distinção, afirmando que aquilo que Deus permite é, de fato, algo que Ele ordena. Essa diferença de abordagem levanta uma questão fundamental sobre a natureza do envolvimento de Deus com o mal.
A inconsistência se dá principalmente no fato de que Sproul, ao tentar suavizar a responsabilidade divina sobre o mal, utiliza a noção de "permissão" de forma que Calvino explicitamente rejeita. Para Calvino, Deus não "permite" passivamente o pecado; Ele o determina. Esta contradição expõe uma dificuldade central na teologia calvinista: como conciliar a soberania absoluta de Deus com a noção de "permissão" sem cair em contradição?
4. Implicações Bíblicas e Teológicas
Além da inconsistência interna entre os dois teólogos, essa questão entra em conflito com os ensinamentos bíblicos, como evidenciado nos textos de Ezequiel:
"Vivo eu, diz o Senhor DEUS, que não tenho prazer na morte do ímpio, mas em que o ímpio se converta do seu caminho, e viva" (Ezequiel 33:11).
"Desejaria eu, de qualquer maneira, a morte do ímpio? diz o Senhor DEUS; Não desejo antes que se converta dos seus caminhos, e viva?" (Ezequiel 18:23).
"Porque não tenho prazer na morte do que morre, diz o Senhor DEUS; convertei-vos, pois, e vivei" (Ezequiel 18:32).
Esses textos indicam que Deus não tem prazer na morte do ímpio, o que contrasta com a visão de que Deus, de alguma forma, determinou ou "quis" a perdição dos ímpios. Isso desafia tanto a ideia de Calvino quanto a de Sproul sobre a soberania divina em relação ao mal, pois sugere que Deus deseja a salvação dos ímpios, e não sua condenação.
Conclusão
A análise das posições de Calvino e Sproul revela uma profunda incoerência na tentativa de explicar a relação de Deus com o mal e o pecado. Enquanto Calvino rejeita a noção de "permissão", afirmando que tudo o que acontece é pela vontade direta de Deus, Sproul tenta introduzir uma distinção que, em última instância, não resolve o problema teológico. Além disso, as Escrituras apontam para um Deus que deseja a conversão e não a condenação dos ímpios, desafiando as interpretações reformadas tradicionais sobre a soberania divina.
Questões importantes
Qual é a principal diferença entre a visão de R. C. Sproul e João Calvino sobre a "permissão" de Deus em relação ao pecado?
Como Calvino refuta a distinção entre "vontade" e "permissão" em sua teologia?
De acordo com R. C. Sproul, qual é a justificativa para que Deus tenha "permitido" o pecado?
Como as afirmações de Calvino sobre a soberania de Deus em relação ao pecado entram em conflito com os textos de Ezequiel?
Qual é a principal incoerência teológica na tentativa de Sproul de conciliar a permissão de Deus com Sua soberania?
Em que aspectos a teologia calvinista falha ao lidar com a questão do mal à luz das Escrituras?
Como a afirmação de Deus em Ezequiel 33:11 desafia a noção calvinista de que Deus determina a perdição dos ímpios?
Quais são as implicações práticas da teologia de Sproul e Calvino para a responsabilidade humana pelo pecado?
Como a teologia reformada lida com a tensão entre a soberania de Deus e a liberdade humana?
Em sua opinião, é possível conciliar a noção de um Deus que "preordena" o mal com a afirmação bíblica de que Ele deseja a salvação dos ímpios?
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