Por Walson Sales
O platonismo, uma das correntes filosóficas mais influentes da Antiguidade, apresenta desafios profundos para a fé cristã, especialmente no que diz respeito à concepção de Deus e da realidade. A doutrina platônica defende a existência de dois mundos: o *mundo das ideias* e o *mundo sensível.* O desafio que essa visão oferece ao cristianismo está centrado na questão dos *objetos abstratos* — entidades como números, formas geométricas e a lógica, que no platonismo são considerados eternos e independentes de Deus.
1. A Visão Platônica: O Mundo das Ideias e o Perceptualismo
Em seu diálogo "O Timeu", Platão descreve a criação do mundo sensível por um ser divino conhecido como Demiurgo. Este, ao criar o mundo material, utiliza-se das ideias eternas e perfeitas que existem no mundo das ideias, uma realidade independente e superior ao mundo físico. Para Platão, o Demiurgo não cria a partir do nada, mas sim a partir de modelos abstratos eternos.
É aqui que entra o conceito de perceptualismo em Platão: segundo essa visão, o Demiurgo "percebe" esses objetos abstratos como realidades já existentes fora dele e as utiliza como parâmetro para moldar o mundo físico. Em outras palavras, o Demiurgo age como um artesão que modela o mundo sensível tendo como referência as formas perfeitas que ele contempla. Platão escreve no Timeu: "O Criador olhou para o que era eternamente imutável e, em conformidade com o que via, moldou o mundo sensível" (Timeu, 29a).
Esse conceito do perceptualismo levanta um desafio teológico para o cristianismo, uma vez que implica que Deus (ou o Demiurgo) depende de algo externo para criar. Se esses objetos abstratos existem independentemente de Deus, Ele não seria a única realidade última, como defende a teologia cristã. Isso nos leva à questão: Se Deus depende de objetos abstratos para criar, Ele é verdadeiramente o Criador de todas as coisas?
2. O Desafio à Doutrina da Asseidade Divina
A doutrina cristã da asseidade divina defende que Deus é autoexistente, ou seja, Ele não depende de nada externo para existir. Essa doutrina se baseia no conceito de que Deus é a fonte e origem de todas as coisas, sem exceção. O platonismo, com sua visão de objetos abstratos independentes e eternos, ameaça essa concepção, sugerindo que há realidades imutáveis e não-criadas além de Deus.
Craig define a aseidade divina como o conceito de que "Deus é a fonte e origem de tudo o que existe, sem depender de qualquer outra coisa" (God Over All, p. 4). O platonismo, com sua ideia de que há entidades eternas além de Deus, desafia essa doutrina, sugerindo que Deus não seria verdadeiramente o Criador de tudo.
Este é um dos grandes desafios que William Lane Craig aborda em sua obra God Over All: Divine Aseity and the Challenge of Platonism. Craig explica que o platonismo matemático, que afirma a existência de entidades abstratas como números e formas geométricas, apresenta uma ameaça à soberania de Deus. Se há entidades eternas e independentes de Deus, isso significa que Ele não criou tudo o que existe. Como Craig coloca: "Se aceitamos o platonismo, Deus não seria o criador absoluto, pois haveria entidades eternas com as quais Ele precisa lidar" (God Over All, p. 35).
Esse ponto é crucial, pois afeta a compreensão cristã de Deus como onipotente e soberano sobre todas as coisas, sejam físicas ou abstratas.
3. O Conceptualismo Divino: A Resposta Cristã
A resposta teológica cristã ao desafio platônico é o conceptualismo divino. De acordo com essa visão, os objetos abstratos — como números, formas geométricas e leis lógicas — não existem como realidades independentes. Em vez disso, eles existem como conceitos na mente de Deus. Assim, Deus não "percebe" ou utiliza objetos abstratos externos a Ele, como no perceptualismo platônico, mas sim concebe e conhece esses objetos a partir de Sua própria mente divina.
Essa perspectiva preserva a doutrina da aseidade divina, pois os objetos abstratos, ao existirem como pensamentos na mente de Deus, dependem dEle para existirem. Craig defende essa posição ao afirmar que "Deus não contempla ideias fora de Si mesmo, mas Suas próprias ideias divinas, que Ele utiliza ao criar" (God Over All, p. 127).
Dessa forma, o conceptualismo cristão rejeita o perceptualismo de Platão, pois Deus não depende de nada externo para criar, preservando Sua soberania como o Criador de todas as coisas. Como afirma Craig, isso protege a doutrina de que Deus é verdadeiramente o único ser autoexistente e a fonte de toda a realidade.
4. A Imagem de Deus no Homem: Acessando os Objetos Abstratos
Outro ponto fascinante levantado pela teologia cristã é que, ao criar o ser humano à Sua imagem e semelhança, Deus dotou o homem com atributos comunicáveis. Isso inclui:
Intelecto
Emoção
Vontade
Razão
Consciência
Liberdade
Esses atributos permitem que, mesmo em nossa condição limitada, sejamos capazes de compreender e utilizar os objetos abstratos que existem na mente de Deus. Isso explica por que seres humanos podem usar a lógica, a matemática e outras disciplinas abstratas em áreas como engenharia, arquitetura e ciências. Esse entendimento coloca o homem em uma posição única de cooperar com a ordem divina na criação, refletindo a mente de Deus ao interagir com a realidade.
5. O Debate Filosófico e Teológico: Platão e Craig
No debate entre o platonismo e o cristianismo, é possível identificar duas abordagens contrastantes. Enquanto Platão sustenta que os objetos abstratos existem independentemente e são percebidos pelo Demiurgo, a teologia cristã, especialmente defendida por William Lane Craig, afirma que os objetos abstratos são dependentes de Deus, existindo como conceitos na Sua mente.
Platão escreve que o Demiurgo "contempla as formas perfeitas" e, com base nelas, molda o mundo sensível. Isso implica uma relação de dependência entre o criador e os objetos abstratos, minando a ideia de um criador absoluto. Em contraste, Craig argumenta que Deus é a fonte de tudo, inclusive dos objetos abstratos. Como Craig resume em sua obra, "ao enxergar os objetos abstratos como parte do pensamento divino, mantemos a visão de Deus como Criador absoluto" (God Over All, p. 142).
Conclusão
O platonismo, com sua visão de um mundo das ideias independente e eterno, apresenta um desafio significativo à fé cristã. O conceito perceptualista de Platão, em que o Demiurgo percebe e utiliza objetos abstratos eternos para moldar o mundo, ameaça a doutrina da aseidade divina, segundo a qual Deus é a fonte e origem de todas as coisas. No entanto, a resposta cristã a esse desafio, articulada no conceptualismo divino, preserva a soberania e unicidade de Deus como Criador. Ao afirmar que os objetos abstratos são conceitos na mente de Deus, a teologia cristã mantém que nada existe fora da realidade divina.
Com isso, a fé cristã apresenta uma visão mais coerente da realidade, onde Deus é verdadeiramente o único ser autoexistente e onde todas as entidades, sejam físicas ou abstratas, dependem dEle. O debate entre platonismo e cristianismo continuará a enriquecer o diálogo filosófico e teológico, mas a resposta conceptualista oferece uma base sólida para defender a soberania e a autoridade de Deus sobre toda a criação.
Além disso, o conceptualismo se mostra mais racional e lógico, pois evita a multiplicação desnecessária de entidades eternas independentes. Ele fornece uma explicação mais simples e coerente para a existência dos objetos abstratos, sem comprometer a aseidade de Deus. Assim, em vez de postular miríades de entidades abstratas eternas, o conceptualismo sustenta que todas essas entidades têm sua origem na mente divina, preservando tanto a unidade quanto a soberania de Deus sobre toda a criação.
Perguntas importantes para reforçar a compreensão:
Segue uma lista de perguntas importantes que reforçam logicamente a ideia do conceptualismo divino, onde Deus é visto como a realidade última e os objetos abstratos existem como conceitos em Sua mente:
1. Se os objetos abstratos, como números e formas geométricas, existirem independentemente de Deus, o que isso implica sobre a soberania de Deus como Criador de todas as coisas?
Esta pergunta desafia a visão platônica de que objetos abstratos são realidades independentes, questionando se Deus é verdadeiramente a única fonte de toda existência.
2. Como Deus poderia ser considerado a realidade última e o Criador absoluto se existem entidades eternas e independentes fora dEle?
Essa questão reforça a ideia de que, para Deus ser verdadeiramente soberano, nada pode existir fora ou independente de Sua mente.
3. Se os objetos abstratos são conceitos na mente de Deus, não seria essa a única maneira de garantir que Deus não depende de nada externo para criar o universo?
Aqui, a pergunta sugere que o conceptualismo é a melhor solução para preservar a doutrina da asseidade divina, segundo a qual Deus é autoexistente e autossuficiente.
4. Se Deus é o Criador de tudo, por que os objetos abstratos, como números e leis da lógica, não seriam criações ou reflexos do Seu pensamento, em vez de entidades eternas separadas?
Esta pergunta defende que os objetos abstratos são melhor entendidos como produtos da mente de Deus, mantendo a coerência da crença cristã na criação divina de todas as coisas.
5. Como pode algo ser eterno e imutável sem depender da fonte última de toda a existência, que é Deus?
Esta questão explora a impossibilidade de haver entidades eternas que não estejam enraizadas na mente de Deus, sublinhando que apenas Deus pode ser eternamente autoexistente.
6. Se os objetos abstratos existem como entidades independentes, como Deus poderia ter criado todas as coisas "do nada", sem depender de algo já existente?
Essa pergunta questiona a lógica do platonismo, sugerindo que um Deus que cria "do nada" não precisaria de entidades independentes como referência.
7. Não seria mais lógico que a existência de objetos abstratos, como leis matemáticas, fosse derivada da mente de Deus, já que Ele é a origem de toda a ordem e racionalidade no universo?
Aqui, reforça-se a ideia de que a ordem e racionalidade percebidas no universo refletem o pensamento divino e, portanto, os objetos abstratos são conceitos divinos, e não entidades autônomas.
8. Se Deus criou a mente humana à Sua imagem e semelhança, e nós podemos conceber e utilizar objetos abstratos, isso não indica que tais objetos são reflexos do pensamento divino?
Esta pergunta fortalece a conexão entre a capacidade humana de pensar e a ideia de que os objetos abstratos são derivados da mente de Deus, já que o ser humano reflete atributos divinos como a razão e o intelecto.
9. Se os objetos abstratos são independentes de Deus, como eles poderiam influenciar o mundo físico e servir como base para a criação, sem que Deus os governasse ou os tivesse em Sua mente?
A questão desafia a ideia de que objetos abstratos poderiam ter qualquer papel causal ou funcional sem estarem ancorados na mente de Deus.
10. Por que seria necessário postular a existência de realidades abstratas eternas e independentes, se elas podem ser explicadas como ideias presentes na mente de um Deus todo-poderoso?
Essa pergunta convida à reflexão sobre a simplicidade ontológica, sugerindo que a explicação do conceptualismo é mais parcimoniosa e coerente.
Essas perguntas estimulam uma reflexão lógica que sustenta o conceptualismo divino, argumentando que Deus é a realidade última, e todos os objetos abstratos são dependentes de Sua mente, preservando a Sua soberania e asseidade.
Nenhum comentário:
Postar um comentário