sábado, 22 de março de 2025

O Perigo de Não Treinar os Jovens com Argumentos Racionais e Apologéticos – Parte 3

Por Walson Sales

O contexto atual revela um desequilíbrio evidente no tempo que os jovens dedicam ao conteúdo secular em comparação ao que é investido no ensino cristão. Estima-se que os jovens cristãos passem cerca de três horas por dia em redes sociais (sendo bem flexível), expostos a conteúdos que, com frequência, desafiam a fé cristã e promovem ideologias contrárias aos valores bíblicos. Em contrapartida, o tempo médio semanal que um jovem assembleiano passa em contato direto com a Palavra de Deus na igreja é consideravelmente menor, mesmo somando os encontros tradicionais — oração para a mocidade, culto de doutrina, Escola Bíblica Dominical (EBD) e culto de domingo à noite.

Idealmente, esses encontros deveriam oferecer ao menos uma hora de ensino bíblico sólido cada, o que somaria cerca de quatro horas semanais dedicadas exclusivamente ao estudo e à prática da fé. No entanto, a realidade é que o tempo dedicado à Palavra é muitas vezes reduzido por fatores como programações extensas, presença de muitos órgãos de louvor, cantores convidados e, em alguns casos, pela falta de preparo adequado dos mensageiros. Esse cenário cria um ambiente onde os jovens recebem uma instrução fragmentada e superficial, que é insuficiente para lidar com o mar de influências contrárias que encontram diariamente.

Além disso, é preciso considerar que, na própria EBD, surgem obstáculos significativos: muitos professores não têm preparo adequado, e o conteúdo das lições frequentemente está desconectado das necessidades urgentes dos jovens e da igreja. Em meio a uma cultura que promove ideologias contrárias ao Cristianismo — como ateísmo, naturalismo, ideologias de gênero, materialismo, teorias evolucionistas e outros —, a igreja frequentemente aborda temas devocionais que, embora importantes, não capacitam os jovens para responder às pressões externas. Essa situação lembra o episódio da queda de Constantinopla, onde, enquanto as hordas muçulmanas cercavam a cidade, teólogos cristãos discutiam questões irrelevantes para aquele momento de crise.

Esta análise nos leva a um questionamento essencial: estamos preparando nossos jovens para enfrentar os desafios espirituais, intelectuais e culturais de nossa época? Precisamos urgentemente de uma formação continuada que não apenas ensine, mas que também prepare para o enfrentamento de um mundo cada vez mais hostil à fé cristã. Este artigo busca, então, explorar as lacunas no treinamento atual e sugerir soluções práticas para formar uma geração espiritualmente forte e intelectualmente capacitada.

O Tempo e a Influência das Redes Sociais

Estudos apontam que a média de horas diárias que os jovens passam nas redes sociais ultrapassa as três horas, sendo bombardeados com conteúdos que promovem ideologias e estilos de vida contrários aos princípios cristãos. Plataformas como Instagram, TikTok e YouTube Tornaram-se verdadeiros centros de disseminação de valores secularistas, ideologias naturalistas e visões de mundo materialistas, por um lado, e esotéricas e espiritualistas, por outro. Para um jovem cristão que passa apenas cerca de quatro horas por semana em encontros cristãos, essa exposição intensa cria um grande desnível.

Em contrapartida, os momentos dedicados ao ensino bíblico na igreja são frequentemente interrompidos por programações extensas e até pela falta de preparo adequado dos líderes e pregadores, que, em alguns casos, limitam o tempo da Palavra a 20 ou 30 minutos. Esse tempo reduzido não é capaz de competir com a influência poderosa e constante das redes sociais na vida dos jovens. Esse cenário coloca os jovens em uma posição vulnerável, onde se tornam alvos fáceis das ideologias contemporâneas e das “filosofias vãs”, contra as quais Paulo já advertia em Colossenses 2:8.

A Insuficiência do Ensino Eclesiástico

Na prática assembleiana, os jovens têm a oportunidade de estar em contato com a Palavra em reuniões como a oração da mocidade, o culto de doutrina, a EBD e o culto de domingo à noite. No entanto, esse sistema ideal é frequentemente prejudicado por fatores que limitam o tempo de ensino bíblico de forma significativa. A questão é agravada pela programação extensa e pela presença de atividades secundárias nos cultos, como apresentações musicais, recitais de órgãos e cânticos especiais. Embora essas atividades sejam importantes, elas muitas vezes tomam o lugar do ensino sólido e da pregação.

A EBD, em especial, enfrenta desafios próprios. Em muitas igrejas, a preparação do professor é negligenciada, comprometendo a qualidade do ensino. É comum que o professor, embora tenha um bom fundamento bíblico, não estude adequadamente o tema da lição, ou, ainda pior, que ele não tenha formação bíblica sólida e sistemática. Como resultado, muitos jovens não recebem o alimento espiritual necessário para enfrentar o mundo secularizado e os ataques à sua fé.

Outro ponto crítico é a escolha dos temas da EBD, que, muitas vezes, não aborda os problemas reais e urgentes enfrentados pela juventude. Enquanto a cultura promove o ateísmo, o naturalismo, o movimento LGBT, a ideologia de gênero, os valores das religiões orientais e outras filosofias que entram em conflito com os valores cristãos, os temas da EBD podem focar em questões devocionais desatualizadas, que não preparam os jovens para o confronto com esses desafios ideológicos. Esse descompasso lembra a situação dos teólogos orientais discutindo questões irrelevantes enquanto Constantinopla estava prestes a cair. Precisamos reconhecer que a formação de uma juventude cristã robusta e preparada exige um conteúdo relevante e atualizado, capaz de responder aos questionamentos contemporâneos.

Formação Continuada: Um Caminho Necessário

Para enfrentar esses desafios, a igreja precisa desenvolver mecanismos de formação continuada e aprofundada, em um esforço semelhante ao das Testemunhas de Jeová, que exigem três anos de estudo sistemático para seus novos convertidos, ou dos Adventistas, que oferecem o “Nisto Cremos”, um manual doutrinário de mais de 500 páginas. Esses grupos são considerados heterodoxos, mas demonstram um compromisso com a formação doutrinária que os torna aptos a defender suas crenças, ainda que equivocadas.

A formação continuada nas igrejas pode ser implementada por meio de iniciativas como:

1. Grupos Específicos de Estudos: Esses grupos podem estudar temas específicos, como Filosofia Cristã, Teologia Sistemática e História da Igreja, oferecendo uma base sólida para que os jovens defendam sua fé.

2. Centros de Pesquisa e Discussão: A criação de centros de pesquisa que abordem questões atuais, como biologia, ciências sociais, filosofia e política, daria à igreja uma base sólida para responder às questões contemporâneas e preparar os jovens para o debate.

3. Grupos de Estudos de Línguas Semíticas e Modernas: O estudo das línguas bíblicas (hebraico e grego) aprofunda a compreensão das Escrituras. Além disso, o domínio do inglês, espanhol e outras línguas permite o acesso a uma vasta literatura apologética e evangelística. Lembro-me do tempo que passei no curso de Filosofia na UFPE, onde não são raros os grupos de estudo de Grego Clássico. Nesses encontros, é comum vermos jovens da periferia, em sua maioria não crentes, profundamente versados no Grego Clássico. Eles leem e traduzem obras como Ilíada e Odisseia de Homero, as tragédias de Sófocles e Eurípides, os diálogos de Platão e os tratados de Aristóteles, tudo isso apenas por frequentarem esses grupos de estudo.

4. Publicações Digitais: A criação de jornais e revistas teológicas digitais proporciona aos jovens um recurso acessível e atualizado sobre temas essenciais da fé e da apologética.

5. Clubes de Leitura: Clubes de leitura com clássicos da fé e listas de livros importantes são uma maneira eficaz de cultivar uma mente cristã bem fundamentada e uma visão de mundo crítica. Tenho me sentido incomodado ao perguntar aos meus alunos do curso de Teologia se já leram determinados livros que, na minha opinião, deveriam constar em uma lista dos "100 livros que todo cristão deveria ler antes de morrer". Exemplos incluem: A Bíblia de capa a capa; O Refúgio Secreto de Corrie ten Boom; O Contrabandista de Deus do irmão André, fundador da Missão Portas Abertas; Por esta Cruz te Matarei de Bruce Olson; Discipulado de Dietrich Bonhoeffer; O Diário do Pioneiro de Ivar Vingren; O Diário de Anne Frank; A Cruz de Cristo de John Stott; Cristianismo Puro e Simples de C. S. Lewis; A Garota Judia e As Roupas Novas do Imperador de Hans Christian Andersen; As Aventuras de Robinson Crusoé de Daniel Defoe; A Ilíada e A Odisseia de Homero, O Peregrino de John Bunyan, entre outros. 

Lembro-me de quando li A Odisseia pela primeira vez e ainda sinto a emoção de ver Odisseu entrar em sua casa disfarçado como um mendigo desconhecido e vencer o desafio proposto para conquistar a mão de sua esposa, que estava sendo disputada por seus inimigos. Precisamos incentivar a leitura desses clássicos, pois eles ampliam nossa visão de mundo e aprofundam nossa compreensão da fé e da humanidade.

6. Agenda Bíblico-Cultural Anual: Organizar uma agenda anual com eventos culturais e bíblicos pode ajudar a promover as doutrinas fundamentais do Cristianismo e fortalecer a identidade denominacional.

Essas estratégias buscam equipar os jovens de forma sistemática e profunda, preparando-os para defender a fé diante dos desafios ideológicos e culturais. Como diz o apóstolo Pedro em 1 Pedro 3:15, os cristãos devem estar sempre preparados para responder a qualquer um que peça a razão de sua fé.

Conclusão

A urgência de uma formação continuada e apologética na igreja é clara. A juventude cristã precisa ser capacitada para enfrentar a crescente onda de influências contrárias à fé e responder de forma fundamentada aos desafios contemporâneos. Não basta que a igreja ofereça um discipulado básico e se contente com uma formação fragmentada. Assim como outros movimentos religiosos investem em um treinamento longo e profundo para seus membros, a igreja cristã deve ter a mesma diligência.

Os desafios são muitos, e os trabalhadores, poucos, como Jesus advertiu. No entanto, a formação de uma geração cristã espiritualmente forte e intelectualmente fundamentada depende de ações concretas e da criação de mecanismos de defesa e proteção do rebanho. A formação continuada é uma ferramenta poderosa para transformar a realidade e garantir que a igreja esteja pronta para enfrentar as demandas da nossa era.

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