Por Walson Sales
O debate entre a moralidade e a existência de Deus é um tema recorrente em discussões filosóficas e teológicas. A perspectiva judaico-cristã sustenta que o valor intrínseco da vida humana está enraizado na crença em um Criador que atribui dignidade e propósito à existência. Por outro lado, o pensamento ateísta propõe que, na ausência de Deus, a moralidade se torna relativa, questionando a validade dos conceitos de certo e errado. Este artigo explora essas duas visões, enfatizando a importância do valor da vida humana na perspectiva religiosa e os desafios que a moralidade enfrenta em uma visão ateísta, incluindo as implicações problemáticas do relativismo moral.
O Valor da Vida Humana na Perspectiva Judaico-Cristã
1. A Criação e o Propósito Divino
A tradição judaico-cristã afirma que a vida humana possui um valor intrínseco, pois foi criada à imagem e semelhança de Deus. Esse conceito não apenas confere dignidade a cada indivíduo, mas também implica que os seres humanos compartilham dos atributos comunicáveis de Deus, como intelecto, emoção, vontade, consciência, razão e liberdade. Esses atributos possibilitam a capacidade de fazer escolhas morais, refletir sobre o bem e o mal e buscar um propósito na vida.
Além disso, a influência da cultura judaico-cristã se estende por toda a civilização ocidental, moldando valores e princípios fundamentais. A ideia de que todos os seres humanos são dotados de direitos inalienáveis, por serem criados à imagem de Deus, está consagrada em documentos históricos cruciais, como a Declaração Universal dos Direitos Humanos, que afirma a dignidade e os direitos iguais de todos os indivíduos. Essa noção também se encontra na Declaração de Independência dos Estados Unidos, que proclama que todos os homens são criados iguais e dotados de certos direitos inalienáveis, entre eles a vida, a liberdade e a busca da felicidade. Na França, a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão reafirma a ideia de que todos os homens nascem e permanecem livres e iguais em direitos.
Esses textos refletem como a crença no valor intrínseco da vida humana, fundamentada na imagem de Deus, moldou as bases da ética e da moralidade nas sociedades ocidentais. A moralidade, nesse contexto, é vista como uma expressão de uma ordem divina que orienta as ações humanas em direção ao bem, promovendo a dignidade e o respeito à vida em todas as suas formas.
2. A Moralidade como Reflexo do Caráter Divino
Os ensinamentos bíblicos oferecem uma base sólida para a moralidade, promovendo valores como a compaixão, a justiça e o respeito ao próximo. As Escrituras fornecem um guia sobre como viver uma vida digna e honrosa, enfatizando a importância da ética nas relações interpessoais. Dessa forma, a moralidade é vista não como uma convenção social, mas como uma expressão do caráter de Deus.
3. As Virtudes Universais e a Consciência Moral
C.S. Lewis, em sua obra "The Abolition of Man", argumenta que existem virtudes morais universais que transcendem culturas e épocas, como a condenação do roubo e do assassinato. Essas virtudes sugerem que a moralidade não é meramente uma construção social, mas sim uma realidade acessível à consciência humana, que reflete uma ordem moral objetiva.
A Moralidade Ateísta: Desafios e Implicações
1. A Questão do Acaso e da Relatividade Moral
Na visão ateísta, a afirmação de que "Deus não existe" implica que a vida e a moralidade surgem do acaso, sem um propósito definido. Essa perspectiva levanta questionamentos sobre a validade da moralidade: se tudo é resultado de um evento aleatório, como se pode determinar o que é certo ou errado? Embora os ateus possam se identificar como realistas morais, acreditando na existência de valores morais, eles frequentemente não os consideram objetivos, levando ao relativismo moral.
2. O Problema do Relativismo Moral
O relativismo moral apresenta desafios sérios. Por exemplo, se um ateu se encontrasse em uma cultura canibalista, e fosse prestes a ser devorado, ele poderia argumentar que, para ele, o canibalismo é errado, mas que, para os canibais, é certo. Essa lógica relativista permite que se afirmem moralidades conflitantes, o que gera confusão ética. Nessa linha de pensamento, não se poderia condenar as ações de Hitler e os nazistas na Segunda Guerra Mundial, pois, segundo o relativismo, tudo seria uma questão de perspectiva cultural. Igualmente, seria impossível afirmar que os cristãos que erradicaram a escravidão estavam certos, pois a moralidade seria relativa a cada grupo ou indivíduo.
3. A Consciência Moral em um Mundo Sem Deus
A pergunta sobre como seres humanos, resultantes de processos naturais, adquiriram consciência moral é um desafio para a perspectiva ateísta. Embora alguns defendam que a moralidade surgiu como uma adaptação evolutiva, essa explicação não aborda satisfatoriamente a profundidade e a complexidade das questões morais que a humanidade enfrenta.
Conclusão
A discussão sobre o valor intrínseco da vida humana e a moralidade revela profundas diferenças entre a visão judaico-cristã e o pensamento ateísta. Enquanto a perspectiva religiosa fundamenta a moralidade em um propósito divino e valores absolutos, a visão ateísta enfrenta dificuldades em justificar a moralidade em um mundo sem Deus, especialmente quando confrontada com os desafios do relativismo moral. O reconhecimento do valor da vida humana como algo intrínseco e digno de respeito é um pilar essencial na abordagem judaico-cristã, que oferece não apenas uma estrutura moral, mas também um sentido profundo de propósito e significado na existência. Essa reflexão nos leva a considerar não apenas as implicações filosóficas, mas também o impacto que nossas crenças têm sobre a forma como vivemos e interagimos uns com os outros.
Questionário Desafiador para Relativistas Morais
1. Se a moralidade é completamente relativa, como você pode justificar sua condenação a ações que são amplamente vistas como imorais, como genocídios?
2. Se um grupo cultural acredita que o canibalismo é aceitável e você acredita que é errado, como você pode reconciliar essas visões?
3. Você acha que as ações de Hitler podem ser consideradas moralmente erradas em um contexto onde a moralidade é relativa?
4. Se não existem valores morais objetivos, como você define o que é “bom” ou “ruim” em sua vida cotidiana?
5. Você acredita que seria correto impor suas crenças morais a outras pessoas que têm uma visão moral diferente? Se sim, como isso se alinha com a ideia de relativismo?
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