terça-feira, 18 de março de 2025

Resenha do livro "The Life of Muhammad" de Ibn Ishaq

Por Walson Sales

A obra The Life of Muhammad de Ibn Ishaq, traduzida por Alfred Guillaume, é uma das mais antigas e completas biografias do Profeta Muhammad (Maomé). Escrita no século VIII, a biografia narra detalhadamente a vida do fundador do Islã, desde sua genealogia até os eventos mais importantes de sua missão como profeta. A tradução de Guillaume oferece uma visão integral da *Sira Rasul Allah* de Ibn Ishaq, permitindo ao leitor mergulhar nos acontecimentos fundamentais da vida de Muhammad, com ênfase nas revelações do Alcorão e nos conflitos políticos e religiosos que marcaram sua trajetória.

Profecias sobre o Nascimento de Muhammad

Desde o início da biografia, há relatos sobre presságios da chegada de Muhammad. Na página 94, Ibn Ishaq menciona Ibnu'l-Hayyaban, um adivinho judeu da Síria, que viajou a Meca à espera da chegada de um profeta. Ele previu que Muhammad viria para derramar sangue e tomar cativos aqueles que se opusessem a ele. Essa previsão reflete o ambiente profético e de expectativas messiânicas que cercavam a figura de Muhammad antes mesmo de seu nascimento.

Conflitos com os Quraysh e a "Promessa de Sangue"

Os confrontos entre Muhammad e sua tribo, os Quraysh, são centrais no relato de Ibn Ishaq. Na página 131, Muhammad responde às provocações dos membros da tribo que zombavam dele enquanto ele caminhava em torno da Caaba, ameaçando-os com uma promessa de violência: "Eu trago para vocês a matança". Esse episódio marca uma mudança no tom da missão de Muhammad, com uma abordagem mais assertiva contra seus opositores.

Os Versos Satânicos e a Correção Divina

Um dos episódios mais controversos registrados por Ibn Ishaq é o incidente dos chamados "Versos Satânicos". Na página 165, é relatado que Muhammad, sob influência de Satanás, recitou a Sura 109, que parecia indicar uma atitude de tolerância para com outras religiões: "Vocês têm sua religião, e eu tenho a minha". Mais tarde, porém, Muhammad foi repreendido por Allah, através do anjo Gabriel, e o verso foi corrigido por uma nova revelação, registrada na Sura 22.51 (p. 166), que anulou o verso anterior, reconhecendo a interferência de Satanás.

A Expansão do Islã e o Início das Guerras

O surgimento do Islã entre os Ansar (Auxiliares), uma tribo de Medina, é narrado na página 197, quando doze homens juraram lealdade a Muhammad antes da obrigação de guerrear. No entanto, o segundo juramento de Aqaba (p. 208) trouxe a obrigação de lutar por Allah e pelo profeta, com a promessa de recompensa no paraíso para os que fossem fiéis à causa.

Com a permissão divina, Muhammad iniciou suas campanhas militares. A partir da página 212, é descrita a permissão para lutar defensivamente contra os Quraysh, que tentavam seduzir os muçulmanos a abandonarem sua fé. Na página 213, Sura 22.40-41 estabelece o dever de lutar para que "não haja mais sedução", ou seja, para impedir que os crentes fossem desviados de sua religião.

Conflitos com os Judeus e a Primeira Expedição Militar

As tensões entre Muhammad e os judeus de Medina também são amplamente documentadas. Na página 239, Ibn Ishaq descreve os hipócritas – aqueles que, sob pressão, fingiram aceitar o Islã para salvar suas vidas. O início das guerras de Muhammad é registrado na página 280, com a primeira expedição militar em Waddan, que não foi um ato defensivo, mas um ataque, conforme mencionado pelo autor.

Expedições, Trapaças e Conflitos com a Tribo Judaica de Qaynuqa

O relato continua com os ataques de Muhammad a caravanas de seus inimigos. Na página 287, descreve-se uma expedição disfarçada de peregrinação em que os muçulmanos atacam uma caravana dos Quraysh. Já na página 363, Muhammad entra em conflito com a tribo judaica dos Banu Qaynuqa. O estopim do conflito foi um incidente aparentemente banal, em que uma piada de mau gosto foi feita com uma mulher muçulmana, resultando em uma disputa sangrenta. Muhammad ameaçou matar 700 judeus, mas foi dissuadido por Abdullah b. Ubayy b. Salul, um líder muçulmano que havia sido protegido pelos judeus.

Matanças e Assaltos em Nome de Deus

A biografia destaca os episódios em que Muhammad ordena a morte de judeus, inclusive o assassinato de Ibn Sunayna (p. 369), que chocou a comunidade pela quebra dos laços de sangue. A obra apresenta a violência como um elemento constante nas ações de Muhammad e seus seguidores, justificada pela revelação divina. O ataque à tribo Banu Qurayza é descrito na página 461, onde Gabriel ordena que Muhammad os ataque. Cerca de 600 a 900 homens foram executados em um único dia, com Muhammad participando pessoalmente das execuções.

Outro episódio marcante é a tomada de Khaybar (p. 510), uma cidade judaica que se rendeu aos muçulmanos. A rendição resultou em um acordo em que os judeus poderiam permanecer, mas teriam de entregar metade de sua produção aos muçulmanos (p. 516). Esse evento é apresentado como um exemplo do poder crescente de Muhammad e de sua capacidade de subjugar seus inimigos.

Conclusão

A biografia de Ibn Ishaq oferece uma visão crua e detalhada da vida de Muhammad, documentando suas batalhas, alianças e revelações. A obra não se esquiva das controvérsias e mostra o papel fundamental da violência e das estratégias políticas na expansão do Islã. Apesar de ser uma leitura complexa e, em alguns momentos, repetitiva, The Life of Muhammad é essencial para quem deseja entender o desenvolvimento inicial da fé islâmica e o impacto duradouro das ações de seu profeta.

A leitura desta biografia é um mergulho na fundação do Islã, e ao examinar os episódios documentados por Ibn Ishaq, o leitor obtém uma compreensão profunda das motivações, dos desafios e dos métodos de Muhammad para consolidar sua autoridade religiosa e política.

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