domingo, 2 de março de 2025

Resenha dos três primeiros capítulos do livro "The Surprising Rebirth of Belief in God", de Justin Brierley

Por Walson Sales

Nos três primeiros capítulos de The Surprising Rebirth of Belief in God, Justin Brierley aborda a decadência do movimento do Novo Ateísmo e o ressurgimento da crença em Deus, especialmente no contexto ocidental. Ele explora como figuras proeminentes do ateísmo contemporâneo enfrentaram crises e divisões internas que desestabilizaram o movimento, abrindo caminho para uma reavaliação da fé cristã.

Capítulo 1: A Desintegração do Novo Ateísmo

O primeiro capítulo analisa o surgimento e a queda do movimento do Novo Ateísmo, que ganhou destaque com líderes como Richard Dawkins, Christopher Hitchens, Sam Harris e Daniel Dennett, os chamados "quatro cavaleiros do ateísmo". Esses intelectuais defendiam uma postura anti-religiosa, com um foco particular em criticar o cristianismo. No entanto, uma série de eventos e divisões internas gradualmente enfraqueceu o movimento.


Ayaan Hirsi Ali, uma ex-muçulmana que abraçou o ateísmo e depois se converteu ao cristianismo, é mencionada como um exemplo de como o ateísmo militante não conseguiu preencher as expectativas intelectuais e morais de muitos de seus defensores. Além disso, Brierley destaca a recusa de Richard Dawkins em debater com William Lane Craig, uma das principais figuras da apologética cristã. Esse episódio foi criticado publicamente por ateus, incluindo Daniel Came, que chamou Dawkins de covarde, e Michael Ruse, biólogo ateu que expressou vergonha pelo livro Deus, um Delírio de Dawkins. Esses incidentes minaram a credibilidade do movimento.

Capítulo 2: Conflitos e Escândalos Internos

O segundo capítulo foca nas divisões internas que dilaceraram o Novo Ateísmo. A polêmica conhecida como Elevatorgate teve um papel central nesse processo. Durante a Convenção Mundial de Ateus em 2011, Rebecca Watson, uma proeminente ateia e feminista que administrava o site Skepchick, relatou um caso de assédio sexual que ocorreu em um elevador do evento. Ela denunciou publicamente o comportamento sexista dentro da comunidade ateísta, o que gerou um grande conflito. PZ Myers, outro ateu conhecido, apoiou Watson, o que causou um intenso debate nos fóruns ateístas.

A situação piorou quando Richard Dawkins escreveu um artigo satírico intitulado Dear Muslima, no qual ele minimizou as queixas de Watson ao compará-las com as práticas abusivas sofridas por mulheres muçulmanas, como a mutilação genital. Isso acirrou ainda mais os ânimos, e Dawkins foi amplamente acusado de machismo e misoginia. O movimento começou a se dividir entre aqueles que apoiavam as causas progressistas, como o feminismo e os direitos LGBTQIA+, e aqueles que se opunham a essas pautas, destacando o crescente racha dentro da comunidade.

Além disso, outros escândalos de assédio sexual abalaram ainda mais o movimento. David Silverman, presidente da Organização Americana dos Ateus, foi afastado por acusações de corrupção financeira e assédio sexual. Michael Shermer e Richard Carrier, figuras influentes no movimento, também enfrentaram acusações semelhantes, o que resultou no afastamento deles de diversos eventos ateístas. O renomado astrofísico ateu Lawrence Krauss foi igualmente implicado em casos de assédio sexual em universidades americanas, o que levou à sua demissão em algumas instituições.

Capítulo 3: Progressismo e a Fragmentação do Ateísmo

No terceiro capítulo, Brierley examina como a infiltração de pautas progressistas acelerou o declínio do ateísmo militante. O movimento, que antes era focado em questões científicas e no embate com a religião, passou a ser dominado por debates internos sobre feminismo, direitos LGBTQIA+, negritude e a cultura woke. Esse cenário criou uma cisão ainda maior dentro do ateísmo. 

Sam Harris, um dos líderes do movimento, passou a ser criticado por islamofobia devido às suas posturas contra o Islã, enquanto tentava defender o feminismo e causas progressistas. J.K. Rowling, a autora de Harry Potter, entrou na discussão ao criticar o movimento transgênero. Sua posição contrária à ideia de que mulheres transgênero deveriam ser consideradas mulheres biológicas provocou uma forte reação negativa por parte de ateus progressistas. Isso a transformou em uma figura controversa dentro desses círculos, especialmente nos que apoiam os direitos trans.

No campo do ateísmo progressista, o grupo Ateísmo ganhou força, promovendo pautas de igualdade de gênero e direitos trans. No entanto, o conflito se agravou quando o ateu britânico Stephen Woodford, convidado para o show The Atheist Experience, declarou ser injusto que homens biológicos competissem em esportes femininos. Isso provocou sua exclusão do programa, e Matt Dillahunty, que o havia convidado, foi demitido da comunidade. O movimento, já enfraquecido por suas divisões, se viu cada vez mais envolvido em questões políticas, afastando-se de seu objetivo original de confronto com a fé religiosa.

Até mesmo Carl Benjamin, também conhecido como Sargon of Akkad, causou polêmica ao tuitar de forma ofensiva para a primeira-ministra britânica, levando a mais divisões dentro do movimento. O resultado final foi o enfraquecimento do ateísmo organizado, que se fragmentou em diferentes grupos, cada qual focado em causas específicas e muitas vezes conflitantes.

Este livro merece ser traduzido e publicado com urgência no Brasil.

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