quinta-feira, 6 de março de 2025

Seis Questões Fundamentais de uma Cosmovisão

Por Walson Sales

Segundo o livro épico Questões Últimas da Vida: Uma Introdução à Filosofia, do filósofo cristão Ronald Nash,[1] cosmovisões contêm pelo menos seis conjuntos de crenças, que abrangem crenças sobre Deus, metafísica (ou seja, a realidade última), epistemologia (o conhecimento), ética e antropologia. É importante notar que a antropologia é uma área relevante para o conhecimento humano. Um aspecto que poderia ser acrescentado à nossa lista é a história. No entanto, além desses cinco elementos, o campo da história é significativo, mas vamos nos concentrar nos principais: Deus, metafísica, epistemologia, ética e antropologia. No final, darei um vislumbre sobre a questão da história.

Embora cosmovisões possam incluir outras crenças, que não precisam ser mencionadas neste momento, essas cinco geralmente definem as diferenças mais importantes entre sistemas conceituais concorrentes.

1. A Questão sobre Deus

A primeira crença diz respeito a Deus. O elemento crucial de qualquer cosmovisão é o que ela afirma ou nega sobre Deus. As cosmovisões diferem amplamente em questões básicas, como:

- Deus existe?

- Qual é a natureza de Deus?

- Há mais de um Deus?

- Deus é um ser pessoal, ou seja, é capaz de conhecer, amar e agir, ou é uma força ou poder impessoal?

Devido às visões conflitantes sobre a natureza de Deus, sistemas como budismo, hinduísmo e xintoísmo não são apenas religiões diferentes, mas também distintas cosmovisões. O Judaísmo e o Cristianismo, por sua vez, são exemplos de teísmo. Os adeptos conservadores dessas religiões compartilham convicções que têm mais em comum entre si do que com religiões dualistas, que reconhecem duas divindades, ou politeístas, que reconhecem múltiplas deidades, assim como sistemas panteístas que veem o mundo como divino. Portanto, um componente essencial de uma cosmovisão é sua visão sobre Deus.

2. Metafísica: A Realidade Última

O segundo componente é a metafísica, que inclui também respostas a questões como:

- Qual é o relacionamento entre Deus e o universo?

- A existência do universo é um fato bruto?

- O universo é eterno?

- Um Deus eterno, pessoal e todo-poderoso criou o universo?

- Deus e o mundo são seres coeternos e interdependentes?

Essa questão é relevante e é defendida por muitos, como na teologia do processo. O mundo é melhor entendido de maneira mecanicista, ou seja, sem propósito, ou há um propósito para o universo? Qual é a natureza final do universo? É o cosmos natural, espiritual ou algo mais? O universo é um sistema autocontido, onde tudo que acontece é causado e explicado por outros eventos dentro dele, ou a realidade sobrenatural, um ser além da natureza, pode agir causalmente dentro dessa mesma natureza? Milagres são possíveis? Embora algumas dessas perguntas possam não ocorrer a algumas pessoas, é provável que você já tenha pensado sobre muitas delas e tenha alguma crença a respeito.

3. Epistemologia: O Conhecimento

O terceiro aspecto é a epistemologia. Um componente essencial de qualquer cosmovisão é a teoria do conhecimento. Mesmo pessoas que não estão preocupadas com a busca filosófica mantêm um conjunto de crenças epistemológicas. A maneira mais simples de perceber isso é perguntar se acreditam na possibilidade de se obter conhecimento sobre o mundo. Quer respondam afirmativamente ou não, essa resposta revelará um elemento de sua epistemologia.

Outras questões igualmente relevantes incluem:

- Qual é a confiabilidade dos nossos sentidos?

- Quais são os papéis adequados da razão e das experiências sensoriais no conhecimento?

- Podemos aprender sobre nosso estado de consciência de maneiras além da razão e da experiência sensorial?

- Nossas intuições sobre nosso estado de consciência são mais confiáveis do que nossas percepções do mundo exterior?

- A verdade é relativa ou deve ser a mesma para todos os seres racionais?

- Qual é a relação entre fé religiosa e razão?

- O método científico é o único ou o melhor método para adquirir conhecimento?

- É possível ter conhecimento sobre Deus? Se sim, como podemos conhecê-Lo?

- Deus pode revelar-se ou revelar informações aos seres humanos?

- Qual é a relação entre a mente de Deus e a mente humana?

Embora poucos reflitam sobre essas questões enquanto estão em uma atividade recreativa ou durante suas atividades cotidianas, a simples pergunta pode gerar opiniões. Todos nós mantemos crenças sobre questões epistemológicas; tudo o que precisamos é direcionar nossa atenção para essas perguntas.

4. Ética: Moralidade e Justiça

O quarto aspecto é a ética. Muitas pessoas estão mais conscientes dos componentes éticos de suas cosmovisões do que de suas crenças metafísicas e epistemológicas. Fazemos julgamentos morais sobre as condutas tanto de indivíduos quanto de nós mesmos. Entretanto, as crenças éticas relevantes nesse contexto são mais fundamentais do que os julgamentos sobre atos singulares.

- Existem leis morais que regem a conduta humana? Quais são?

- Essas leis são as mesmas para todos os seres humanos?

- A moralidade é subjetiva, como o gosto de alguém por determinados alimentos, ou possui uma dimensão objetiva que transcende nossas preferências e desejos?

- As leis morais são descobertas, assim como meios matemáticos, ou são construídas por seres humanos, mais ou menos como os costumes?

- A moralidade é relativa a indivíduos, culturas ou períodos históricos? Faz sentido dizer que a mesma ação pode ser correta para pessoas de uma cultura, mas errada para outras, ou a moralidade transcende os limites culturais, históricos e individuais?

5. Antropologia: A Natureza Humana

O quinto aspecto é a antropologia. Toda cosmovisão inclui um conjunto de crenças sobre a natureza dos seres humanos. Exemplos de questões importantes são:

- Os seres humanos são livres ou meros instrumentos de forças dominantes?

- O ser humano é apenas corpo ou materialidade, ou estão corretos os pensadores que falam sobre a alma humana ou que distinguem entre mente e corpo?

- Se estes estiverem certos, o que é a mente ou a alma humana e como ela se relaciona com o corpo?

- Com a morte física, termina a existência da pessoa humana? Existe uma sobrevida pessoal e consciente após a morte?

- Existem recompensas e punições pós-morte?

- Há seres humanos bons ou maus?

Essa é uma questão fundamental neste contexto. Não pretendo sugerir que os adeptos de uma mesma cosmovisão concordem em todos os aspectos dela. Mesmo cristãos que compartilham crenças essenciais podem discordar em outros pontos importantes, talvez interpretando de maneira diferente a relação entre a liberdade humana e a soberania de Deus, ou ainda debatendo sobre como aplicar a lei de Deus em situações específicas, envolvendo temas complexos como defesa nacional, pena de morte e bem-estar social, entre outros que dividem a cristandade em diferentes denominações. Contudo, será que tais discordâncias comprometem o argumento que apresento sobre a natureza de uma cosmovisão? De maneira nenhuma. Um estudo cuidadoso dessas discordâncias revelará diferenças internas dentro de uma mesma família de crenças.

6. História: A Narrativa do Tempo

Por fim, a história. A visão de mundo judaico-cristã trata a história como linear, formada de início, meio e fim. Esse início é absoluto. O que diferencia essa elaboração cristã oriunda da revelação de todas as visões de mundo do período de Moisés é que, para os mitos do período de Moisés, o mundo foi criado durante as batalhas dos deuses; inclusive, esses deuses criaram o mundo com os restos mortais dos deuses vencidos.

Para os cientistas materialistas e naturalistas, só existe o mundo natural; portanto, para eles, ou o universo criou a si mesmo ou é eterno, como um fato bruto que não precisa de explicação, o que são absurdos. A Teoria do Big Bang, que advoga um início absoluto do universo em passado finito, se torna uma rendição da ciência à revelação bíblica em Moisés. Mais à frente, pretendo mostrar que a Teoria do Big Bang não é inimiga da fé cristã, antes é uma aliada.

Quando dois ou mais cristãos discutem uma determinada questão, um dos passos que devem tomar para justificar suas posições e convencer uns aos outros é demonstrar que seus pontos de vista são mais consistentes com os fundamentos de sua cosmovisão. Contudo, é necessário reconhecer que discordar em alguns aspectos pode levar a percepções de que os discordantes abandonaram a família de crenças, independentemente do desejo de continuar a se considerar cristão. Por exemplo, muitos teólogos liberais dentro da cristandade continuam a se autodenominar cristãos, embora suas opiniões possam ser claramente inconsistentes com as crenças do cristianismo histórico.

Se alguém nega a Trindade, a personalidade de Deus, a doutrina da criação, o fato da depravação humana, a divindade de Jesus, a historicidade de Jesus, a ressurreição corporal e física de Jesus, ou a doutrina da salvação pela graça, já demonstrou que seu sistema religioso é uma cosmovisão diferente daquela que tem sido tradicionalmente chamada de cristianismo.[2] Muita confusão poderia ser evitada se pudéssemos encontrar uma maneira de restringir o uso de rótulos como "cristianismo" a uma forma que respeite seu significado histórico.

Conclusão

Gostemos ou não, cada um de nós possui uma cosmovisão. As cosmovisões funcionam como esquemas conceituais interpretativos que explicam como enxergamos o mundo, por que pensamos e agimos de determinada maneira. As cosmovisões concorrentes frequentemente entram em conflito, e esses embates podem ser inócuos, como uma discussão trivial, ou sérios, como uma guerra entre nações. Portanto, é crucial compreender que as discordâncias mais significativas refletem o choque entre cosmovisões conflitantes. As cosmovisões são como espadas de dois gumes: um esquema conceitual inadequado pode dificultar nossas tentativas de entender a Deus, o mundo e a nós mesmos, enquanto um esquema conceitual correto pode oferecer a esses aspectos o foco apropriado.

Notas


[1] Realizei ainda quatro cursos com o Professor Ronald Nash pelo Biblical Training, a saber, Essentials of Philosophy and Christian Thought (3 horas); Christian Apologetics (15 horas); History of Philosophy and Christian Thought (20 horas); Advanced Worldview Analysis (11 horas); Ronald Nash era um dos maiores especialistas em análise de visões de mundo e religiões comparadas. Foi baseado nesses cursos, e em outros, que elaborei o curso de Apologética Cristã em mp3. Muito do que elaboro aqui são oriundos das anotações desses cursos.

[2] Uma coisa importante precisa ser dita sobre as crenças essenciais e periféricas. As crenças chamadas de essenciais são aquelas que fazem alguém ser reconhecido como um cristão genuíno e que negá-las seria uma confissão pública de apostasia. Por exemplo, negar a Trindade, a doutrina da criação, a encarnação do verbo, a pessoa histórica de Jesus, seu caráter messiânico, sua divindade, sua ressurreição e a inspiração das Escrituras faria de alguém um cristão em estado de apostasia. São doutrinas essenciais. As doutrinas periféricas não são teste de ortodoxia. Não são consideradas selo de pureza doutrinária. Por exemplo, se a terra é antiga ou jovem, ou se o arrebatamento é mid, pré ou pós-tribulacionista, e ainda sobre questões tradicionais e de usos e costumes. Devemos ter clareza sobre essas questões para a maturidade espiritual; caso contrário, entraríamos no rol das denominações paracristãs exclusivistas que afirmam que a salvação está na prática e interpretação exclusiva de uma denominação e pessoa.

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