sábado, 29 de março de 2025

Uma Análise Crítica do Calvinismo: Insights Poderosos de Dave Hunt vs. A Sistematização de James White

Por Walson Sales

O capítulo 9 do livro *Debating Calvinism: Five Points, Two Views*, intitulado *“The Central Issue: God’s Love”*, traz à tona um aspecto central e profundamente debatido no confronto teológico entre o Calvinismo e outras interpretações do cristianismo: o amor de Deus. Nesta obra, Dave Hunt e James White debatem de forma acalorada os cinco pontos do Calvinismo. No capítulo em questão, Hunt se debruça especificamente sobre o tema do amor divino, questionando as implicações da doutrina calvinista para a compreensão desse amor. Hunt argumenta que o Calvinismo, ao ensinar a predestinação incondicional, restringe a noção de amor divino, transformando-a em um favoritismo insensível, incompatível com a visão bíblica de Deus.

Hunt estrutura sua argumentação em torno de perguntas e inferências que buscam revelar uma suposta incongruência no Calvinismo: como Deus, que é definido como amor, poderia predestinar pessoas ao tormento eterno, alegrando-se com a condenação delas? Essa pergunta norteia a análise de Hunt, que defende a perspectiva de que o amor de Deus, sendo perfeito e universal, não pode ser seletivo. Ele sugere que, ao reduzir o amor de Deus a uma escolha soberana por alguns poucos eleitos, o Calvinismo falha em representar o caráter amoroso de Deus, especialmente considerando passagens bíblicas que enfatizam o desejo de Deus em salvar todos os homens (1 Timóteo 2:4) e sua falta de prazer na morte do ímpio (Ezequiel 33:11).

Em sua crítica, Hunt também aponta para a experiência humana do amor e da compaixão, observando que, segundo a moralidade cristã, somos ensinados a amar o próximo, incluindo nossos inimigos. Ele argumenta que, se o amor humano, reflexo do amor de Deus, deve ser estendido a todos, incluindo aqueles que se afastaram de nós, então o próprio Deus deveria, logicamente, amar a todos de forma incondicional e desejosa de salvação. Nesse ponto, Hunt interpreta o amor de Deus como fundamentalmente inclusivo, enfatizando que Cristo morreu pelos pecados de toda a humanidade, e não apenas por um grupo restrito.

Outro aspecto importante levantado por Hunt é o entendimento que os calvinistas têm da “graça comum”. De acordo com essa linha de pensamento, Deus manifesta certa forma de bondade a todos por meio de bens materiais, como a chuva e o sol, mas reserva a graça salvadora exclusivamente aos eleitos. Hunt, contudo, refuta essa distinção, considerando-a insuficiente como expressão do amor de Deus. Para ele, restringir a salvação a apenas alguns diminui a ideia de que “Deus é amor” (1 João 4:8), uma característica central e essencial da natureza divina, única entre seus atributos.

Ao abordar as implicações teológicas e práticas do amor de Deus, Hunt ainda sugere que a visão calvinista leva a uma redução da urgência evangelística. Em sua perspectiva, se Deus já escolheu aqueles que serão salvos e aqueles que serão condenados, não haveria necessidade de preocupar-se com a pregação do Evangelho aos “não-eleitos”. Hunt considera essa postura uma deturpação do Evangelho, pois acredita que a evangelização é uma manifestação do amor de Deus por todos.

O autor também questiona a lógica de que Deus tenha predestinado pessoas ao tormento eterno para exibir sua justiça e glória. Ao adotar essa interpretação, Hunt afirma que o Calvinismo contradiz a essência do amor divino, que deveria levar Deus a providenciar um meio de salvação a todos, uma vez que todos são seus “próximos” a serem amados. Hunt insiste que, conforme ensinamentos de Jesus, amar o próximo de maneira sacrificial e compassiva é um reflexo direto do próprio amor de Deus.

Assim, Hunt conclui que a visão calvinista não apenas distorce o caráter de Deus, mas também promove uma ideia de amor divino que seria considerada moralmente reprovável se fosse aplicada aos relacionamentos humanos. Afinal, Deus nos chama a amar o próximo sem reservas, mas o Calvinismo apresenta um Deus que, paradoxalmente, age de modo contrário, amando apenas alguns. Para Hunt, o amor verdadeiro é universal, abnegado e incondicional, e qualquer teologia que contradiga esse entendimento não faz jus ao Deus da Bíblia.

A reflexão que Hunt propõe no capítulo é, portanto, uma defesa apaixonada da ideia de que Deus, sendo amor, não pode agir de forma seletiva e arbitrária. Hunt busca demonstrar que o amor divino deve ser compreendido à luz da própria revelação de Deus em Cristo, o qual, por amor, se entregou a todos e por todos. Em última análise, ele argumenta que a doutrina calvinista, ao excluir parte da humanidade desse amor, compromete a beleza da “maior história já contada” – a do amor de Deus por todos os pecadores e o convite para todos se achegarem a Ele.

Embora James White tenha organizado seus argumentos de forma sistemática e lógica, considero que os insights de Dave Hunt são verdadeiramente impactantes, fornecendo uma crítica poderosa que, em minha opinião, desmantela as bases do calvinismo de uma maneira que White não conseguiu responder. A profundidade e clareza que Hunt apresenta neste livro são de grande valor para o debate teológico, e acredito que essa obra merece ser traduzida e publicada no Brasil, onde muitos poderiam se beneficiar de sua análise contundente e cuidadosa.

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