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quinta-feira, 13 de fevereiro de 2025

Porque uma interpretação correta das Escrituras torna-se extremamente necessárias nos dias atuais?

Assistimos nos últimos anos o surgimento de várias novas "teologias" que procuram de alguma forma dar novas interpretações aos textos da Bíblia Sagrada mas, qual delas traz um real sentido das Escrituras?

Sobre a autoria da Bíblia Sagrada

Há alguns dias, ouvi uma pessoa afirmar: Creio em Deus, mas não acredito que a Bíblia seja a Palavra de Deus pois foi escrita por homens.

A autoria a Bíblia Sagrada sofre verdadeiros ataques, há alguns pensamentos, não só modernos, mas já algum tempo, de que a autoria da Bíblia pode e deve ser questionada, afinal foi escrita por homens que, por sua vez, são falhos.

Existe pelo menos 3 tipos de pensamentos sobre a Bíblia Sagrada conforme Noman Geisler e William Nix (2006, p.16), entretanto, vamos nos deter no pensamento ortodoxo:

O ensino Ortodoxo, que afirma ser a Bíblia a Palavra de Deus, sendo esta ditada, mas não de forma mecânica e sim de uma forma que Deus respeita a personalidade humana. Ainda levando em consideração do conceito de inspiração conceitual de cada autor, respeitando a forma literária de cada um. 

Sobre inspiração divina

Podemos dizer que a Bíblia Sagrada é um livro singular de autoria divino- humana, pois ela foi inspirada por Deus e da mesma maneira escrita por homens que estiveram sob inspiração e supervisão do Espírito Santo:

Temos, assim, tanto mais confirmada a palavra profética, e fazeis bem em atende-la, como a uma candeia que brilha em lugar tenebroso, até que o dia clareie e a estrela da alva nasça em vosso coração, sabendo, primeiramente, isto: que nenhuma profecia da Escritura provém de particular elucidação; porque nunca jamais qualquer profecia foi dada por vontade humana; entretanto, homens [santos] falaram da parte de Deus, movidas pelo Espírito Santo. (2Pe 1.19-21)

A Teologia Sistemática Pentecostal afirma que: A Bíblia Sagrada é um livro de dupla autoria. Se por um lado, foi inspirada por Deus; por outro, não podemos nos esquecer de ter sido escrita por homens que estiveram sob a inspiração e supervisão do Espírito Santo. (p.20).

A Bíblia Sagrada além de ser a própria Palavra de Deus, ela auxilia o homem para uma melhor compreensão sobre Deus, O Deus Criador, Todo-Poderoso, portanto, concordamos com Heber que diz que “As Escrituras são os óculos através dos quais podemos ver claramente quem está por trás das obras da criação.” (CAMPOS, 2018, p.49, Vl. 01).

A Bíblia é a Palavra de Deus, mas devemos concordar com Thomas Brown ao dizer que “A Palavra de Deu, pois é o que creio serem as Sagras Escrituras; Fosse apenas obra do homem, seria a mais singular e sublime, desde o primeiro instante da criação” (BROWN, 1985 apud GILBERTO, ANDRADE, ZIBORDI, CABRAL, et al, 2008, p.21). A 

Bíblia é um livro incrivelmente singular, por possuir uma dupla natureza em sua autoria a divina e a humana. O que deixa a deixa um tanto quanto interessante em sua leitura é que em nenhum momento essas duas naturezas entram em contradição ou violam-se, pois a inspiração divina é inviolável. Como a Bíblia tem em sua característica ser um livro de coautoria humana, podemos observar que nela contém estilos literários característicos já abordados neste trabalho anteriormente, como podemos observar as poesias, histórias, discursos, profecias e dissertações acerca da pessoa de Deus e de suas relações com o homem e com a natureza contidas em toda a bíblia Sagrada. Como os estilos literários individuais dos homens não foram violados pela inspiração divina, desta forma, é definida a doutrina da inspiração divina dada aos homens na produção da Bíblia Sagrada (2Tm 3.16).

Podemos observar que a Bíblia é um livro humano, foi escrita por autores humanos por isso se fez necessário a preservação das formas literárias, pois, elas são características das produções literárias humanas, sabendo que cada homem em sua individualidade tem uma característica singular podendo esta variar de acordo com a época e ponto de vista, e com a bíblia não poderia ser diferente, existem aproximadamente 45 homens diferentes que foram usados por Deus para escrever Sua Palavra. Ainda em relação a autoria humana a Bíblia foi escrita em línguas humanas: 

“(Hebreu no Antigo Testamento e Grego no Novo Testamento). A Bíblia é expressa em estilos literários humanos (incluindo a elevada poesia de Isaías, as lamentações pesarosas de Jeremias, as parábolas de Jesus registradas nos evangelhos e a apresentação didática de Paulo)” (ZACHARIAS; GEILER, 2016, p.127).

Portanto, a Bíblia além de ser um livro humano, pois foi desenvolvida, sistematizada e preservada por homens através das tradições orais, posteriormente escrita e traduzida por homens igualmente compromissados com Deus em transmitir a sua revelação especial. Entretanto, a autoria da Bíblia não se limita somente aos homens que a escreveram, Deus tornou que esta Revelação Especial fosse possível graças ao que chamamos na teologia de Inspiração.


Por Rafael Félix.

sábado, 24 de dezembro de 2022

O FINAL DO EVANGELHO DE MARCOS (16.9-20) É AUTÊNTICO?

 

Leandro Mendonça Justino [1]


INTRODUÇÃO


Depois de ter comentado uma imagem compartilhada por meu professor, Walson Sales, em uma lista de transmissão pelo WhatsApp, fui convidado por ele a escrever sobre um dos assuntos teológicos contido naquela imagem. O assunto era crítica textual. Na imagem um pastor da Igreja Batista Redenção[2] estava sendo questionado por uma pessoa sobre a atualidade dos dons espirituais (é o que dá a entender), essa pessoa cita um texto que se encontra no final do evangelho de Marcos (16.17,18) e questiona ao pastor se ele acreditava nas palavras de Jesus registradas naqueles versículos. Uma das coisas respondida pelo pastor é que Jesus não falou aquelas palavras e que esse texto é uma inserção feita no texto bíblico no século dois, e que ele acreditava em um texto falso. Então o rapaz questiona: “esse texto não deveria estar na bíblia?” O pastor responde: “esse texto não está na bíblia, alguém colocou lá”. Essas são algumas das informações relevantes daquela imagem.

Por conseguinte, temos por finalidade responder essa pergunta: o final do evangelho de Marcos (16.9-20) não deveria estar na Bíblia? Esse questionamento surgiu “desde que Tischendorf descobriu o Códice Sinaítico, em meados do século dezenove” (PAROSCHI, 2012, p. 208), onde essa passagem não se encontra registrada nele. Esse manuscrito é considerado um dos melhores manuscritos que possuímos pela maioria dos críticos textuais. 

Vamos iniciar essa pesquisa tentando entender a problemática.


ENTENDENDO A QUESTÃO


Para entendermos essa questão da não autenticidade de um texto bíblico do Novo Testamento, o que é para muitos uma dificuldade intelectual, se faz necessário entender como o texto em português que possuímos e utilizamos é produzido. As nossas Bíblias são uma tradução. Acredito que todos saibam que o Novo Testamento não foi escrito originalmente em português. De fato, ele foi escrito em Grego em uma época onde a imprensa ainda não tinha sido inventada e muito menos a foto cópia. No primeiro século, quando o Novo Testamento foi escrito a única maneira de preservar um documento era copiando a mão. E, o que acontece quando tentamos copiar as palavras de um livro à mão? Certamente, erros são cometidos, uma palavra é escrita errada, uma palavra é omitida, uma linha pode ser pulada, pode ser acrescentado uma palavra, etc., e quando nós analisamos as mais de 5.800 cópias do Novo Testamento que possuímos espalhadas pelo mundo é exatamente isso o que observamos, nenhum manuscrito concorda com outro em todos os lugares. Mas, isso não seria um problema se tivéssemos os livros originais do Novo Testamento, pois bastaria comparar as cópias com os documentos originais, identificar os erros e corrigir. Entretanto, nós não possuímos nenhum documento original do Novo Testamento. Temos apenas suas cópias. Isso é um fato e não tem como se esquivar disso. Todavia, não ter os livros originais do Novo Testamento não quer dizer necessariamente que não temos o texto original, vale a pena ter isso em mente, o importante é o texto e não o documento físico.[3]

Dessa forma, para produzir um texto grego do Novo Testamento precisamos de uma disciplina especial que tem por objetivo reconstruir o texto de um documento cujo o original foi perdido ou destruído e que suas cópias sobreviventes possuem divergências entre si – a crítica textual. A crítica textual não deve ser entendida como um apontamento de defeitos do texto do Novo Testamento, mas como um exercício de julgamento. Visto que não temos os documentos originais do Novo Testamento e suas cópias que sobreviveram possuem diferenças entre si, então precisamos avaliar e tentar descobrir qual é o texto correto que o autor escreveu e qual é o texto errado acrescentado ou omitido por aquele que o copiou. E, para isso precisamos de uma metodologia. Não podemos simplesmente escolher os textos que gostamos, e excluir os que não queremos, como as Testemunhas de Jeová fazem com sua bíblia mutilada, a Tradução do Novo Mundo. Precisamos de uma metodologia e precisamos ser consistentes em sua utilização.


EM BUSCA DE UMA METODOLOGIA


Aqui está a chave para entender porque algumas pessoas defendem que o final do evangelho de Marcos (16.9-20) é autêntico e outras não – a metodologia. Existem mais de 5.800 manuscritos Gregos do Novo Testamento, e ninguém até hoje foi capaz de contar quantas diferenças há entre esses manuscritos. O Novo Testamento em Grego, segundo Wallace (2009) tem 138.162 palavras.[4] Uma estimativa dada por Komoszewski, Sawyer e Wallace (2006, p. 54) é que existem 400.000 diferenças ou erros entre os manuscritos gregos, sem contar as versões[5], poderíamos dizer que em média para cada palavra do Novo Testamento em Grego temos três opções. Porém, não devemos nos assustar com esses números, pois apenas mais ou menos 1% do texto Grego do Novo Testamento é afetado por esses erros, de modo a alterá-los de alguma forma significativa e possuindo alguma chance de ser o texto original, os outros 99% do texto os estudiosos não possuem duvidas, pois os erros que aparecem nos manuscritos são fáceis de serem identificados e corrigidos, ou não possuem chance de serem o texto original. Chamamos tecnicamente esses erros entre os manuscritos de variantes textuais.[6] E onde estão essas variantes que alteram o sentido do texto de alguma forma significativa e possuem alguma possibilidade de serem o texto original do Novo Testamento? Esses 1% (1.438)[7] do texto em Grego e suas variantes se encontram nas notas de roda pé (aparato crítico) da Bíblia em Grego da Sociedade Bíblica do Brasil, o GNT (The Greek New Testament), você também pode ver com mais facilidade todas essas variantes e quais as passagens bíblicas que são afetadas no livro: Variantes Textuais do Novo Testamento, do autor: Roger L. Omanson.[8]

São os críticos textuais que trabalham com essas variantes, eles utilizam vários argumentos textuais para dizer qual variante é mais provável de ser o texto original. Isso eles fazem se baseando nas evidências. As evidências são classificadas como sendo de natureza interna e externa. De acordo com Blomberg (2014) a evidência externa se refere ao número e à natureza dos manuscritos que apoiam cada leitura variante. E a evidência interna é a avaliação das mudanças que um copista provavelmente faria, intencionalmente ou não, bem como o que o autor original provavelmente teria escrito. 

Conforme Porter e Pitts (2015), existem diversas metodologias utilizadas para a reconstrução do texto Grego do Novo Testamento e entre elas estão: a abordagem genealógica, a do texto majoritário, os métodos ecléticos e o modelo de texto único. Cada metodologia dá uma certa ênfase as evidências e dessa forma dependendo da metodologia adotada teremos um texto diferente. 

Apesar de ter mencionado quatro metodologias que podem ser adotadas na reconstrução do texto Grego do Novo Testamento, nessa pesquisa defendo o ecletismo ponderado, pois, ela é a metodologia mais coerente e adequada para o Novo Testamento, porque ela dá a mesma importância as evidências (interna e externa). O método eclético possui duas categorias, o ecletismo rigoroso e o ponderado. O motivo pelo qual eu não adoto o ecletismo rigoroso é porque ele não dá muita importância as evidências externas, um crítico textual que se considera um eclético rigoroso é Keith Elliott, o seu posicionamento é que o final do evangelho de Marcos foi perdido.[9] E ao dar ênfase as evidências internas ele não leva em consideração ao tomar esse posicionamento o fato de que provavelmente o evangelho de Marcos foi escrito em formato de rolo, e nesse tipo de manuscrito o final é o mais protegido, então o último texto que poderia ser perdido é justamente o final, mas o ecletismo rigoroso ao dar ênfase as evidências internas, não leva em consideração essas informações das evidências externas. 

O ecletismo rigoroso é um extremo, do outro lado, na outra extremidade se encontra os defensores do texto majoritário, dando ênfase as evidências externas. Esse extremo também deve ser evitado por uma questão simples de logica. Os defensores do texto majoritário advogam a causa de que o texto original do Novo Testamento está preservado na maioria dos manuscritos, porém, se um texto falso foi copiado mais vezes do que o texto original isso faria o texto falso se tornar o texto original? Claro que não, uma mentira contada milhares de vezes não se torna verdade, por esse motivo a maioria dos críticos textuais rejeitam a abordagem do texto majoritário. A questão aqui não é poucos manuscritos versus milhares de manuscritos, mas é um texto preservado em poucos manuscritos contra um texto preservado em milhares de manuscritos. É um contra um. Qual é o mais provável de ser o texto original? Onde as evidências nos levam? A crítica textual é mais complexa do que simplesmente contar manuscritos como os defensores do texto Majoritário fazem. 

E, é justamente essa complexidade que faz com que o método genealógico se torne inadequado para a reconstrução do texto Grego do Novo Testamento. Diferente do Alcorão, o Novo Testamento não teve sua distribuição controlada. Quando Paulo escreveu a carta aos Romanos, ele a enviou por meio de uma irmã chamada Febe, e depois disso, ele não tinha mais controle sobre o texto de sua carta. Cada cristão quando podia, sempre estava fazendo uma cópia do seu livro para preservar para a posteridade o texto das Escrituras. Dessa forma, é muito difícil dizer de que manuscrito um manuscrito do Novo Testamento foi copiado, dificultando a reconstrução de uma árvore genealógica.

Enquanto os defensores do texto majoritário dão ênfase as evidências externas, o modelo de texto único utiliza apenas as evidências externas e não dá valor algum as evidências internas. Em conformidade com Porter e Pitts (2015), o modelo de texto único propõe o uso de um único manuscrito antigo, tendo por objetivo apresentar um texto que era realmente usado pela igreja antiga, deixando as responsabilidades críticas do texto com os editores antigos, que teriam acesso a manuscritos anteriores e melhores do que os editores modernos. O problema desse método é que ele não leva em consideração as evidências internas. Existem erros ortográficos claros nos manuscritos antigos, mas esse método consideraria o erro gráfico, como o texto mais provável a ser o original, isso é incoerente.

Portanto, vamos analisar o final do evangelho de Marcos utilizando o ecletismo ponderado, método que como eu já exprimi é o mais apropriado para a reconstrução do texto Grego do Novo Testamento. 


O FINAL DO EVANGELHO DE MARCOS, AUTÊNTICO OU NÃO?


Poderíamos dizer que o final do evangelho de Marcos (16.9-20) tem um problema textual um pouco complexo. Pois, a questão não é simplesmente se o final faz ou não faz parte do evangelho, como se tivéssemos apenas duas opções, na verdade, entre os manuscritos Grego do Novo Testamento que sobreviveram existem quatro opções, de uma forma simplista são essas opções informada por Omanson (2010, pp. 103, 104):


1. O evangelho de Marcos acaba no capítulo 16, e o versículo 8.

2. O evangelho de Marcos acaba no capítulo 16, e o versículo 20.

3. O evangelho de Marcos acaba no capítulo 16, e o versículo 20, mas antes do versículo 9 há o seguinte acréscimo: “Elas narraram brevemente a Pedro e seus companheiros o que lhes havia sido anunciado. E, depois dessas coisas, o próprio Jesus enviou por meio deles, do Oriente ao Ocidente, a sagrada e incorruptível proclamação da salvação eterna. Amém”.

4. O evangelho de Marcos acaba no capítulo 16, e o versículo 20, mas depois do versículo 14 há o seguinte acréscimo: “E eles alegaram em sua defesa: ‘Este tempo de iniquidade e incredulidade está sob o domínio de Satanás, que não permite que a verdade e o poder de Deus prevaleçam sobre as coisas impuras dos espíritos [ou, que não permite que quem está sob o poder dos espíritos imundos apreenda a verdade e o poder de Deus]. Por isso, revela agora a tua justiça’. Foi o que disseram a Cristo, e Cristo lhes respondeu: ‘O fim dos anos do poder de Satanás se cumpriu, mas outros acontecimentos terríveis se aproximam. E eu fui entregue à morte por aqueles que pecaram, para que retornem à verdade e não pequem mais, a fim de que sejam herdeiros da glória de justiça espiritual e incorruptível que está no céu”.


Como bem sabemos a verdade é absoluta e não relativa, então as quatro opções não podem estar corretas, apenas uma está e as outras três não. Dessas quatro opções duas tem possibilidade real de serem o texto original, que são as opções 1 e 2, as evidências textuais em favor das opções 3 e 4 são pobres, dificilmente você encontraria alguém defendendo-as como sendo provável de ser o texto original. Por outro lado, encontramos estudiosos defendendo as opções 1 e 2, a maioria dos críticos textuais estão convencidos de que a opção 1 é a mais provável de ser a correta, os motivos alistados por Omanson (2010, pp. 102, 103) para chegarmos a essa conclusão são as seguintes:


1. Os doze últimos versículos (16.9-20) não aparecem nos dois mais antigos manuscritos Grego, no manuscrito Bobiense da Antiga Latina, no manuscrito da siríaca sinaítica, em mais ou menos cem manuscritos armênios, e nos dois mais antigos manuscritos georgianos.

2. Os pais da igreja Clemente de Alexandria (segundo século) e Orígenes (terceiro século) não dão mostras de que sabiam da existência desses doze versículos. Eusébio (quarto século) e Jerônimo (quinto século) afirmam que esses versículos estavam ausentes de quase todas as cópias gregas de Marcos que eles conheciam.

3. Vários manuscritos que contêm esses versículos trazem notas de copistas dando conta de que cópias gregas mais antigas não tinham esse texto. Em outros manuscritos, essa passagem traz sinais que os copistas colocavam no texto para indicar que se tratava de um acréscimo ao documento.

4. O vocabulário e o estilo desse final mais longo diferem do resto do Evangelho de Marcos, e isto sugere que os versículos 9-20 não são originais. Existem também certas incoerências entre os versículos 1-8 e os versículos 9-20. Um exemplo de incoerência é a reaparição de Maria Madalena, no versículo 9, onde ela já tinha sido mencionada em 15.47 e 16.1, outra coisa a chamar a atenção é o fato das outras mulheres não serem também mencionada no versículo 9.


Essas e outras razões fazem quem entende sobre crítica textual acreditar que o final do evangelho de Marcos não é autêntico. Porém, embora o final do evangelho de Marcos (9-20) provavelmente não seja autêntico, no entanto, precisamos reconhecer que essa variante textual é antiga, pois, concordando com Omanson (2010), os pais da igreja Irineu, Diatessarão e provavelmente também Justino Mártir (todos do segundo século) conheciam ou dão a entender que conheciam esse final mais longo em seus escritos. Provavelmente, o final do evangelho de Marcos (9-20) foi adicionado por volta da primeira metade do segundo século para dar ao Evangelho um final mais apropriado. Esse final ficou conhecido popularmente a partir da King James Version e outras traduções do textus receptus, como a tradução de João Ferreira de Almeida.

Os defensores do texto majoritário consideram esse final (9-20) como sendo autêntico porque eles se encontram na maioria dos manuscritos Grego, entretanto, as evidências são esmagadoramente contraria a essa ideia, como já foi demonstrado.


COMO OS CRISTÃO DEVEM LIDAR COM ESSAS INFORMAÇÕES?


A pesar desses versículos (9-20) não poderem ser considerados como fazendo parte do Evangelho de Marcos, nenhum cristão deveria hesitar em lê-los como Sagrada Escritura, essa é a conclusão de F. F. Bruce[10] (1945, pp. 180, 181) em um de seus artigos, o motivo disso é bem simples: os ensinos que aparecem nesses versículos (9-20) são encontrados em outras partes da Bíblia. 

Esses são os paralelos que Bruce (1945) apresenta: os versículos 9 e 10 com João 20.11-18; versículo 11 com Lucas 24.11; versículos 12 e 13 com Lucas 24.13-35; versículo 14 com João 20.19; os versículos 15 e 16 com Mateus 28.16-20; versículo 19 com Lucas 24.50; os versículos 17, 18 e 20 possuem paralelos com as atividades dos apóstolos no livro de Atos.

A forma como os cristãos devem tratar essa questão pode ser ilustrada com o que acontece frequentemente nos círculos de oração de muitas igrejas evangélicas. Quem nunca foi a um círculo de oração e ouviu um irmão ou irmã citando Jó 14.7-9 trazendo uma mensagem de esperança para causas perdidas? Quando esse capítulo do livro de Jó não ensina nada sobre isso, na verdade o capítulo 14 do livro Jó é uma suplica de Jó a Deus, dizendo que a vida do homem é breve (Jó 14.1, 2), pedindo descanso de seu sofrimento porque até um trabalhador no final do dia tem descanso (Jó 14.6), e que embora uma arvore possa voltar a viver com um pouco de água (Jó 14.7-9), o homem não (Jó 14.10), o homem morre e não volta a viver (Jó 14.12), se os seus filhos estão em honra ele não sabe, se minguados ele não percebe (Jó 14.21). Pregar mensagem de esperança para causas perdidas se baseando em Jó 14.7-9 está errado no sentido que o texto não ensina isso, porém não está errado no sentido de que a Bíblia não ensina isso, a pessoa apenas está escolhendo o texto errado para trazer aquela mensagem, demonstrando não saber sobre o que está falando.[11]

De forma semelhante é assim que os cristãos devem lidar com o final do evangelho de Marcos (16.9-20). Esse final mais longo provavelmente não faz parte do evangelho de Marcos, mas se alguém prega sobre ele não há problemas, porque os ensinos encontrados nesses versículos podem ser encontrados em outras partes da Bíblia.


CONCLUSÃO


Para muitos é difícil compreender como um texto bíblico conhecido não faz parte das Escrituras. Mas, o importante a se ter em mente é que todas essas questões não alteram o essencial do Cristianismo. Então, nenhum cristão deveria se escandalizar ao tomar conhecimento acerca das variantes textuais da Bíblia, na verdade os cristãos que tem contato com essas informações deveriam se sentir privilegiados por Deus e se tornarem cristãos mais fortes e maduros, com uma consciência solida e sóbria acerca dessas questões bíblicas.


NOTAS: 


[1] Formado no Curso Livre em Teologia da ESTEADEB (Escola de Teologia das Assembleias de Deus no Brasil). Atualmente estudando teologia no IALTH (Instituto Aliança de Linguística, Teologia e Humanidades), e Grego no curso de extensão da UFC (Universidade Federal do Ceará). E-mail: Leandro.m.j.1991@gmail.com

[2] A Igreja Batista Redenção não acredita na atualidade dos dons espirituais, principalmente no batismo do Espírito Santo com a evidência do falar em línguas. Confira o decimo ponto dos seus traços distintivos, disponível em: <http://www.igrejaredencao.org.br/ibr/index.php?option=com_content&view=article&id=31&Itemid=107>. Acesso em: 09 set. 2022.

[3] A preservação do texto do Novo Testamento não é o tema dessa pesquisa, mas é minha convicção que o texto do Novo Testamento foi preservado. E, há boas razões para se acreditar nisso, você pode ler algumas delas na parte dois do livro: Reinventing Jesus: how contemporary skeptics miss the real Jesus and mislead popular culture (Reinventando Jesus: como os céticos contemporâneos deixa escapa o Jesus real e enganam a cultura popular), livro publicado pela Kregel Publications, cujo os autores são: J. Ed Komoszewski; M. James Sawyer; e Daniel B. Wallace.

[4] Essa é a quantidade de palavras da quarta edição do The Greek New Testament, hoje ele está na sua quinta edição, porém, só houve alterações em 30 palavras das epistolas católicas. A quinta edição foi publicada pela Sociedade Bíblica do Brasil com prefácio em português.

[5] As versões são as traduções do Novo Testamento em grego para os outros idiomas.

[6] Uma variante textual é simplesmente qualquer diferença de um texto padrão (por exemplo, um texto impresso, um manuscrito específico, etc.) que envolve ortografia, ordem de palavras, omissão, adição, substituição ou uma reescrita total do texto. Essa é a definição dada por Wallace, disponível em: <https://danielbwallace.com/2013/09/09/the-number-of-textual-variants-an-evangelical-miscalculation/>. Acesso em 09 set. 2022.

[7] Esse é o número de variantes tratadas no Novo Testamento Grego editado por Barbara Aland, Kurt Aland, Johannes Karavidopoulos, Carlos M. Martini e Bruce M. Metzger, esse número se encontra no prefácio da quarta edição.

[8] Esses 1% das variantes que alteraram o texto de alguma forma significativa elas não afetam as doutrinas essenciais do cristianismo, como por exemplo: a divindade de Jesus, seu nascimento virginal, sua ressureição corpórea, e a trindade.


[9] Você pode entender melhor a visão de Keith Elliott no livro: Perspectives on the Ending of Mark: Four Views, publicado pela editora: B&H Academic, cujo os autores são: Maurice Robinson, Darrell L. Bock, Keith Elliott e Daniel B. Wallace, o editor do livro é: David Alan Black.

[10] Teólogo escocês formado pelas universidades de Alberdeen, Cambridge e Viena. Depois de ensinar Grego durante vários anos, primeiro na Universidade de Edimburgo e depois na Universidade de Leeds, assumiu o departamento de história e literatura bíblica na Universidade de Sheffield, em 1947. Em 1959, mudou-se para a Universidade de Manchester (Inglaterra), onde permaneceu como professor de crítica e exegese bíblica até o dia de sua aposentadoria em 1978.

[11] Por exemplo, para se trazer uma mensagem de esperança para causas perdidas poderia ser escolhido a história da ressurreição de Lázaro (João 11.1-45), ou a convicção de Abraão considerando que Deus era poderoso para até dos mortos ressuscitar seu filho (Hebreus 11.18), para nós a morte é como o ponto final, o fim da história, mas para Deus a morte, de um ponto final, Ele pode transforma em uma virgula e dar continuidade a história do homem. Dessa forma, podemos ter esperança mesmo quando as esperanças se acabam, porque para Deus todas as coisas são possíveis (Marcos 10.27).


REFERÊNCIAS:


BLOMBERG, Craig L. Can We Still Believe the Bible? An evangelical engagement with contemporary questions. Brazos Press, 2014.


BRUCE, F. F. The End of the Second Gospel. The Evangelical Quarterly (1945): 169-181.


KOMOSZEWSKI, J. Ed. Reinventing Jesus: how contemporary skeptics miss the real Jesus and mislead popular culture. Kregel Publications, 2006.


OMANSON, Roger L. Variantes Textuais do Novo Testamento: Análise e avaliação do aparato Crítico de “O Novo Testamento Grego”. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 2010.


PAROSCHI, Wilson. Origem e Transmissão do Texto do Novo Testamento. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 2012.


PORTER, Stanley E.; PITTS, Andrew. Fundamentals of New Testament Textual Criticism. Wm. B. Eerdmans Publishing Co, 2015.


WALLACE, Daniel B. Gramática Grega: uma sintaxe exegética do Novo Testamento. São Paulo: Editora Batista Regular do Brasil, 2009.

terça-feira, 28 de dezembro de 2021

Grant R. Osborne - Provérbio

  

A forma básica e mais proeminente de sabedoria, o “provérbio” (heb. māšal) pode ser definido como a afirmação breve de uma verdade universalmente aceita, formulada de um modo que possa ser memorizada. Os provérbios são encontrados nas Escrituras e não somente no livro de Provérbios (como em Gn 10.9 e 1Sm 24.14). Há muitos tipos diferentes de declarações e vários gêneros são chamados meshallim no AT, como as alegorias (Ez 17.1-10), os aforismos (Ec 9.17-10.20), os ditados populares (Jr 23.28), os discursos (Nm 23.7, 18) ou as similitudes (1Sm 10.11). Há também diversos tipos de provérbios, na verdade, ditos, como a instrução (Pv 22.17-24.22), o provérbio ou o ditado sapiencial (Pv 9.1-6), a advertência ou a proibição (Pv 8.24-31, 33), o provérbio admoestativo ou o conselho (Pv 22.28), o provérbio numérico (Pv 6.16-19), o provérbio sinonímico (Pv 22.22-27) ou antitético (Pv 11.1-31) e as declarações factuais ou de experiência (Pv 17.27).

E o mais importante, não devemos ler na declaração proverbial nada além do que de fato ela afirma. Por sua própria natureza, elas são afirmações genéricas cujo propósito é aconselhar, e não estabelecer códigos rígidos pelos quais Deus opera. Como declara David Hubbard, a sabedoria antiga “tende a enfatizar o sucesso e o bem-estar do indivíduo”, de modo diferente, “os profetas enfatizavam a vida nacional e religiosa da coletividade” (LaSor, Hubbard, Bush 1982:545). Por exemplo. Provérbios 16.3 diz: “Entrega tuas obras ao Senhor, / e teus planos serão bem-sucedidos”. Essa afirmação parece prometer uma generosidade ilimitada de plenitude, mas, como Fee e Stuart demonstram, dificilmente a intenção aqui seria a de incluir algum plano mal concebido diante de Deus: “Um casamento precipitado, uma decisão empresarial apressada, uma decisão vocacional mal refletida – tudo isso pode ser dedicado a Deus, mas podem, consequentemente, resultar em miséria” (1982:198). Conforme Josué 1.8 ou Salmos 1.3, o significado do sucesso ou da prosperidade deve ser compreendido primeiro em afinidade com a vontade divina e apenas em segundo lugar em sentido materialista. O que faz sucesso aos olhos de Deus pode parecer bastante contrário aos padrões mundanos. O intérprete precisa reconhecer a natureza geral das declarações e deve aplicá-las por meio de analogias às Escrituras, o que corresponde a outro ensino bíblico que completa a verdade que é elucidada.

 

Fonte: A Espiral Hermenêutica, 315-316

 

quinta-feira, 21 de outubro de 2021

Dicionários - Richard Watson - Dicionário Bíblico e Teológico - Atos dos Apóstolos

 ATOS DOS APÓSTOLOS.  Este livro, logo no começo, declara ser uma continuação do Evangelho de São Lucas, e seu estilo indica que ele foi escrito pela mesma pessoa. A evidência externa é também muito satisfatória, pois além de alusões em autores primitivos, e particularmente em Clemente Romano, Policarpo e Justino Mártir, os Atos dos Apóstolos não são apenas citados por Irineu, como escritos por Lucas o Evangelista, mas há poucas coisas registradas neste livro que não são mencionadas por esse pai primitivo. Este forte testemunho em favor da genuinidade dos Atos dos Apóstolos é apoiado por Clemente de Alexandria, Tertuliano, Jerônimo, Eusébio, Teodoreto e a maioria dos pais posteriores. Pode ser acrescentado que o nome de São Lucas está prefixado a este livro em muitos manuscritos gregos antigos do Novo Testamento, e também na antiga versão siríaca.

2. Esta é a única obra inspirada que nos dá um relato histórico do progresso do Cristianismo após a ascensão de nosso Salvador. Compreende um período de cerca de trinta anos, mas de forma alguma contém uma história geral da igreja durante esse tempo. Os fatos principais registrados nela são: a escolha de Matias para ser apóstolo no lugar do traidor Judas, a descida do Espírito Santo no dia de Pentecostes, a pregação, milagres e sofrimentos dos apóstolos em Jerusalém, a morte de Estevão, o primeiro mártir, a perseguição e dispersão dos cristãos, a pregação do Evangelho em diferentes partes da Palestina, especialmente em Samaria, a conversão de São Paulo, o chamado de Cornélio, o primeiro convertido gentio, a perseguição dos cristãos por Herodes Agripa, a pregação de Paulo e Barnabé aos gentios pelo comando expresso do Espírito Santo, o decreto feito em Jerusalém declarando que a circuncisão, e uma conformidade com outras cerimônias e ritos judaicos não eram necessários nos convertidos gentios, e a última parte do livro se restringe à história de São Paulo, de quem São Lucas foi o companheiro constante por vários anos.

3. Como este relato de São Paulo não vai além de sua prisão de dois anos em Roma, é provável que este livro foi escrito logo após seu lançamento, que ocorreu no ano 63. Podemos por isso considerar os Atos dos Apóstolos como escritos por volta do ano 64.

4. O local de sua publicação é mais duvidoso. A probabilidade parece ser em favor da Grécia, embora alguns afirmam ser Alexandria no Egito. Esta última opinião se apóia nas assinaturas no final de alguns manuscritos gregos, e das cópias da versão siríaca, mas os melhores críticos pensam que estas assinaturas, que também estão anexadas a outros livros do Novo Testamento, merecem pouca importância, e neste caso elas não são apoiadas por qualquer autoridade antiga.

5. Deve ter sido da maior importância nos tempos primitivos do Evangelho, e certamente não de menos importância a toda época subsequente, ter um relato autêntico da descida prometida do Espírito Santo, e do sucesso que acompanhou os primeiros pregadores do Evangelho tanto entre os judeus como entre os gentios. Estes grandes eventos completaram a evidência da missão divina de Cristo, estabeleceram a verdade da religião que ele ensinou, e apontaram da mais clara maneira a natureza abrangente da redenção que ele comprou por sua morte.

Œcumenius chama os Atos de o “Evangelho do Espírito Santo” e São Crisóstomo, o “Evangelho da ressurreição de nosso Salvador,” ou o Evangelho de Jesus Cristo ressurreto dos mortos. Aqui, nas vidas e pregação dos apóstolos, temos os exemplos mais miraculosos do poder do Espírito Santo, e no relato desses que foram os primeiros crentes, recebemos o padrão mais excelente da verdadeira vida cristã.

sábado, 11 de setembro de 2021

Série de verbetes: Pequenos textos, grandes insights - Corinto

 Série de verbetes: Pequenos textos, grandes insights - Corinto.

 

Corinto. UMA DAS PRINCIPAIS CIDADES DA ANTIQUIDADE, ocupada em intervalos desde o quinto milênio a.C., Corinto adquiriu seu nome de habitantes pré-Gregos. Durante a época Micênica, a área estava sujeita aos poderes de Argólida, mas a cidade conhecida na época clássica foi efetivamente fundada por Gregos Dóricos por volta do século X a.C. Suas primeiras figuras históricas reais parecem ser os Bacchíades do século VIII, sob os quais Corinto estabeleceu colônias em Corcira (Corfu) e Siracusa na Sicília. O poder marítimo de Corinto era comercial e também militar na época, e a cerâmica proto-Coríntia é encontrada por todo o Mediterrâneo. Ao derrotar os Bacchíades em cerca de 660 a.C., Kypselos e seu filho Periandro (cerca de 625-585 a.C.; um dos Sete Sábios da Antiguidade) estabeleceram uma sólida prosperidade que floresceu por mais de um século. Os jogos bienais de Isthmian, fundados em cerca de 580 a.C., trouxe prestígio e receitas adicionais para a cidade.

Após a Guerra da Pérsia, Corinto se viu cada vez mais pressionada pela expansão de Atenas e, na maioria das vezes, ao lado de Esparta em conflitos entre as duas grandes potências. Após a vitória Macedônica em Chaironea em 338 a.C., o conselho (Synedrion) de Corinto ratificou o governo de Filipe na Grécia e, mais tarde, o de seu filho Alexandre. Corinto recuperou sua independência como membro da Liga Aqueia após 224 a.C., mas foi arrasada pelas legiões Romanas de Lúcio Múmio em 146 a.C., após sua saída da Liga. Múmio massacrou os homens, vendeu as mulheres e crianças como escravas e deixou a cidade em ruínas, condição em que permaneceu por um século.

A localização comercial estratégica do local, no entanto, com seu Acrocorinto virtualmente inexpugnável (altitude de 1.886 pés), implorava por reabilitação, e em 44 a.C. Júlio César estabeleceu uma colônia de veteranos sob o nome de Colonia Laus Julia Corinthiensis. Foi esse assentamento que, em 27 a.C. já havia se tornado a florescente capital da província Romana da Acaia, que entrou para a história bíblica quase um século depois, com a estada de Paulo na cidade.

Situada no istmo entre o continente Grego ao norte e o Peloponeso ao sul, Corinto controlava efetivamente o tráfego entre os dois. O porto de Lechaion no Golfo de Corinto, conectado à cidade por longas muralhas por volta de 400 a.C., abria-se para o Mar Adriático a oeste; Cencreia, a apenas 11 quilômetros de distância, no Golfo Sarônico do Egeu, a leste, também fazia da área uma importante rota de comércio marítimo leste-oeste. Os diolkos de Periander, uma rampa pavimentada quase paralela ao canal moderno, permitia que navios de carga menores fossem transportados através do istmo em veículos com rodas, evitando assim a perigosa jornada ao redor do Peloponeso; navios maiores teriam que descarregar sua carga e transportá-la através do istmo via Corinto.

Ao ganhar notoriedade e renome na Antiguidade Grega por sua riqueza e suposta licenciosidade, a Corinto Romana logo floresceu por conta própria, e na época de Paulo era tão cosmopolita quanto qualquer porto do Mediterrâneo. A língua oficial era o Latim dos conquistadores, mas a língua comum era o Grego Koiné tanto da área circundante como dos mercadores. A cidade foi reconstruída com instituições Romanas sobre as ruínas Gregas, o centro dominado por fóruns superiores e inferiores (mercados) e o Templo arcaico de Apolo, agora talvez rededicado à família de César, a Gens Julia. Foi a relativa novidade da cidade e de sua classe trabalhadora urbana cosmopolita e imigrante que lhe deu um dinamismo comercial e uma abertura para novas ideias. O culto imperial parece ter sido a principal religião dos latinos locais, com o panteão Greco-Romano em segundo lugar. Como o maior mercado central e capital da Acaia, o coração intelectual e cultural da Grécia, Corinto teve uma imensa influência cultural e econômica nos territórios vizinhos e nas províncias de língua Grega da parte oriental do Império Romano. O estabelecimento do Cristianismo por Paulo ali ofereceu oportunidades para a difusão do evangelho que nenhuma outra cidade poderia oferecer.

As comunidades Judaicas estavam bem estabelecidas no mundo Helenístico e em todo o Império Romano no primeiro século d.C. e, de acordo com Atos 18: 1-3, Paulo encontrou os Cristãos Áquila e Priscila (Prisca) em sua primeira visita a Corinto em cerca do ano 50. Paulo permaneceu ali, pregando na sinagoga, apesar de uma ação movida contra ele por alguns Judeus perante o procônsul Gálio, provavelmente no outono de 51 ou na primavera de 52 (At 18:16). Apolo também visitou Corinto (Atos 18: 27-19: 1; 1 Coríntios 1:12; 3: 4-9; 4: 6), possivelmente contribuindo para o partidarismo e as dificuldades que Paulo aborda em 1 e 2 Coríntios. A Carta de Paulo aos Romanos foi provavelmente escrita em Corinto (Rm. 15: 25-27; cf. Atos 20: 3).

As escavações que se desenvolveram no século XX pela Escola Americana de Estudos Clássicos em Atenas revelaram muito sobre a Corinto do primeiro século. Uma inscrição menciona o nome de Erasto, o edil, um oficial encarregado das obras públicas (possivelmente o "tesoureiro da cidade" de Romanos 16:23; cf. 2 Timóteo 4:20). No centro do fórum foi encontrada uma plataforma (Gk. Bema) construída em cerca de 44 d.C., possivelmente o "tribunal" de Gálio no julgamento de Paulo (Atos 18:12, 17). No Lerna Asclepium e em outros templos da cidade podem ser vistas as ruínas de refeitórios sagrados que lançam luz sobre 1 Coríntios 8 e 10. Uma inscrição em Latim do início do século I refere-se a um macellum, já que Paulo usa o makellon Grego para falar do "mercado de carnes" (1 Co. 10:25). Uma inscrição Grega grosseira e ilegível em uma pedra quebrada do lintel parece anunciar a "Sinagoga dos Hebreus". Novamente, no fórum foram escavadas fileiras de lojas do tipo que Paulo teria compartilhado com seus companheiros fabricantes de tendas Áquila e Priscila (Prisca). Uma villa contemporânea dá uma boa compreensão das limitações do tamanho das "igrejas domésticas", talvez explicando por que surgiram facções em Corinto (várias igrejas domésticas) e por que havia discriminação nas refeições comunitárias da assembleia geral (a sala de jantar só poderia acomodar alguns selecionados, de acordo com o costume Romano de classificar os hóspedes).

 

Bibliografia:

ENGELS, Donald. Roman Corinth: An Alternative Model for the Classical City. Chicago: University of Chicago Press, 1990.

MEEKS, Wayne A. The First Urban Christians: The Social World of the Apostle Paul. New Haven, CT: Yale University Press, 1983.

MURPHY-O'CONNOR, Jerome. St. Paul's Corinth: Texts and Archaeology. Wilmington, DE: Michael Glazier, 1983.

C.H.M.

 

Fonte:

ACHTEMEIER, Paul J. (GENERAL EDITOR) The HarperCollins Bible Dictionary (Revised Edition). New York, NY: Society of Biblical Literature, 1985

 

Tradução Walson Sales

sábado, 28 de agosto de 2021

A Arqueologia e a Bíblia

 A Arqueologia e a Bíblia


Por Steven M. Ortiz


Introdução


A relação entre a arqueologia e a Bíblia tem uma longa história. Hoje, o termo arqueologia bíblica pode se referir a qualquer uma das três abordagens diferentes para a interseção da arqueologia e da Bíblia. A primeira é uma abordagem em que o objetivo é apologético, onde a arqueologia é usada para tentar “provar” a Bíblia. Essa é a visão comumente retratada na mídia ou em relatos populares. Geralmente é praticada por indivíduos com pouco preparo e inclui a busca de lugares ou “achados” mencionados na Bíblia.

A segunda abordagem, popular ao longo da segunda metade do século XX, vê a arqueologia como uma “serva dos estudos bíblicos”. A arqueologia é um dos muitos métodos usados pelos estudiosos da Bíblia para estudar a Bíblia. Livros didáticos sobre interpretação bíblica a listam ao lado de abordagens gramaticais, culturais e teológicas. Mas essa abordagem tende a subordinar a arqueologia às necessidades e à agenda dos estudos bíblicos.

A terceira abordagem vê a arqueologia bíblica como separada da disciplina de estudos bíblicos, mas não sem relação. Deste ponto de vista, a arqueologia bíblica é considerada parte da disciplina maior da arqueologia do antigo Oriente Próximo ou, mais especificamente, a arqueologia do Levante Sul (Israel / Palestina / Jordânia, etc.). Ainda mais especificamente, a arqueologia bíblica é um subconjunto da arqueologia Siro-Palestina. Essa terceira visão é a abordagem preferida neste capítulo.

Arqueologia é a recuperação e análise sistemática multidisciplinar dos objetos materiais sobreviventes da sociedade humana e do contexto ambiental da atividade humana. A arqueologia bíblica é o uso de empreendimentos arqueológicos para esclarecer e iluminar o texto bíblico e o contexto histórico do texto. Portanto, a arqueologia é uma disciplina separada dos estudos bíblicos, mas pode informar e ser muito útil para os estudos bíblicos. No entanto, a arqueologia tem sua própria agenda de pesquisa, métodos e fundamentos teóricos. O ponto de intersecção é que tanto a arqueologia quanto os estudos bíblicos tentam reconstruir o passado. O arqueólogo se concentra na história da cultura, enquanto o estudioso dos estudos bíblicos se concentra na história bíblica. Um arqueólogo bíblico secular não pode desconsiderar o texto bíblico, uma vez que contém muitos dados relativos à história cultural; um estudioso da Bíblia não pode desconsiderar os dados arqueológicos porque eles contêm muitos dados para reconstruir a história bíblica. Este ensaio se concentrará exclusivamente na disciplina da arqueologia.

O Processo Arqueológico

A arqueologia é multidisciplinar. É considerada uma disciplina científica, uma disciplina histórica e, especialmente, um subconjunto da antropologia. Há um debate entre os teóricos sobre se a arqueologia é uma disciplina pertencente às ciências empíricas ou às humanidades. Os arqueólogos trabalham na reconstrução do passado usando os restos materiais do comportamento humano do passado. Assim, o empreendimento arqueológico aborda e usa métodos e teorias das ciências sociais.

História da Disciplina

A arqueologia era inicialmente vista como histórico-cultural, com ênfase na reconstrução de períodos históricos. Na década de 1960, um programa teórico denominado “nova arqueologia” (arqueologia processual) começou a dominar a disciplina. Esse novo foco de pesquisa era ver a cultura como um sistema com vários processos. O processo principal via a cultura como uma adaptação ao seu ambiente externo. A teoria arqueológica tentou definir as leis gerais do comportamento humano em contraste com o particularismo histórico da abordagem histórico-cultural. Pressuposta a esta arqueologia orientada para o processo (processual) estava uma abordagem científica estrita aos dados arqueológicos e um modelo evolucionário implícito. Em reação a esse modelo processual, a década de 1980 produziu uma crítica “pós-processual”. A principal crítica era que a arqueologia processual não enfatizava o ator humano como um participante racional. Relacionado a isso estava o reconhecimento da incapacidade dos arqueólogos de desenvolver leis gerais do comportamento humano. As mudanças teóricas incluíram: (1) ver a arqueologia como uma história de longo prazo; (2) estudar ideologia e como ela influencia o comportamento humano; (3) desenvolver estruturas de significado conforme evidenciado na cultura material; e (4) autocrítica da relação entre a interpretação dos dados e o intérprete. O resultado é que os arqueólogos precisam estudar cada dado arqueológico dentro de seu contexto (geográfico, cronológico, cultural, etc.) e colocar o indivíduo de volta na análise do passado.

Hoje, o método e a teoria arqueológica operam na tensão das abordagens processual e pós-processual. Os teóricos reconhecem o seguinte: (1) o meio ambiente e a ecologia são mais restritivos do que causadores de mudanças; (2) os arqueólogos devem abordar questões históricas e antropológicas; (3) o registro arqueológico resulta dos comportamentos cumulativos de indivíduos e também de sociedades; (4) as esferas cognitivas e físicas do comportamento humano modelam o registro; e (5) interpretações contextuais ao invés de modelos preditivos e leis abrangentes devem ser enfatizadas.


Fonte:

Ortiz, Steven M. Archaeology and the Bible. In HAYS, J. Daniel; DUVALL, J. Scott (ed.). The Baker Illustrated Bible Handbook. Grand Rapids, MI: Baker Books, 2011


Tradução Walson Sales


[Nota do tradutor: a tradução deste capítulo tem a intenção precípua de buscar editoras interessadas em comprar os direitos autorais e publicar a obra completa em português. Os demais objetivos são para informar os amantes de Teologia e Filosofia sobre assuntos correlatos diversos.]

segunda-feira, 2 de agosto de 2021

A Palavra de Deus e o Povo de Deus: Romanos 9.1-13


Paul J. Achtemeier

 

“Não que a palavra de Deus haja faltado” (v. 6) é o ponto que Paulo pretende abordar nestes versículos e a conclusão que ele deve demonstrar. Não obstante, o próprio Paulo não mostra indiferença nesta discussão. Percebemos isso do modo como ele inicia a discussão nos versículos 1 a 3. De fato, a angústia pessoal que Paulo expressa lá tem levado alguns equivocadamente a pensar que a discussão nos capítulos 9-11 tem importância apenas por causa da experiência pessoal de Paulo como judeu e tem pouco a contribuir para um mais amplo propósito de sua carta. Ficará evidente conforme seguirmos Paulo que esse não é o caso, mas isto de modo algum diminui a intensidade emocional da aflição de Paulo pela descrença de seus “parentes segundo a carne” (v. 3). Mas essa não é a maior preocupação de Paulo e ele passa de sua própria dor (vv. 1-3) para a incredibilidade histórica de tal rejeição por Israel do plano de Deus em Cristo (vv. 4-5). Ao passar para esse ponto, Paulo retoma a lógica e os temas de uma discussão anterior da infidelidade de Israel ao plano de Deus para ela (3.1-8). Aqui somos informados com maiores detalhes, por exemplo, quais eram as vantagens que os judeus desfrutavam. Em 3.1-2, Paulo mencionou apenas sua posse dos “oráculos de Deus”. Aqui temos relacionada toda a extensão dos elementos redentores que são seus por direito anterior como povo eleito de Deus: adoção, alianças, lei, culto, promessas, patriarcas – e até mesmo Jesus. Se o povo em posição tão privilegiada rejeitou o plano de Deus, isto pode significar outra coisa senão que o plano de Deus que envolvia Israel como povo eleito fracassou?

 

Para responder essa pergunta, Paulo retoma um segundo tema que tinha também discutido anteriormente (2.28-29): A existência de um verdadeiro Israel não é questão de descendência racial como se, sendo biológica, estivesse fora das mãos de Deus. Antes, a existência de um verdadeiro Israel é questão de constante eleição graciosa de Deus. A história de Israel não é, dessa forma, a história de uma raça, é a história de uma escolha, uma escolha feita por Deus que inclui sua intenção de um dia ser gracioso com toda a humanidade através de Israel. Desse modo, ser membro do povo eleito não é questão de biologia ou parentesco (vv. 7-8a), mas de constante promessa graciosa de Deus (8b). É por isso que a linhagem de Abraão continuou através de Isaque, o filho da promessa, antes que através de Ismael, o primogênito de Abraão segundo a carne (vv. 7-8; veja Gn 21.1-18).

 

Essa também é a lógica por trás do uso de Paulo dos filhos de Rebeca nos versículos 10-13. Mais uma vez, o mesmo ponto é enfatizado: A linhagem do verdadeiro Israel é pela escolha de Deus, não pela necessidade biológica. Aqui é particularmente claro porque estamos lidando com gêmeos! Ambos compartilham de uma mesma herança biológica (“de um, de Isaque, nosso pai”, v. 10b). Certamente se o verdadeiro Israel fosse questão de descendência física, a linhagem teria que seguir através de Esaú, porque, novamente, ele era o primogênito. Todavia a linhagem seguiu através de Jacó, pela escolha de Deus, e foi claramente uma escolha feita somente por Deus, visto que ela foi feita antes dos gêmeos terem nascido ou feito algo que merecessem tal tratamento (vv. 11-13). A inferência é clara, como Lutero observou: “Segue irrefutavelmente: ninguém se torna filho de Deus e herdeiro da promessa por descendência mas pela graciosa eleição de Deus” (p. 266).

 

Esse é o ponto que Paulo está fazendo. Paulo está mostrando que o propósito de Deus de abençoar toda a humanidade através de um povo eleito não pode ser frustrado quando alguns que pertencem fisicamente a esse povo rejeitam esse propósito. O curso e destino do povo eleito é questão de eleição de Deus, não de descendência biológica, e de forma que o destino permanece nas mãos de Deus, e não na dele. O que isso implica Paulo irá explicar melhor na próxima passagem.

 

O pregador irá encontrar na mudança do desespero diante do aparente fracasso de Deus para a certeza que ele irá cumprir seus propósitos redentores (cf. 9.13 com 9.6) um tema que regularmente ressoa através da Bíblia. Quão apropriado era a Paulo iniciar uma discussão sobre o destino do povo eleito de Deus desta maneira pode ser ilustrado vendo reflexos desse tema na história do povo de Deus. Ver esses reflexos irá por sua vez nos ajudar a ter perspectiva do problema que Paulo levanta nesta parte de sua carta aos cristãos em Roma.

 

Há o temor dos israelitas diante do aparente fracasso de Deus de libertá-los da perseguição dos exércitos de Faraó (Êx 14.5-12). Esse temor se opõe à segurança de Moisés que Deus não os abandonou e que eles serão ainda libertos (v. 13). Essa segurança torna-se realidade quando eles atravessam o mar e os exércitos que os perseguiam são destruídos (vv. 14-31).

 

Há o desespero de um desamparado Elias no Monte Horebe, perseguido pela rainha má Jezebel, e caçado pelos sacerdotes de Baal (1Re 19.1-10). O restante de Israel abandonou Deus e desistiu da aliança, Elias apenas é deixado, e sua vida está quase no fim. Pode ainda haver esperança? Será que o povo eleito abandonou Deus, ou, mais importante do que isso, Deus abandonou sua tentativa de ter um povo eleito? No meio de tal agonia Elias, sustentado pelo cuidado de Deus (vv. 5-8!), recebe a garantia de que Deus não abandonou sua promessa de manter o seu povo eleito (vv. 11-18).

 

Esse mesmo tema é disposto em forma de história no relato de Jonas, desesperado em sua tentativa de esquivar-se do chamado de Deus. Da barriga de um peixe, um lugar que Jonas compara ao reino dos mortos, ele todavia canta em um salmo sua certeza de que o Deus que o persegue ainda irá resgatá-lo (Jn 2.1-9). É uma certeza que é imediatamente confirmada (v. 10)!

 

As histórias nos Evangelhos falam repetidas vezes do fracasso dos discípulos: fracasso para entender e fracasso para agir. Podemos tomar como ilustrativo deles toda a história em Mateus que diz dos discípulos sozinhos em uma tempestade e Pedro afundando no mar enquanto tenta alcançar Jesus (Mt 14.22-33). Pedro abandonou Jesus, ou mais importante do que isso, Jesus abandonou seus discípulos enquanto eles enfrentavam a tempestade e Pedro afundava no mar? E estes fracassos não são simplesmente uma antecipação, para os seguidores de Jesus, daquele fracasso final da missão de Jesus, quando ele morre em desgraça em uma cruz?

 

Todavia Pedro, apesar de sua falta de fé, é salvo no momento crítico para continuar sua vida de discipulado, enquanto Elias e Jonas são enviados de volta mais uma vez para seus chamados proféticos. O que estas histórias já implicam será mostrado conclusivamente ser o caso quando Jesus levanta da sepultura: o poder de Deus é tal que nenhum fracasso, não importa quão desesperador seja, pode frustrar o seu plano redentor.

 

É nesse contexto que estes versículos de Romanos devem ser compreendidos. Eles nos mostram um pouco do desespero de Paulo diante da incredulidade de Israel, o povo eleito de Deus. Ele prontamente sofreria a condenação que eles merecem se ele pudesse apenas trocar seu destino. Todavia seu desespero, também, é superado pela convicção de que Deus não pode ser derrotado. Desse modo, todas estas passagens giram sobre o tema do Deus que resgatou, e irá resgatar, seu povo do meio do desespero e destruição potencial. Esse tema é útil para soar no meio do povo de Deus que vive num mundo ameaçado por uma destruição atômica total e repentina. Deus permanece no controle e irá todavia cumprir seus propósitos redentores.

 

O professor irá encontrar nestas passagens dicas para o modo como Paulo entende a natureza do “povo eleito” e por conseguinte como Paulo entende a história do Antigo Testamento. A escolha permanece nas mãos de Deus e não é deixada, uma vez feita, às vicissitudes da história ou aos acidentes da biologia. Deus permanece no controle de seu plano, guiando-o, não importa qual possa ser nossa resposta, ao objetivo que estabeleceu para ele.

 

Uma boa ilustração deste ponto será encontrado em Mt 3.7-10, onde João Batista confronta algumas autoridades religiosas. João anuncia que eles também enfrentarão destruição no juízo final se não se arrependerem, e no versículo 9, João antecipa uma afirmação que aquelas autoridades podiam fazer para contrapor o argumento. Eles podiam alegar “Temos por pai a Abraão”, sendo a implicação que, visto que somos filhos de Abraão a quem Deus prometeu a bênção, Deus não pode nos destruir ou ele não terá ninguém com quem cumprir essa promessa. Destruir os filhos de Abraão em julgamento significaria, desse modo, que a promessa de Deus, sua palavra, falharia.  A conclusão: Deus precisa de Israel para cumprir seus propósitos e por isso não pode condená-la no juízo final, tendo ela se arrependido ou não.  A resposta de João: Deus não é dependente dos descendentes físicos de Abraão, uma vez que “mesmo destas pedras, Deus pode suscitar filhos a Abraão”. Porque Deus criou Israel, ele pode recriá-la e não é, dessa forma, dependente dos descendentes biológicos de Israel.

 

Esse é o próprio ponto que Paulo está fazendo sobre a verdadeira natureza e realidade de Israel como povo eleito. Essa realidade continua a ser determinada pela escolha de Deus, não pela herança biológica de Israel. Deus não deu origem ao seu povo eleito com Abraão e então o abandonou às vicissitudes da história. Antes, seus graciosos propósitos continuam em operação por toda a história de Israel. Por essa razão Paulo pode ver uma continuidade entre Israel, que devia sua existência ao propósito gracioso de Deus, e os seguidores de Cristo, que são também constituídos  uma comunidade pela graciosa escolha de Deus. Dessa forma, o plano de Deus envolve uma continuidade entre Israel como povo eleito e a escolha de Deus de Cristo como o instrumento da redenção de sua criação caída.

 

Fonte:  Romans, 155-159

 

Tradução: Paulo Cesar Antunes 

domingo, 1 de agosto de 2021

2 Pe 2.20, 21


Paulo Cesar Antunes

 

Porquanto se, depois de terem escapado das corrupções do mundo, pelo conhecimento do Senhor e Salvador Jesus Cristo, forem outra vez envolvidos nelas e vencidos, tornou-se-lhes o último estado pior do que o primeiro. Porque melhor lhes fora não conhecerem o caminho da justiça, do que, conhecendo-o, desviarem-se do santo mandamento que lhes fora dado.  2 Pe 2.20, 21

 

Para estabelecer o significado destas palavras, precisamos descobrir se as pessoas aqui descritas foram de fato crentes. Aqueles que aderem à doutrina da Perseverança dos Santos têm, obviamente, afirmado que o apóstolo está falando de pessoas que nunca foram regeneradas, sendo no máximo beneficiadas externamente pelo Evangelho. Eles dizem:

 

Estas palavras descrevem homens que foram melhorados em sua conduta pela influência do evangelho, mas sem uma mudança completa no coração.[1]

 

Estamos aqui de novo considerando pessoas que tiveram algum conhecimento de Cristo e do caminho da justiça, mas se enredam de novo na corrupção do mundo e voltaram suas costas à lei de Deus – tanto que, diz Pedro, tornaram-se piores do que antes.[2]

 

No entanto, o fato dessas pessoas terem  escapado das corrupções do mundo pelo conhecimento do Senhor e Salvador Jesus Cristo  pesa contra esta interpretação. Pedro, usando expressões similares em outro lugar nesta mesma epístola, diz:

 

Graça e paz vos sejam multiplicadas, pelo conhecimento de Deus, e de Jesus nosso Senhor; visto como o seu divino poder nos deu tudo o que diz respeito à vida e piedade,  pelo conhecimento daquele  que nos chamou pela sua glória e virtude; pelas quais ele nos tem dado grandíssimas e preciosas promessas, para que por elas fiqueis participantes da natureza divina,  havendo escapado da corrupção, que pela concupiscência há no mundo. 2Pe 1.2-4

 

A linguagem é semelhante àquela usada em 2Pe 2.20. Aqui definitivamente estão descritos crentes genuínos, pois o próprio apóstolo se inclui entre eles. Portanto, na linguagem do apóstolo, “escapar da corrupção do mundo pelo conhecimento do Senhor e Salvador Jesus Cristo” diz respeito aos que verdadeiramente foram regenerados. Os adeptos da Perseverança dos Santos não podem, com propriedade, se beneficar das expressões usadas pelo apóstolo. Elas se opõem às suas convicções pessoais.

 

Além disso, a palavra “conhecimento” (gr.  epignosis) usada em 2Pe 2.20 não significa ‘um conhecimento superficial’ ou, como diz Hoekema, ‘algum conhecimento’. A palavra tem o sentido de um ‘conhecimento preciso e correto’, de um ‘completo discernimento’, e é traduzida em outras passagens como ‘pleno conhecimento’ (Ef 1.7; 4.13; Cl 3.10; 1Tm 2.4; Hb 10.26; 2Pe 1.8; Tt 1.1; etc.).

 

Contudo, acrescentam:

 

Este versículo também fala de cristãos  professos  (mas falsos) que nunca foram verdadeiramente convertidos, negaram “o Soberano que os resgatou” (v. 1); tinha “conhecido o caminho da justiça” (v. 21), porém não o tinham seguido, mas, como um “cão” (não um cordeiro), mostravam que eram na verdade “escravos da corrupção” (v. 19) e não uma “nova criação” de Deus (2Co 5.17).[3]

 

O ponto aqui é que eles eram cães e não cordeiros; se fossem cordeiros, teriam seguido seu mestre. Esta opinião está baseado nos versículos que seguem:

 

Deste modo sobreveio-lhes o que por um verdadeiro provérbio se diz: O cão voltou ao seu próprio vômito, e a porca lavada ao espojadouro de lama. 2Pe 2.22

 

É preciso dizer que um provérbio é uma base muito frágil para uma doutrina. Um provérbio expressa uma verdade geral e seus detalhes servem apenas para apoiar o ponto principal. Pedro o utiliza para reforçar sua argumentação, de que escapar da corrupção do mundo e voltar para ela é tornar seu estado pior do que o primeiro. O animal utilizado no provérbio (cão e porca mas não cordeiro) é totalmente irrelevante. Pedro não quer que nos concentremos no  animal  mas na  mensagem  que ele quer transmitir.

 

Sendo assim, não há nenhuma razão para crer que as pessoas que estão em vista em 2Pe 2.20 foram apenas melhoradas pela influência do evangelho, mas sem uma mudança completa no coração, e tiveram apenas algum conhecimento de Cristo. Elas tiveram um pleno conhecimento de Cristo e, através desse conhecimento, foram, exatamente como os destinatários da carta de Pedro e como as expressões sugerem, totalmente transformados.



______________

[1]  John L. Dagg,  Manual de Teologia, 235.

[2]  Anthony Hoekema,  Salvos pela Graça, 242.

[3]  Norman Geisler,  Eleitos mas Livres, 140, 141.

quinta-feira, 29 de julho de 2021

Interpretando a Palavra Acuradamente 2Tm 2.15

 

Vic Reasoner

 

Pergunta:  Tenho lido alguns artigos no Índice da Revista Arminiana e os achei inspiradores e biblicamente saudáveis. Só estou confuso sobre um assunto, “A Segunda Bênção da Santidade”. Em termos simples, você pode explicar o que isto significa?

 

Embora aqueles que realmente nasceram de novo começam a viver uma vida santa, o novo nascimento é somente o ponto de partida da caminhada cristã. Sem querer diminuir a graça transformadora da regeneração, nós não ganhamos tudo o que Deus tem para nós quando somos salvos. Portanto, alguns têm referido a uma obra mais profunda da graça de Deus como “uma segunda bênção”.

 

As Escrituras não usam esse termo “segunda bênção”. A frase “uma segunda graça” em 2Co 1.15 se refere simplesmente a uma segunda visita de Paulo a Colossos. Em sua  Explicação Clara da Perfeição Cristã, Wesley avisou, “Evitai nisto o uso de palavras pomposas, não necessitais de lhe dar um nome específico como ‘perfeição’, ‘santificação’, ‘segunda bênção’”.[1]  Todavia, mesmo Wesley usou a frase “segunda bênção” esparsamente num total de cinco vezes, e sempre em correspondências. Ele escreveu uma carta para Jane Hilton (que foi conhecida posteriormente por seu nome de casada, Jane Barton), “É extremamente certo que Deus te deu a segunda bênção, propriamente dita. Ele te livrou da raiz de amargura, tanto do pecado nato como atual. E nesse momento tu fostes capacitada a dar a Ele todo o teu coração; para regozijar ainda mais e orar sem cessar” [8 de outubro de 1774; veja também essa frase usada na carta para Sarah Crosby em 14 de fevereiro de 1761; em uma carta para Thomas Olivers em 24 de março de 1757; em uma carta para Jane Salkeld em 9 de agosto de 1772]. Ele escreveu para Samuel Bardsley, “Exija de todos os crentes que eles caminhem para a perfeição. Insista em toda parte que a segunda bênção é recebida num exato momento, e pode ser recebida agora, pela simples fé” [3 de abril de 1772].

 

Todavia, há algo ambíguo na frase “segunda bênção”. Como ela não é uma frase que está nas Escrituras, nós não podemos ficar contenciosos sobre ela. Alguns têm pensado, se há uma segunda bênção, porque não uma terceira ou uma quarta? Isso tende a fragmentar a graça de Deus e criar um sistema de castas dentro da igreja. Aqueles que usam o termo “segunda bênção” querem dizer com isso particularmente que o pecado tem dois aspectos em sua natureza, ele é tanto uma expressão externa quanto uma atitude interior. Assim, a salvação também tem dois aspectos. O novo nascimento capacita a pessoa a viver de maneira santa nas suas expressões exteriores, mas embora a velha natureza do pecado já não reine mais, ela ainda permanece.

 

Em uma carta a Joseph Benson ele escreveu sobre uma “segunda mudança, pela qual eles hão de ser salvos de todo o pecado e aperfeiçoados em amor” [28 de dezembro de 1770]. Em um sermão, “O Arrependimento dos Crentes”, Wesley disse do Senhor falando “a nossos corações, falar pela segunda vez: ‘Sê limpo’”. Em uma carta para Jane Hilton, Wesley se referiu a um “segundo livramento” [1 de março de 1769]. Assim, há uma “segunda obra” da graça aperfeiçoadora de Deus que lida com aquelas atitudes interiores.

 

Pergunta:  Um amigo meu ouviu de seu pastor do movimento de santidade moderno que os discípulos nasceram de novo antes de Pentecostes porque o Cordeiro foi morto desde a fundação do mundo.  Eu não entendi o raciocínio desse pastor.

 

Ap 13.8 declara que o Cordeiro, Jesus Cristo, foi morto desde a fundação do mundo. Isto significa que antes de Deus ter criado este mundo, ele sabia que o pecado entraria nele. Quando o pecado entrou neste mundo através de Adão, Deus não foi pego despreparado. O preço da expiação seria o sacrifício de seu próprio Filho. Assim, Deus não somente previu o pecado original de Adão, mas também tinha predestinado o plano de salvação.

 

Portanto, me parece que este pastor concluiu logicamente que se a salvação foi potencialmente planejada desde a criação, então todo crente obediente desde o tempo da criação tem gozado de todos os benefícios dessa salvação. É verdade que todos os que foram salvos sob a antiga aliança foram salvos pela provisão da expiação de Cristo, mas não é correto supor que eles gozaram de todos os benefícios da expiação de Cristo. A tese principal do livro de Hebreus é que a nova aliança é “melhor” ou superior em privilégios. Pedro escreveu que realmente Cristo foi escolhido desde antes da fundação do mundo, mas que ele não foi revelado até “esses últimos tempos” (1Pe 1.20).

 

Diferentemente de Deus, nós vivemos sob as restrições do tempo. Ainda restam benefícios da expiação que são futuros, os quais nós ainda não temos percebido. No final, as provisões da expiação restaurarão o paraíso e os céus abertos, mas nós ainda não estamos lá. O perigo oposto é falhar em se apropriar de toda a graça que está presentemente disponível a nós.

 

A sua questão se preocupa com quanta graça estava disponível aos discípulos antes da obra expiatória de Cristo estar completa, antes dele ascender novamente à destra do Pai, e antes dele derramar o Espírito Santo. Como eles poderiam ser justificados livremente pela fé no seu sangue (Rm 3.24-25) antes desse sangue ter sido derramado? Como eles poderiam ser regenerados pela obra do Espírito antes do Espírito ter sido dado (Jo 7.39)? Como eles poderiam entrar no reino de Deus (Jo 3.5) antes desse reino ter sido estabelecido (Mt 11.11)?

 

Se vamos desconsiderar quaisquer distinções entre os benefícios da expiação passados, presentes e futuros, usando a lógica desse pastor, nós poderíamos argumentar que já estamos no céu – já que a glorificação e o céu são benefícios futuros da expiação.

 

Tradução: Thiago D. M. Silvino

quarta-feira, 28 de julho de 2021

Pv 20.24 - Joseph Benson

 


 

Os passos do homem são dirigidos pelo SENHOR; como, pois, entenderá o homem o seu caminho?

 

Versículo 24.  Os passos do homem são dirigidos pelo SENHOR – Todos os propósitos e ações dos homens estão tão inteiramente sujeitos ao controle da providência dominante de Deus, e tão propensos a serem frustrados ou alterados, conforme ele achar conveniente, e serem dirigidos para fins tão distantes daqueles que eles pensavam e pretendiam, que é impossível a qualquer um saber qual será o resultado de quaisquer de suas realizações. A intenção do provérbio é mostrar que os acontecimentos da vida humana não são dispostos nem previstos pela providência do homem, mas somente pela providência de Deus, e, portanto, que os homens devem somente ocupar-se de cumprir seus deveres e, então, sossegadamente depender de Deus para um bom resultado de seus esforços.

 

Tradução: Paulo Cesar Antunes

domingo, 25 de julho de 2021

Batismo de Crianças


James D. G. Dunn



A Teologia do Apóstolo Paulo, p. 523.


Entre as dificuldades que a teologia de Paulo apresenta para a tradição posterior está o fato de que ela parece dar pouco ou nenhum espaço para o batismo de crianças. Em certa perspectiva isso era quase inevitável. Pois Paulo era missionário e fundador de igrejas. Na sua experiência, o batismo era ato evangelístico mais do que pastoral. Para ele o batismo era tipicamente a iniciação de novos adultos que abraçaram a fé em igrejas recentemente formadas.

A questão de batismos de famílias permanece ambígua. Pode ter havido crianças pequenas pelo menos em algumas famílias batizadas. Mas a menção de “família” ou casa em si não tinha esta implicação. Normalmente se entendia que uma família incluía todos os escravos ou residentes.[1]  E no único caso aplicável nas cartas paulinas – a família de Estéfanas (1Cor 1,16) – Paulo explicitamente observa mais tarde que a família  “se devotou ao serviço dos santos”  (16,15).[2]

Do ponto de vista de princípio teológico, o precedente óbvio seria que o batismo (nova aliança) havia tomado o lugar da circuncisão (antiga aliança). Mas isso supõe um paralelismo direto entre as duas alianças. E é exatamente neste ponto, conforme vimos, que Paulo parece pensar que a nova aliança funciona em plano diferente: a realização da significação espiritual da circuncisão no dom do Espírito, pertença ao povo aceito por Deus não mais garantida por nascimento, mas pela fé. Além disso, é importante lembrar que a circuncisão não funcionava como meio para entrar no povo da aliança. A pessoa se tornava membro pelo nascimento. A circuncisão era, antes, o primeiro ato de observância da lei de novo membro.

Argumento mais indireto pode ser construído sobre 1Cor 7,14:


O marido não cristão é santificado pela esposa e a esposa não cristã é santificada pelo irmão.[3]  Se não fosse assim os vossos filhos seriam impuros, quando na realidade são santos.


O argumento tem a finalidade de mostrar que a criança faz parte da família de fé (ainda que apenas um dos cônjuges tenha abraçado a fé), e assim a criança deve ser batizada com base na fé do cônjuge crente. Todavia a linha do argumento é confusa. Por um lado mantém a suposição não-paulina de que o batismo tomou o lugar da circuncisão.[4]  Mas, por outro, há a outra suposição de que o batismo é de alguma maneira necessário para assegurar o status da criança na família que abraçou a fé.[5]  Em contraste com isso, o texto em si parece implicar que o status da criança já é seguro em virtude de ser filho de crente.

Portanto, o corolário que segue diretamente de 1Cor 7,14 é que Paulo  não  considerava necessário o batismo para garantir tal status da criança. A criança já era santa. E no caso do batismo de uma família o corolário mais óbvio é que a fé da conversão e o batismo de adultos valia também para todos os filhos menores que faziam parte da família.[6]  Isto é, tanto a fé  como  o batismo do progenitor crente incluía a criança. Quando eram batizadas famílias as crianças não eram batizadas.[7]

Em nossa perspectiva posterior naturalmente perguntamos a respeito das crianças que depois de crescerem se afastaram da fé dos seus pais e depois podem ter sido convertidas pessoalmente. Presumivelmente seriam batizadas naquela ocasião. Mas esta era um situação com a qual Paulo não se preocupou. Neste, como em outros aspectos da teologia sacramental de Paulo, passara muito pouco tempo para surgirem novas questões que estimulassem desenvolvimento ulterior da sua teologia.


______________

[1]  Ver, p. ex., P. Weigandt,  EDNT 2.502.

[2]  Ridderbos acha que a menção do batismo de família  “aponta claramente para o batismo de crianças”  (Paul  413); este não é mencionado porque era  “evidente por si mesmo”  (414).

[3]  O “irmão” é presumivelmente o marido da mulher – “irmão” como membro da igreja.

[4]  Sobre a teologia mais elaborada em termos de continuidade da aliança da graça, ver P. C. Marcel,  The Biblical Doctrine of Infant Baptism  (Londres: James Clarke, 1953).

[5] O fato de que o parceiro não-crente também é “santificado” dificilmente reforça a sugestão de que se trata do batismo.

[6] Cf. Beasley-Murray, Baptism 192-99. Sobre o debate a respeito do início do batismo de crianças, ver J. Jeremias, Infant Baptism in the First Four Centuries (Londres: SCM, 1960); K. Aland, Did the Early Church Baptize Infants? (Londres: SCM, 1963); Beasley-Murray, Baptism 306-86; e novamente Jeremias, The Origins of Infant Baptism (Londres: SCM/Naperville: Allenson, 1963).

[7] Com estilo característico Schmithals, Theologiegeschichte des Urchristentums 198-205, avança demais neste ponto. A lógica do seu argumento parece ser que após o batismo do chefe de família da primeira geração não seriam mais necessários outros batismos para tal família nas gerações seguintes.

quarta-feira, 16 de junho de 2021

A RELAÇÃO ENTRE OS CANANEUS E ISRAEL - [PARTE 3]

 

Por Dyego Andrade

 

7) Os princípios da nação eleita

 

Os princípiosque Deus determinou para Israel viver eram fatores condicionais para que as bênçãos propostas por Deus fossem de fato ministradas. A eleição de Deus para seu povo obedeceu a pré-requisitos ou princípios que não podiam deixar de serem evidenciados no povo de Deus, Israel como nação escolhida para tal, tinha a obrigação de fazê-lo.

 

7.1) A primogenitura dentre as nações

 

Retornando ao capítulo 4 de Êxodo no versículo 22, Deus diz a Moisés uma palavra de profundo significado em relação a Israel. Jeová a chama de “meuprimogênito”, essa descrição direcionou a nação escolhida para viver uma realidade de destaque em relação ás outras nações, eisso seria perpetuamente. De acordo com os princípios da primogenitura na família antiga, Deus trataria Israel como se fosse a nação primogênita dentre todas da humanidade. Para James E.Rosscup (2008, p. 1051), o primogênito tem características peculiares:

 

Normalmente a palavra significa o filho mais velho (Êx 6.14, 11:5). Ele gozava de privilégios sobre seus irmãos, como receber a bênção do pai (Gn 27.1-4; 35-37), tratamento preferencial pelo pai (43.33), respeito como líder entre os irmãos (37.22) e uma porção dobrada da herança, duas vezes o que um outro filho recebia (Dt 21.17). O primogênito poderia trocar seus direitos, como Esaú (Gn 25.29-34), ou perdê-los por má-conduta, como Rúbenpor incesto (35.22; 49.3,4; lCr 5.1). ... Algumas vezes o significado é figurado, denotando prioridade ou supremacia. Israel é o “primogênito” de Deus (Êx 4.22; Jr 31.9). Como o filho primogênito tem prioridade especial, Israel é privilegiado em relação a outras nações.

 

            A descrição cirúrgica feita acima descreve quão incisiva foi a declaração de Deus em relação a Israel. Apesar de não ser a nação mais velha, Israel recebeu do Senhor asbênçãos relacionadas à primogenitura, dando a essa nação uma posição espiritual acima das outras nações no que tange a revelação especial de Yahweh. Sendo assim, Israel seria a nação conhecida por trazer consigo a herança do Deus de Abraão, Isaque e Jacó; todas as demais nações seriam obrigadas a aprender com Israel sobreservir a Deus. Yahweh através de Israel se revelou para os demais povos, sendo então um paradigma de vida em sociedade. Os Salmos 98,99 e 100 falam sobre as grandezas do Senhor sendo revelada aos povos da terra através nação primogênita.

            A relação entre Yahweh e Israel ainda que fizesse Israel ser diferente das demais nações em razão da primogenitura, foitambém pontual quanto as condições exigidas pela mesma. Deus deixou claro que Israel tinha que cumprir ordens dadas por Ele para que tudo ocorresse perfeitamente. Isso foi visto no pacto do Sinai.

 

7.2) Os princípios da aliança do Sinai

 

            Deus disse para Moisés: “ agora, pois, se diligentementeouvirdes a minha voz e guardardes o meu concerto, então, sereis a minha propriedade peculiar dentre todos os povos; porque toda a terra é minha. E vós me sereis reino sacerdotal e povo santo. Estas são as palavras que falarás aos filhos de Israel” (Ex 19.5-6).

            Yahweh ao se revelar a Moisés no Monte Sinai, foi enfático ao iniciar sua fala.Aobediência dos preceitos e ouvir a voz do Senhor foram colocados de forma imprescindível para que Israel estivesse continuamente com sua conduta alinhada ao concerto ou aliança do Senhor. Isso significa dizer que a nação escolhida não poderia se gabar da eleição para pecar. A palavra “se” realça a condicionalidade das ações de Israel, a diligência ora dita revela a disciplina de Israel em ouvir a voz do Senhor, de forma que não poderia haver nenhuma outra voz que guiasse o povo. Ao guardar a aliança ali firmada aconteceria algo sublime naquela nação.

            No texto em apreço é fundamental evidenciar termos proferidos pelo Senhor Deus que descrevem a diferença de Israel às demais nações, sendo tais palavras: propriedade peculiar, reino sacerdotal e povo santo. Essas expressões são categóricas no que tange a aliança entre Yahweh e Israel, pois cada uma delas manifestam a singularidade de Israel no plano divino. Essas declarações por parte do Senhor não foram ditas a nenhuma outra nação, somente à nação eleita. Nesse viés Victor Hamilton (2017, p. 212) diz:

 

Podemos chamar a primeira dessas frases de uma palavra sobreprivilégio; a segunda, uma palavra sobre responsabilidade (o que não deixa de ser um privilégio); a terceira, uma palavra sobre caráter. A expressão “propriedade peculiar”, ou “tesouro pessoal”(NVI), reflete o termo hebraico següllâ (novamente utilizado para descrever a condição privilegiada de Israel em Deuteronômio 7.6; 14.2; 26.18; Salmos 135.4; Malaquias 3.17). Em 1 Crônicas 29.3 e Eclesiastes 2.8, essa palavra refere-se à riqueza real e distingue aqueles tesouros especiais conseguidos pelos reis. A Vulgata corretamentetraduz o termo por peculium:aquilo que é separado e possui especial valor (que originou a tradução da ARC, “propriedade peculiar”, com ‘‘peculiar”significando “próprio, especial”). A segunda frase lembra ao povo de Deus que eles são chamados para servir, a ser uma comunidade de servos, que leva a bacia e a toalha. Quanto à terceira expressão, “povo santo” (“nação santa”, NVI), é a primeira vez na bíblia em que a palavra “santo”aparece ligada a pessoas. Anteriormente, fora usada apenas em relação a momentos (Gn 2.3) ou lugares (Ex 3.5) específicos. Aexpressão aparece regularmente em Deuteronômio, mas relacionada a “pessoas” em vez de “nações” (7.5; 14.2,21; 26.19; 28.9).

 

 

            Ainda para Alan Cole (1981, p.139-140) tais descrições devem ser exploradas por sua riqueza para Israel:

           

Sereis a minha propriedade particular. A palavra significa um “ tesouro particular”, algo que pertence particularmente a um rei (por exemplo, 1 Crônicas 29:3). O termo indica tanto valor especial quanto relacionamento especial. Deuteronômio 7:6 acrescenta a palavra “ povo”, tornando o sentido ainda mais claro. A palavra também implica em escolha e seleção, em vista da segunda metade do versículo (“ toda a terra é minha”), que equivale a uma declaração de monoteísmo (cf Gn14:22).

Reino de sacerdotes. Esta é a única ocorrência da expressão noVelho Testamento (Hyatt), embora Isaías 61:6 seja semelhante. Tal expressão certamente implica na existência de um rei, e este rei só poderiaser YHWH. (Possíveis referências ao reinado de YHWH no períodomosaico se encontram em Nm 23:21 e Dt 33:5.) Ao tempo dos Juízes era axiomático que, sendo YHWH a autoridade sobre Seu povo, nenhum mortal poderia reivindicar o título de “ rei” (Jz 8:22). A ênfase da passagem, entretanto, não recai nisso; uma vez que a monarquia era a única forma de governo conhecida no mundo antigo, “reino” poderia ser traduzido hoje como “ nação” ou “ Estado”. A atenção é atraída para a condição sacerdotal atribuída a Israel. Isto se torna ainda mais compreensível em vista do fato que até aqui ainda não existia qualquer casta sacerdotal em Israel propriamente dito. Presumivelmente, o conceito básico é o de um grupo especialmente separado para possessão e serviço de Deus, com livre acesso à Sua presença. A idéia de Israel agir como representante divino no mundo e em favor do mundo não pode ser excluída. Quer cumprida ou não na época, esta deveria ser a missão de Israel (cf. promessa final feita a Abraão em Gn 12:3). A escolha divina “ especial” de Israel tinha um propósito “ universalista” bem mais amplo.

Nação santa significa primariamente uma nação “ separada” das outras nações para pertencer a Deus. Normalmente, em dias futuros, a palavra gôy, “ nação”, viria a significar uma nação não-judaica (gentia), como no hebraico moderno uma outra palavra é usada para descrever Israel, o povo escolhido de Deus. Até então, todos os povos tinham o mesmo status: o “ povo escolhido” só viria a ser uma entidade depois do Sinai. A princípio, “ santa” sem dúvida significava apenas “dedicada” a Deus, sem qualquer conotação moral particular. Tal“ santidade” era contagiosa (19:12) e poderia ser perigosa, se não fatal. Assim, por causa da natureza revelada de YHWH, tal “ santidade”, por ser descritiva de Deus, assumiu um significado fortemente moral. Por fim, a santidade divinapassou a ser uma exigência moral constrangedora sobre o Seu povo (ver Lv 20:7). Esta santidade do povo de Deus, bem como o sacerdócio do povo escolhido, é mais uma vez enfatizada nos termos da nova aliança (1 Pe 2:9).

 

            O que foi dito pelo Senhor e comentado acima deixa claroque tinha que se portar de modo diferenciado em relação às demais nações, a Deus e a si mesmo. Tal realidade está de acordo com a missão que Deus entregou a eles enquanto povo. Assim Israel tinha que se preocupar consigo por ter sua peculiaridade identificada como um tesouro, ou seja, valor altíssimo, não sendo mais escravo do Egito, mas um povo especial reconhecido pelas nações. Em relação a Deus deveria ser dada atenção tanto a realidade do sacerdócio quanto da santidade. Esses dois fatores que integravam a vida da respectiva nação eram fundamentais na adoração ao Senhor, o sacerdócio de Israel buscava o relacionamento entre Deus e as nações, sendo Israel uma nação mediadora; já a santidade apontava para o caráter do próprio Deus.

            Uma atenção maior será dada a Israel em relação as nações, uma vez que essas descrições ditas por Deus em relação a nação escolhida, têm consequências consideráveis para todos povos da terra, e também pelo motivo que os mesmos precisavam do seu Criador e deviam segui-lo, vivendo conforme sua vontade. Para tanto era necessário que a nação modelo da parte de Deus tivesse função missionária, a saber, falar da grandeza de Yahweh e conclamar a todos os povos da terra a viverem para o Possuidor dos céus e da terra. O exemplo a ser dado por Israel foi no âmbito espiritual e social. As nações iriam ver a representação de Deus no dia a dia, nas relações interpessoais entre os israelitas e no trato com os demais povos, a via espiritual de exemplo foi vista na liturgia de culto e nas práticas religiosas. O que Deus havia começado em Abraão foi feito através de Israel: abençoar as nações da terra.

            Já fora dito que nenhuma nação até então havia sido tratada como sacerdotes de Deus e nação santa, tal experiência ocorreu para que os povos, tribos e nações pudessem conhecer, ter intimidade, viver experiências sobrenaturais Yahweh; enfim, entender que mesmo em meio a tantas religiões, ao politeísmo já existente, somente Yahweh é o Deus verdadeiro e que nenhum outro deus crido ou sistema religioso pode ser comparadoao que Deus manifestaria através de Israel. Para Christopher J. H. Wright (2012, p. 51) a relação entre Deus através de Israel e as demais nações seria dessa maneira:

 

No Sinai, Deus entrou numa aliança com o povo de Israel (e com o restantedas nações em vista), chamando-o para ser seu representante (sacerdotalmente) e para ser separado (santo). Ele lhe deu sua lei como um dom da graça – não para que eles pudessem merecer sua salvação, uma vez que já haviam sido redimidos, mas para moldá-los como um povo-modelo, a fim de que fossem uma luz para as nações.

 

            Tal comentário transmite a ideia que Deus fez aliança com Israel e com as nações. Isso o texto bíblico não evidencia, todavia, Deus através de Israel tinha o objetivo de alcançar povos, tribos e nações. A aliança do Sinai indica que Deus usaria essa nação para que os demais povos o conhecesse, jamais poderia existir a ideia que Deus era somente para Israel, muito pelo contrário, Ele é Deus independente de nação, Israel era responsável pela revelação dEle, sendo luz que iluminaria a humanidade mostrando o caminho a ser percorrido, a tríade: Yahweh, Israel e humanidade é uma realidade bem enfatizada nessa aliança. O sacerdócio e ser nação na forma como Yahweh falou serviria como testemunho do Deus Eternopara os demais. Dito isso é de bom alvitre explorar essas qualificações.

 

7.2.1) Israel, a nação sacerdotal

           

            O sacerdócio já era bem conhecido naqueles dias, isso se dava em função de que as religiões daquela época tinham no seu sistema litúrgico a presença do sacerdote (Gn 14.18; Gn 41.45; Ex2.16). Tanto em Midiã, quanto em Canaã e no Egito havia a figura do sacerdote em seus sistemas religiosos. Deus tinha o objetivo de atrair as nações para si, e para tanto, iria criar uma religião que fosse compreensível do ponto de vista sociológico e que tivesse somente no campo humano semelhanças as religiões que os demais povos tinham. No campo humano, pois espiritualmente haveriam diferençasgritantes. Então Israel sendo o sacerdote de Deus na terra, mostraria a religião de Yahweh, distinta quanto a espiritualidade das demais, e, com uma fácil percepção na ótica humana.

            O sacerdócio na visão de Deus para Israel, consistia em ensinar a lei de Deus ao povo e oferecer o sacrifício do povo a Deus. Na ótica de Christopher J. H. Wright (2012, p. 144) o ofício sacerdotal é visto desta maneira:

 

O trabalho dos sacerdotes, portanto, era trazer Deus para o povo e o povo para Deus. Então agora, com um rico significado, Deus diz a Israel como um só povo: Vocês serão para mim e para todo o restante das nações, aquilo que os sacerdotes são para vocês. Por intermédio de vocês, tornar-me-ei conhecido nomundo, e por meio de vocês, eu finalmente trarei o mundo a mim.

Isso é o que significava para Israel ser sacerdócio de Deus em meio às nações. Como o povo de YHWH, eles teriam a tarefa histórica de trazer o conhecimento de Deus às nações, e de trazer as nações para os meios de expiação para com Deus.

 

 Como está escrito acima, Israel seria o elo entre Deus e a humanidade, basicamente seriam o ponto de encontro entre ambos. Na religião de Israel haveria homens separados para exercer o sacerdócio naquela respectiva nação, o que ilustraria para o povo escolhido a maneira que eles deviam se portar perante os outros povos. É relevante salientar a maneira como seria exercido o sacerdócio, visto que já havia um modelo existente que estava sendo revelado para Israel. ParaChristopher J. H. Wright (2012, p. 145):

 

O sacerdócio do povo de Deus, portanto, é uma função missional, em continuidade com a eleição deles em Abraão, causando impacto nas nações. Assim como os sacerdotes de Israel foram chamados e escolhidos para ser servos de Deus e de seu povo, Israel também, como um todo, é chamado e escolhido para ser servo de Deus e de todos os povos. Êxodo 19.4-6, em relação aos propósitos de Deus para a salvação do mundo, leva adiante a intenção de Gênesis 12.1-3.

 

            Observa-se nessa explanação que Israel havia recebido de Deus uma obra missionáriae que o modelo a ser seguido era o de Abraão, pregar as verdades do Senhor para aqueles que pereciam sem conhecer a Yahweh. O que outrora Abraão iniciou teria continuação em Israel. Nessa realidade pode ser dito que os feitos de uma nação têm possibilidade de gerar um impacto maior que de uma pessoa, e consequentemente o alcance da pregação seria mais amplo. Há de se dizer que Israel tinha testemunhos miraculosos da ação de Deus até aquele momento, realidade que Abraão não viveu da mesma maneira, enfim, Israel apesar de ter que continuar aquilo que Abraão tinha começado, sem dúvida o faria de forma mais incisiva. Somado a isso seria entregue a Lei, revelação essa que Abraão nos seus dias não teve com a mesma precisão, e através da Lei, Israel ensinaria as verdades de Deus para a humanidade.

            Para Israel exercer sua função missiológica teve que conhecer o Senhor, ter proximidade com ele, manter contato constante. A nação deveria andar completamente nas veredas de Yahweh, e tal prática não é uma tarefa fácil, para isso o atributo da santidade seria imprescindível para Israel como nação.

 

7.2.2) Israel, a nação santa

            A prática da santidade a Israel era uma realidadebasilar para servir a Deus. A nação escolhida deveria ser diferente das demais no que diz respeito a sua conduta em relação aos povos, e no que diz respeito a se dedicar ao Senhor (Lv 20.24b). Essa diferença pode ser vista no governo direto de Deus sobre o seu povo, de forma que cada detalhe em Israel deveria ter a finalidade somente de revelar a santidade de Yahweh aos povos (Lv 20.26).

            No Antigo Testamento a santidade para Israel assumia várias funções, mas uma que deveria ser dada a atenção é a pureza moral. A santidade de Deus vista neles os levaria a ter um nível de conduta nunca antes visto em outra nação. A fonte dessa moralidade seria a lei que fora entregue a Moisés no Sinai.Yahweh foi enfático em descrever como seria a conduta de seu primogênito. Os preceitos éticos na lei eram bem mais evidenciados que os preceitos rituais. Essa evidência diz respeito a manifestação clara de Yahweh. Para Christopher J. H. Wright (2012, p. 149-150), santidade enquanto valor moral foi nítida em Israel:  

 

A intensa exigência ética por santidade no Israel do Antigo Testamento significavaviver com integridade, justiça e compaixão em todos os aspectos – inclusive a vida pessoal, familiar, social, econômica e nacional. O texto mais abrangente que enuncia essa dimensão ética da santidade em Israel é Levítico 19.

Levítico 19 é o melhor comentário que temos de Êxodo 19.6: Sereis santos,porque eu [...] sou santo (Lv 19.2). O versículo inicial expressa a exigência fundamentalde Deus. Ele poderia ser traduzido de forma mais coloquial: “Vocêsdevem ser um povo diferente, porque YHWH é um Deus diferente”. YHWH éabsolutamente único e distinto como Deus. YHWH não é simplesmente um dosdeuses das nações, e nem mesmo é como eles.... A maior parte de Levítico 19 nos mostra o tipo desantidade que reflete a santidade de Deus: completamente prática, social e muito realista. Uma simples listagem de seu conteúdo destaca esta nota predominante:              

A santidade, em Levítico 19, envolve:

• Respeito dentro da família e da comunidade (vv. 3a, 32).

• Lealdade exclusiva a YHWH como Deus; tratar os sacrifícios de modo adequado (vv. 4-8).

• Generosidade econômica na agricultura (vv. 9, 10).

• Observância dos mandamentos concernentes aos relacionamentos sociais (vv. 11, 12).

• Justiça econômica nos direitos trabalhistas (v. 13).

• Compaixão social para com os deficientes (v. 14).

• Integridade judicial no sistema legal (vv. 12, 15).

• Atitudes e comportamentos amáveis; amar o próximo como a si mesmo (vv. 16-18).

• Preservação dos testemunhos simbólicos de distinção religiosa (v. 19).

• Integridade sexual (vv. 20-22, 29).

• Rejeição de práticas relacionadas à idolatria ou ocultismo (vv. 26-31).

• Rejeição ao tratamento cruel às minorias étnicas, mas demonstração de igualdade racial perante a lei e amor prático para com o estrangeiro, como a si mesmo (v. 33, 34).

• Honestidade comercial em todas as transações comerciais (vv. 35, 36).

 

 

            Essa exposição traz a mensagem de que o Senhor tinha a intenção veemente, pontual e cabal de que por intermédio da nação santa, a única linha ética totalmente verdadeira e correta deveria ser praticada por ela e conhecida pelas nações e também praticada por elas. A integridade que a ética divina impõe tinha atuação global, no sentido de que todas as áreas da vida e formas de relações quer seja pessoal ou em comunidade e nas suas respectivas consequências seriam regidas pela Lei de Deus.

            Yahweh agiu com muito cuidado ao dizer que Israel seria nação santa em Ex 19.6, e reafirmou e comentou como seria as diretrizes em Lv 19, esquadrinhando como seria a atuação para que não houvesse dúvida como proceder. Foi tratada a cultura tanto em Israel nas questões internas como seu modo de agir em relação ás demais nações, a conduta seria prática, realista e acessível.

            As nações, e em especial os Cananeus, deveriam entender e conviver com essa relação entre Deus e Israel, sabendo que Yahweh sempre quis guiar e cuidar do seu povo para que seu plano fosse cumprido.

 

CONTINUA...

 

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REFERÊNCIAS

 

R., Alan Cole. Êxodo: Introdução e comentário. ( Tradução Carlos Oswaldo Pinto). São Paulo: Editora Mundo Cristão, 1981.

 

Rosscup, J. E..Primogênito. EmTenney, Merill C. (Editor Geral). Enciclopédia da Bíblia(Tradução Equipe de colaboradores da Cultura Cristã). São Paulo: Cultura Cristã, 2008.

 

Hamilton, Victor P.. Manual do Pentateuco. (Tradução James Monteiro dos Reis). Rio de Janeiro: Cpad, 2017.

 

Wright, Christopher J. H.. A missão do povo de Deus: uma teologia bíblica da missão da igreja. (Tradução WalériaCoicev). São Paulo: Vida Nova: nstituto Betel Brasileiro, 2012.