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quinta-feira, 27 de outubro de 2022

CARTAS DO REVERENDO JOHN WESLEY A VÁRIAS PESSOAS

  

I. –  Ao seu Pai.


 

LINCOLN COLLEGE, 19 de dezembro de 1729.

 

         CARO SENHOR,

 

Outro dia, enquanto estava examinando superficialmente o  Discurso sobre a Ressurreição de Cristo  do Sr. Ditton, encontrei, perto do final, uma espécie de ensaio sobre a Origem do Mal. Imaginei que a sua brevidade, se não alguma outra coisa, poderia fazer com que o Sr. desejasse lê-lo, embora muito provavelmente não iria encontrar muito nele que não tenha ocorrido aos seus pensamentos anteriormente.

“Visto que o Ser supremo deve necessariamente ser infinitamente e essencialmente bom, assim como sábio e poderoso, estima-se que não é nada fácil mostrar como o mal entrou no mundo.  Unde malum  [de onde veio o mal] é uma pergunta gigantesca” (p. 424).

Houve alguns que, a fim de respondê-la, imaginaram que há dois princípios supremos, dominantes, sendo um bom e um mal, e que o segundo ficou independente ou de igual força que o primeiro, sendo o autor de tudo que se tornou irregular ou mau no universo. Neste monstruoso esquema os maniqueus caíram e muito melhoraram, mas eles foram suficientemente refutados por Santo Agostinho, que teve motivo para particularmente se familiarizar com suas doutrinas.

Mas a verdade clara é que a hipótese não requer nada mais para a sua refutação do que meramente propô-la. Dois princípios supremos, independentes, está bem perto de ser uma contradição de termos. É exatamente o mesmo, em resultado e consequência, que afirmar dois infinitos absolutos, e quem afirma dois, afirma dez ou cinquenta, ou qualquer outro número. E ainda, se pode haver dois infinitos essencialmente distintos e absolutos, pode haver uma infinidade desses infinitos absolutos. Isto é o mesmo que dizer que nenhum deles seria um infinito absoluto ou que nenhum deles seria propriamente e realmente infinito. “Pois a verdadeira infinidade é infinidade completa e absoluta, e somente isso.”

“Da natureza da liberdade e do livre-arbítrio, podemos deduzir uma explicação muito possível e satisfatória (talvez a única explicação justa possível) da origem do mal.

Há, e necessariamente deve haver, algumas harmonias e desarmonias, conformidades e não-conformidades originais, intrínsecas, de certas coisas e circunstâncias, uma com a outra, que são antecedentes de todas as leis positivas, fundadas na própria natureza dessas coisas e circunstâncias, consideradas em si mesmas, e em sua relação umas com as outras.

“Como todas estas caem dentro da compreensão de uma mente infinita, perspicaz, que é igualmente retidão e razão infinita, essencial, então as de um lado devem necessariamente (falando à maneira dos homens) ser escolhidas ou aprovadas por ele, como as outras odiadas e desaprovadas, e isto como resultado de sua concordância ou discordância eterna, intrínseca, delas.

“Ainda: Isto de forma alguma depreciou qualquer perfeição de um Ser infinito, dotar outros seres que ele fez com aquele poder que chamamos liberdade, isto é, concedê-las capacidades, disposições e princípios de ação, para que lhes fosse possível observarem ou se desviarem dessas regras e normas eternas de conformidade e concordância, com respeito a certas coisas e circunstâncias, que eram tão consistentes com a retidão infinita de sua própria vontade, e da qual a razão infinita deve necessariamente revelar. Agora, o mal é um afastamento dessas normas de ordem e razão eterna, infalível, não para escolher o que é digno de ser escolhido, e é apropriadamente escolhido por tal vontade como a divina. E para ocasionar isto, nada mais é necessário do que exercer certos atos desse poder que chamamos livre-arbítrio. Por esse poder somos capacitados a escolher ou recusar, e decidir agir correspondentemente. Portanto, sem recorrer a qualquer princípio mal, podemos convenientemente explicar a origem do mal da possibilidade de um uso diverso de nossa liberdade, ao mesmo tempo que a própria capacidade ou possibilidade está ultimamente fundada na falibilidade e limitação de uma natureza criada.”

 

Sou, caro senhor,

 

Seu obediente e afetuoso filho

quinta-feira, 15 de setembro de 2022

John Wesley (1703-1791)



Em 28 de junho de 1703 nascia em Lincolnshire, na Inglaterra, John Wesley, cuja mãe chamava-se Susanna, era o 12º dos dezenove filhos do reverendo Samuel Wesley, um pároco de Epworth.

Quando completava seis anos, quase perdeu a vida num incêndio à noite, provocado por um grupo de malfeitores. O fogo se alastrava no teto de palha da paróquia onde eles moravam, começando a estilhaçar brasas sobre as camas. Subitamente, Hetty Wesley, um dos irmãos menores, acordou assustado e correu até o quarto de sua mãe. E logo todo mundo estava em pé, tentando conter o domínio das chamas, enquanto a pequena criada, agarrando o bebê Charles nos braços, chamava as crianças para um lugar mais seguro. A essa altura, Twice Susanna Wesley forçava a porta contra as costas, numa tentativa desenfreada de proteger-se.

A família finalmente conseguiu sair de casa e, apavorada, reuniu-se no jardim, pois descobrira que o pequeno Jackie havia ficado lá dentro dormindo. Voltaram correndo, mas era tarde: a escada estava em cinzas e tornava impossível resgatá-lo. O rapaz chegou até aparecer na janela, porém não podiam segurá-lo, visto que a casa ficava no segundo piso. Todavia, um pequeno homem pulou sobre os largos ombros do pai de Wesley e, num esforço desmedido, conseguiu salvar a criança.


Um Estudante de Cristo


Consequentemente, uma profunda ternura passou a residir no coração de Jackie que, mesmo depois de homem, considerava que havia escapado aquela noite porque Deus tinha um propósito muito especial em sua vida. Várias vezes ele chegou a comemorar este dia em seu diário secreto que escreveu: “Arrancado das Chamas.”

Seis anos depois,  em Charter House School, Jackie matriculou-se na Universidade em Oxford, tornando-se um estudante da igreja de Cristo. Quatro anos mais tarde graduou-se em bacharel de artes e em 1726 foi eleito acadêmico do Colégio Lincoln.

Enquanto John Wesley era ordenado ao ministério e ajudava o pai em casa, Charles, o irmão mais novo, organizava em Oxford um pequeno grupo de estudantes para orações regulares, estudos bíblicos e outros serviços cristãos. O Clube Santo, como era chamado, incluía vários integrantes, que, mais tarde, tornaram-se pioneiros de um avivamento, ocorrido no século XVIII, destacando-se, entre outros, George Whitfield.

Obedecendo ao Senhor, John Wesley viajou para colônia em Georgia, como capelão, em 1736. Charles nesta época era secretário do governador e o piedoso trabalho em Georgia, embora com muitas lutas, teve sucesso mais tarde. O reverendo George Whitfield, depois de visitar a sede do movimento, escreveu:  “O eficiente trabalho de John Wesley na América é impressionante. Seu nome é muito precioso entre o povo, pois tem edificado as fundações que, espero, nem homens nem demônios a abalem.”


Aprendendo a Confiar


Em contato com German Moravian Christians na América, Wesley questionava sobre as verdades cristãs. Sabia muito bem que o êxito de seus trabalhos estava nas mãos de Deus e, por isso, começou a buscá-lo  em oração. Não  demorou muito tempo e, em 24 de maio de 1738, acabou encontrando a resposta quando, de volta para a Inglaterra, resolveu registrar tudo quanto acontecera naquele dia:  “À tarde, visitando a sociedade  em Aldersgate Street, li o ‘Prefácio da epístola aos Romanos’ na versão de Lutero, cujas palavras tocaram-me profundamente. Senti meu coração bater fortemente. E, desde aquele momento, aprendi a confiar em Cristo como meu Salvador. Estou seguro de que os meus pecados estão perdoados. Me salvei da lei do pecado e da morte.”  Esta experiência mudou o rumo da vida de Wesley que, a partir daquele momento, passou a ser uma nova criatura, sendo consagrado o maior apóstolo da Inglaterra.

John Wesley começou o trabalho de pregação ao ar livre quando viajava para Bristol a fim de ajudar George Whitfield, que na época era conhecido como o mais eloquente pregador da Inglaterra. Wesley, a princípio, rejeitou a ideia, mas uma vez convencido da vontade de Deus, acabou se tornando mais famoso que Whitfield. Viajava  11 quilômetros  por ano. Experimentou os mais cruéis sofrimentos e oposições em toda sua vida. Estava frequentemente em perigo.

Embora fosse sábio e proeminente, o itinerante evangelista era um homem simples e executou muitas obras sociais. As suas poderosas mensagens muito influenciaram a igreja que, no ano de 1739, adquiriu uma sede para o movimento protestante, que crescia vertiginosamente. Comprou uma casa de fundição em ruínas, na cidade de Moofield, e transformou-a num templo. O prédio passou por uma rigorosa reforma que custou, na época,  800 libras  (quantia superior ao da compra que foi de  115 libras), mas valeu a pena. Depois de pronta, a capela passou a comportar cerca de mil e quinhentas pessoas.

Era o primeiro edifício metodista em Londres, onde a verdadeira doutrina de Cristo era proclamada. Pessoas sedentas por ouvir a gloriosa mensagem do evangelho cruzavam todos os domingos a escuridão das estradas de Moorfield com lanternas, para ouvir os ensinamentos de Wesley. O prédio dispunha de sala de reuniões, com capacidade para 300 pessoas, sala de aula e biblioteca.

Mais tarde, John Wesley instalou a sua própria casa na parte superior da capela, onde passou a morar com a sua família. Em 1746, abriu um centro de atendimento médico e escola gratuitos, com capacidade para 60 estudantes, contratou farmacêutico, cirurgião e dois professores e, em 1748, alugou uma casa conjugada para refugiar viúvas e crianças.

Muitos foram os patrimônios conseguidos pela igreja durante os 40 anos do movimento metodista em Moorfield, organizada por John Wesley. Entretanto, devido a expiração do contrato imobiliário, a sede teve de mudar-se para um outro lugar.

Próximo dali,  em City House, encontrava-se um vasto campo onde jaziam os túmulos de Bunhill Field e o de sua esposa Susana Wesley. Um lugar de pântanos, recentemente aterrado, onde foi construída a catedral de Saint Paul. Havia também no local algumas pedras de moinho, utilizadas para moer milho trazido do Thames, que era transformado em trigo.

John Wesley alugou quatro mil metros quadrados destas terras em 1777 para construir a nova capela. E, finalmente, em 21 de abril do mesmo ano, sob forte chuva, lançou a pedra fundamental, com a seguinte gravação: “Provavelmente, esta pedra não será vista por algum olho humano, mas permanecerá até que a terra e o trabalho sejam consumados.” Naquele dia, Wesley improvisou um púlpito sobre a pedra e pregou em Nm 23.23.


A Recompensa


Em 1º de novembro de 1778, dezoito meses depois, no Dia de Todos os Santos, a capela estava próxima de ser aberta para a adoração pública. Apesar dos ventos das dificuldades (além de ter contraído muitas dívidas, os trabalhadores tiveram as ferramentas roubadas), Deus recompensou grandemente o esforço de Wesley, levantando voluntários dentre os membros. O rei George III, por exemplo, doou mastros de navios de guerra para o suporte das galerias.

Conta a história que um certo dia Wesley ficou de um lado do templo e Taylor, um dos cooperadores do outro, com os chapéus nas mãos, e conseguiram arrecadar  7 libras; o suficiente para a conclusão das obras. Toda a galeria foi coberta com gesso e os bancos de madeira de carvalho, doadas pelas igrejas da América, Canadá, Sul da África, Austrália, Oeste da Índia e Irlanda. As janelas vitrificadas, as impressões no teto foram trabalhados no estilo Adams (réplica antiga), e a casa de Wesley construída num pátio em frente à capela. Estas raridades, depois de reformadas em 1880, no centenário da morte de Wesley, memorizam as epopéias deste bravo soldado de Cristo.


Sua Morte


Mesmo depois de velho, quase cego e paralítico, John Wesley continuava pregando  em City Road  e Latherhead. E, quando percebeu que sua vida estava chegando ao fim, sentou-se numa cama, bebeu um chá e cantou:


“Quando alegre eu deitar este corpo e minha vida for coroada de bênção, quão triunfante será o meu fim! Eu glorificarei a meu Criador enquanto tenho fôlego; E, quando a minha voz se perder na morte, empregarei minhas forças; em meus dias o glorificarei enquanto tiver fôlego até o fim de minha existência.”


Wesley foi enterrado no Jardim-túmulo, em frente à capela  em City Road, sob as luzes das lanternas, na manhã de 2 de março de 1791. Morreu com os olhos abertos e balbuciando a seguinte palavra: “Farwell” (adeus). Cerca de 10 mil pessoas acompanharam o funeral. E a lápide até hoje indica o significado histórico: “À memória do venerável John Wesley: o último companheiro do Lincoln College, Oxford...”


Fonte: Revista Obreiro Aprovado  (Fev/Mar 1996)