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quinta-feira, 2 de setembro de 2021

Afinal, o que É Yoga?

 Afinal, o que É Yoga?


Dave Hunt

 

O iogue Bhajan morreu em 6 de outubro de 2004. Em 5 e 6 de abril de 2005, a Câmara e o Senado dos EUA, respectivamente, aprovaram por unanimidade uma moção conjunta homenageando o falecido líder sique por seus “ensinamentos [...] sobre o Siquismo e a yoga [...]”. A yoga está no cerne do Hinduísmo, e o Siquismo é como uma “denominação” dentro do Hinduísmo.

 Em 11 de maio de 2005, o Capitólio ofereceu uma recepção especial para comemorar a resolução do Congresso. Entre os presentes estavam “senadores e deputados dos EUA, funcionários do Departamento de Estado, representantes do governo da Índia, dignitários, autoridades e seguidores da doutrina sique [...]”. O comunicado à imprensa declarava que o iogue Bhajan havia melhorado a vida de milhares de pessoas “através de seus ensinamentos sobre a yoga e o Darma sique”.[1]  Fundador da organização 3HO – Happy, Healthy, Holy (“Feliz, Saudável, Santo”) – ele ensinava que essas três qualidades da vida podiam ser alcançadas através da prática da yoga (A verdade sórdida é bem diferente disso, como mostraremos através de documentos no livro “A Yoga e os Cristãos”).

 A base da técnica de yoga de Bhajan era o mantra “Sa-Ta-Na-Ma”, repetido de forma precisa durante a prática diária da yoga: “projetado mentalmente da parte superior traseira da cabeça, para baixo, e depois diretamente para fora através do terceiro olho [...] entre as sobrancelhas e a base do nariz [...]”. Segundo o iogue Bhajan, “aplicando essa técnica, você pode conhecer o Desconhecido e ver o Invisível. Se você passar duas horas por dia em meditação, Deus meditará em você o resto do dia”.[2]  É claro que só temos a palavra dele de que isso é verdade.

 Ao contrário do que diz a publicidade atual sobre yoga no Ocidente, a declaração de Bhajan não menciona nada sobre benefícios físicos – a yoga não foi criada para isso. O seu objetivo é fazer contato com “Deus”. De fato, seu propósito é alcançar a percepção de que cada indivíduo praticante de yoga é deus. E adivinhem que autoridade governamental dá o seu aval entusiástico ao iogue Bhajan por fazer a iniciação de milhares de pessoas numa suposta divindade, através dessa corrente de yoga? O Congresso americano!

 

Por que o preconceito em relação ao Cristianismo?

 

Mas e a “separação entre a igreja e o estado”, que o Congresso e a Suprema Corte se empenham tanto em fazer cumprir? Logo se descobre que, nos Estados Unidos, essa restrição parece se aplicar só à Bíblia e ao Cristianismo. Antigamente, os EUA eram conhecidos como uma nação cristã. Mas hoje poderíamos muito bem dizer que este país é uma nação anticristã. Símbolos cristãos como a Cruz e os Dez Mandamentos não podem mais ser exibidos em lugares públicos. Entretanto, o Congresso Americano apóia e reverencia abertamente o Siquismo – para não falar do Islamismo, que os líderes políticos e religiosos vivem enaltecendo como uma “religião de paz” em compromissos oficiais (Para conhecer a verdade sobre o Islamismo, leia meu livro  O Dia do Juízo!).

 Aparentemente, o fato de Jesus Cristo ter ressuscitado fisicamente (com confirmação de muitas testemunhas oculares), deixado para trás um túmulo vazio, e prometido retornar à terra corporalmente no futuro não é suficiente para que Ele receba exaltação pública por parte do governo americano. Mas, porque o iogue Bhajan declarou: “Quando eu me for fisicamente, busquem-me espiritualmente. Vocês terão que se juntar para fazer isso”,[3]  ele de algum modo se qualifica para receber a honraria que é negada a Jesus.

 Talvez a diferença crucial seja que o iogue Bhajan (assim como o aclamado líder espiritual tibetano, o Dalai Lama) praticava e promovia a yoga, e Jesus não. Porém, como veremos mais adiante, um número cada vez maior de pessoas que se dizem cristãs vem afirmando que Jesus de fato ensinava e praticava yoga. Talvez eles pensem que, se Cristo puder ser aceito como iogue juntamente com os homens-deuses da Índia e do Tibete, não seja mais proibido comemorar o Natal nas escolas públicas nem exibir cruzes e presépios em lugares públicos.

 Budismo, Hinduísmo, Islamismo, paganismo indígena americano, xamanismo – qualquer coisa e qualquer um, exceto o Cristianismo e Jesus Cristo, são reverenciados e podem ser promovidos nas escolas públicas. O Correio dos EUA emitiu um selo especial para comemorar o Eid, a festa que encerra o Ramadã. Presidentes americanos, inclusive George W. Bush, oferecem jantares na Casa Branca em homenagem ao “mês sagrado e à grande fé do Islã [...]”.[4]  E a ACLU (União Pelas Liberdades Civis Americanas) não faz objeção. Mas ela seria capaz de ir até à Suprema Corte para impedir que a mesma honra fosse dada a Jesus Cristo! Esse é o clima que permitiu que a prática da yoga crescesse com tanta rapidez.

 

Yoga pode ser só um exercício físico?

 

O fato de os não-cristãos praticarem yoga não causa nenhuma surpresa. Afinal, ela tem sido promovida no Ocidente como se fosse simplesmente uma série de exercícios de alongamento e respiração inteiramente físicos e benéficos para a saúde – servindo até mesmo para a cura do câncer, com testemunhos que supostamente comprovam sua eficácia. Entretanto, é inacreditável que cristãos que se dizem seguidores de Cristo e de Sua Palavra também se deixem levar pela onda do misticismo oriental.

 A yoga foi criada com o objetivo de proporcionar ao praticante um meio de escapar deste mundo “irreal” do tempo e dos sentidos, e permitir que ele alcance o  moksha, o céu hindu – ou que volte ao “Vazio” do Budismo. A propaganda da yoga no Ocidente diz que seus exercícios respiratórios e de flexibilidade melhoram a saúde e ajudam a  viver  melhor – mas no Extremo Oriente, onde se originou, ela é considerada uma forma de  morrer. Os iogues afirmam ter a capacidade de sobreviver quase sem oxigênio e de permanecerem imóveis por horas, livres da “ilusão” desta vida. Porém, os aspectos físicos da yoga, que atraem muitos ocidentais, foram de fato desenvolvidos e praticados com propósitos espirituais.

 Embora seja bastante divulgado que a yoga vem de práticas ocultistas da China, Índia e Tibete, e que não foi criada para melhorar a saúde, mas sim para alcançar a natureza divina, as pessoas ainda acham que é possível praticá-la estritamente por razões de saúde, sem qualquer envolvimento religioso ou espiritual. John Patrick Sullivan, que foi jogador de futebol americano e hoje é instrutor de yoga em Santa Bárbara, na Califórnia, diz: “Yoga não tem religião. Ela não está ligada ao Hinduísmo ou Budismo [...]”.[5]  Mas essa opinião é desmentida pelos praticantes nativos da yoga e por todos os especialistas no assunto.

 O psiquiatra suíço C. G. Jung, que era profundamente envolvido com o ocultismo e não era absolutamente cristão, foi um dos pioneiros na introdução da yoga no Ocidente, há 85 anos, dedicando-se à sua prática por toda a vida. Ele declarou de forma peremptória e enfática que o aspecto espiritual não pode ser tirado da yoga:

 Os numerosos procedimentos puramente físicos da yoga [unem] as partes do corpo [...] formando um todo com mente e espírito, como [...] nos exercícios de  pranayama, onde  prana  é tanto a respiração quanto a dinâmica universal do cosmos [...] a exaltação do corpo se une à exaltação do espírito [...]. A prática da yoga é impensável, e seria também ineficaz, sem as idéias em que se baseia. Ela entrelaça o físico e o espiritual de uma forma extraordinariamente completa.[6]

 O que Jung afirmou é dito de forma não menos explícita pelos sábios iogues do Oriente, onde esse sistema teve origem. Entretanto, a maioria dos instrutores de yoga do Ocidente continua negando esse fato. Portanto, a popularidade e a prática dessa técnica ocultista oriental, criada para unir o espírito do homem com o Espírito Universal (o deus principal do Hinduísmo, Brahma), continua a explodir no mundo ocidental. E essa expansão ocorre sob o disfarce de ser uma forma de exercício puramente físico, apesar da esmagadora quantidade de evidências em contrário.

 O trecho a seguir foi tirado de um popular site sobre yoga, que procura explicar o que ela realmente é. Observe a contradição entre “o ensinamento científico [...] baseado na filosofia hindu”, a espiritualidade sem religião, e o ecumenismo do Hinduísmo, que tem um “espírito universal” supostamente compatível com todas as religiões:

 O que é yoga?  Yoga significa, literalmente, união. É um ensinamento prático e científico que inclui um sistema de exercícios que visam a controlar o físico e a mente, além de proporcionar bem-estar, com o objetivo de realizar a união do espírito humano com o Espírito Universal.

 Yoga é uma religião?  Não. Embora a yoga seja uma tradição indiana mais ou menos baseada na filosofia hindu, ela não pertence a nenhuma região ou religião em particular. Sua prática e técnicas científicas funcionam com a mesma eficácia independentemente da crença individual.[7]

 

Práticas não-religiosas

 

Essas contradições irritantes não são consideradas importantes quando se trata de qualquer religião ou filosofia, exceto o Cristianismo. O verdadeiro Cristianismo bíblico é atacado de todos os lados, mas qualquer outra “fé” (inclusive qualquer “Cristianismo” falso e ecumênico) é aceita, não importam quão absurdas e contraditórias sejam suas doutrinas e práticas. Veja o seguinte: “O coração de um verdadeiro hindu se comove com o Homem na cruz, que exclamou naquela hora:  ‘Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem’. Um verdadeiro hindu tem toda a admiração pelo Profeta da Arábia [Maomé], que literalmente transformou um povo bárbaro numa sociedade de sólida moral. Mas ele não pode aceitar jamais os fanáticos intolerantes que tentam achincalhar a religião dos outros”.[8]

 Por mais irracional que seja, é compreensível que todas as religiões sejam aceitas pelo Hinduísmo e consideradas compatíveis umas com as outras e com a yoga, ainda que se contradigam mutuamente nos pontos mais fundamentais. O Hinduísmo tem 300 milhões de deuses; o Islamismo afirma que Alá é “o único deus”; e o Budismo é basicamente ateu – contudo, todos são aceitos pelo iogue. Todas as grandes religiões dizem honrar o “Cristo”, mas todas negam as afirmações que Ele fez a respeito de si mesmo.

 Os cristãos evangélicos são considerados “fanáticos intolerantes” porque crêem na declaração de Cristo: “Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim”  (Jo 14.6). Em seu extremo cuidado de “exaltar” Jesus da mesma forma que qualquer outro “profeta”, os “verdadeiros hindus” rejeitam o que Ele realmente declarou na forma mais direta possível. Isso não é racional nem honesto! Esse discurso ecumênico dissimulado chega a declarar que Jesus ensinava e praticava yoga. Não existe o menor traço de evidência histórica ou bíblica que corrobore essa afirmação absurda – mas isso não parece perturbar nem um pouco os entusiastas da yoga.

 O treinador de basquete Phil Jackson recebeu calorosos elogios por transformar a sede do Chicago Bulls num repositório sagrado de fetiches e totens, e por iniciar seu time inteiro no misticismo oriental. A revista  Newsweek  se referiu a Jackson com simpatia, como o homem “que usou os princípios Zen para dar três campeonatos consecutivos ao Chicago Bulls”. O artigo elogiava Jackson por seu sucesso “num dos mais assustadores desafios da história das religiões”.[9]

 A história teria sido outra se ele tivesse doutrinado seu time com o Cristianismo. Se isso tivesse acontecido, a mídia e a NBA reprovariam sua atitude severamente. Entretanto, essa discriminação em relação ao Cristianismo, esse flagrante preconceito contra o Cristo bíblico, é aplaudido pela sociedade, e os cristãos que procuram seguir a Cristo e se manter fiéis a seus ensinamentos são chamados de ignorantes ou coisa pior.

 Na América “cristã”, as leis quase baniram completamente o Cristianismo dos debates públicos. Mas, ao mesmo tempo, todas as outras religiões são aceitas. Essa atitude quase universal não é só irracional, mas revela um profundo preconceito contra o Cristianismo, que exige uma explicação. A frase de Shakespeare: “Penso que protestas demais”, certamente se aplica neste caso. Esse protesto universal – que às vezes se torna odioso, cruel e violento, e que ao longo dos séculos não só levou à crucificação de Cristo como também gerou literalmente milhões de mártires cristãos – não pode ser considerado de forma alguma uma reação casual. Tem que haver um propósito e algum poder por detrás dele!

 

Uma campanha missionária maciça

 

No final da década de 1950 e início da década de 1960, os gurus hindus do Oriente, como o iogue Maharishi Mahesh, Baba Muktananda, Yogananda, iogue Bhajan, Vivekananda e muitos outros, ficaram muito felizes de saber que, através da popularização do uso das drogas psicodélicas, milhões de ocidentais estavam descobrindo uma realidade não-física cuja existência a ciência ocidental vinha negando por muito tempo. Eles perceberam rapidamente que estava se abrindo no Ocidente um amplo mercado para suas doutrinas. Nascia o movimento da Nova Era. A yoga, antes praticada no Oriente somente por “homens santos”, tornou-se acessível às massas no Ocidente e logo se espalhou por toda parte, até mesmo dentro das igrejas e entre os evangélicos.

 Campanha  missionária? A maioria dos ocidentais não consegue pensar nesses iogues,  swamis  e lamas sorridentes, atenciosos e cheios de mesuras como missionários determinados a espalhar seu evangelho místico. É surpreendente que a maior organização missionária do mundo seja hindu e não cristã – Vishva Hindu Parishad (VHP), da Índia. É claro que a mídia e o mundo aceitam isso muito bem – só os missionários cristãos são desprezados e difamados.

 Sim, os hindus lançaram a maior campanha missionária da história. Há quase trinta anos, em janeiro de 1979, no Segundo Congresso Mundial de Hinduísmo, patrocinado pela VHP em Allahabad, na Índia, um palestrante declarou aos quase 60.000 participantes vindos do mundo inteiro: “Nossa missão no Ocidente foi coroada de estrondoso sucesso. O Hinduísmo está se tornando a religião dominante no mundo, e o fim do Cristianismo se aproxima”.[10]  Por lei, não é permitida nenhuma atividade missionária cristã entre os hindus na Índia, mas os missionários hindus pregam sua doutrina agressivamente no Ocidente – e com grande sucesso. Entre os principais objetivos listados na constituição da VHP estão os seguintes:

 Estabelecer uma ordem de missionários, tanto leigos quanto iniciados, com o propósito de propagar o Hinduísmo dinâmico, representando [...] várias crenças e denominações, incluindo budistas, jainistas, siques, lingayats, etc., e abrir, gerenciar ou dar assistência a seminários ou centros propagadores dos princípios espirituais e práticas do Hinduísmo [...] em todas as partes do mundo.[11]

 Os principais “centros propagadores dos princípios espirituais e práticas do Hinduísmo” no Ocidente são os cada vez mais numerosos locais que ensinam yoga. O interessante é que a Conferência Mundial Hindu de 1979 foi presidida pelo Dalai Lama, que pública e desonestamente proclama a tolerância a todas as religiões. O Hinduísmo e o Budismo, que defendem práticas de yoga semelhantes, se infiltram na nossa sociedade, no governo e até nas escolas públicas como  ciência, enquanto o Cristianismo é banido como  religião. Mas será que o Dalai Lama pratica e difunde a yoga? Claro que sim!

 A VHP tem sucursais no mundo inteiro. A organização guarda-chuva nos Estados Unidos chama-se Vishwa Hindu Parishad of America, Inc. Ela tem seu próprio site na Internet e desenvolve suas atividades missionárias em cooperação com vários gurus. Essa organização realiza, por exemplo, um Acampamento Familiar Anual Vivekananda, onde um dia típico começa “com yoga e meditação às 7 da manhã”. Em 1992, a VHP da América lançou a “Visão Mundial 2000” para disseminar pelos Estados Unidos a mensagem do  swami  Vivekananda, baseada na Vedanta.[12]

 

O “Homem-Deus” aclamado pelo mundo

 

De todos os gurus que vieram para o Ocidente, nenhum fez mais em prol da consolidação da credibilidade do misticismo oriental do que Tenzin Gyatso, o Dalai Lama, líder espiritual da Gelugpa do Tibete, ou seita Amarela, do ramo Mahayana do Budismo, que vive no exílio. Ele alega ser a décima quarta reencarnação do primeiro Dalai Lama, um deus na terra com poder de introduzir outros em sua própria divindade. Aqui temos de novo o recorrente tema ocultista da deificação humana, repetindo a mentira da serpente no Jardim do Éden  (“como Deus, sereis” – Gn 3.5) – e essa meta é o cerne da yoga, apesar de todas as alegações de que ela é uma prática não-religiosa.

 O Dalai Lama viaja pelo mundo apresentando a “Yoga da Divindade Tântrica Tibetana” a multidões de admiradores crédulos, inclusive dezenas de milhares de ocidentais. Ele promete aos iniciados que eles se tornarão  Bodhisatvas  (pequenos budas), percebendo sua divindade intrínseca e podendo criar sua própria realidade. Por iniciar multidões em seu ramo de yoga (através do “ritual Kalachakra para a paz mundial”, acompanhado da tradicional “Mandala de Areia” tibetana), ele recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 1989. Dez anos antes, em sua primeira visita aos Estados Unidos, “Sua Santidade” foi recepcionada na Catedral de São Patrício, em Nova York, onde sua declaração de que “todas as religiões do mundo são basicamente a mesma” foi aplaudida de pé por uma enorme multidão de pessoas ingênuas e crédulas (em sua maioria, católicos romanos).[13]  O Dalai Lama também foi bem recebido por um público não menos atento e simpático ao discursar no púlpito da catedral de Genebra, na Suíça, onde João Calvino pregava no passado.

 Em agosto de 1996, as elites de Hollywood, como o ator Richard Gere e o presidente da MGM, Mike Marcus, homenagearam o Dalai Lama num jantar em benefício da American Himalayan Foundation. Os milhares de convidados contribuíram com cerca de 650.000 dólares. Harrison Ford fez a apresentação do deus autoproclamado. É claro que Shirley MacLaine estava lá (destoando um pouco), assim como Leonard Nimoy e muitas outras celebridades.

 Hollywood fez vários filmes relacionados com a fuga do Dalai Lama do Tibete e com seu trabalho ao redor do mundo. No Festival do Filme de Hollywood, em 2004, o prêmio de Melhor Documentário foi concedido a  What Remains of Us  (O Que Resta de Nós), filmado clandestinamente dentro do Tibete. O filme conta a história de uma refugiada tibetana que contrabandeou para o seu povo no Tibete uma mensagem do Dalai Lama gravada em vídeo, e mostra a excitação dos tibetanos assistindo ao vídeo em segredo. É interessante que Hollywood procura contar a “verdadeira história” da vida do Dalai Lama ou de Maomé, mas não tem a mesma cortesia com Jesus Cristo. Ele é retratado das formas mais afrontosamente falsas e degradantes. Esse profundo preconceito não pode ser negado, e exige uma explicação.

 

Um engodo de proporções mundiais

 

Como parte do mais maciço esforço missionário da história – com o propósito direto de destruir o Cristianismo – cada guru que veio para o Ocidente (Maharishi Mahesh, Bhagwan Shri Rajneesh, Baba Muktananda, etc.) foi enviado por seu próprio guru especificamente para converter pessoas a uma fé panteísta hindu/budista. Yogananda, por exemplo, veio para disseminar os ensinamentos de seu guru espiritual, Sri Babaji. Maharishi foi enviado ao Ocidente por seu guru, Dev, e iniciou milhões de adeptos em sua forma de yoga, a Meditação Transcendental. No entanto, os missionários do Oriente sempre alegam que estão ensinando a  ciência  da yoga, princípios de saúde e estados de consciência mais elevados,  não uma religião  – e as pessoas acreditam nessa frase e os cobrem de homenagens.

 Ninguém pode criticar legitimamente os que procuram convencer outras pessoas a aceitarem idéias que eles sinceramente acreditam serem verdadeiras. Porém, eles não podem mentir sobre a natureza e o propósito daquilo que apresentam, e é exatamente isso que os gurus orientais têm feito. A dimensão dessa fraude é tão gigantesca quanto seria se o Papa não se apresentasse como o chefe de uma igreja, e sim como o representante de um grupo de cientistas seculares.

 A Índia expulsou os missionários estrangeiros pouco depois de obter sua independência. Porém, ao mesmo tempo, envia pelo mundo inteiro missionários que convertem milhões ao Hinduísmo e ao Budismo, mas afirmam tolerar todas as religiões e negam a natureza religiosa de sua missão. O empenho da mídia em promover esse tipo de mentira fraudulenta deveria incomodar qualquer pessoa que procure ver as coisas de forma equilibrada. As pessoas deveriam ficar ainda mais perturbadas ao descobrirem os fatos ocultos que vamos apresentar nas próximas páginas. Porém, raramente se vê alguém esboçar qualquer reação de espanto ou surpresa, porque poucos conhecem os fatos ou se importam com eles.

 Muitas críticas têm sido feitas, algumas com razão, aos missionários ocidentais que foram para a África, China, Índia e outros lugares levando o Evangelho de Jesus Cristo e tentaram ocidentalizar outras culturas. A ocidentalização de qualquer cultura não se justifica, e não tem nada a ver com o Cristianismo, visto que seu surgimento (de Abraão ao Apóstolo Paulo) ocorreu no Oriente Médio. Mas, por uma questão de justiça, temos que perguntar por que os missionários budistas, hindus e muçulmanos, que têm introduzido agressivamente sua religião e seu estilo de vida num mundo ocidental que se deixa enganar, recebem pouca ou nenhuma crítica?

 

E quanto à Hatha Yoga?

 

A maioria dos ocidentais imagina que a Hatha Yoga (muitas vezes chamada de “yoga do corpo”) não tem nada a ver com Hinduísmo ou espiritualidade. Será que pelo menos  esta  forma de yoga não é puramente física? Se este é o caso, somos levados a perguntar, por exemplo, por que o centro de instrução de Hatha Yoga em Chicago está localizado no Templo de Kriya Yoga*, que há décadas “ocupa a liderança na ministração de treinamento detalhado e de qualidade para os que desejam ensinar yoga”. Os instrutores são treinados sob a direção de “Sri Goswami Kriyanandaji, que carrega a Chama da Linhagem de Sri Babaji, trazido para este país por Paramahansa Yogananda”.[14]

 Paramahansa Yogananda demonstrou fartamente que o Ocidente estava pronto a adotar a espiritualidade iogue sob o disfarce de prática saudável. Esse missionário pioneiro do Hinduísmo fundou a Sociedade de Auto-Realização, com sede no Sul da Califórnia. Sem contar as multidões iniciadas por seus seguidores, cerca de 100.000 pessoas foram iniciadas na prática de Kriya Yoga (também conhecida como Hatha Yoga) pelo próprio Yogananda, com o propósito explícito de “auto-realização”. Hoje existem milhões de americanos que praticam Hatha Yoga com a ilusão de que ela é puramente física e não tem nada a ver com espiritualidade ou religião. Essa idéia, que foi deliberadamente promovida entre ocidentais desavisados, é bastante popular e está profundamente entranhada na cabeça das pessoas, apesar de ser completamente errada.

 Se a Hatha Yoga é puramente física, por que ela foi passada adiante por “mestres espirituais” conhecidos como iogues? Por que a autêntica Hatha Yoga é sempre associada com meditação espiritual com objetivo de “auto-realização” (isto é, “alcançar a unidade com ‘Deus’, como ensina o Hinduísmo”)? Se existem centros no Ocidente que dizem oferecer uma Hatha Yoga puramente física, somente para benefício da saúde, por que eles ensinam os mesmos exercícios respiratórios e posições que Paramahansa Yogananda trouxe da Índia para o Ocidente, e que lhe foram ensinados por seu guru espiritual, Sri Babaji? Todas essas técnicas foram desenvolvidas com precisão durante séculos para induzir mudanças sutis nos estados de consciência, levando à auto-realização. Elas não foram desenvolvidas para obter principalmente benefícios físicos.

 Quando os instrutores de Hatha Yoga são honestos, até mesmo no Ocidente, eles admitem que ela  não  é puramente física. Richard Hittleman, um dos pioneiros na introdução desta assim chamada yoga “física” nos Estados Unidos, afirmou que “à medida que os estudantes de yoga fossem praticando as posições físicas, eles chegariam ao ponto em que estariam aptos a investigar o componente espiritual, que é a ‘essência completa da disciplina’”.[15]  Isso é consenso entre os especialistas. Sobre a Hatha Yoga, o conhecido mestre de yoga  swami  Sivenanda Radha declarou: “As asanas (posturas e exercícios físicos) são uma prática devocional [...] cada asana cria um determinado estado mental [...] para conduzir o praticante a um contato mais profundo com o Eu Superior”.[16]  É claro que a expressão “eu superior” é usada por eles para significar qualquer coisa que a pessoa queira aceitar como o “deus interior e exterior”.

 A yoga foi introduzida por Krishna no  Bhagavad Gita  como sendo o caminho certo para o céu hindu; e Shiva (uma das mais temidas divindades hindus, conhecido como “O Destruidor”) é chamado de  Yogeshwara, Senhor da Yoga. Um dos mais respeitados textos de Hatha Yoga, o  Hathayoga-Pradipika, escrito no século quinze por Svatmarama, cita o Senhor Shiva como o primeiro mestre de Hatha Yoga. Os instrutores de yoga comuns nunca mencionam (e podem até nem saber) que existem muitas advertências nos textos antigos de que a “Hatha Yoga é um instrumento perigoso. A pessoa pode ser possuída por uma divindade hindu (i.e., demônio) através do estado de consciência alterado induzido por essa prática”.

 Se a disciplina que os mestres de yoga do Ocidente ensinam envolve somente exercícios de alongamento e respiração, como eles insistem em dizer, por que então eles não fazem sua divulgação como apenas isso? Por que eles insistem em chamá-la de “yoga”, se negam qualquer conexão com o que a yoga realmente é? Por que esse disfarce?

 

Publicado anteriormente na revista  Chamada da Meia-Noite,

novembro de 2007.



[1]  http://www.sikhnet.com/s/CongressHonor.

[2]  Sri Singh Sahb Bhai Sahib Harbhajan Singh Khalsa Yogiji, The Teachings of Yogi Bhajan (Nova York: Hawthorn Books, 1977), 4.

[3]  http://www.kundaliniyoga.com/clients/ikyta/webshell.nsf/.WebParentNavLookup/62DB48EF3856D82287256A090079DC7A[4] http://whitehouse.gov/news/releases/2004/11/20041110-9.html.

[5]  Santa Barbara News Press, 15 de Janeiro de 2006.

[6]  C. G. Jung, trad. Dom Mateus Ramalho Rocha, Psicologia e Religião Oriental (Petrópolis: Vozes, 2005).

[7]  http://psychology.about.com/library/weekly/aa041503a.htm.

[8]  http://www.hindubooks.org/wehwk/chapter18/page1.htm.

[9]  Jerry Adler, “800,000 Hands Clapping”, em Newsweek, 13 de Junho, 46.

[10]  http://www.hindunet.org/vivekananda/gk–gv2000.

[11]  Dave Hunt e T. A. McMahon, The Sorceror’s New Apprentice (Eugene,OR: Harvest House Publishers, 1988), 281.

[12]  http://www.hindunet.org/vivekananda/gk–gv2000.

[13]  Time, 17 de Setembro de 1979, 96.

[14]  http://www.yogakriya.org/about.htm.

[15]  Yoga Journal, Maio/Junho 1993, 68.

[16]  http://cana.userworld.com/cana–yoga.html.

 

domingo, 1 de agosto de 2021

A Cosmovisão Religiosa do Budismo


Por Walson Sales


Originário do Hinduísmo, o Budismo é uma filosofia religiosa que engloba um conjunto de crenças, práticas e tradições. Foi fundado pelo príncipe Sidarta Gautama mais ou menos cinco séculos antes de Cristo. Gautama era um hindu praticante. Depois de abandonar o ascetismo e seguir o “meio termo”, rompeu completamente com o Hinduísmo, fundando uma nova religião. Diz-se que teve quatro encontros que mudaram a sua vida: encontrou um homem velho, outro doente, um cadáver e, finalmente, um ascético sadhu. Alguns conceitos hindus permaneceram no Budismo, como o ciclo de reencarnações e a libertação final chamada de Nirvana, apesar de nem todas as escolas budistas crerem em reencarnação. A palavra Buda significa “iluminado”. É a quinta maior religião do mundo com cerca de 250 a 500 milhões de seguidores. O caminho da libertação é uma jóia tríplice: o Buda, o Dharma (ensinamentos) e o Sangha (a comunidade). Segundo Buda, sua doutrina é “árdua, profunda e difícil”; é uma doutrina dos sábios. Alguns conceitos deixam à margem as crianças e as mulheres, as quais não podem obter o “céu”. Já os humildes, ignorantes e as massas consideram como “vil jugo” (STELA, 1971, p. 58-62). Inexplicavelmente, o Budismo é uma religião sem deus. Bedard observa que o Cristianismo é diferente das religiões e das seitas pagãs contemporâneas de muitas maneiras, mas, um das mais importantes é que o Cristianismo é uma religião histórica no seu sentido literal. Por religião histórica eu quero dizer que é um movimento de fé fundamentado nos eventos históricos, em vez do passado mítico, e suas histórias foram registradas próximas aos eventos reais (BEDARD, 2010).

Wallace (2014)[1] menciona que cada cosmovisão tem que responder três questões importantes. Primeira, “Como chegamos aqui”? Essa questão é fundamental para saber como vemos o mundo ao nosso redor e como entendemos o todo dentro deste mundo. Segunda, “Como as coisas se arruinaram”? Todos sabemos que há algo errado com o mundo em que vivemos e nossa cosmovisão nos ajuda a entender “o que” está errado. Finalmente, “como podemos corrigir o mundo”? Essa questão final é a culminação e a conclusão da nossa cosmovisão. Começamos com uma ideia de como chegamos aqui, mas, finalmente, achamo-nos respondendo a questão mais importante da vida. Ás vezes é difícil estabelecer uma história precisa e resumida do Budismo devido ao largo número de escritos diversos existentes e à falta de confiança dos documentos “históricos” fundamentais que cerca este sistema de fé. Mas alguns fatos podem ser entendidos razoavelmente.

O Budismo foi fundado por um príncipe hindu chamado Siddhãrtha Gautama, também conhecido como Sakyamuni (erudito do clã Sakya). Ele nasceu no norte da Índia (Sul do Nepal) mais ou menos em 500 antes de Cristo e, segundo as tradições budistas, ele tinha uma vida luxuosa e protegida até ter testemunhado os sofrimentos do mundo exterior. Ele foi duramente atingido pelas misérias que ele observou e, com a idade de 29 anos, abandonou sua vida de indulgências (deixou a esposa, filhos e o palácio) para procurar o significado do sofrimento humano. Ele tentou diferentes técnicas neste esforço, incluindo o ascetismo severo (privações corporais) e a meditação. Finalmente ele rejeitou o ascetismo e, um dia, com a idade de 35 (após muitos dias de meditação e buscas debaixo de uma [árvore] Bodhi, conhecida como “Figueira Sagrada”), ele alcançou o avanço espiritual. Ele percebeu certas verdades sobre a vida, morte, reencarnação, Carma e sofrimento. Seu avanço incluiu a percepção que ele teve de si mesmo sobre as contaminações dos desejos (incluindo fome e sede), ódio e ilusões.

Esse aspecto da inspiração foi o seu avivamento ou “iluminação”, motivo pelo qual tomou o título de Buda, que significa “O Iluminado”. Ele descreveu esse estado de liberdade dos desejos como um estado de “nulidade”, referido como o “Nirvana”, o ponto em que o ser é liberto do ciclo da vida, sofrimento, morte e reencarnação. O Budismo floresceu como um movimento monástico, então enfraqueceu na Índia (empurrada pelo Hinduísmo e Islã), mas se espalhou no Sri Lanka (Ceilão) e por toda a Ásia. Os alegados ensinos de Buda não foram colocados na forma escrita até séculos após sua morte. Diferentes concílios se juntaram na tentativa de “canonizar” os escritos budistas, mas até mesmo a historicidade desses vários concílios é incerta. Sendo assim, nós realmente não temos um corpo de ensino comumente aceito. Existem muitos “textos sagrados” que afirmam ser os ensinos de Buda ou de ser “consistente” com seus ensinos. Os mais conhecidos são a Tripitaka (filosofia, regras, sermões), várias Suttras (ensinos) e o “Livro dos Mortos” Tibetano (escrito por um antigo Monge Tibetano). Vários ramos e formas de Budismo têm justificado sua “ortodoxia” baseada em seus próprios relatos de concílios ou seus próprios escritos “inspirados”.

Ao longo do tempo, as duas maiores escolas (Theravada e Mahayana) emergiram como esses concílios ou foram aceitos ou rejeitados pelos seguidores:


Theravada - Um ramo do Budismo predominante no sudeste da Ásia: Tailândia, Burma, Cambodja e Laos. Historicamente, o nível de compromisso e sacrifício pessoal requerido para alcançar o “Nirvana” (ou “Nibbana”) é muito elevado neste ramo do Budismo. Portanto, a ênfase nas ordens de monges e freiras são as praticantes primárias do Budismo. Monastérios com grandes populações de monges são mais comuns neste ramo do Budismo. Burma (Myanmar), por exemplo, tem 500.000 monges.

Mahayana - Um ramo do Budismo predominante no Sri Lanka, Japão, Tailandia, China, Korea, Vietnam e Tibete. Nesta forma de Budismo, a prática da fé e o alcance do “Nirvana” está disponível a todos, incluindo as pessoas comuns. Budismo Tibetano (conduzido pelo Dalai Lama) ás vezes é considerado uma escola separada, mas incluído com frequência sob o Budismo de escola Mahayana. Outras seitas Mahayana muito conhecidas incluem o Budismo Zen e Nichiren (Japão). O Nichiren é distintamente “evangélico”, procurando derrubar outras crenças e ganhar convertidos (WALLACE, 2014).


O conceito de nirvana diverge sutilmente entre as escolas de budismo, mostradas acima de forma mais ampla:

 

O que é nirvana? As diferentes escolas do Budismo estão divididas quanto ao significado exato de nirvana. De acordo com Hick, as principais doutrinas são:

(1) interpretação Theravada mínima; Nirvana se entende, aqui, como mero estado psicológico. Só existe no monge budista vivo (arhat). Esta perspectiva está de acordo com a crença ateísta da extinção final - não existe nenhuma vida após esta vida.

(2) interpretação Theravada ortodoxa; O nirvana é uma realidade indescritível, muito além de nossa capacidade de compreensão. É onde o eu se torna um, ao unir-se com a realidade transcendental infinita.

(3) interpretação Mahayana de principal ramo; Enquanto alguns creem que nirvana significa extinção, Buda ensinou que nirvana poderia ser atingido nesta vida, visto que ele próprio o atingira. A aniquilação de que fala no estado do nirvana provavelmente refere-se ao aniquilamento de desejos, visto que livrar-se de anseios é livrar-se da roda cansativa, que implica algum fardo, chamado renascimento. Outra diferença entre as interpretações mahayanista e theravadinista do nirvana é que enquanto esta última separa o samsara (a roda dos renascimentos) do nirvana (liberação desta roda), a interpretação mahayanista funde ambas. Alcança-se a liberação quando a pessoa percebe que samsara é nirvana.

E (4) interpretação Mahayana Amida do budismo; Quando os infiéis, cheios, porém, de "amorosa confiança", apelam para Buda, este lhes confere seu mérito livremente, de tal forma que renascem na terra pura. Trata-se do paraíso, onde é muito possível obter-se o nirvana. Entretanto, "um paraíso gradual, em vez de nirvana, veio a constituir a principal esperança na imaginação religiosa dos budistas da terra pura (GEISLER e AMANO, 1992, p. 29, 30).

 

Está claro que existem conclusões, interpretações e escolas irreconciliáveis dentro do Budismo, que afirma ter de 300 a 400 milhões de seguidores no mundo (embora muitos sejam meros budistas “culturais”). Enquanto geralmente pensado ser uma religião, é mais uma filosofia espiritual. De fato, as seitas budistas variam de formas ateístas a politeístas, e algumas formas poderiam ser mais precisamente descritas como panteístas (afirmando que o “divino” está em todas as coisas). O Budismo é extremamente diverso e continua a se “adaptar”, talvez por causa da ausência de ensinos definitivos de Gautama, o Buda. Em adição a isso, a natureza dos ensinos básicos permite uma vasta gama de interpretações e modificações.

Perceba que o conceito de reencarnação no Budismo é a pedra fundamental para a evolução espiritual, semelhante ao conceito no Hinduísmo (na verdade originado dele) e praticado doutrinariamente no espiritismo. Como visto de forma geral, junto com o conceito de reencarnação no Budismo está aquilo que é inerente tanto ao Hinduísmo quanto ao espiritismo moderno: a “salvação” pelas obras ou esforços próprios. O Budismo defende que existem Quatro Nobres Verdades, que são, segundo eles, o problema do mundo e o caminho para a solução, que eles chamam de o Caminho Óctuplo. As Quatro Nobres Verdades são:

 

Existe sofrimento nesta vida (ou a vida É sofrimento);

O sofrimento é o resultado das intenções e desejos (ou a conexão);

Se libertar ou extinguir estes desejos e intenções encerrará o sofrimento;

A maneira de alcançar a liberdade (“nirvana”) é por meio do Caminho Óctuplo (WALLACE, 2014).

 

De posse dessa “revelação”, a salvação por esforço próprio é o cerne do próximo passo, o Caminho Óctuplo, que o budista deve se esforçar para praticar esta série de “entendimentos corretos” e “comportamentos”. Wallace (2014) também desvenda essa prática budista e a meta subdividida em três categorias, a saber: Sabedoria, Ética e Concentração:


Relacionado à “Sabedoria” (Prajñā or Paññā)

Este primeiro dos elementos do Caminho Octuplo provê um fundamento racional para o entendimento da realidade sob a perspectiva budista:


Visão Correta

Os budistas entendem esta “perspectiva”, “visão” ou “entendimento” como a habilidade de entender a maneira real como o mundo funciona; a habilidade de entender a realidade sob uma perspectiva budista, incluindo a realidade do Carma e do Sofrimento.


Intenção Correta

Este aspecto do caminho está relacionado à “determinação”, “aspirações” ou “desejos” do crente. Descreve a necessidade do crente de se libertar de qualquer desejo de fazer algo destrutivo ou imoral.

Se você perceber, todos os pontos doutrinários do Budismo foram abraçados, de alguma forma, pelo espiritismo, pois são doutrinas éticas. E esta parte do espiritismo é atraente, porque existem paralelos na cultura Judaico-Cristã.


Relacionado à “Ética” (Śīla or Sīla)

Os budistas não querem que suas ações externas prejudiquem suas mentes e sua habilidade de se concentrar. Por esta razão, certos esforços éticos são parte do caminho:


A Fala Correta

O Budismo convida os crentes a serem cuidadosos com suas palavras. Este aspecto do Caminho Octuplo proibe mentir, falar abusivamente ou usar linguagem imunda.


A Ação Correta

Este aspecto do caminho encoraja o budista a se treinar de maneira tal que possa ser capaz de agir de uma maneira moralmente elevada, não corrompendo ou atingindo outros.


Convivência Correta

O Caminho Octuplo também chama os budistas a procurar se empregar em um trabalho ou ocupação que não prejudicará outros seres vivos,seja diretamente ou indiretamente.

Perceba que algumas doutrinas são chamativas tanto no Budismo quanto no espiritismo e que essas nuances são basilares no Cristianismo.


Relacionado à “Concentração” (Samādhi)

Por fim, o Budismo ensina que os crentes devem treinar sua consciência elevada a fim de criar uma estrutura de autocontrole, através da qual a realidade pode ser verdadeiramente experimentada e entendida. Por esta razão, os aspectos remanescentes do Caminho são focados em áreas da “concentração”:


Esforço Correto

O Caminho convida os budistas a fazer um esforço contínuo para se libertar de todos os pensamentos, palavras ou ações agressivas, seja a si mesmos ou a outros em seus mundos. Eles são chamados a fazer um esforço moral contínuo e positivo.


Atenção Correta

Somando-se a isso, os budistas são chamados a permanecer mentalmente alerta; permanecendo constantemente em guarda àquelas influências do mundo que afetem seu corpo ou mente. Este aspecto do Caminho convida o crente a estar sempre alerta e consciente sobre se o que dizem e fazem é moralmente correto.


Concentração Correta

Por fim, o Caminho convida o budista a se engajar na prática da concentração correta, completada com a meditação, a fim de adentrar no que é conhecido como “jhana”, um estado de consciência que permite o crente desenvolver sabedoria e percepção da verdadeira natureza ao seu redor.

 

A meta do Caminho Óctuplo é entender a natureza da vida e compreender melhor as Quatro Nobres Verdades e eventualmente extinguir nosso “eu” e nossos desejos (bons ou maus), para, então, podermos finalmente alcançar o “Nirvana” (o estado de nulidade, não consciência ou “cegueira”). O caminho Óctuplo às vezes é chamado de “O Caminho do Meio”, já que nem é um ascetismo extremo nem uma via de indulgência. Mas em todos esses elementos do Caminho Óctuplo, está claro que o crente é cobrado com a responsabilidade por seu próprio crescimento ou desenvolvimento espiritual. Os budistas encontram a resposta em seus próprios esforços. Diferente de outros sistemas de fé, que clama a assistência de Deus, esta ideia de confiar em algo ou alguém além de si mesmo é estranho ao Budismo. Ele ensina que alguns de nós alcançamos o Nirvana, de fato. Propõe que o nosso mundo contém indivíduos que alcançaram a iluminação (buddhas e boddisatvas) mas que escolheram permanecer conosco nesta ilusão consciente para nos ajudar em nossa progressão espiritual (WALLACE, 2014). Outro pesquisador mostrou bem o caráter e a meta do Budismo em uma de suas ramificações no Ocidente, o Zen-Budismo, originada oficialmente na corrente budista japonesa no século VII da nossa era e popularizada nos Estados Unidos por Alan Watts. O Budismo Zen, assim como o Budismo, em si defende:

 

Nesse ensino percebem-se imediatamente três elementos comuns a todas as ideologias do Hinduísmo pós-védico, quais sejam, a transmigração [da alma, reencarnação] o carma, e a dissolução da individualidade. Resumindo o ensino de Buda da forma mais sucinta possível,pode-se dizer que o nascimento é sofrimento, a velhice é sofrimento, a doença é sofrimento, e o apego às coisas terrenas é sofrimento. O nascer e renascer, o ciclo da reencarnação, resulta da sede de viver inerente ao homem, aliada à paixão e ao desejo. A única maneira de alguém se libertar dessa sede é seguir a "senda óctupla": fé correta, vontade correta, linguagem correta, conduta correta, vida correta, esforços corretos e pensamento e meditação corretos (MARTIN, 1992, Vol. II, p. 22 - grifo nosso).

 

Assim como os conceitos gnósticos neoplatônicos sobre a matéria e o corpo, o Budismo defende a mesma coisa. Entretanto, um conceito está claro dentro desse sistema de salvação como "espírito puro", a dissolução da individualidade,[2] como mostrado acima. Na verdade, a aniquilação da individualidade como ser pessoal:

 

A meta do Budismo é atingir o nirvana, um termo de definição praticamente impossível, pela simples razão de que o próprio Buda nunca forneceu uma conceituação clara desse estado. Provavelmente ele mesmo também não possuía uma ideia clara dele. Vários de seus discípulos lhe perguntaram se o nirvana era um estado que se seguia à vida terrena, a existência celestial, ou se era uma aniquilação total. Mas ele se negou a responder a essas questões, pois uma característica de seu ensino era que se aplicava apenas a esta vida e pouco focalizava os problemas da filosofia meramente acadêmica ou do desconhecido...o bem supremo é ser liberto do carma e da reencarnação, o que se consegue através do conhecimento, e consiste na união ou absorção da alma humana pela Super Alma. Isso implica na aniquilação da individualidade. Nesse sentido, o nirvana é niilismo. Portanto, como os ensinos de Buda tacitamente ignoram qualquer conceito de divindade, parece que o nirvana implica na aniquilação da alma, e não na sua absorção (MARTIN, 1992, Vol. II, p. 22).

 

Perceba que o fato de "encarnar ou reencarnar" é um conceito terrível nessas filosofias, e a meta é se libertar delas para sempre, perdendo a pessoalidade. Entretanto, existe uma diferença significante entre a reencarnação no Budismo e no Hinduísmo. No Budismo, não existe um "eu", apenas um depósito de carmas anteriores; no Hinduísmo, o "eu" passa de um corpo a outro por meio da reencarnação. A reencarnação no Budismo está ligada à doutrina budista do "não-eu" (anatta). De acordo com o Buda, não existe o eu no "pós-vida" como nós conhecemos agora. O filósofo Sarvepalli Radhakrishnan diz o seguinte: "Não existe no Budismo tal coisa como a migração da alma, ou a passagem de um indivíduo de uma vida para a outra... não é o homem morto que vem ao renascimento, mas outra pessoa. Não há alma para migrar" (GEISLER e AMANO, 1992, p. 28). [3] Estão claras as incoerências internas no Budismo e sua falta de caráter vivenciável. 

Resumindo portanto, segundo o Budismo, a fonte do sofrimento é o desejo. Elimine o desejo e você elimina o sofrimento. A meta, então, é o desapego completo. Para provar este ponto, Ravi Zacharias menciona que quando seu filho nasceu, o Buda (Siddhartha Gautama) afirmou a sua célebre frase: "Um obstáculo surgiu." Ou seja, ele viu seu filho como um obstáculo para a sua iluminação. O Buda então abandonou sua esposa e filho a fim de buscar o desapego. Ravi Zacharias compara essa resposta ao sofrimento com a resposta do Cristianismo:


"Não parece acidental que na noite que Gautama Buda deixou seu palácio para perseguir uma resposta à dor e ao sofrimento era a mesma noite que sua esposa estava dando à luz seu filho. Em sua busca para eliminar o sofrimento, ele realmente saiu e deixou sua esposa sozinha no meio de sua dor. Compare isso com o Deus da Bíblia, que veio ele próprio a este mundo na pessoa de Seu Filho para sofrer na cruz, para abraçar a dor e sofrimento para o bem da humanidade. Buda se afastou de seu filho e da dor. No cristianismo, Deus é parte integrante da solução". (Why Suffering?, p. 131).


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Notas:

[1] As informações sobre o Budismo foram retiradas de dois artigos do J. Warner Wallace, apresentados nas Referências pela pujança, importância e riqueza de detalhes. Salvo indicação ao contrário, destacado por citação.


[2] Outras formas da doutrina da reencarnação diferem com relação ao que acontece na hora da morte e à natureza do estado final de moksha, mas o padrão geral é retido. Os budistas dizem que a alma inconsciente (vinnana) continua, mas o eu (intelecto, emoções e consciência) é apagado na morte. Seu carma permanece no ciclo de renascimento chamado samsara. Há quatro interpretações do estado final do budismo, nirvana, que é atingido pela graça de Buda. O jainismo e o siquismo (doutrina seguida pelos siques) seguem os mesmos padrões do hinduísmo pessoal e impessoal, respectivamente. (GEISLER, 2002, p. 745, 746).


[3] Devemos uma palavra adicional, aqui, a respeito da perspectiva budista sobre o não-eu. Se você se lembra, o budismo, aceita a doutrina do anatta, ou “não-eu”. Os que interpretam esta doutrina como significando a não continuidade do eu após a morte – de modo que, efetivamente, é uma nova pessoa que “renasce” – seriam vítimas, parece-nos, de uma teoria do carma sem sentido. Diferentemente dos hindus, que crêem que o mesmo eu se reencarna em outro corpo, os budistas virtualmente extinguem o eu. (GEISLER, AMANO, 1992, p.90).


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Referências:


BEDARD, Stephen J. Christianity and Other Ancient Religions. Recuperado de: http://www.apologetics315.com/2010/04/essay-christianity-and-other-ancient.html, acessado em 02/07/2021


GEISLER, Norman. Enciclopédia de Apologética (L. Noronha, trad.). São Paulo: Editora Vida, 2002.


GEISLER, Norman; AMANO, J. Yutaka; Reencarnação: O Fascínio que Renasce em Cada Geração. (Tradução Oswaldo Ramos). 1. Ed. São Paulo: Editora Mundo Cristão, 1992


MARTIN, Walter. O Império das Seitas: Zen-Budismo, Islamismo, Fraternidade Rosacruz, Religiões Orientais, Mormonismo. (Tradução Myrian Talitha Lins). 1. ed. São Paulo: Editora Betânia, 1992, Volume II.


STELA, Jorge Bertolasso. Zoroastro, Buda e Cristo. São Paulo: Imprensa Metodista, 1971;


WALLACE, J. Warner. 22 Important Questions for the Buddhistic Wordview (2014). Disponível:http://coldcasechristianity.com/2014/22-important-questions-for-the-buddhistic-worldview/?utm_content=bufferd7f9d&utm_medium=social&utm_source=twitter.com&utm_campaign=buffer, acesso 02/07/2021


WALLACE, J. Warner. A Bief Overview of Buddism (2014). Disponível: http://coldcasechristianity.com/2014/a-brief-overview-of-buddhism/?utm_content=buffere8772&utm_medium=social&utm_source=twitter.com&utm_campaign=buffer, acesso 02/07/2021


ZACHARIAS, Ravi; VITALE, Vince. Why Suffering? Finding Meaning and Comfort When Life Doesn’t Make Sense. New York, NY: Faith Words, 2014