Por Walson Sales
Introdução
John Piper escreveu sobre os escritos de Jonathan Edwards, que viveu há 250 anos: 'Os arminianos ridicularizam a distinção entre a vontade secreta e a vontade revelada de Deus, ou, mais propriamente expresso, a distinção entre o decreto e a lei de Deus, porque nós dizemos que Ele pode decretar uma coisa e ordenar outra. E assim, argumentam eles, temos uma contrariedade em Deus, como se uma dessas vontades fosse uma contradição à outra.' (Are there two Wills on God?)
Calvino havia vivido o mesmo dilema antes e a solução de Calvino foi postular a dupla vontade de Deus, sendo uma delas revelada e outra secreta. A vontade revelada de Deus oferece misericórdia e perdão a todos que se arrependerem e crerem. A vontade secreta de Deus predestina alguns à perdição eterna e determina que eles pecarão e nunca se arrependerão. [Roger Olson, História da Teologia Cristã] Algo que fere de forma irreversível o caráter moral de Deus.
Contextualização entre os dois textos:
Os dois textos abordam a complexa questão da vontade de Deus, focando nas distinções entre a vontade revelada e a vontade secreta, algo amplamente debatido na teologia reformada. No primeiro texto, Jonathan Edwards (segundo John Piper) defende essa distinção, apontando que Deus pode decretar um evento e, ao mesmo tempo, ordenar algo contrário a esse decreto. Essa visão é criticada pelos arminianos, que veem nisso uma contradição no caráter divino.
O segundo texto menciona a solução de Calvino, que também promove a ideia de uma dupla vontade de Deus: uma vontade revelada, que oferece salvação a todos que se arrependem, e uma vontade secreta, que predestina alguns à perdição. No entanto, essa visão é criticada por implicar que Deus estaria, de certa forma, determinando o pecado e a perdição de alguns, o que fere o senso moral de um Deus justo e bom.
Ambos os textos enfrentam o dilema teológico de como conciliar a soberania de Deus com a responsabilidade humana, além de levantar questionamentos sobre a justiça e bondade divinas diante da ideia de predestinação.
Contextualização: No Calvinismo, há uma doutrina que afirma a existência de duas vontades em Deus: a vontade revelada (expressa nas Escrituras) e a vontade secreta (os decretos soberanos ocultos de Deus). A primeira descreve o que Deus ordena e deseja que os humanos sigam, enquanto a segunda refere-se ao plano oculto de Deus que abrange tudo o que ocorre, incluindo o mal.
Objetivo: Este artigo visa expor as contradições internas dessa doutrina e refutar vigorosamente a ideia de que Deus possui duas vontades que podem, em algumas situações, estar em contradição. Além disso, analisaremos as implicações dessa doutrina para o caráter moral de Deus.
1. A Doutrina das Duas Vontades no Calvinismo
Vontade Revelada: A vontade revelada de Deus é aquela que se expressa nas Escrituras. Ela inclui os mandamentos, a moralidade e o desejo expresso de Deus de que todos obedeçam e sigam Seu caminho (por exemplo, 1 Timóteo 2:4: "Deus deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade").
Vontade Secreta: A vontade secreta, por outro lado, refere-se ao plano soberano de Deus, que, no Calvinismo, inclui tudo o que acontece, até mesmo o mal e a condenação de pessoas que Ele decretou eternamente. É alegado que Deus, secretamente, deseja ou permite o que Ele, na vontade revelada, proíbe.
2. A Contradição entre as Duas Vontades
Contradição Explícita: Se a vontade revelada de Deus ordena que as pessoas evitem o pecado, mas Sua vontade secreta decreta que o pecado ocorra, estamos diante de uma contradição entre o que Deus diz que deseja e o que Ele decreta que aconteça.
Exemplo Bíblico: Deus ordena que não se minta (Êxodo 20:16), mas se Sua vontade secreta decreta que certas pessoas mintam para cumprir Seus planos soberanos, então Ele estaria, na prática, promovendo o que Ele proíbe.
O Problema Moral: Se Deus ordena moralidade em Sua vontade revelada, mas decreta imoralidade em Sua vontade secreta, então Deus seria, no mínimo, moralmente ambíguo. Isso comprometeria a visão bíblica de um Deus totalmente justo e bom (Salmo 145:17: “Justo é o Senhor em todos os seus caminhos, e santo em todas as suas obras”).
3. Implicações para o Caráter Moral de Deus
Problema do Mal: Se a vontade secreta de Deus inclui o decreto de eventos maus (como assassinatos, violência e injustiça), então Deus seria o autor direto do mal, algo que a Bíblia nega enfaticamente (Tiago 1:13: “Deus não pode ser tentado pelo mal, e a ninguém tenta”).
Implicações Filosóficas: Se Deus decreta o mal para cumprir Seus propósitos, Ele não poderia ser considerado absolutamente bom. Isso cria um problema teológico fundamental, pois desvia a responsabilidade do mal dos seres humanos e coloca-a nas mãos de Deus, o que contradiz o ensino bíblico sobre a justiça de Deus.
Incoerência no Amor de Deus: Se Deus deseja, em Sua vontade revelada, que todos sejam salvos (1 Timóteo 2:4), mas em Sua vontade secreta predestina a maioria para a condenação, então o amor de Deus seria limitado e contraditório. Como conciliar um Deus que ama o mundo (João 3:16) com um Deus que decreta a condenação eterna de muitos?
4. Refutação Filosófica e Teológica
O Problema da Coerência: Para que Deus seja logicamente consistente, Suas vontades não podem estar em contradição. Um ser perfeito não pode ter dois desejos opostos (por exemplo, querer que algo ocorra e, ao mesmo tempo, querer que esse mesmo evento não ocorra). Isso é uma violação do princípio da não-contradição, que é a base de qualquer lógica.
Refutação de John Frame: Mesmo alguns teólogos calvinistas, como John Frame, reconhecem que é difícil harmonizar as duas vontades sem cair em contradição. Frame sugere que a "vontade secreta" é apenas uma forma de descrever a soberania de Deus, mas essa tentativa de conciliação não resolve o problema prático da moralidade divina.
Implicações para a Liberdade Humana: A doutrina das duas vontades anula a liberdade humana genuína. Se tudo está predeterminado pela vontade secreta de Deus, então o livre-arbítrio é apenas uma ilusão. Isso levanta a questão de como Deus pode responsabilizar moralmente os seres humanos por ações que Ele mesmo decretou.
Refutação de C. S. Lewis: C. S. Lewis argumenta que, sem livre-arbítrio genuíno, não há verdadeiro amor ou verdadeira obediência. Deus deseja uma relação autêntica com Seus filhos, algo que é impossível em um esquema onde tudo está predeterminado.
5. Contradições Bíblicas Internas na Doutrina das Duas Vontades
Deuteronômio 30:19: Deus diz ao povo de Israel para "escolher a vida". Esse versículo pressupõe que os seres humanos possuem a capacidade genuína de escolha concedida por Deus, o que é contradito pela doutrina calvinista da predestinação e da vontade secreta.
Ezequiel 18:23: “Teria eu algum prazer na morte do ímpio? [...] Não desejo eu, antes, que ele se converta dos seus caminhos e viva?” Esse texto expressa a clara vontade revelada de Deus de que os ímpios se arrependam. Se a vontade secreta de Deus decreta que alguns não se arrependam e sejam condenados, isso implicaria que Deus tem dois desejos opostos. Deus estaria zombando das pessoas?
Mateus 23:37: Jesus lamenta sobre Jerusalém dizendo que Ele quis reunir os filhos de Israel, mas eles não quiseram. Aqui vemos uma expressão clara da vontade de Deus sendo rejeitada, o que contradiz a noção de uma vontade secreta irresistível.
6. Implicações Práticas e Teológicas
A Pregação e o Evangelismo: Se a vontade secreta de Deus decreta quem será salvo e quem será condenado, o evangelismo perde seu sentido. Como podemos convidar genuinamente alguém a crer, se a escolha já foi predeterminada por Deus em Sua vontade secreta?
A Justiça de Deus: A doutrina das duas vontades sugere que Deus pune pessoas por pecados que Ele mesmo decretou em Sua vontade secreta. Isso contraria diretamente a justiça bíblica de Deus, que exige responsabilidade moral dos seres humanos por suas ações (Romanos 2:6-8).
7. Conclusão: A Incoerência das Duas Vontades e a Necessidade de Coerência Teológica
Síntese dos Argumentos: A doutrina das duas vontades em Deus, conforme apresentada no Calvinismo, é logicamente incoerente e moralmente problemática. Ao afirmar que Deus deseja algo em Sua vontade revelada, mas decreta o contrário em Sua vontade secreta, cria-se uma contradição irreconciliável que compromete a integridade moral de Deus.
Uma Alternativa Teológica: A solução para essa incoerência é adotar uma visão de Deus em que Sua vontade é única, coerente e não contraditória. Deus deseja que todos venham ao arrependimento e fornece os meios para que isso ocorra, sem decretar o mal ou a condenação de forma arbitrária.
A IMPORTÂNCIA DE SE FAZER PERGUNTAS NO DEBATE:
Aqui estão algumas perguntas provocativas e constrangedoras baseadas no artigo "A Doutrina das Duas Vontades em Deus no Calvinismo: Um Problema de Coerência e Moralidade Divina", que podem ser usadas em discussões com ateus e céticos, particularmente aqueles que defendem visões deterministas ou calvinistas:
1. Sobre a Contradição entre as Vontades Revelada e Secreta
Se Deus, em Sua vontade revelada, deseja que todos os homens sejam salvos (1 Timóteo 2:4), mas em Sua vontade secreta decreta a condenação de alguns, como isso pode ser conciliado sem criar uma contradição no caráter de Deus? Como Deus pode desejar duas coisas opostas ao mesmo tempo?
2. Sobre a Justiça de Deus
Como você pode conciliar a ideia de que Deus é justo e bom com a doutrina de que Ele predestina pessoas para o mal ou para a condenação eterna, independentemente de suas escolhas? Não seria isso uma violação da própria justiça que Deus ordena em Sua Palavra?
3. Sobre o Problema do Mal
Se a vontade secreta de Deus inclui o decreto de todos os eventos, incluindo o mal, isso não faz de Deus o autor do mal? Como você pode sustentar a bondade moral de Deus se Ele decreta que o mal ocorra, contrariando Sua própria vontade revelada, que ordena o bem?
4. Sobre a Liberdade Humana
Se Deus decreta todas as coisas pela Sua vontade secreta, incluindo as decisões humanas, como o ser humano pode ser considerado livre ou moralmente responsável por suas ações? Como podemos ser culpados por algo que Deus já decretou que ocorreria?
5. Sobre o Amor de Deus
A Bíblia ensina que Deus é amor e que deseja que todos sejam salvos. Se Deus predestina alguns à condenação eterna em Sua vontade secreta, como podemos dizer que Ele ama essas pessoas? Não seria contraditório afirmar que Deus ama alguém, mas ao mesmo tempo predestina essa pessoa à perdição?
6. Sobre a Contradição entre Soberania e Livre-Arbítrio
Como você resolve o aparente conflito entre a soberania absoluta de Deus, que decreta todas as coisas, e a responsabilidade humana, que pressupõe uma capacidade de escolha livre? Se todas as escolhas humanas são decretadas, como podemos falar de uma verdadeira responsabilidade moral?
7. Sobre a Harmonia no Caráter de Deus
Se Deus possui uma vontade revelada e uma vontade secreta que, em alguns casos, estão em contradição (como querer que todos sejam salvos, mas predestinar alguns à condenação), isso não compromete a harmonia no caráter de Deus? Como Deus pode ser perfeitamente coerente e não contraditório com duas vontades em conflito?
8. Sobre o Livre-Arbítrio na Bíblia
Textos bíblicos como Deuteronômio 30:19 ("Escolhei, pois, a vida") e Ezequiel 18:23 mostram Deus chamando os homens à escolha e ao arrependimento. Como essas convocações têm sentido se a vontade secreta de Deus já determinou quem será salvo ou condenado, sem que o livre-arbítrio humano faça diferença?
9. Sobre a Responsabilidade Divina pelo Pecado
Se a vontade secreta de Deus inclui o decreto do pecado, como isso preserva a santidade de Deus? Não implicaria que Deus, ao decretar o pecado, é de certa forma responsável por ele? Isso não colocaria em risco a pureza moral de Deus?
10. Sobre a Contradição Moral
Se Deus, em Sua vontade revelada, ordena que o mal não seja cometido, mas em Sua vontade secreta decreta que ele ocorra, como isso não torna Deus moralmente contraditório? Não é incoerente que Deus proíba o mal e ao mesmo tempo o decrete?
11. Sobre o Chamado ao Arrependimento
Se Deus chama todas as pessoas ao arrependimento e deseja que ninguém pereça, mas já decretou a condenação de muitos em Sua vontade secreta, como esse chamado pode ser considerado genuíno? Não seria isso uma forma de engano?
12. Sobre a Bondade de Deus
Se a vontade secreta de Deus inclui a condenação de pessoas sem que elas tenham a possibilidade de escolha, como isso pode ser reconciliado com a bondade de Deus, que a Bíblia ensina em Salmo 145:9 ("O Senhor é bom para todos, e as suas misericórdias são sobre todas as suas obras")?
Essas perguntas desafiam a consistência lógica e moral da doutrina das duas vontades em Deus, e incentivam os calvinistas a refletirem sobre as implicações dessa visão teológica para o caráter de Deus e a liberdade humana. Elas também colocam em destaque a dificuldade em harmonizar a soberania absoluta de Deus (microgerenciamento de tudo o que acontece como vontade de Deus) com a justiça e o amor revelados nas Escrituras.