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sábado, 29 de março de 2025

Uma Análise Crítica do Calvinismo: Insights Poderosos de Dave Hunt vs. A Sistematização de James White

Por Walson Sales

O capítulo 9 do livro *Debating Calvinism: Five Points, Two Views*, intitulado *“The Central Issue: God’s Love”*, traz à tona um aspecto central e profundamente debatido no confronto teológico entre o Calvinismo e outras interpretações do cristianismo: o amor de Deus. Nesta obra, Dave Hunt e James White debatem de forma acalorada os cinco pontos do Calvinismo. No capítulo em questão, Hunt se debruça especificamente sobre o tema do amor divino, questionando as implicações da doutrina calvinista para a compreensão desse amor. Hunt argumenta que o Calvinismo, ao ensinar a predestinação incondicional, restringe a noção de amor divino, transformando-a em um favoritismo insensível, incompatível com a visão bíblica de Deus.

Hunt estrutura sua argumentação em torno de perguntas e inferências que buscam revelar uma suposta incongruência no Calvinismo: como Deus, que é definido como amor, poderia predestinar pessoas ao tormento eterno, alegrando-se com a condenação delas? Essa pergunta norteia a análise de Hunt, que defende a perspectiva de que o amor de Deus, sendo perfeito e universal, não pode ser seletivo. Ele sugere que, ao reduzir o amor de Deus a uma escolha soberana por alguns poucos eleitos, o Calvinismo falha em representar o caráter amoroso de Deus, especialmente considerando passagens bíblicas que enfatizam o desejo de Deus em salvar todos os homens (1 Timóteo 2:4) e sua falta de prazer na morte do ímpio (Ezequiel 33:11).

Em sua crítica, Hunt também aponta para a experiência humana do amor e da compaixão, observando que, segundo a moralidade cristã, somos ensinados a amar o próximo, incluindo nossos inimigos. Ele argumenta que, se o amor humano, reflexo do amor de Deus, deve ser estendido a todos, incluindo aqueles que se afastaram de nós, então o próprio Deus deveria, logicamente, amar a todos de forma incondicional e desejosa de salvação. Nesse ponto, Hunt interpreta o amor de Deus como fundamentalmente inclusivo, enfatizando que Cristo morreu pelos pecados de toda a humanidade, e não apenas por um grupo restrito.

Outro aspecto importante levantado por Hunt é o entendimento que os calvinistas têm da “graça comum”. De acordo com essa linha de pensamento, Deus manifesta certa forma de bondade a todos por meio de bens materiais, como a chuva e o sol, mas reserva a graça salvadora exclusivamente aos eleitos. Hunt, contudo, refuta essa distinção, considerando-a insuficiente como expressão do amor de Deus. Para ele, restringir a salvação a apenas alguns diminui a ideia de que “Deus é amor” (1 João 4:8), uma característica central e essencial da natureza divina, única entre seus atributos.

Ao abordar as implicações teológicas e práticas do amor de Deus, Hunt ainda sugere que a visão calvinista leva a uma redução da urgência evangelística. Em sua perspectiva, se Deus já escolheu aqueles que serão salvos e aqueles que serão condenados, não haveria necessidade de preocupar-se com a pregação do Evangelho aos “não-eleitos”. Hunt considera essa postura uma deturpação do Evangelho, pois acredita que a evangelização é uma manifestação do amor de Deus por todos.

O autor também questiona a lógica de que Deus tenha predestinado pessoas ao tormento eterno para exibir sua justiça e glória. Ao adotar essa interpretação, Hunt afirma que o Calvinismo contradiz a essência do amor divino, que deveria levar Deus a providenciar um meio de salvação a todos, uma vez que todos são seus “próximos” a serem amados. Hunt insiste que, conforme ensinamentos de Jesus, amar o próximo de maneira sacrificial e compassiva é um reflexo direto do próprio amor de Deus.

Assim, Hunt conclui que a visão calvinista não apenas distorce o caráter de Deus, mas também promove uma ideia de amor divino que seria considerada moralmente reprovável se fosse aplicada aos relacionamentos humanos. Afinal, Deus nos chama a amar o próximo sem reservas, mas o Calvinismo apresenta um Deus que, paradoxalmente, age de modo contrário, amando apenas alguns. Para Hunt, o amor verdadeiro é universal, abnegado e incondicional, e qualquer teologia que contradiga esse entendimento não faz jus ao Deus da Bíblia.

A reflexão que Hunt propõe no capítulo é, portanto, uma defesa apaixonada da ideia de que Deus, sendo amor, não pode agir de forma seletiva e arbitrária. Hunt busca demonstrar que o amor divino deve ser compreendido à luz da própria revelação de Deus em Cristo, o qual, por amor, se entregou a todos e por todos. Em última análise, ele argumenta que a doutrina calvinista, ao excluir parte da humanidade desse amor, compromete a beleza da “maior história já contada” – a do amor de Deus por todos os pecadores e o convite para todos se achegarem a Ele.

Embora James White tenha organizado seus argumentos de forma sistemática e lógica, considero que os insights de Dave Hunt são verdadeiramente impactantes, fornecendo uma crítica poderosa que, em minha opinião, desmantela as bases do calvinismo de uma maneira que White não conseguiu responder. A profundidade e clareza que Hunt apresenta neste livro são de grande valor para o debate teológico, e acredito que essa obra merece ser traduzida e publicada no Brasil, onde muitos poderiam se beneficiar de sua análise contundente e cuidadosa.

sexta-feira, 28 de março de 2025

Desvendando a Soberania de Deus e a Liberdade Humana: Um Confronto Teológico entre James White e Dave Hunt

Por Walson Sales

No capítulo 11 do livro Debating Calvinism: Five Points, Two Views, intitulado Turning the Bible into a Charade, Dave Hunt critica intensamente a perspectiva calvinista sobre o caráter de Deus e a doutrina da predestinação. Esse livro é um diálogo entre Dave Hunt e James White sobre os cinco pontos do calvinismo, onde ambos discutem suas visões conflitantes sobre a eleição, depravação total, e a soberania divina.

Neste capítulo, Hunt expressa a preocupação de que a visão calvinista transforma Deus em um ser insensível e até desonesto, já que a doutrina sugere que Deus faz apelos para que todos se arrependam, embora apenas alguns possam responder a esse chamado. Hunt questiona, com razão, como pode um Deus verdadeiramente justo e sincero chamar ao arrependimento todos os homens, se, na visão calvinista, Ele já escolheu alguns para a salvação e outros para a perdição eterna desde a eternidade passada.

Implicações da Doutrina Calvinista

Hunt sugere que o calvinismo implica que Deus é o autor do pecado, pois tudo, incluindo os atos humanos mais vis, seria preordenado por Deus. Ele critica duramente a visão de que a depravação total significa que o homem é absolutamente incapaz de responder ao evangelho, de tal modo que a graça irresistível precisaria ser imposta. Isso, para Hunt, transforma os homens em marionetes, sem liberdade real para escolher entre o bem e o mal.

Ele também observa que o calvinismo parece contradizer a própria natureza amorosa e santa de Deus, que não pode ser tentado pelo mal (Tiago 1:13) e que abomina o pecado (Habacuque 1:13). Segundo Hunt, a visão calvinista beira a blasfêmia ao atribuir a Deus a responsabilidade pelo pecado humano, pois afirma que os desejos e atos malignos foram pré-ordenados por Deus. Hunt argumenta que isso é incompatível com o caráter justo e santo de Deus, apresentado nas Escrituras.

Análise Textual e Hermenêutica

Para apoiar suas críticas, Hunt examina passagens bíblicas, como 2 Pedro 3:9 e João 3:16, onde Deus expressa seu desejo de que todos se salvem. Ele questiona a interpretação calvinista que limita a palavra "todos" apenas aos eleitos, pois, segundo Hunt, essa interpretação altera o sentido claro do texto bíblico. Em 1 Timóteo 2:4, onde Deus “quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade”, Hunt sustenta que o calvinismo distorce o significado, restringindo o “todos” a “todos os tipos de homens”.

Outro ponto importante que Hunt aborda é a acusação de que o calvinismo transforma a experiência humana e a prática religiosa em uma espécie de "zombaria divina". A prática de evangelizar e persuadir pessoas a crer, presente em Atos e nas epístolas de Paulo, seria desnecessária, pois, no calvinismo, aqueles predestinados à salvação crerão independentemente de qualquer esforço humano.

Conclusão e Reflexão Crítica

Com base nos pontos levantados, fica evidente que Dave Hunt vê o calvinismo como uma doutrina problemática, especialmente quanto à sinceridade de Deus. Ele sugere que o calvinismo cria uma “charada” onde Deus, ao mesmo tempo, preordena o pecado e exige que o homem se arrependa, sabendo que ele é incapaz de fazê-lo. Isso contradiz a ideia bíblica de um Deus que “ama o mundo” e deseja a salvação de todos.

Hunt defende que, se a doutrina calvinista fosse correta, Deus estaria enganando as pessoas, algo que ele considera inconcebível para um Deus justo e santo. Em sua visão, o calvinismo mina o livre-arbítrio humano, e isso não apenas distorce a imagem de Deus, mas também esvazia o significado do evangelho e da chamada ao arrependimento.

Diante de uma perspectiva crítica como a de Hunt, essa discussão no livro aponta para a necessidade de uma interpretação equilibrada, que reconheça tanto a soberania divina quanto a responsabilidade humana, mantendo a coerência com o caráter de Deus revelado nas Escrituras e respeitando a dignidade e a liberdade humanas.

Embora James White apresente uma abordagem mais organizada e metodológica, Dave Hunt traz à tona reflexões que, na minha análise, desconstroem o sistema calvinista de maneira contundente, deixando questões que White não consegue solucionar satisfatoriamente. A profundidade dos argumentos de Hunt torna sua obra uma leitura indispensável para aqueles que desejam um exame crítico do calvinismo. Espero sinceramente que esse livro possa chegar ao público brasileiro em uma tradução futura, pois seu conteúdo é relevante e necessário para enriquecer o debate teológico em nosso país.

quarta-feira, 26 de março de 2025

A Tensão entre Soberania Divina e Responsabilidade Humana: Uma Análise Teológica e Crítica ao Determinismo Calvinista

Por walson Sales

A relação entre a soberania divina e a responsabilidade humana pelo pecado é um tema de intenso debate na teologia cristã, especialmente no Calvinismo. R.C. Sproul, um dos mais respeitados apologistas calvinistas, defende em seu livro Eleitos de Deus que Deus preordenou todos os eventos, inclusive o pecado, e que a permissão divina para o mal é, em certo sentido, “boa”. Contudo, esse ponto de vista enfrenta críticas consideráveis de teólogos e filósofos cristãos como William Lane Craig, que argumentam que essa perspectiva transforma Deus em autor do pecado e levanta dúvidas quanto à responsabilidade humana.

Este artigo examina essa questão à luz das Escrituras, baseando-se nas afirmações de Sproul e na crítica de Craig, e explora se o determinismo é compatível com a santidade e justiça de Deus e com a responsabilidade moral humana.

I. A Soberania Divina e o Decreto do Pecado

R.C. Sproul, ao comentar a Confissão de Fé de Westminster em Eleitos de Deus (p. 22), afirma que Deus decretou todos os eventos, incluindo o pecado, e que a permissão divina para o mal é boa em si, embora o pecado seja mau. Essa afirmação traz uma questão desafiadora: se Deus é perfeitamente santo, como Ele poderia decretar o mal? Salmos 5:4 declara: "Porque tu não és um Deus que tenha prazer na iniquidade, nem contigo habitará o mal." Esse versículo indica a pureza absoluta de Deus, e parece contradizer a ideia de que Ele possa decretar algo pecaminoso.

Tiago 1:13 também reforça essa questão: "Ninguém, sendo tentado, diga: De Deus sou tentado; porque Deus não pode ser tentado pelo mal, e a ninguém tenta." Esse versículo apresenta uma imagem de Deus que não incita o pecado, o que dificulta a aceitação da lógica calvinista de que Deus ordenaria o mal sem comprometer Sua própria santidade.

II. A Crítica de William Lane Craig ao Determinismo Calvinista

William Lane Craig, em sua crítica ao determinismo calvinista, argumenta que tal visão torna Deus o "autor do pecado" e elimina a responsabilidade humana. Ele descreve que, se Deus controla até o movimento da vontade humana, então as pessoas não fazem escolhas genuínas e não podem ser responsabilizadas moralmente. Craig sugere que o determinismo é incompatível com a bondade de Deus, pois, segundo essa visão, Deus não apenas permitiria, mas seria a causa direta do mal. Em Four Views on Divine Providence (GRUNDY & JOWERS, eds.), Craig afirma que, se constranger alguém a cometer o mal é moralmente errado, então seria “absurdo” atribuir esse papel a Deus.

Craig argumenta também que, ao negar a liberdade humana genuína, o determinismo calvinista compromete a responsabilidade moral das ações humanas. Sem escolhas reais, o ser humano não pode ser considerado culpado pelos pecados, e as ações de obediência ou desobediência perdem valor moral, já que tudo seria determinado por Deus.

III. A Soberania e a Permissão Divina à Luz das Escrituras

Diversos textos bíblicos apontam para um Deus que, embora soberano, respeita a liberdade humana e oferece escape diante do pecado. Em 1 Coríntios 10:13, Paulo declara: "Não veio sobre vós tentação, senão humana; mas fiel é Deus, que não vos deixará tentar acima do que podeis, antes com a tentação dará também o escape, para que a possais suportar." Esse versículo mostra que Deus age para que o pecado não seja inevitável, e que Ele proporciona uma saída para que o crente possa resistir à tentação.

Essa perspectiva contradiz a ideia de um Deus que preordena o pecado, pois sugere que Ele é um provedor de livramento e força, não um instigador do mal. Em Deuteronômio 32:4, Deus é descrito como "a Rocha, cuja obra é perfeita, porque todos os teus caminhos são justos. Deus é a Verdade, e não há nele injustiça; justo e reto é." Esse texto reforça que a justiça divina é absoluta e incompatível com a ideia de que Ele seria a origem do pecado.

IV. Implicações Teológicas e Filosóficas: Justiça e Responsabilidade Humana

O determinismo calvinista, ao implicar que Deus preordenou o pecado, gera um paradoxo teológico que desafia a compreensão da justiça divina. Se o ser humano não tem liberdade genuína e se suas escolhas são determinadas por Deus, é difícil afirmar que ele seja realmente responsável por suas ações. Essa perspectiva também questiona a noção de um Deus justo e santo, que se comprometeria ao decretar o pecado e, ainda assim, responsabilizaria o ser humano por isso.

A Bíblia oferece uma visão em que o ser humano é livre para escolher entre obedecer e desobedecer a Deus e é responsável por suas escolhas. Essa liberdade é essencial para a moralidade e para o julgamento divino justo. Assim, sistemas teológicos como o Arminianismo, o Molinismo, o Provisionismo, e outros que rejeitam o determinismo calvinista buscam preservar a liberdade humana e a santidade divina, oferecendo uma alternativa à ideia de que Deus seria a causa do mal.

V. O Mistério da Providência e a Liberdade Humana

Embora a soberania divina seja um conceito central na teologia cristã, a liberdade humana também é enfatizada, e a relação entre ambos aspectos permanece um mistério para muitos teólogos. Arminianos, molinistas e provisionistas argumentam que Deus pode ser totalmente soberano e, ao mesmo tempo, permitir uma liberdade genuína para o ser humano, sem comprometer Sua santidade e Sua justiça. Esse equilíbrio evita a conclusão de que Deus seja o autor do pecado e, ao mesmo tempo, reafirma a responsabilidade moral do homem por suas escolhas.

Conclusão

A interpretação calvinista de que Deus preordenou o pecado, conforme defendido por R.C. Sproul em Eleitos de Deus (p. 22), apresenta um paradoxo que parece incompatível com a natureza santa e justa de Deus, conforme revelada nas Escrituras. Passagens como Salmos 5:4, Tiago 1:13 e Deuteronômio 32:4 enfatizam que Deus é santo e justo, e que o mal não pode ser parte de Sua essência ou de Suas ações diretas. A crítica de William Lane Craig, conforme exposta em Four Views on Divine Providence, questiona a coerência do determinismo calvinista, que atribui a Deus a causa última do mal, e elimina a responsabilidade humana.

Ao invés de ver Deus como autor do pecado, a perspectiva bíblica parece sugerir que Ele permite o mal, mas provê aos seres humanos o escape, como exposto em 1 Coríntios 10:13. A tensão entre soberania divina e liberdade humana, embora complexa, é um mistério que preserva a justiça divina e a responsabilidade moral humana, oferecendo uma visão equilibrada e harmoniosa do caráter santo de Deus e do valor das escolhas humanas.

Perguntas Desafiadoras para Calvinistas sobre a Autoria Divina do Pecado

1. Como você interpreta Salmos 5:4, que afirma que Deus "não tem prazer na iniquidade" e que "nem contigo habitará o mal"? Se Deus preordenou o pecado, como conciliar essa ação com um caráter santo que rejeita o mal?

2. Tiago 1:13 diz que "Deus não pode ser tentado pelo mal, e a ninguém tenta." Se, de acordo com o determinismo calvinista, Deus é a causa última de todas as ações, inclusive do pecado, como essa passagem se alinha com a ideia de que Ele preordena o pecado?

3. Se aceitarmos que Deus preordena o pecado, como explicar Deuteronômio 32:4, que declara: "Deus é a Verdade e não há nele injustiça"? Como harmonizar a autoria divina do pecado com a justiça perfeita de Deus?

4. William Lane Craig afirma que, no determinismo calvinista, o ser humano não teria liberdade genuína para escolher o bem ou o mal, sendo Deus o causador direto das ações humanas. Como, então, é possível responsabilizar o ser humano pelo pecado, se ele não teve escolha real? A responsabilidade humana é legítima nesse contexto?

5. Se Deus preordenou o pecado e o mal, como explicar a bondade divina em permitir a entrada do pecado no mundo? Essa permissão não comprometeria o caráter santo e reto de Deus, transformando-O em participante do mal que Ele mesmo detesta?

6. Como você entende a afirmação de 1 Coríntios 10:13 de que Deus "não vos deixará tentar acima do que podeis" e que sempre "dará também o escape"? Essa promessa indica uma participação divina em limitar e prover forças contra o pecado. Como isso se alinha com a ideia de um Deus que preordena que alguns pecados sejam inevitáveis?

7. Considerando a afirmação de R.C. Sproul de que "Deus preordenou o pecado, mas isso não significa que o pecado em si seja bom, apenas que Sua permissão para o pecado é boa" (*Eleitos de Deus*, p. 22), como é possível conciliar essa distinção com a declaração bíblica de que "os caminhos de Deus são todos justos e não há nele injustiça" (Deuteronômio 32:4)?

8. Na visão determinista, Deus determina até o movimento da vontade humana, incluindo as ações más. Como você responde à crítica de Craig em *Four Views on Divine Providence*, que aponta que essa perspectiva faz de Deus não apenas a causa do mal, mas também, por implicação, o próprio mal?

9. A soberania divina implica necessariamente em uma predestinação detalhada de cada ação humana? Existe espaço para uma soberania onde Deus permita o mal sem ser a sua causa? Como essa possibilidade seria vista na perspectiva calvinista?

10. Se o ser humano age apenas conforme o que Deus preordenou, como se explica o chamado ao arrependimento e à fé em Cristo como escolhas pessoais e voluntárias? Se as escolhas já estão determinadas, qual o papel da liberdade e da responsabilidade humana no plano da salvação?

Essas perguntas incentivam a reflexão sobre a compatibilidade da autoria divina do pecado com a santidade, a justiça e a bondade de Deus, temas que fundamentam a fé cristã e demandam um entendimento coerente à luz das Escrituras.

terça-feira, 11 de março de 2025

Comparação Teológica entre R. C. Sproul, João Calvino e os Hipercalvinistas sobre a Doutrina da Dupla Predestinação

Por Walson Sales

A doutrina da predestinação é uma das mais profundas e desafiadoras da teologia cristã reformada. Dentro desse contexto, teólogos como João Calvino e R. C. Sproul ofereceram interpretações distintas, que por vezes geraram debates e divergências, inclusive com o hipercalvinismo. Neste artigo, exploraremos as nuances das posições de Calvino e Sproul, comparando-as com o hipercalvinismo, e destacaremos as possíveis incoerências entre suas afirmações, especialmente no que se refere à questão da dupla predestinação e ao papel de Deus na condenação dos réprobos.

1. A Visão de R. C. Sproul sobre a Predestinação Positiva-Negativa

R. C. Sproul, em *Eleitos de Deus*, aborda a doutrina da predestinação, distinguindo entre o calvinismo ortodoxo e o que ele chama de hipercalvinismo. Sproul afirma:

“A destinação simultânea é baseada no conceito da simetria. Procura um equilíbrio completo entre eleição e reprovação. A ideia-chave é esta: assim como Deus intervém nas vidas dos eleitos para criar fé em seus corações, também assim igualmente intervém nas vidas dos reprovados para criar ou operar incredulidade em seus corações. A ideia de Deus ativamente operando incredulidade nos corações dos reprovados é extraída das declarações bíblicas sobre Deus endurecendo os corações das pessoas” (p. 104).

Aqui, Sproul apresenta a visão hipercalvinista da dupla predestinação, a qual ele rejeita. Ele critica essa interpretação, chamando-a de “subcalvinismo” ou “anticalvinismo”, pois, segundo ele, a visão reformada ortodoxa não ensina que Deus ativamente cria incredulidade nos réprobos. Ele faz a seguinte distinção:

 “A destinação simultânea não é a visão reformada ou calvinista da predestinação. [...] A visão reformada ensina que Deus positivamente e ativamente intervém nas vidas dos eleitos para garantir sua salvação. O restante da humanidade Deus deixa por si mesmos. Ele não cria incredulidade em seus corações. Essa incredulidade já está lá. Ele não os coage a pecar. Eles pecam por suas próprias escolhas. No calvinismo, o decreto de eleição é positivo. O decreto de reprovação é negativo” (p. 104).

Essa distinção entre a predestinação positiva (em que Deus ativa e diretamente intervém para garantir a salvação dos eleitos) e a predestinação negativa (em que Deus simplesmente deixa os réprobos em sua incredulidade) é o cerne da explicação de Sproul sobre o calvinismo ortodoxo.

2. A Visão de João Calvino: Predestinação e a Soberania Absoluta de Deus

Em contraste, João Calvino tem uma visão mais direta e abrangente da soberania de Deus sobre todas as coisas, incluindo o destino dos réprobos. Em suas *Institutas da Religião Cristã*, Calvino afirma:

 "Aqui recorre-se à distinção de vontade e permissão, segundo a qual querem manter que os ímpios perecem pela mera permissão divina, não porque Deus assim o queira. Mas, por que diremos que o permite, senão porque assim o quer? Pois não é provável que o homem tenha buscado sua perdição pela mera permissão de Deus, e não por sua ordenação" (Vol III, p. 417).

Calvino rejeita a distinção entre "vontade" e "permissão", insistindo que tudo o que acontece, inclusive a perdição dos ímpios, está de acordo com a vontade soberana de Deus. Ele continua:

 "Portanto, quem quiser guardar-se desta infidelidade, tenha sempre em lembrança que não há nas criaturas nem poder, nem ação, nem movimento aleatórios; ao contrário, são de tal modo governados pelo conselho secreto de Deus, que nada acontece senão o que ele, consciente e deliberadamente, o tenha decretado" (Vol I, p. 202).

Calvino, assim, estabelece que não há nada fora do controle ou da ordenação divina, incluindo a incredulidade dos réprobos. Ele argumenta que Deus decreta tudo o que acontece, desde a eternidade, e governa tanto os destinos dos eleitos quanto dos réprobos:

"Afirmamos que não só o céu e a terra, e as criaturas inanimadas, são de tal modo governados por sua providência, mas até os desígnios e intenções dos homens, são por ela retilineamente conduzidos à meta destinada" (Vol I, p. 207).

3. A Incoerência entre Sproul e Calvino

Aqui surge uma clara incoerência entre as posições de Sproul e Calvino. Enquanto Sproul distingue entre o decreto positivo para os eleitos e o decreto negativo para os réprobos, alegando que Deus simplesmente "deixa de lado" os réprobos, Calvino é enfático ao afirmar que tudo, incluindo a incredulidade e a condenação dos réprobos, está sob o decreto ativo de Deus.

Calvino chega a afirmar que Deus, em seu conselho eterno, decreta a criação de homens destinados à condenação, para que sua justiça seja glorificada:

“Quando, porém, não por outra razão haja de antemão visto as coisas que hão de acorrer, senão porque assim decretou que acontecessem, em vão se move litígio acerca da presciência, uma vez ser evidente que todas as coisas sucedem antes por sua ordenação e arbítrio” (Vol III, p. 415-416).

Sproul, ao tentar separar o decreto positivo (salvação) do decreto negativo (condenação), parece ignorar a afirmação de Calvino de que Deus ordena todas as coisas, sem exceção. Isso coloca as duas visões em conflito, pois, para Calvino, até a incredulidade é parte do plano divino.

4. O Hipercalvinismo e a Predestinação Positiva-Positiva

O hipercalvinismo, ao qual Sproul se opõe, ensina que Deus ativa e positivamente intervém tanto na salvação dos eleitos quanto na condenação dos réprobos. Sproul considera essa visão como uma "violência radical à integridade do caráter de Deus":

"O terrível erro do hipercalvinismo é que envolve Deus na coação do pecado. Isto faz violência radical à integridade do caráter de Deus" (p. 105).

No entanto, Calvino, em muitos aspectos, parece se aproximar mais da visão hipercalvinista, já que ele não faz distinção entre a vontade de Deus em relação à salvação e à condenação. Para ele, ambos os destinos são decretados soberanamente por Deus para Seus próprios propósitos.

Conclusão

As abordagens de Calvino e Sproul à doutrina da dupla predestinação demonstram uma tensão teológica significativa dentro do calvinismo. Enquanto Calvino parece abraçar uma soberania divina absoluta que decreta tanto a salvação quanto a condenação, Sproul tenta suavizar essa doutrina, alegando que Deus não intervém ativamente na incredulidade dos réprobos. O hipercalvinismo, por outro lado, leva essa lógica ao extremo, afirmando que Deus intervém de maneira simétrica em ambos os casos.

A inconsistência entre as visões de Sproul e Calvino revela uma dificuldade intrínseca na teologia reformada em lidar com o papel de Deus na condenação e no pecado. As Escrituras apresentam um Deus que governa todas as coisas, mas também um Deus que deseja que todos se arrependam e sejam salvos, o que coloca um desafio para as doutrinas da predestinação.

Questionário

1. Qual a diferença entre a predestinação positiva-negativa de Sproul e a visão de dupla predestinação de Calvino?

2. Como Calvino rejeita a distinção entre "vontade" e "permissão" em relação à condenação dos réprobos?

3. De acordo com Sproul, como Deus lida com os réprobos em comparação com os eleitos?

4. O que Calvino quer dizer quando afirma que “nada acontece senão o que [Deus] tenha decretado”?

5. Como Sproul distingue o calvinismo ortodoxo do hipercalvinismo em relação à dupla predestinação?

6. De que forma a visão de Calvino sobre a predestinação se aproxima da visão hipercalvinista?

7. Qual é o "terrível erro" do hipercalvinismo, segundo Sproul?

8. Como a providência de Deus sobre os “desígnios e intenções dos homens” pode ser reconciliada com a responsabilidade humana, segundo Calvino?

9. Em sua opinião, a tentativa de Sproul de distinguir entre decretos positivos e negativos resolve o problema teológico da predestinação?

10. Como você interpreta a soberania divina à luz das Escrituras que falam sobre a vontade de Deus de que todos se arrependam?

segunda-feira, 10 de março de 2025

Análise Crítica da Incoerência entre as Afirmações de João Calvino e R. C. Sproul sobre a Permissão Divina do Pecado

Por Walson Sales

A doutrina da soberania divina é um dos pilares fundamentais da teologia reformada. No entanto, ao longo dos séculos, diferentes teólogos têm oferecido interpretações variadas sobre a relação de Deus com o mal e o pecado. Este artigo visa analisar a inconsistência entre as afirmações de dois importantes pensadores reformados, João Calvino e R. C. Sproul, acerca da "permissão" divina em relação ao pecado. Através de uma análise das citações de ambos os teólogos, será evidenciada a incoerência interna entre suas posições. Também abordaremos as implicações dessas divergências e como elas entram em conflito com as Escrituras, especificamente os textos de Ezequiel 18 e 33.

1. A Citação de R. C. Sproul: A Permissão de Deus

R. C. Sproul, em seu livro Eleitos de Deus, traz a seguinte afirmação:

"Nós sabemos que Deus é soberano porque sabemos que Deus é Deus. Portanto, DEVEMOS CONCLUIR QUE DEUS PREORDENOU O PECADO. O que mais podemos concluir? Podemos concluir que a decisão de Deus de PERMITIR que o pecado entrasse no mundo foi uma boa decisão. Isto não quer dizer que nosso pecado seja uma boa coisa, mas meramente que a PERMISSÃO de Deus para que pequemos, o que é mau, é uma boa coisa. Que Deus permitiu o mal é bom, mas o mal que ele permite ainda é mau. O ENVOLVIMENTO DE DEUS EM TUDO É PERFEITAMENTE JUSTO. Nosso envolvimento nisso é mau. O fato de ter Deus decidido permitir que pecássemos não nos absolve de nossa responsabilidade pelo pecado" (Eleitos de Deus, p. 22).

Sproul reconhece a soberania absoluta de Deus, mas tenta equilibrá-la com a noção de "permissão" divina. Ele afirma que Deus "preordenou o pecado", mas simultaneamente "permitiu" sua entrada no mundo, sem ser o autor direto do mal. Sproul utiliza a palavra "permitir" de forma ambígua, tentando explicar que Deus "decidiu permitir" o pecado, mas sem anular a responsabilidade humana pelo pecado.

2. A Citação de João Calvino: A Rejeição da Permissão

Em contraste com Sproul, João Calvino expressa uma posição mais direta e determinista em relação à soberania de Deus sobre o mal. Em Institutas da Religião Cristã, ele argumenta:

"Aqui recorre-se à distinção de VONTADE e PERMISSÃO, segundo A QUAL QUEREM MANTER QUE OS ÍMPIOS PERECEM PELA MERA PERMISSÃO DIVINA, NÃO PORQUE DEUS ASSIM O QUEIRA. Mas, POR QUE DIREMOS QUE O PERMITE, SENÃO PORQUE ASSIM O QUER? Pois NÃO É PROVÁVEL QUE O HOMEM TENHA BUSCADO SUA PERDIÇÃO PELA MERA PERMISSÃO DE DEUS, E NÃO POR SUA ORDENAÇÃO. Como se realmente Deus não haja estabelecido em qual condição quisesse estar a principal de suas criaturas. Portanto, não hesitarei, com Agostinho, em simplesmente confessar que “a vontade de Deus é a necessidade das coisas”, e que haverá necessariamente de ocorrer aquilo que ele quis, da mesma forma que aquelas coisas que previu verdadeiramente haverão de vir à existência" (Institutas, versão clássica, Vol III, p. 417).

Calvino rejeita claramente a distinção entre "vontade" e "permissão", afirmando que, se algo acontece, é porque Deus o quis, e não porque meramente o permitiu. Para ele, a ideia de "permissão" é inadequada para explicar a soberania divina sobre o mal. Deus, segundo Calvino, não apenas "permite" o pecado, mas o ordena diretamente dentro de Sua soberania.

3. A Inconsistência entre Sproul e Calvino

Aqui encontramos uma clara incoerência teológica. Enquanto Sproul tenta manter uma distinção entre a permissão de Deus e Sua vontade soberana, Calvino refuta essa distinção, afirmando que aquilo que Deus permite é, de fato, algo que Ele ordena. Essa diferença de abordagem levanta uma questão fundamental sobre a natureza do envolvimento de Deus com o mal.

A inconsistência se dá principalmente no fato de que Sproul, ao tentar suavizar a responsabilidade divina sobre o mal, utiliza a noção de "permissão" de forma que Calvino explicitamente rejeita. Para Calvino, Deus não "permite" passivamente o pecado; Ele o determina. Esta contradição expõe uma dificuldade central na teologia calvinista: como conciliar a soberania absoluta de Deus com a noção de "permissão" sem cair em contradição?

4. Implicações Bíblicas e Teológicas

Além da inconsistência interna entre os dois teólogos, essa questão entra em conflito com os ensinamentos bíblicos, como evidenciado nos textos de Ezequiel:

"Vivo eu, diz o Senhor DEUS, que não tenho prazer na morte do ímpio, mas em que o ímpio se converta do seu caminho, e viva" (Ezequiel 33:11).

"Desejaria eu, de qualquer maneira, a morte do ímpio? diz o Senhor DEUS; Não desejo antes que se converta dos seus caminhos, e viva?" (Ezequiel 18:23).

"Porque não tenho prazer na morte do que morre, diz o Senhor DEUS; convertei-vos, pois, e vivei" (Ezequiel 18:32).

Esses textos indicam que Deus não tem prazer na morte do ímpio, o que contrasta com a visão de que Deus, de alguma forma, determinou ou "quis" a perdição dos ímpios. Isso desafia tanto a ideia de Calvino quanto a de Sproul sobre a soberania divina em relação ao mal, pois sugere que Deus deseja a salvação dos ímpios, e não sua condenação.

Conclusão

A análise das posições de Calvino e Sproul revela uma profunda incoerência na tentativa de explicar a relação de Deus com o mal e o pecado. Enquanto Calvino rejeita a noção de "permissão", afirmando que tudo o que acontece é pela vontade direta de Deus, Sproul tenta introduzir uma distinção que, em última instância, não resolve o problema teológico. Além disso, as Escrituras apontam para um Deus que deseja a conversão e não a condenação dos ímpios, desafiando as interpretações reformadas tradicionais sobre a soberania divina.

Questões importantes

Qual é a principal diferença entre a visão de R. C. Sproul e João Calvino sobre a "permissão" de Deus em relação ao pecado?

Como Calvino refuta a distinção entre "vontade" e "permissão" em sua teologia?

De acordo com R. C. Sproul, qual é a justificativa para que Deus tenha "permitido" o pecado?

Como as afirmações de Calvino sobre a soberania de Deus em relação ao pecado entram em conflito com os textos de Ezequiel?

Qual é a principal incoerência teológica na tentativa de Sproul de conciliar a permissão de Deus com Sua soberania?

Em que aspectos a teologia calvinista falha ao lidar com a questão do mal à luz das Escrituras?

Como a afirmação de Deus em Ezequiel 33:11 desafia a noção calvinista de que Deus determina a perdição dos ímpios?

Quais são as implicações práticas da teologia de Sproul e Calvino para a responsabilidade humana pelo pecado?

Como a teologia reformada lida com a tensão entre a soberania de Deus e a liberdade humana?

Em sua opinião, é possível conciliar a noção de um Deus que "preordena" o mal com a afirmação bíblica de que Ele deseja a salvação dos ímpios?

quarta-feira, 5 de março de 2025

Livre-Arbítrio, Ateísmo e Calvinismo: Uma Análise Crítica

Por Walson Sales

A questão do livre-arbítrio tem sido objeto de debates intensos na filosofia, na teologia e no pensamento científico. As visões sobre o livre-arbítrio frequentemente colidem com correntes de pensamento como o ateísmo materialista, que nega a existência de uma mente imaterial, e o calvinismo rígido, que defende a predestinação absoluta. Em ambos os casos, surgem questionamentos sobre a liberdade humana e a responsabilidade moral. Este artigo examina as implicações do livre-arbítrio a partir da perspectiva teológica e filosófica, argumentando que a ausência de livre-arbítrio levaria a contradições profundas no que se refere ao amor, ao mal e à verdade.

1. O Livre-Arbítrio e o Amor

A crença no livre-arbítrio está diretamente ligada à possibilidade do amor genuíno. Sem liberdade para escolher, o amor seria forçado ou programado, o que o esvaziaria de significado. O amor, por sua natureza, requer uma escolha voluntária. Se não houvesse liberdade, o mandamento de Deus para que amemos uns aos outros seria contraditório. O amor só pode ser verdadeiro se for dado livremente; caso contrário, seria apenas uma resposta automática sem valor moral ou emocional.

1.1. A Relação entre o Cérebro e a Mente

O fato de termos um cérebro físico não elimina a possibilidade do livre-arbítrio. Embora o cérebro influencie nossas decisões, isso não significa que somos apenas máquinas biológicas, incapazes de exercer controle sobre nossas escolhas. O cérebro pode ser visto como um aparato dado por Deus, um meio pelo qual nossas mentes operam no mundo físico. No entanto, a existência de um aparato físico não anula a capacidade de escolher livremente, da mesma forma que possuir um corpo não anula a existência de uma alma imaterial.

1.2. A Implicação Moral do Livre-Arbítrio

Se não tivéssemos livre-arbítrio, seríamos forçados a concluir que Deus seria o autor do mal, o que seria uma contradição com Sua natureza benevolente. A Bíblia nos revela um Deus que não deseja que pratiquemos o mal (Ezequiel 18:23) e que quer que todos sejam salvos (1 Timóteo 2:4). Se Deus estivesse controlando todas as nossas ações, então Ele estaria também, inevitavelmente, causando o mal. Isso entra em conflito com a noção de que Deus é justo e santo. Portanto, a existência do mal no mundo só faz sentido à luz do livre-arbítrio humano.

2. O Problema do Determinismo Materialista no Ateísmo

O ateísmo materialista, que afirma que todas as nossas ações e pensamentos são produtos de interações químicas e leis físicas, enfrenta um problema similar. Se tudo o que pensamos e fazemos é determinado pelas leis da física, então não há base para afirmar que temos controle sobre nossas crenças ou pensamentos. Isso leva à questão: por que deveríamos confiar que nossas conclusões sobre o mundo, incluindo a conclusão de que o ateísmo é verdadeiro, são válidas?

2.1. A Incoerência do Pensamento Materialista

Se os pensamentos humanos são apenas o resultado de interações químicas e físicas, isso elimina a possibilidade de racionalidade genuína. A inferência lógica entre dois conceitos, que é uma escolha entre alternativas, seria impossível, já que estaríamos simplesmente seguindo o curso predeterminado das reações químicas no cérebro. O materialismo, ao tentar negar o livre-arbítrio, compromete a própria racionalidade necessária para sustentar o pensamento crítico e a ciência.

2.2. O Ateísmo e a Impossibilidade da Responsabilidade Moral

Sem livre-arbítrio, o ateísmo materialista também remove a responsabilidade moral. Se todas as nossas ações são causadas por forças naturais, então não há fundamento para afirmar que qualquer um é moralmente responsável por seus atos. No entanto, na vida prática, a sociedade depende de conceitos como justiça e responsabilidade. Um sistema legal, por exemplo, pressupõe que os indivíduos têm a capacidade de fazer escolhas e, portanto, podem ser responsabilizados por suas ações.

3. O Calvinismo Rígido e o Livre-Arbítrio

O calvinismo rígido, especialmente em sua forma de cinco pontos, também levanta questões importantes sobre o livre-arbítrio. A doutrina da predestinação absoluta, que afirma que Deus predetermina todas as ações humanas, inclusive a salvação e a condenação, coloca Deus na posição de autor do pecado, o que é uma contradição com sua natureza justa e santa. Além disso, se o calvinismo estiver correto em sua negação do livre-arbítrio, os comandos bíblicos para arrependimento e obediência se tornam problemáticos, pois implicariam que Deus exige o impossível de seres humanos sem liberdade para escolher.

3.1. A Contradição no Amor e na Justiça Divina

Assim como no materialismo, o calvinismo rígido compromete a possibilidade de amor e justiça. Se Deus predestina tudo, inclusive quem será salvo e quem será condenado, então o amor de Deus e sua justiça se tornam conceitos difíceis de sustentar. Como um Deus amoroso poderia criar seres destinados ao tormento eterno sem que eles tivessem a possibilidade de escolher outro caminho? A coerência do caráter de Deus como amoroso e justo depende da liberdade humana.

Conclusão

Tanto o ateísmo materialista quanto o calvinismo rígido apresentam desafios significativos à ideia de livre-arbítrio e à responsabilidade moral. Sem a capacidade de escolher livremente, conceitos essenciais como amor, justiça e moralidade se tornam insustentáveis. A visão de que Deus nos deu livre-arbítrio não apenas preserva a integridade da moralidade e da responsabilidade, mas também mantém a coerência do caráter de Deus como amoroso e justo. O livre-arbítrio, portanto, é uma característica essencial da existência humana, que permite o amor verdadeiro e a responsabilidade moral, e sem ele, tanto a experiência humana quanto a fé cristã perderiam grande parte de seu significado.

Seguem algumas perguntas que podem ser feitas a ateus e calvinistas que negam o livre-arbítrio. Essas perguntas visam provocar reflexão e debate sobre suas posições:

Perguntas para Ateus

1. Se você acredita que todas as nossas ações são o resultado de interações químicas e leis físicas, como você explica a experiência subjetiva de tomar decisões e ter consciência?

2. Se nossos pensamentos e ações são apenas produtos de reações físicas, como podemos ter certeza de que suas crenças sobre o ateísmo são verdadeiras? O que garante a validade de seus pensamentos?

3. Como você lida com o conceito de responsabilidade moral em uma visão determinista? Se não temos controle sobre nossas ações, como podemos ser responsabilizados por elas?

4. Você acredita que a moralidade pode existir em um mundo onde não há livre-arbítrio? Se sim, qual é a base para essa moralidade?

5. Se as pessoas são apenas "máquinas moleculares", o que isso diz sobre a capacidade humana de amar genuinamente ou de criar arte e cultura? Você não vê um problema nisso?

6. Como você justificaria a necessidade de um sistema legal que pressupõe a responsabilidade individual em um mundo determinista?

7. Se a liberdade de escolha é uma ilusão, como você responde a casos de pessoas que mudam suas crenças e comportamentos ao longo do tempo.

Perguntas para Calvinistas

1. Se Deus predestina tudo, inclusive a condenação, como você pode afirmar que Deus é justo e amoroso? Como isso se alinha com a ideia de um Deus que deseja que todos sejam salvos?

2. Como você interpreta os mandamentos de Deus que nos instruem a amar e obedecer, se a escolha de amar ou obedecer já está predeterminada? Isso não parece contradizer a natureza do amor?

3. Se não temos livre-arbítrio, como podemos realmente entender o conceito de arrependimento? Arrepender-se de algo que já está predeterminado faz sentido?

4. Qual é a sua visão sobre a responsabilidade moral em uma estrutura de predestinação? Como as pessoas podem ser consideradas moralmente responsáveis por suas ações se elas já foram determinadas por Deus?

5. Você não vê uma contradição em crer que Deus é soberano sobre todas as ações humanas e, ao mesmo tempo, exigir que as pessoas se arrependam e se voltem para Ele?

6. Como você explicaria a diversidade de crenças e ações humanas em um mundo onde tudo é predeterminado? O que isso diz sobre a eficácia da vontade divina?

7. Se a predestinação é verdadeira, qual é a esperança para aqueles que não têm certeza de sua salvação? Como isso se alinha com a ideia de um Deus amoroso?

Essas perguntas podem ajudar a explorar e desafiar as visões de quem nega o livre-arbítrio, incentivando um diálogo significativo sobre as implicações filosóficas e teológicas de suas crenças.

terça-feira, 4 de março de 2025

A Questão do Livre-Arbítrio: Uma Resposta ao Determinismo Materialista

Por Walson Sales

A discussão sobre o livre-arbítrio é um dos debates mais complexos e intrigantes na filosofia, na ciência e na teologia. A afirmação de que o livre-arbítrio é uma ilusão tem sido defendida por alguns ateus e cientistas, como Stephen Hawking e Sam Harris. Eles argumentam que nossas ações são meramente o resultado de reações químicas no cérebro, reduzindo a experiência humana a um conjunto de processos mecânicos. No entanto, essa visão levanta questões profundas sobre a natureza da consciência, da responsabilidade moral e da própria experiência humana. Neste artigo, exploraremos como responder à afirmação de que não temos livre-arbítrio, analisando as implicações filosóficas e práticas dessa perspectiva determinista.

1. A Questão do Livre-Arbítrio

Quando confrontamos alguém que nega o livre-arbítrio, uma pergunta fundamental surge: "Você fez essa afirmação livremente?" Essa questão desafia a base do determinismo materialista. Se nossas respostas e ações são simplesmente o resultado de interações químicas, então a própria afirmação de que o livre-arbítrio é uma ilusão perde sua validade. Essa contradição expõe a fraqueza do argumento materialista, sugerindo que a experiência de tomar decisões e fazer escolhas é, na verdade, um componente essencial da nossa existência.

2. O Materialismo e a Mente

O materialismo reduz a atividade mental a processos neurais, desconsiderando a existência de uma mente imaterial. Ao negar a mente, os defensores dessa visão também negam a agência livre. No entanto, essa perspectiva não é suficiente para explicar a complexidade da experiência humana. Se somos apenas "máquinas moleculares", então nossas interações e pensamentos não podem ser vistos como autênticos, mas apenas como reações automáticas. Isso se opõe à experiência comum que temos de refletir, mudar de ideia e tomar decisões com base em valores e princípios.

3. A Experiência da Liberdade

Contrariando a visão determinista, a experiência cotidiana nos mostra que frequentemente fazemos escolhas. O filósofo e neurocientista Sam Harris, em seus escritos, defende a ideia de que o livre-arbítrio não existe, mas ao mesmo tempo nos convida a avaliar livremente suas afirmações. Essa contradição revela a incoerência de sua argumentação. A liberdade de escolha é uma experiência vivida e reconhecida por todos nós, e qualquer teoria que negue essa liberdade deve ser reavaliada à luz da realidade que experimentamos.

4. Implicações da Negação do Livre-Arbítrio

Se o livre-arbítrio é realmente uma ilusão, várias áreas da vida humana seriam afetadas. A ideia de justiça, por exemplo, seria profundamente comprometida. Em um mundo onde o livre-arbítrio não existe, a responsabilidade moral desaparece, levando a uma cultura de isenção de culpa. Criminosos poderiam justificar seus atos como produtos de influências externas, como drogas ou predisposições genéticas, sem assumir a responsabilidade por suas ações. Essa visão não se sustenta no mundo real, onde indivíduos são responsabilizados por suas escolhas.

5. A Criação e a Criatividade

A visão materialista do ser humano também compromete a criatividade e a capacidade de amar. Se somos apenas o resultado de reações químicas, não podemos escolher livremente entre ideias criativas ou expressar amor genuíno. A capacidade de inovar, de criar algo novo e de se conectar emocionalmente com os outros é um aspecto fundamental da experiência humana, que não pode ser reduzido a meras interações moleculares.

Conclusão

A afirmação de que não temos livre-arbítrio apresenta uma visão de mundo que ignora a complexidade da experiência humana e a realidade da tomada de decisões. Ao questionar a validade dessa perspectiva, observamos que a negação do livre-arbítrio não apenas falha em explicar nossa experiência vivida, mas também implica consequências profundas para a moralidade, a justiça e as relações humanas. A defesa do livre-arbítrio é, portanto, essencial para preservar a dignidade da experiência humana e a responsabilidade moral. A reflexão crítica sobre essa questão é fundamental para entendermos nosso lugar no mundo e a natureza de nossas ações.

Implicações claras da negação do livre-arbítrio: perguntas importantes.

1. Autenticidade da Escolha: Se você aceita a ideia de que suas escolhas são determinadas por reações químicas, como isso afeta sua percepção de si mesmo como um ser autônomo e responsável?

2. Impacto Moral: Você acredita que a ideia de que o livre-arbítrio é uma ilusão pode levar à apatia moral? Como você se sente em relação à responsabilidade por suas ações em um contexto onde o determinismo é uma realidade?

3. Conflito de Ideias: Como você lida com a contradição de defender a liberdade de escolha ao mesmo tempo em que reconhece que suas decisões podem ser influenciadas por fatores fora do seu controle?

4. Consciência e Mente: Se o materialismo reduz a mente a processos neurais, você não teme que isso diminua a profundidade das experiências humanas, como amor, empatia e criatividade? O que isso significa para a sua vida?

5. Realidade da Experiência: Você já se sentiu preso em suas escolhas, como se não tivesse controle sobre suas ações? Como essa sensação se relaciona com a sua compreensão do livre-arbítrio?

6. Consequências Sociais: Se a ideia de livre-arbítrio for rejeitada, como isso afetaria suas interações sociais? Você estaria mais propenso a desculpar comportamentos de outras pessoas se acreditasse que suas ações são inevitáveis?

7. Visão do Mundo: Que tipo de vida você imaginaria em um mundo onde a noção de livre-arbítrio fosse universalmente aceita como uma ilusão? Como isso afetaria suas aspirações e sonhos?

8. Responsabilidade e Justiça: Você se sente confortável em viver em uma sociedade que poderia desconsiderar a responsabilidade individual em nome do determinismo? Que implicações isso teria para o sistema judicial?

Essas perguntas buscam provocar uma reflexão mais profunda sobre a natureza do livre-arbítrio e suas implicações para a vida pessoal e social.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2025

Por Quais Pecados Jesus Morreu?

Jerry Vines, Th.D.

Resumo, tradução e adaptação Walson Sales

No sermão apresentado durante a Conferência John 3:16 de 2013, Jerry Vines levanta a importante questão: Por quais pecados Jesus morreu?. Esta pergunta central no debate teológico impacta diretamente missões, evangelismo e a própria vida cristã. Neste estudo, o autor oferece argumentos sólidos baseados nas Escrituras, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, desafiando a ideia da expiação limitada e sugerindo que Cristo morreu por toda a humanidade. A seguir, exploramos as principais ideias do texto, com perguntas para aqueles que defendem a expiação limitada.

I. Cristo Morreu Pelos Meus Pecados Individualmente

Vines começa com Gálatas 2:20: "Estou crucificado com Cristo, e já não vivo, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim". Aqui, Paulo faz uma afirmação profundamente pessoal sobre a morte de Cristo, levando à pergunta: Cristo morreu pelos pecados de quem?

Ao destacar que Cristo morreu "por mim", Vines levanta as seguintes questões:

Se Cristo morreu por mim, isso exclui o restante da humanidade?

Se Cristo morreu por mim individualmente, Ele não morreu por mais ninguém?

Paulo, ao afirmar que Cristo morreu por ele, não está sugerindo que Jesus morreu exclusivamente por ele. Concluir isso seria uma falácia lógica. Da mesma forma, quando a Bíblia fala sobre Cristo morrer por "pecadores", "ímpios" e "injustos" (Romanos 5:8; Romanos 5:6; 1 Pedro 3:18), ela está incluindo uma gama mais ampla de pessoas, não um grupo restrito.

Aqui, Vines nos convida a refletir:

Se Cristo morreu pelos pecadores, e todos nós somos pecadores, como podemos afirmar que Ele morreu apenas por alguns e não por todos?

II. Cristo Morreu Pelos Pecados da Igreja Especialmente

Efésios 5:25 afirma: "Maridos, amai vossas esposas, como também Cristo amou a igreja e a si mesmo se entregou por ela". Muitas vezes, esse verso é usado para apoiar a ideia de que Cristo morreu apenas pelos eleitos ou pela Igreja. Contudo, Vines argumenta que, embora seja verdade que Cristo tenha morrido pela Igreja, isso não significa que Ele tenha morrido somente pela Igreja.

Aqui surge outra série de perguntas:

Ao afirmar que Cristo amou a Igreja e se entregou por ela, isso exclui todos os outros seres humanos que não fazem parte da Igreja?

Se Cristo morreu pela Igreja, isso significa que Ele não morreu por aqueles que ainda não fazem parte dela?

Em 1 Timóteo 4:10, Paulo escreve que Deus é "o Salvador de todos os homens, especialmente dos que creem". Isso indica que Cristo é, de fato, o Salvador de todos, mas que a salvação se aplica de maneira especial aos que creem. A ideia de que Cristo morreu apenas pelos eleitos não encontra respaldo nas Escrituras. Vines ressalta que, embora Cristo tenha uma relação especial com a Igreja, Ele não morreu exclusivamente por ela.

III. Cristo Morreu Pelos Pecados do Mundo Universalmente

A passagem de João 3:16 é central na teologia cristã: "Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna". Vines usa essa passagem para defender a visão da expiação universal, questionando aqueles que restringem a expiação apenas aos eleitos:

Se Deus amou o "mundo", isso significa que Ele amou apenas o mundo dos eleitos, ou toda a humanidade?

Como podemos interpretar "mundo" de maneira tão restrita quando o contexto bíblico claramente aponta para a abrangência do amor de Deus por toda a criação?

1 João 2:2 reforça essa ideia: "Ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo". Aqui, o autor é claro ao dizer que a morte de Cristo não se limita aos crentes, mas se estende a todos. Vines também menciona *Hebreus 2:9,* que afirma que Jesus, "pela graça de Deus, provou a morte por todos". Esses versículos levantam uma série de perguntas:

Se Cristo morreu pelos pecados de "todo o mundo", como isso pode ser conciliado com a doutrina da expiação limitada?

Se a Bíblia afirma que Jesus provou a morte por "todos", isso não seria uma contradição direta à ideia de que Ele morreu apenas pelos eleitos?

IV. A Expiação no Antigo Testamento: O Pessach e a Serpente de Bronze

Vines também faz uma interessante conexão entre o Antigo Testamento e a morte de Cristo, usando o evento da Páscoa como exemplo. No relato do Êxodo 12:6-7, o sangue do cordeiro era derramado e aplicado nos umbrais das portas para que o anjo da morte passasse por cima das casas dos israelitas. Esse ato simbolizava a salvação providenciada por Deus. No entanto, o sangue do cordeiro só se tornava eficaz quando aplicado.

Isso levanta uma pergunta importante:

Se o sacrifício de Cristo é semelhante ao sacrifício do cordeiro na Páscoa, isso significa que Sua morte é suficiente para todos, mas só se torna eficaz quando aplicada pela fé?

Outro exemplo vem de Números 21:6-9, onde Moisés ergue uma serpente de bronze para curar os israelitas mordidos por serpentes venenosas. Jesus faz uma ligação direta entre esse evento e Sua própria morte em João 3:14: "Assim como Moisés levantou a serpente no deserto, assim também é necessário que o Filho do Homem seja levantado". Todos os que olhavam para a serpente eram curados. Da mesma forma, Jesus foi erguido na cruz, e todos os que olham para Ele em fé podem ser salvos. Isso nos leva a perguntar:

Se a serpente de bronze foi levantada para todos os israelitas, e Cristo usa essa imagem para descrever Sua própria morte, como podemos limitar o alcance de Sua expiação?

V. Perguntas para Aqueles que Defendem a Expiação Limitada

Ao longo do sermão, Vines nos desafia a considerar uma série de perguntas que confrontam a lógica da expiação limitada:

Se Jesus morreu por todos, conforme mencionado em versículos como 1 João 2:2 e Hebreus 2:9, como pode alguém argumentar que Ele morreu apenas pelos eleitos?

Se Deus não amasse toda a humanidade, por que Ele criaria pessoas para as quais Cristo não morreu?

Como podemos pregar honestamente o Evangelho a todas as pessoas, dizendo que Jesus morreu por seus pecados, se acreditamos que Ele morreu apenas pelos eleitos?

A doutrina da expiação limitada não contraria a natureza amorosa e justa de Deus, conforme revelado nas Escrituras?

Conclusão

Vines conclui que a questão de por quem Cristo morreu é de extrema importância, pois está diretamente ligada à natureza de Deus e à mensagem do Evangelho. A visão da expiação universal é amplamente respaldada pelas Escrituras, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, e desafia a lógica da expiação limitada. O amor de Deus é maior do que podemos imaginar, e Cristo morreu por toda a humanidade, oferecendo salvação a todos que colocarem sua fé Nele.

Nota do Tradutor

Os textos bíblicos que afirmam categoricamente que Jesus morreu por todos são claros como o cristal. A negação calvinista de que Jesus tenha morrido por todos não se baseia em falta de confirmação das Escrituras, mas em uma ideologia pré-estabelecida. Os textos que indicam que Jesus morreu por todos são reinterpretados de maneira a não significarem "todos" em razão da teoria da eleição incondicional. Para os calvinistas, esses textos devem ser reinterpretados, pois anulam a eleição incondicional, que estabelece um número definido de pessoas escolhidas por Deus na eternidade. Logo, segundo essa lógica, Jesus não teria morrido por todos.

Essa interpretação, no entanto, compromete o entendimento do amor de Deus por toda a humanidade e distorce o relato geral das Escrituras. Pense comigo: segundo o Calvinismo, Deus não deseja salvar a todos, mas o diabo, sim, deseja que todos sejam condenados. Isso faz algum sentido?

Fica claro que os calvinistas interpretam os textos bíblicos à luz de uma ideologia, o que é chamado de eisegese. Eles interpretam os textos claros da Escritura à luz de textos obscuros, ferindo o princípio fundamental de interpretação bíblica: a Bíblia interpreta a si mesma à luz de seus textos claros e dos contextos paralelos.

As Maiores Falhas Lógicas do Calvinismo

Por Walson Sales

O Calvinismo, uma corrente teológica amplamente associada ao reformador João Calvino, tem gerado debates intensos ao longo dos séculos. Embora tenha moldado grande parte da teologia protestante, muitos teólogos, filósofos e críticos apontam para falhas lógicas e inconsistências teológicas dentro dessa estrutura. Abaixo, abordaremos alguns dos principais problemas lógicos do Calvinismo, respaldados por comentários de críticos e estudiosos.

1. O Problema de Construir uma Teologia em Torno de Versos Obscuros

Uma das críticas mais contundentes ao Calvinismo é a acusação de que ele constrói sua teologia em torno de versos bíblicos obscuros, em vez de interpretar esses versos à luz dos mais claros. Segundo Adrian Rogers, teólogo e pastor batista, "qualquer teologia sadia deve interpretar os textos difíceis à luz dos claros, e o Calvinismo faz o oposto, obscurecendo o entendimento da Bíblia como um todo" (Rogers, What Every Christian Ought to Know). Ao basear suas doutrinas principais em passagens complexas, como Romanos 9, o Calvinismo compromete uma interpretação mais equilibrada e coerente das Escrituras.

2. A Regeneração Precede a Fé

Uma das doutrinas centrais do Calvinismo é a ideia de que a regeneração precede a fé, ou seja, a pessoa deve primeiro ser regenerada por Deus antes de poder exercer a fé em Cristo. Isso, no entanto, cria um dilema teológico. Norman Geisler, um crítico severo do Calvinismo, argumenta que essa ideia coloca "a carruagem à frente dos bois" (Chosen but Free), sugerindo que as Escrituras frequentemente retratam a fé como o passo anterior à regeneração. Versos como João 1:12-13 enfatizam que os que receberam Cristo o fizeram por fé, tornando-se filhos de Deus.

3. O Determinismo de Todas as Coisas e a Sinceridade de Deus

O determinismo é um pilar do Calvinismo, que ensina que todas as coisas que acontecem na história são determinadas por Deus. Contudo, esse ensino levanta a questão da sinceridade divina. Se Deus é o determinador de todas as coisas, inclusive do mal, como Ele pode julgar as ações dos homens com justiça? Jacques Maritain, filósofo católico, criticou essa visão, afirmando que "um Deus que determina absolutamente todas as coisas transforma a história humana em uma peça de teatro, onde a liberdade humana não passa de uma ilusão" (God and the Permission of Evil).

4. A Graça Evanescente

O conceito da "graça evanescente", que ensina que Deus concede uma forma temporária de graça salvadora aos réprobos (não eleitos), apenas para eventualmente deixá-los cair, levanta sérias questões éticas sobre a bondade e sinceridade de Deus.

João Calvino explica: “Ninguém pense que aqueles que se desviam eram predestinados, chamados de acordo com o propósito, e verdadeiros filhos da promessa. Pois aqueles que parecem viver piedosamente podem ser chamados filhos de Deus; mas, visto que eventualmente viverão impiedosamente e morrerão nessa impiedade, Deus não os chama de filhos em Sua presciência. Há filhos de Deus que ainda não aparecem para nós, mas o são agora para Deus; e há aqueles que, por alguma graça atribuída ou temporária, são chamados por nós, mas não o são assim para Deus”. (Concerning the Eternal Predestination of God, p. 66).

John Wesley, fundador do Metodismo, considerou essa doutrina "absolutamente repugnante", argumentando que ela retrata Deus como alguém que deliberadamente engana os seres humanos (The Doctrine of Original Sin).

5. A Atitude Violenta de Calvino

A história pessoal de João Calvino também tem sido objeto de crítica. Embora suas contribuições teológicas sejam inegáveis, sua postura em relação aos dissidentes foi marcada pela intolerância e violência. O caso mais conhecido é a execução de Miguel Servetus, um teólogo que discordava de Calvino em questões trinitárias. Servetus, de acordo com a teologia cristã da época, era considerado um herege, mas também era um gênio multifacetado. Ele foi responsável por mapear parte da Europa, fez contribuições como filósofo, e, como médico, descobriu como funciona a circulação do sangue nos pulmões. Philip Schaff, teólogo e historiador calvinista, escreveu: "O fervor de Calvino pela ortodoxia o levou a sancionar a morte de Servetus, privando o mundo de um dos grandes gênios da época" (History of the Christian Church). Esse incidente levanta questões sobre o papel da autoridade religiosa e a coerência entre o evangelho de amor e a prática da violência.

6. A Eleição Incondicional

A eleição incondicional, que ensina que Deus escolhe quem será salvo independentemente de qualquer ação ou fé da pessoa, é uma doutrina altamente problemática. *C.S. Lewis*, renomado crítico do Calvinismo, escreveu: "A doutrina da eleição incondicional faz de Deus um tirano cósmico, brincando com Suas criaturas como peões em um jogo que Ele próprio orquestrou" (*The Problem of Pain*). O conceito de um Deus que escolhe arbitrariamente quem será salvo parece estar em desacordo com a natureza justa e amorosa de Deus, conforme revelado nas Escrituras.

7. A Expiação Limitada

A doutrina da expiação limitada, que afirma que Cristo morreu apenas pelos eleitos, tem sido amplamente contestada. J.I. Packer, apesar de ser calvinista, admite que essa é a doutrina mais difícil de ser aceita. Ele comenta: "A ideia de que Cristo não morreu por todos é um obstáculo para muitos" (Concise Theology). Versículos como 1 João 2:2, que afirma que Jesus é "a propiciação pelos nossos pecados e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo", parecem contradizer a visão calvinista.

8. A Graça Irresistível

Outra falha lógica apontada é a doutrina da graça irresistível, que ensina que os eleitos de Deus não podem resistir ao chamado da salvação. Roger Olson, teólogo e crítico do Calvinismo, descreve essa doutrina como "uma violação do livre-arbítrio humano" (Against Calvinism), pois ela retrata os seres humanos como incapazes de cooperar com Deus de forma voluntária e consciente. Se a graça não pode ser resistida, então o que acontece com a responsabilidade humana e o amor genuíno por Deus?

9. Deus Como Autor do Pecado e do Mal

Talvez a crítica mais devastadora ao Calvinismo seja a implicação de que Deus seria o autor do pecado e do mal, já que todas as coisas são determinadas por Ele. John Wesley criticou fortemente essa visão, afirmando que ela "faz de Deus a fonte de toda a iniquidade" (The Works of John Wesley). Para Wesley e outros críticos, atribuir a origem do mal a Deus compromete Sua santidade e justiça.

10. A Vontade Secreta e a Vontade Revelada

Por fim, o Calvinismo sustenta a existência de uma "vontade secreta" de Deus, que pode ser contrária à Sua vontade revelada nas Escrituras. Karl Barth, teólogo reformado, criticou essa divisão, afirmando que ela cria uma visão dualista de Deus: "Se Deus tem duas vontades contraditórias, como podemos confiar nEle?" (Church Dogmatics). Barth argumentou que tal doutrina cria uma distância intransponível entre Deus e Seus seguidores.

Conclusão

Embora o Calvinismo tenha moldado a teologia cristã de maneira significativa, muitas de suas doutrinas centrais apresentam falhas lógicas e teológicas que têm sido amplamente criticadas por teólogos, filósofos e historiadores. As críticas aqui apresentadas mostram que a tentativa de explicar a soberania de Deus à custa da liberdade humana e da responsabilidade moral cria um sistema que, muitas vezes, não reflete a natureza amorosa e justa de Deus, conforme revelado nas Escrituras.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2025

A Doutrina das Duas Vontades em Deus no Calvinismo: Um Problema de Coerência e Moralidade Divina

Por Walson Sales

Introdução

John Piper escreveu sobre os escritos de Jonathan Edwards, que viveu há 250 anos: 'Os arminianos ridicularizam a distinção entre a vontade secreta e a vontade revelada de Deus, ou, mais propriamente expresso, a distinção entre o decreto e a lei de Deus, porque nós dizemos que Ele pode decretar uma coisa e ordenar outra. E assim, argumentam eles, temos uma contrariedade em Deus, como se uma dessas vontades fosse uma contradição à outra.' (Are there two Wills on God?)

Calvino havia vivido o mesmo dilema antes e a solução de Calvino foi postular a dupla vontade de Deus, sendo uma delas revelada e outra secreta. A vontade revelada de Deus oferece misericórdia e perdão a todos que se arrependerem e crerem. A vontade secreta de Deus predestina alguns à perdição eterna e determina que eles pecarão e nunca se arrependerão. [Roger Olson, História da Teologia Cristã] Algo que fere de forma irreversível o caráter moral de Deus.

Contextualização entre os dois textos:

Os dois textos abordam a complexa questão da vontade de Deus, focando nas distinções entre a vontade revelada e a vontade secreta, algo amplamente debatido na teologia reformada. No primeiro texto, Jonathan Edwards (segundo John Piper) defende essa distinção, apontando que Deus pode decretar um evento e, ao mesmo tempo, ordenar algo contrário a esse decreto. Essa visão é criticada pelos arminianos, que veem nisso uma contradição no caráter divino.

O segundo texto menciona a solução de Calvino, que também promove a ideia de uma dupla vontade de Deus: uma vontade revelada, que oferece salvação a todos que se arrependem, e uma vontade secreta, que predestina alguns à perdição. No entanto, essa visão é criticada por implicar que Deus estaria, de certa forma, determinando o pecado e a perdição de alguns, o que fere o senso moral de um Deus justo e bom.

Ambos os textos enfrentam o dilema teológico de como conciliar a soberania de Deus com a responsabilidade humana, além de levantar questionamentos sobre a justiça e bondade divinas diante da ideia de predestinação.

Contextualização: No Calvinismo, há uma doutrina que afirma a existência de duas vontades em Deus: a vontade revelada (expressa nas Escrituras) e a vontade secreta (os decretos soberanos ocultos de Deus). A primeira descreve o que Deus ordena e deseja que os humanos sigam, enquanto a segunda refere-se ao plano oculto de Deus que abrange tudo o que ocorre, incluindo o mal.

Objetivo: Este artigo visa expor as contradições internas dessa doutrina e refutar vigorosamente a ideia de que Deus possui duas vontades que podem, em algumas situações, estar em contradição. Além disso, analisaremos as implicações dessa doutrina para o caráter moral de Deus.

1. A Doutrina das Duas Vontades no Calvinismo

Vontade Revelada: A vontade revelada de Deus é aquela que se expressa nas Escrituras. Ela inclui os mandamentos, a moralidade e o desejo expresso de Deus de que todos obedeçam e sigam Seu caminho (por exemplo, 1 Timóteo 2:4: "Deus deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade").

Vontade Secreta: A vontade secreta, por outro lado, refere-se ao plano soberano de Deus, que, no Calvinismo, inclui tudo o que acontece, até mesmo o mal e a condenação de pessoas que Ele decretou eternamente. É alegado que Deus, secretamente, deseja ou permite o que Ele, na vontade revelada, proíbe.

2. A Contradição entre as Duas Vontades

Contradição Explícita: Se a vontade revelada de Deus ordena que as pessoas evitem o pecado, mas Sua vontade secreta decreta que o pecado ocorra, estamos diante de uma contradição entre o que Deus diz que deseja e o que Ele decreta que aconteça.

Exemplo Bíblico: Deus ordena que não se minta (Êxodo 20:16), mas se Sua vontade secreta decreta que certas pessoas mintam para cumprir Seus planos soberanos, então Ele estaria, na prática, promovendo o que Ele proíbe.


O Problema Moral: Se Deus ordena moralidade em Sua vontade revelada, mas decreta imoralidade em Sua vontade secreta, então Deus seria, no mínimo, moralmente ambíguo. Isso comprometeria a visão bíblica de um Deus totalmente justo e bom (Salmo 145:17: “Justo é o Senhor em todos os seus caminhos, e santo em todas as suas obras”).

3. Implicações para o Caráter Moral de Deus

Problema do Mal: Se a vontade secreta de Deus inclui o decreto de eventos maus (como assassinatos, violência e injustiça), então Deus seria o autor direto do mal, algo que a Bíblia nega enfaticamente (Tiago 1:13: “Deus não pode ser tentado pelo mal, e a ninguém tenta”).

Implicações Filosóficas: Se Deus decreta o mal para cumprir Seus propósitos, Ele não poderia ser considerado absolutamente bom. Isso cria um problema teológico fundamental, pois desvia a responsabilidade do mal dos seres humanos e coloca-a nas mãos de Deus, o que contradiz o ensino bíblico sobre a justiça de Deus.

Incoerência no Amor de Deus: Se Deus deseja, em Sua vontade revelada, que todos sejam salvos (1 Timóteo 2:4), mas em Sua vontade secreta predestina a maioria para a condenação, então o amor de Deus seria limitado e contraditório. Como conciliar um Deus que ama o mundo (João 3:16) com um Deus que decreta a condenação eterna de muitos?

4. Refutação Filosófica e Teológica

O Problema da Coerência: Para que Deus seja logicamente consistente, Suas vontades não podem estar em contradição. Um ser perfeito não pode ter dois desejos opostos (por exemplo, querer que algo ocorra e, ao mesmo tempo, querer que esse mesmo evento não ocorra). Isso é uma violação do princípio da não-contradição, que é a base de qualquer lógica.

Refutação de John Frame: Mesmo alguns teólogos calvinistas, como John Frame, reconhecem que é difícil harmonizar as duas vontades sem cair em contradição. Frame sugere que a "vontade secreta" é apenas uma forma de descrever a soberania de Deus, mas essa tentativa de conciliação não resolve o problema prático da moralidade divina.

Implicações para a Liberdade Humana: A doutrina das duas vontades anula a liberdade humana genuína. Se tudo está predeterminado pela vontade secreta de Deus, então o livre-arbítrio é apenas uma ilusão. Isso levanta a questão de como Deus pode responsabilizar moralmente os seres humanos por ações que Ele mesmo decretou.

Refutação de C. S. Lewis: C. S. Lewis argumenta que, sem livre-arbítrio genuíno, não há verdadeiro amor ou verdadeira obediência. Deus deseja uma relação autêntica com Seus filhos, algo que é impossível em um esquema onde tudo está predeterminado.

5. Contradições Bíblicas Internas na Doutrina das Duas Vontades

Deuteronômio 30:19: Deus diz ao povo de Israel para "escolher a vida". Esse versículo pressupõe que os seres humanos possuem a capacidade genuína de escolha concedida por Deus, o que é contradito pela doutrina calvinista da predestinação e da vontade secreta.

Ezequiel 18:23: “Teria eu algum prazer na morte do ímpio? [...] Não desejo eu, antes, que ele se converta dos seus caminhos e viva?” Esse texto expressa a clara vontade revelada de Deus de que os ímpios se arrependam. Se a vontade secreta de Deus decreta que alguns não se arrependam e sejam condenados, isso implicaria que Deus tem dois desejos opostos. Deus estaria zombando das pessoas?

Mateus 23:37: Jesus lamenta sobre Jerusalém dizendo que Ele quis reunir os filhos de Israel, mas eles não quiseram. Aqui vemos uma expressão clara da vontade de Deus sendo rejeitada, o que contradiz a noção de uma vontade secreta irresistível.

6. Implicações Práticas e Teológicas

A Pregação e o Evangelismo: Se a vontade secreta de Deus decreta quem será salvo e quem será condenado, o evangelismo perde seu sentido. Como podemos convidar genuinamente alguém a crer, se a escolha já foi predeterminada por Deus em Sua vontade secreta?

A Justiça de Deus: A doutrina das duas vontades sugere que Deus pune pessoas por pecados que Ele mesmo decretou em Sua vontade secreta. Isso contraria diretamente a justiça bíblica de Deus, que exige responsabilidade moral dos seres humanos por suas ações (Romanos 2:6-8).

7. Conclusão: A Incoerência das Duas Vontades e a Necessidade de Coerência Teológica

Síntese dos Argumentos: A doutrina das duas vontades em Deus, conforme apresentada no Calvinismo, é logicamente incoerente e moralmente problemática. Ao afirmar que Deus deseja algo em Sua vontade revelada, mas decreta o contrário em Sua vontade secreta, cria-se uma contradição irreconciliável que compromete a integridade moral de Deus.

Uma Alternativa Teológica: A solução para essa incoerência é adotar uma visão de Deus em que Sua vontade é única, coerente e não contraditória. Deus deseja que todos venham ao arrependimento e fornece os meios para que isso ocorra, sem decretar o mal ou a condenação de forma arbitrária.


A IMPORTÂNCIA DE SE FAZER PERGUNTAS NO DEBATE:

 Aqui estão algumas perguntas provocativas e constrangedoras baseadas no artigo "A Doutrina das Duas Vontades em Deus no Calvinismo: Um Problema de Coerência e Moralidade Divina", que podem ser usadas em discussões com ateus e céticos, particularmente aqueles que defendem visões deterministas ou calvinistas:

1. Sobre a Contradição entre as Vontades Revelada e Secreta

Se Deus, em Sua vontade revelada, deseja que todos os homens sejam salvos (1 Timóteo 2:4), mas em Sua vontade secreta decreta a condenação de alguns, como isso pode ser conciliado sem criar uma contradição no caráter de Deus? Como Deus pode desejar duas coisas opostas ao mesmo tempo?

2. Sobre a Justiça de Deus

Como você pode conciliar a ideia de que Deus é justo e bom com a doutrina de que Ele predestina pessoas para o mal ou para a condenação eterna, independentemente de suas escolhas? Não seria isso uma violação da própria justiça que Deus ordena em Sua Palavra?

3. Sobre o Problema do Mal

Se a vontade secreta de Deus inclui o decreto de todos os eventos, incluindo o mal, isso não faz de Deus o autor do mal? Como você pode sustentar a bondade moral de Deus se Ele decreta que o mal ocorra, contrariando Sua própria vontade revelada, que ordena o bem?

4. Sobre a Liberdade Humana

Se Deus decreta todas as coisas pela Sua vontade secreta, incluindo as decisões humanas, como o ser humano pode ser considerado livre ou moralmente responsável por suas ações? Como podemos ser culpados por algo que Deus já decretou que ocorreria?

5. Sobre o Amor de Deus

A Bíblia ensina que Deus é amor e que deseja que todos sejam salvos. Se Deus predestina alguns à condenação eterna em Sua vontade secreta, como podemos dizer que Ele ama essas pessoas? Não seria contraditório afirmar que Deus ama alguém, mas ao mesmo tempo predestina essa pessoa à perdição?

6. Sobre a Contradição entre Soberania e Livre-Arbítrio

Como você resolve o aparente conflito entre a soberania absoluta de Deus, que decreta todas as coisas, e a responsabilidade humana, que pressupõe uma capacidade de escolha livre? Se todas as escolhas humanas são decretadas, como podemos falar de uma verdadeira responsabilidade moral?

7. Sobre a Harmonia no Caráter de Deus

Se Deus possui uma vontade revelada e uma vontade secreta que, em alguns casos, estão em contradição (como querer que todos sejam salvos, mas predestinar alguns à condenação), isso não compromete a harmonia no caráter de Deus? Como Deus pode ser perfeitamente coerente e não contraditório com duas vontades em conflito?

8. Sobre o Livre-Arbítrio na Bíblia

Textos bíblicos como Deuteronômio 30:19 ("Escolhei, pois, a vida") e Ezequiel 18:23 mostram Deus chamando os homens à escolha e ao arrependimento. Como essas convocações têm sentido se a vontade secreta de Deus já determinou quem será salvo ou condenado, sem que o livre-arbítrio humano faça diferença?

9. Sobre a Responsabilidade Divina pelo Pecado

Se a vontade secreta de Deus inclui o decreto do pecado, como isso preserva a santidade de Deus? Não implicaria que Deus, ao decretar o pecado, é de certa forma responsável por ele? Isso não colocaria em risco a pureza moral de Deus?

10. Sobre a Contradição Moral

Se Deus, em Sua vontade revelada, ordena que o mal não seja cometido, mas em Sua vontade secreta decreta que ele ocorra, como isso não torna Deus moralmente contraditório? Não é incoerente que Deus proíba o mal e ao mesmo tempo o decrete?

11. Sobre o Chamado ao Arrependimento

Se Deus chama todas as pessoas ao arrependimento e deseja que ninguém pereça, mas já decretou a condenação de muitos em Sua vontade secreta, como esse chamado pode ser considerado genuíno? Não seria isso uma forma de engano?

12. Sobre a Bondade de Deus

Se a vontade secreta de Deus inclui a condenação de pessoas sem que elas tenham a possibilidade de escolha, como isso pode ser reconciliado com a bondade de Deus, que a Bíblia ensina em Salmo 145:9 ("O Senhor é bom para todos, e as suas misericórdias são sobre todas as suas obras")?

Essas perguntas desafiam a consistência lógica e moral da doutrina das duas vontades em Deus, e incentivam os calvinistas a refletirem sobre as implicações dessa visão teológica para o caráter de Deus e a liberdade humana. Elas também colocam em destaque a dificuldade em harmonizar a soberania absoluta de Deus (microgerenciamento de tudo o que acontece como vontade de Deus) com a justiça e o amor revelados nas Escrituras.

domingo, 23 de fevereiro de 2025

Oposição ao Determinismo no Calvinismo e no Ateísmo: Uma Abordagem Lógica, Filosófica e Bíblica

Por Walson Sales

Introdução

Contextualização: O determinismo, tanto no Calvinismo quanto no ateísmo, implica que todas as ações humanas estão predeterminadas por fatores externos – seja pela vontade soberana de Deus (no Calvinismo) ou por forças naturais e leis físicas (no ateísmo).  

Objetivo: Este breve artigo visa apresentar uma crítica lógica, filosófica e bíblica ao determinismo, argumentando em favor da liberdade humana de escolha e responsabilidade moral.

1. Definição de Determinismo no Calvinismo e no Ateísmo

Determinismo no Calvinismo: Explicação da doutrina da predestinação e da soberania absoluta de Deus, como defendido por alguns calvinistas. O ser humano estaria predestinado para a salvação ou condenação, sem espaço para livre-arbítrio genuíno.

Determinismo no Ateísmo: Explicação do determinismo materialista, segundo o qual todas as ações humanas são o resultado inevitável de causas anteriores e leis naturais, eliminando a liberdade de escolha.

2. Argumentos Lógicos Contra o Determinismo

O Paradoxo da Responsabilidade Moral: Se todas as ações humanas são predeterminadas, seja por Deus (no caso do Calvinismo) ou pelas leis naturais (no caso do ateísmo), a responsabilidade moral do ser humano desaparece. Como julgar alguém por suas ações, se ele não tinha escolha?

O Argumento da Autoconsciência: A autoconsciência e a capacidade de reflexão sobre escolhas indicam que os seres humanos têm poder de decisão. A experiência humana da dúvida e do arrependimento aponta para a existência de livre-arbítrio.

Redução ao Absurdo: Se o determinismo fosse verdadeiro, não haveria razão para confiar na racionalidade humana, pois até os pensamentos estariam predeterminados, minando qualquer tentativa de se chegar a conclusões verdadeiras ou falsas.

3. Argumentos Filosóficos Contra o Determinismo

O Problema do Mal: No determinismo calvinista, Deus seria o autor do mal, o que contraria a noção de um Deus perfeitamente bom e justo. Se Deus predetermina todas as ações, inclusive as más, Ele se torna moralmente responsável pelo mal no mundo.

Liberdade e Dignidade Humana: Filósofos como Kant defendem que a dignidade humana depende da capacidade de tomar decisões livres e racionais. Se o determinismo é verdadeiro, a dignidade humana e a autonomia são uma ilusão.

O Argumento da Possibilidade: Filósofos como Alvin Plantinga argumentam que a existência de possibilidades alternativas (o ser humano poderia ter agido de forma diferente) é uma evidência contra o determinismo. Se as escolhas são reais, então o determinismo é falso.

4. Argumentos Bíblicos Contra o Determinismo

A Liberdade Humana na Escritura: Textos como Deuteronômio 30:19 (“Hoje invoco os céus e a terra como testemunhas contra vocês de que coloquei diante de vocês a vida e a morte, a bênção e a maldição. Agora escolham a vida...”) mostram que Deus concede ao ser humano a capacidade de escolher livremente.

O Chamado ao Arrependimento e Fé: Passagens que convocam ao arrependimento (Atos 17:30) e à fé indicam que as respostas humanas são voluntárias. Se o determinismo fosse verdadeiro, tais convocações seriam vazias, já que as respostas já estariam decididas.

A Justiça de Deus: A Bíblia apresenta Deus como justo (Salmo 145:17). Se o determinismo fosse verdadeiro, Deus estaria punindo ou recompensando pessoas por ações que elas foram incapazes de evitar, o que seria uma contradição à Sua justiça.

5. A Natureza do Livre-Arbítrio: Uma Alternativa ao Determinismo

Livre-Arbítrio Libertário: A defesa do livre-arbítrio libertário, onde os seres humanos têm o poder genuíno de escolha, e suas ações não estão determinadas de forma rígida por fatores externos ou internos.

A Compatibilidade com a Soberania de Deus: No teísmo cristão, Deus pode ser soberano e, ao mesmo tempo, conceder liberdade ao ser humano, como defendido por teólogos como C. S. Lewis. A liberdade humana seria uma expressão da bondade e do amor de Deus.

6. Conclusão

Síntese dos Argumentos: Resumo dos principais argumentos contra o determinismo no Calvinismo e no ateísmo, reforçando a defesa da liberdade humana.

Implicações para a Vida Cristã e Filosófica: Reflexão sobre como a crença no livre-arbítrio afeta nossa visão de responsabilidade moral, evangelismo e crescimento espiritual.

PERGUNTAS 

Às vezes uma pergunta faz uma virada de jogo em um debate. Aqui estão algumas perguntas embaraçosas e desafiadoras para ateus, céticos e calvinistas, baseadas no artigo "Oposição ao Determinismo no Calvinismo e no Ateísmo: Uma Abordagem Lógica, Filosófica e Bíblica". Essas perguntas exploram as inconsistências e implicações do determinismo, tanto no ateísmo quanto no calvinismo.

Para Ateus e Céticos:

1. Sobre o Livre-Arbítrio no Ateísmo Materialista

Se o ateísmo pressupõe que todos os nossos pensamentos, escolhas e ações são o resultado de processos físicos e químicos no cérebro, como você pode acreditar que possui livre-arbítrio? Se nossas decisões são determinadas por forças biológicas e químicas, o conceito de responsabilidade moral faz algum sentido?

2. Sobre a Autoconsciência e o Materialismo

Se o universo é puramente material e todas as nossas ações são determinadas por leis físicas, como você explica a autoconsciência e a capacidade de reflexão? Como é possível que, em um sistema determinista materialista, sejamos capazes de introspecção e decisão moral consciente?

3. Sobre a Base Moral no Ateísmo

Se o ateísmo for verdadeiro e todas as ações humanas são determinadas por fatores naturais e genéticos, como você pode condenar moralmente ações como o assassinato ou o genocídio? Não seria incoerente julgar moralmente comportamentos que são determinados por forças fora do controle do indivíduo

4. Sobre a Responsabilidade Moral

Se nossas ações são o resultado inevitável de processos naturais e determinados desde o início do universo, como podemos responsabilizar alguém por suas escolhas? Não seria injusto punir ou recompensar pessoas por ações sobre as quais elas não têm controle?

5. Sobre a Contradição no Naturalismo Determinista

Se o naturalismo determinista afirma que tudo, incluindo nosso raciocínio, é determinado por leis naturais cegas, como você pode confiar na validade das suas próprias conclusões? Não seria contraditório defender uma visão determinista e, ao mesmo tempo, confiar na capacidade racional de seu cérebro para chegar à verdade?

Para Calvinistas:

1. Sobre a Justiça de Deus

Se Deus decretou desde a eternidade todas as ações humanas, inclusive o pecado, como você concilia isso com a ideia de que Deus é justo? Como Deus pode julgar e punir alguém por ações que Ele mesmo decretou que essa pessoa cometeria?

2. Sobre a Vontade de Deus e o Pecado

Se Deus, em Sua vontade secreta, decreta que o pecado ocorra, como você preserva a santidade de Deus? Isso não faz de Deus o autor do pecado, mesmo que a vontade revelada de Deus ordene o contrário? Como Deus pode proibir algo que Ele mesmo decretou?

3. Sobre o Amor de Deus e a Predestinação

Se Deus, no calvinismo, predestina algumas pessoas para a condenação eterna, como você concilia isso com a afirmação bíblica de que "Deus é amor" (1 João 4:8)? Como um Deus amoroso pode predestinar indivíduos ao inferno sem que eles tenham qualquer escolha real?

4. Sobre o Chamado ao Arrependimento

A Bíblia faz inúmeros apelos para que as pessoas se arrependam e escolham a vida (Deuteronômio 30:19). Se a salvação é inteiramente predeterminada pela vontade soberana de Deus, esses chamados ao arrependimento são genuínos? Como faz sentido um convite à salvação, se algumas pessoas já estão decretadas para a condenação e não têm poder de escolha?

5. Sobre a Harmonia no Caráter de Deus

Se Deus tem uma vontade secreta, onde decreta o que de fato ocorrerá, e uma vontade revelada, onde ordena o que os humanos devem fazer, como essas duas vontades podem estar em harmonia? Se a vontade secreta contradiz a vontade revelada, isso não compromete a coerência e a integridade do caráter de Deus?

6. Sobre a Liberdade Humana no Calvinismo

Se tudo o que acontece foi decretado por Deus, incluindo as decisões humanas, como é possível que o ser humano seja moralmente responsável por suas ações? Como podemos falar de verdadeira responsabilidade moral se não há espaço para a escolha livre no sistema calvinista?

7. Sobre o Problema da Omissão do Livre-Arbítrio

Se Deus nos criou à Sua imagem e semelhança, o que inclui a capacidade de tomar decisões morais livres, como o calvinismo pode afirmar que Deus controla todas as ações humanas sem comprometer essa característica fundamental do ser humano?

 Para Ateus, Céticos e Calvinistas:

 1. Sobre a Coerência do Determinismo e o Livre-Arbítrio

Tanto o determinismo ateu quanto o calvinista afirmam que nossas escolhas estão predeterminadas por forças externas, seja a natureza ou a vontade divina. Como é possível falar de responsabilidade moral, justiça ou arrependimento genuíno se as ações humanas são, em última instância, determinadas por fatores fora do controle da pessoa?

2. Sobre a Contradição Lógica do Determinismo

Se tudo é determinado, seja por leis naturais (ateísmo) ou pela soberania de Deus (calvinismo), como você explica o fato de que temos consciência de nossas decisões e a experiência do livre-arbítrio? Isso não sugere que o determinismo entra em contradição com a própria experiência humana?

3. Sobre a Moralidade e o Determinismo

Se Deus, no calvinismo, ou as forças naturais, no ateísmo, determinam todas as ações humanas, como você justifica a ideia de que seres humanos podem ser moralmente responsabilizados por seus atos? Não seria absurdo exigir responsabilidade de alguém que não tem controle real sobre suas escolhas?

Essas perguntas incentivam uma reflexão profunda sobre as incoerências lógicas e morais do determinismo, seja no ateísmo materialista ou no calvinismo teológico, destacando as dificuldades de conciliar o determinismo com a responsabilidade moral e a justiça divina. Leia o artigo e memorize as perguntas. Bons estudos!