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quarta-feira, 2 de abril de 2025

A Relação entre Ciência e Teologia: Quatro Princípios Fundamentais

por Walson Sales

A relação entre ciência e teologia tem sido um ponto de discussão e até de tensão ao longo da história, especialmente quando se consideram as explicações que ambas as disciplinas oferecem para a origem do universo, a vida e o ser humano. No entanto, é possível abordar essa questão de forma construtiva ao considerar alguns princípios que podem orientar um entendimento mais harmônico entre elas. Robert Bowman, em seu curso "Introduction to Apologetics", oferece quatro princípios fundamentais que iluminam essa relação e ajudam a resolver conflitos comuns entre as duas áreas. Este artigo expandirá esses princípios, oferecendo uma reflexão mais profunda sobre as implicações teológicas, filosóficas e científicas de cada um deles.

1. Ciência Estuda a Natureza, Teologia Estuda a Revelação Divina

O primeiro princípio que Bowman destaca é a distinção fundamental entre as duas disciplinas. A ciência estuda a natureza e o mundo físico, enquanto a teologia estuda as Escrituras e a revelação de Deus. Embora ambas busquem a verdade, elas lidam com objetos diferentes: a ciência analisa os fenômenos naturais, enquanto a teologia interpreta os textos sagrados e a natureza divina revelada através deles.

Reflexão Teológica: A Bíblia não é um manual científico, mas é uma fonte confiável de revelação divina. Como nos ensina o teólogo Paul Tillich, a teologia busca entender o “último sentido da realidade” (Teologia Sistemática, p. 12), enquanto a ciência busca entender o funcionamento do mundo físico. Ambas as disciplinas podem se complementar, mas não devem ser confundidas.

Implicações Filosóficas: A distinção entre os objetos de estudo das duas áreas leva a uma análise crítica sobre como integramos a ciência e a teologia. Ao interpretar os textos sagrados, devemos ter em mente que o conhecimento científico pode esclarecer aspectos da criação, mas não substitui ou anula a revelação espiritual que se encontra nas Escrituras.

2. A Infalibilidade da Palavra de Deus

O segundo princípio de Bowman é que Deus não pode mentir ou enganar, e isso se reflete na infalibilidade da Sua palavra. A Bíblia é verdadeira e fidedigna, e, portanto, tudo o que ela diz pode ser confiado. No entanto, é importante reconhecer que, ao interpretar as Escrituras, devemos estar atentos ao contexto e ao significado original dos textos. Um exemplo citado por Bowman é Colossenses 1:17, que pode ser mal interpretado se lido de maneira superficial, sugerindo erroneamente que Jesus foi um ser criado, o que não é o caso.

Reflexão Teológica: A Bíblia deve ser lida e interpretada com cuidado, considerando o contexto histórico, literário e teológico. O teólogo John Stott, em "A Mensagem da Carta aos Colossenses" (p. 73), afirma que os textos devem ser entendidos à luz da totalidade das Escrituras, e não isoladamente.

Implicações Filosóficas: A filosofia da interpretação, ou hermenêutica, é crucial nesse ponto. Devemos ser humildes em nossa abordagem e reconhecer que nossa interpretação das Escrituras pode ser falível. Como nos ensina Hans-Georg Gadamer em "Verdade e Método" (p. 15), a interpretação está sempre sujeita ao horizonte de quem interpreta, o que exige um esforço constante de reavaliação e humildade.

3. Ciência e Teologia São Falíveis

O terceiro princípio que Bowman aborda é a falibilidade tanto da ciência quanto da teologia. Ambas as disciplinas são tentativas humanas de interpretar a realidade — a ciência, a realidade natural, e a teologia, a realidade espiritual e divina. Como os humanos são falíveis, também o são as nossas interpretações dos dados científicos e das Escrituras.

Reflexão Teológica: A teologia é uma disciplina humana, e, portanto, está sujeita a erros e distorções. A história da igreja está cheia de exemplos de interpretações teológicas errôneas que foram corrigidas ao longo do tempo. Isso nos ensina a importância de uma reflexão contínua e um diálogo saudável entre a teologia e as outras áreas do conhecimento, especialmente a ciência.

Implicações Filosóficas: A falibilidade humana nas interpretações nos leva a um ponto crucial da filosofia da ciência: o conceito de “revisão constante”. Thomas Kuhn, em "A Estrutura das Revoluções Científicas" (p. 78), fala sobre como a ciência avança por meio de paradigmas que são constantemente desafiados e revisados. Da mesma forma, a teologia deve estar aberta a novas interpretações, especialmente quando confrontada com descobertas científicas.

Uma Reflexão Importante Sobre a Interação Entre Bíblia e Ciência

Aqui cabe abrir um parêntese, pois o tema é extremamente delicado para nós, crentes na inspiração, inerrância e autoridade das Escrituras Sagradas.

A primeira reflexão necessária é que a Bíblia inspirada não pode mudar. Seus textos são imutáveis, infalíveis e supremamente autoritativos. No entanto, existem aspectos que a Bíblia afirma categoricamente, de forma clara e sem ambiguidades, e outros que demandam interpretação cuidadosa. Devemos sempre abordar o texto à luz do princípio hermenêutico de que "a Bíblia interpreta a si mesma". Além disso, é essencial considerar os diferentes contextos em que a revelação bíblica está inserida: imediato, distante, paralelo, revelacional (abrangendo tanto a revelação geral quanto a especial), bem como os contextos profético, histórico, geográfico, cultural, linguístico, social, moral, racional e lógico.

Outro ponto a ser destacado é que a interação entre Bíblia e ciência tem ocasionado revisões na forma como interpretamos certos textos bíblicos, assim como algumas descobertas científicas têm sido impactadas por dados presentes nas Escrituras. Essa relação, longe de comprometer a autoridade bíblica, enriquece nossa compreensão tanto da revelação divina quanto da criação.

Vamos a alguns exemplos históricos que ilustram essa interação:

1. O movimento dos corpos celestes e a perspectiva fenomenológica da Escritura

Até a chamada "Revolução Científica" (termo com nuances interpretativas), toda a Cristandade acreditava que a Terra era o centro do universo. Tal crença baseava-se, em parte, no relato de Josué, que descreve o sol parando no céu (Josué 10:12-13). Ora, se o sol "parou", concluiu-se que ele seria o astro em movimento ao redor da Terra.

Contudo, os estudos de Nicolau Copérnico, seguidos pelas evidências apresentadas por Galileu Galilei, demonstraram que o sistema solar é heliocêntrico, ou seja, os planetas, incluindo a Terra, orbitam o Sol. Diante disso, muitos se perguntaram: "Estaria o relato bíblico errado?"

A resposta foi elucidada pelo próprio Copérnico, que afirmou que o texto de Josué foi escrito sob uma perspectiva fenomenológica. O autor sacro descreveu o evento tal como foi observado – uma abordagem comum na literatura antiga – e não como seria analisado por critérios científicos modernos. Essa compreensão ajustou a disciplina da hermenêutica bíblica, destacando a importância de considerar quem fala no texto e a perspectiva adotada – seja fenomênica (observacional) ou numênica (totalizante).

Hoje, entendemos que expressões como "o sol nasce" ou "o sol se põe" são descrições fenomenológicas, baseadas no ponto de vista do observador. Não comprometem a verdade das Escrituras, mas refletem a maneira humana de perceber os fenômenos naturais.

2. A criação do universo e o Big Bang

Outro exemplo marcante é a descoberta de que o universo teve um início absoluto – um evento singular que trouxe à existência os quatro elementos fundamentais do nosso cosmos: tempo, matéria, espaço e energia. Essa descoberta, consolidada pela teoria do Big Bang, está em perfeita harmonia com a declaração de Gênesis 1:1:

"No princípio [tempo], Deus criou [do nada], os céus [espaço] e a terra [matéria]."

Até essa descoberta, a visão predominante na ciência era a de que a matéria era eterna e o universo não havia sido criado. A Bíblia, porém, há mais de 3.500 anos, já afirmava algo que a ciência só recentemente corroborou.

Reflexões Finais

Esses dois exemplos ilustram como ciência e teologia podem interagir de forma produtiva. O que aprendemos? Que a Bíblia permanece inerrante e inspirada, e que os dados da ciência, quando corretamente interpretados, jamais entram em contradição com as verdades reveladas por Deus. A questão crucial está na interpretação – tanto do texto bíblico quanto dos dados científicos.

Dessa forma, a interação entre ciência e teologia deve ocupar nossa atenção, inteligência e esforços. Que possamos, com humildade e zelo, prosseguir nessa jornada de investigação e descoberta, honrando o Criador em todas as coisas.

4. A Interconexão Entre Ciência e Teologia

O quarto e último princípio que Bowman expõe é a interação entre ciência e teologia. Embora ambas lidem com diferentes aspectos da realidade, elas podem lançar luz uma sobre a outra. A Bíblia fala sobre a criação, a origem da vida, o universo e a natureza humana, e a ciência também investiga essas mesmas questões. Logo, é possível que as duas disciplinas se complementem, desde que entendamos suas áreas de competência e limitação.

Reflexão Teológica: A teologia oferece respostas sobre o "porquê" das coisas: Por que Deus criou o universo? Qual é o propósito da criação? A ciência, por sua vez, lida com o "como" da criação: Como as estrelas se formaram? Como a vida surgiu? Ambas as áreas podem ser vistas como explorando diferentes dimensões da mesma realidade criada por Deus.

Implicações Filosóficas: A interação entre ciência e teologia também levanta questões sobre epistemologia — como conhecemos a verdade. O filósofo Alvin Plantinga, em "Warranted Christian Belief" (p. 42), argumenta que crenças religiosas podem ser epistemicamente justificadas de maneira similar a crenças científicas, quando bem fundamentadas. Assim, a ciência e a teologia não precisam entrar em conflito, mas podem ser entendidas como formas complementares de buscar a verdade.

Conclusão

A relação entre ciência e teologia não precisa ser marcada por um antagonismo irreconciliável. Os quatro princípios apresentados por Robert Bowman fornecem uma base sólida para entender como essas disciplinas podem interagir de maneira produtiva. A ciência estuda a natureza de Deus, e a teologia estuda Sua revelação nas Escrituras. Ambas são falíveis, mas confiáveis em seus próprios domínios, e ambas lidam com a mesma realidade, apenas sob perspectivas diferentes. Quando interpretadas corretamente, ciência e teologia podem se complementar, proporcionando uma visão mais rica e abrangente da criação e do Criador.

O desafio está em reconhecer os limites e as áreas de competência de cada disciplina, bem como em adotar uma postura humilde diante das interpretações falíveis, seja no campo científico ou teológico. Ao fazer isso, podemos enriquecer nossa compreensão do mundo e de Deus, caminhando em direção a uma síntese que reconhece e celebra a verdade que ambas as áreas, em suas falibilidades, estão tentando alcançar.

segunda-feira, 17 de março de 2025

A Ciência Pode Responder a Todas as Questões?

Por Walson Sales

No filme "Contato", a personagem Ellie expressa uma verdade emocional ao afirmar seu amor por seu pai, mas reconhece a impossibilidade de provar essa emoção cientificamente. Essa cena ilustra uma questão fundamental: a ciência, embora poderosa e reveladora, tem limites. Ela não consegue responder a todas as nossas perguntas, especialmente aquelas que envolvem emoções, ética e a realidade subjetiva. Este artigo explorará esses limites da ciência, abordando a distinção entre fatos metafísicos e éticos, e discutindo a natureza do conhecimento e da moralidade.

Fatos Metafísicos

Os fatos metafísicos, por definição, estão além do domínio da ciência. A metafísica lida com questões como a existência de outras mentes, a realidade do mundo externo e a veracidade do passado. A crença em que existem outras mentes além da nossa e que o mundo que percebemos é real são exemplos de crenças fundamentais que aceitamos sem evidências científicas. Quando estamos em uma palestra, por exemplo, presumimos que o professor é uma entidade real e não uma invenção da nossa imaginação. Essa certeza, no entanto, não pode ser provada cientificamente; é uma aceitação que fazemos da realidade.

O reconhecimento de que a ciência não pode confirmar a existência do passado, nem a realidade de outras mentes, desafia a ideia de que só o que pode ser cientificamente comprovado é verdadeiro. Essa limitação evidencia a necessidade de outras formas de conhecimento, além da abordagem científica.

Fatos Éticos

O campo da psicologia evolutiva tem explorado a origem da moralidade, sugerindo que somos mamíferos sociais que desenvolvem comportamentos éticos para interagir de forma harmoniosa em grupos. No entanto, essa compreensão não nos diz como devemos agir. A famosa falácia de David Hume, que distingue o que "é" do que "deve ser", ressalta que observações científicas sobre comportamento não justificam normas morais.

Por exemplo, a ciência pode observar que muitos mamíferos ajudam uns aos outros, mas isso não significa que devemos fazer o mesmo. A premissa de que o "florescimento humano" é bom parte de uma visão de mundo que não pode ser verificada pela ciência. Questões éticas, como a moralidade do estupro, ilustram essa limitação: a ciência pode analisar os efeitos desse ato, mas não pode afirmar que ele é moralmente errado. Essa determinação requer um fundamento ético que vai além da descrição científica.

Conclusão

A ciência é uma ferramenta extraordinária que tem proporcionado avanços significativos na compreensão do mundo e na melhoria da qualidade de vida. No entanto, suas limitações são claras, especialmente quando se trata de questões metafísicas e éticas. Aceitar que há aspectos da experiência humana que não podem ser explorados ou confirmados pela ciência é crucial para uma visão mais completa do conhecimento. Devemos valorizar tanto a ciência quanto outros modos de entendimento que abordam as nuances da experiência humana, incluindo emoções, moralidade e a complexidade das relações interpessoais. Assim, o amor, a ética e a compreensão do passado permanecem domínios que transcendem a capacidade da ciência de responder.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2025

A Relação Entre Ciência e Teísmo: Desmistificando a Afirmação de que a Ciência Refutou Deus

Por Walson Sales

A relação entre ciência e teísmo tem sido um tema amplamente debatido, especialmente na afirmação recorrente de que "a ciência refutou Deus". Este artigo examina essa declaração, abordando a circularidade do raciocínio que a sustenta e as premissas fundamentais que a ciência e a fé compartilham. Através de exemplos e argumentos, buscamos esclarecer como a ciência e a crença em Deus podem coexistir de forma racional e harmoniosa.

1. A Circularidade do Raciocínio

A afirmação de que "a ciência refutou Deus" é, no mínimo, estranha, pois pressupõe duas verdades mutuamente exclusivas: primeiro, a ciência é o estudo do universo físico; e segundo, nenhum teísta de credibilidade considera Deus como parte do universo físico. Essa confusão revela um raciocínio circular, onde a própria lógica da negação de Deus desmorona sob os critérios que se utilizam para identificar a verdade.

Um exemplo emblemático ocorreu no debate de 1993 entre Frank Zindler, então presidente da Associação Americana dos Ateus, e o apologista cristão William Lane Craig. Durante o debate, Zindler afirmou: "Hoje nós já conseguimos ver, por meio de telescópios potentes, o espaço mais distante e nunca conseguimos ver Deus, anjos ou demônios. Também conseguimos construir os microscópios mais potentes e ver no mais íntimo do ser humano e não conseguimos enxergar a alma ou o espírito humano." Essa afirmação ilustra uma confusão de esferas. Telescópios e microscópios são ferramentas projetadas para observar apenas objetos e realidades físicas. Portanto, a incapacidade de observar realidades não físicas, como a alma ou Deus, não é uma evidência de que tais entidades não existem; é uma simples constatação da limitação das ferramentas científicas em captar o transcendente.

Bob Perry no artigo Defrocking the Priests of Scientism (2010) destaca que sem essa lógica circular, o cientificismo perde seu suporte, tornando evidente que a ciência e a fé não precisam estar em conflito.

2. A Limitação do Materialismo

A ideia de que apenas o mundo material existe é um equívoco. Quando o filósofo William Lane Craig debateu com o químico ateu Peter Atkins, este último alegou que a ciência poderia responder a todas as questões do mundo. Craig, reconhecendo a falácia desse argumento, afirmou que existem verdades que são racionais de se acreditar, mesmo que não sejam entidades materiais ou acessíveis pela ciência. Entre essas verdades, ele destacou:

I. Matemática e Lógica;

II. Verdades metafísicas (como a existência de outras mentes além da nossa);

III. Julgamentos éticos (a moralidade não pode ser provada cientificamente);

IV. Julgamentos estéticos (beleza e bondade não são questões científicas);

V. A própria ciência (a crença no método científico não pode ser provada pelo próprio método).

Esse debate fez a plateia perceber o quanto os ateus, como Atkins, muitas vezes utilizam argumentos racionais para negar outras realidades igualmente racionais.

3. A Dependência da Ciência em Relação à Matemática

Perry menciona que é irônico como os ateus, que defendem o cientificismo, parecem ignorar a própria linguagem da ciência. A matemática, por exemplo, é a base que dá sentido à ciência. Estruturas matemáticas, descritas como "entidades abstratas imutáveis que existem fora do espaço e do tempo", são fundamentais para a ordem observada na natureza. Até mesmo o ateu Bertrand Russell comentou sobre a relação entre matemática, verdade e beleza. Assim, a matemática, embora não física, é uma realidade inegável que fundamenta o discurso científico.

4. Pressuposições dos Cientistas

Os cientistas, por sua vez, fazem suposições epistemológicas, metafísicas e éticas fundamentais que não podem ser comprovadas pela ciência. Eles pressupõem que:

- O conhecimento é possível (epistemologia);

- O universo é regular (metafísica);

- Os cientistas devem ser honestos (ética).

Sem essas premissas, a justificativa dos métodos científicos se torna insustentável, levando a um colapso nas pesquisas científicas.

Conclusão

A afirmação de que "a ciência refutou Deus" não se sustenta ao examinar as verdades fundamentais sobre a ciência e o teísmo. A circularidade do raciocínio, a limitação do materialismo e a dependência da ciência em relação à matemática e a pressuposições epistemológicas revelam que a fé e a razão não são necessariamente antagônicas. Em vez de se oporem, ambas podem coexistir e oferecer uma compreensão mais rica da realidade e da experiência humana.