A RELAÇÃO ENTRE ISRAEL E OS CANANEUS
[PARTE 4]
Por Dyego Andrade
8) A Lei do Senhor, como código de conduta
As nações ficariam conscientes que Deus iria agir na humanidade estabelecendo seu código de conduta, a saber, a Lei de Moisés. A mesma como dito anteriormente foi entregue incialmente na aliança do Sinai e servia como base para Israel enquanto nação, sendo a norma que regeria os atos do cidadão da nação eleita. Também servira na esfera religiosa, como manual de fé para adoração a Yahweh. A Lei de Moisés não é somente os dez mandamentos, mas os cinco livros escritos pelo próprio Moisés, a saber, Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio. Esse conjunto de livros pode ser chamado de Torá ou Pentateuco.
As leis do Pentateuco são inúmeras, o rabino Ben Maimônides fez a contagem mais respeitada e aceita até hoje dessas leis, o mesmo disse que há 613 leis em todo Pentateuco, estando divididas em 365 proibições e 248 mandamentos positivos. É sobre o que se deve fazer e o que não se deve fazer. Algumas dessas leis eram somente para Israel, pois tratava apenas das questões religiosas inerentes a Israel enquanto nação sacerdotal, e é óbvio teve função transitória. Já a grande maioria das leis funcionava como base moral e espiritual para nação eleita.
Não é de se estranhar o fato de que havia mais proibições que mandamentos positivos na Torá, na verdade, isso traz à tona a realidade das condutas contrárias a vontade do Senhor presente nos povos daquela época. Assim, Deus foi incisivo ao querer preservar seu povo através de um código de conduta que obedecia um padrão moral não visto em outra nação até então, e que essa realidade de não obedecer às proibições colocou em risco a intimidade entre Deus e seu povo. O livro de Gênesis é claro em dizer que a prática desenfreada e irreversível do pecado fez com que Deus destruísse a humanidade e através de Noé iniciasse tudo novamente. Agora com a Lei do Senhor, Deus deixa claro que não quer mais que esse trágico episódio se repita, antes almeja que toda a humanidade obedeça aos princípios morais declarados por Ele para Israel. Diferente de como foi com Noé não haveria somente a palavra falada, mas também a palavra escrita.
8.1) A superioridade da Lei do Senhor em relação as outras leis
A Lei do Senhor foi para aqueles dias a maior revelação que se podia ter de Yahweh, ela trazia consigo princípios que seriam de fato permanentes. Apesar de muitos mandamentos serem passageiros em sua essência, a grande maioria dos preceitos falavam sobre uma conduta permanente que não estaria limitada a culturas territoriais, espaço geográfico ou tempo; antes a Lei do Senhor poderia ser cumprida pelas civilizações daqueles dias. É fato que essa revelação especial de Deus através da Lei não é a mais plena, fato esse que seria observado quando Cristo se fez homem e manifestou ser de forma inequívoca a maior revelação de Deus aos homens, ainda assim a Lei foi respeitada por Cristo e o mesmo falou sobre a sua importância moral que era permanente (Mt 5.17-19).
As outras nações e povos tinham suas leis, muitas destas se tornaram conhecidas e foram objetos de estudo, todavia nenhuma foi tão contundente no que diz respeito ao que seja certo ou errado. É provável que aja preceitos em outros códigos que sejam corretos e até sejam semelhantes aos da Torá, todavia isso não caracteriza a essência destes códigos, há verdade em tudo, mas nem tudo é verdade. A Lei do Senhor vai além como regra para os seres humanos. Sobre isso John Walton (2003, p. 94) escreveu:
Uma série de documentos que registram leis dos tempos antigos foi encontrada, inclusive compilações de leis *sumérias, babilônicas, *hititas e *assírias. A mais famosa é o Código de *Hamurabi, estabelecido muitos séculos antes de Moises. Essas compilações de leis consistem basicamente de modelos de decisões judiciais relacionadas a casos específicos. Por tratar-se de casos jurídicos, os textos apresentam as penas aplicadas a vários tipos de culpas, sem especificar regras de comportamento sobre o "certo e errado" ou sobre o que as pessoas deviam fazer ou deixar de fazer. As leis encontradas nos Dez Mandamentos, proibindo ou exigindo certos comportamentos, são chamadas de leis *apodícticas, que raramente são encontradas nas compilações de leis do antigo Oriente Próximo.
As nações citadas acima foram e são objetos de estudo até hoje, um dos motivos é o fato de que estabeleceram leis com uma respectiva finalidade. Isso mostra a necessidade de que o ser humano tem de que existam regras que regulem seu comportamento e mostre as devidas consequências dos seus atos, buscando um padrão a ser vivido em sociedade. Os códigos citados acima são de fato limitados, pois tratam apenas de algumas situações que eventualmente possam acontecer, mas não apontam de forma direta, qual deveria ser a conduta adequada em cada situação especificada nas leis, como também nas mais variadas situações que possam acontecer. Isso faz com que a Lei do Senhor sobressaia as demais.
Muitos dos princípios consagrados na Torá têm valor perene para qualquer sociedade, as suas normas excedem tempo, espaço e culturas. Essa realidade pode ser vista atualmente em muitas sociedades, que apesar de não a adotarem por completo se vê muitos elementos morais da Torá na conduta dos tais. A Lei do Senhor norteia a se viver corretamente os aspectos da moral social, moral sexual, família e religião; pontos fundamentais para que uma sociedade esteja bem ajustada e firme no que tange as relações interpessoais. Essa prática pode ser vista através da civilização ocidental, que se baseia na filosofia grega, no direito romano e moral judaico-cristã; sim, os princípios morais judaicos atravessaram os séculos e estão presentes na sociedade atual defendendo os quatro aspectos citados acima.
Em Dt 4.6,8 Moisés evidencia que a Lei de Deus faz os seus praticantes serem sábios, inteligentes e justos, de forma que essas qualidades sejam notadas diante dos demais povos. As três características apontadas externam que a Lei do Senhor faz imperar na conduta humana uma visão de mundo completa de como viver da melhor maneira possível; em todas as áreas da vida humana ela pode e deve ser evidenciada distintamente. Observe o que Hans Ulrich Reifler (2009, p.42) diz sobre:
Concluímos, pois, que os dez mandamentos não são recomendados apenas para o púlpito, mas também para os tribunais de justiça, os palácios dos governadores e as sedes das prefeituras municipais. Bonhoeffer provou com os escritos confessionais luteranos (Fórmula da Concórdia, Declaração Sólida, Epílome) que é válido aplicar o decálogo tanto aos homens regenerados quanto aos irregenerados.
A partir desta citação é notável que a Lei do Senhor não é apenas para as igrejas ou sinagogas, antes sua atuação abrange a esfera pública tanto no âmbito judiciário quanto no governamental. Nos tribunais pelo fato de que a alta moralidade imposta pelo decálogo faz com que o homem atinja uma conduta louvável para qualquer civilização, sendo também parâmetro para julgamento. No que diz respeito às questões governamentais, a Lei pode ser usada para tratar questões trabalhistas, elaborar leis e até extrair princípios para se administrar a causa pública. Por fim é evidenciado que não é apenas na questão religiosa que a Lei atua, antes pode ser aplicada em pessoas irregeneradas, ou seja, através da consciência, a Lei de Deus inculca no ser a realidade de suas práticas pecaminosas.
Por mais que a Lei demonstrasse seus grandes valores morais, sua aplicabilidade inquestionável para as pessoas, para as instituições humanas e também sua perspectiva religiosa; ela foi recusada pelas nações que tinha contato com Israel.
As nações e o povo cananeu, se mostraram contrárias, adversas aos princípios morais da Lei do Senhor. Seus preceitos são outros e afrontavam seriamente a Torá.
Os aspectos da moral social, moral sexual, família e religião que são tão defendidos pela Lei do Senhor, foram para os demais povos e para os cananeus distanciados um do outro, na visão dos cananeus esses pilares não têm nenhum tipo de relação saudável e se houver alguma ligação é baseada em atos pecaminosos que denigrem a conduta humana.
9) A impiedade dos Cananeus
Muitos povos e em especial os cananeus, manifestaram uma conduta reprovável diante de Deus. Conforme relatado anteriormente, somente em Gênesis há nove referências bíblicas que mostram pecados dos cananeus, isso ainda no princípio, e com o passar do tempo não houve melhora, mas progrediram na impiedade.
Em Dt 9.4-5 está evidenciada a expressão “impiedade das nações”, os cananeus foram um povo cheio de erros, baseados na rebeldia. Deus mesmo havia dito sobre seus pecados (Gn 15.16). Agora já haviam passado quatro gerações e nada desse povo seguir o modelo de Deus, mesmo com a revelação da Lei, eles progrediam na prática da impiedade. Então, o que de fato faziam os cananeus se firmarem na impiedade, a ponto de não querer melhorar sua conduta? Vários fatores são preponderantes para que esse povo chegasse a tal ponto; a religião, sexualidade e as formas de lidar com as crianças podem ser tidos como fatores que demonstravam o nível de degeneração moral dos cananeus.
9) A religião cananeia
A religião cananeia estava baseada no politeísmo, o panteão cananeu era composto por vários deuses, cada um com seus respectivos atributos que eram direcionados às necessidades dos seus adoradores. As Escrituras Sagradas citam alguns dos deuses cananeus, entretanto o número era bem maior do que se pensa. O historiador André Daniel Reinke (2019, p. 104) destaca:
As divindades cananeias, segundo os escritos de Ugarit, eram organizadas em um panteão relativamente bem estruturado. O deus supremo era chamado El, que era idoso e liderava o conselho dos deuses. Ao lado dele aparecia a deusa Asera (ou Athirat), apresentada como uma mulher mais jovem, embora fosse uma avó. Logo depois do casal supremo vinham os deuses Baal e sua esposa-irmã Anat, além de outros de menor destaque nas narrativas ugaríticas. Como no caso de Marduk, da Babilônia, Baal não era o deus criador original, mas aquele que derrotou o caos, uma versão cananeia do mito cosmogônico babilônico. Tanto Baal como Yam e Mot receberam seus domínios de El, que, depois, parece assistir passivamente o desenrolar dos acontecimentos. [169]
Resumidamente, o panteão de Ugarit se configurava da seguinte forma:
• no topo, o ancião El e a esposa Asera;
• no segundo nível, os filhos divinos Athtart (noite) e Athtar (estrela da
manhã), Shapsu (sol), Yarih (lua), Shahar (aurora), Shalim (crepúsculo),
Resheph (talvez Marte), Baal (deus da tempestade), Yam (do mar), Mot (da morte) e Anat (guerreira);
• no terceiro nível, Kothar-Wa-Hasis (deus artesão que construiu o palácio e a arma de Baal);
• e no quarto nível, trabalhadores divinos como mensageiros, porteiros e servos. [170]
Havia ainda objetos e locais sagrados, especialmente determinadas árvores e topos de montanhas, chamados baalim. Em uma sociedade tão fragmentada e de Estados frágeis, os cultos familiares e pessoais tinham grande importância, e cada família tinha seus ídolos do lar, para tentar apaziguar deuses e demônios e, se possível, utilizar seus poderes em favor próprio. [171]
As religiões politeístas evidenciavam a capacidade limitada das divindades no que tange a providência para seus adoradores. Observa-se que cada deus do panteão cananeu agia em apenas uma determinada área e deixava as outras sem atuação. Outras divindades por sua vez agiam nessas lacunas e formavam todo o conjunto de divindades para serem cultuadas. A divindade El, que para eles era o deus supremo, estava velho e consequentemente tendendo a ser inoperante. Não havia uma soberania nem harmonia entre os deuses, tudo era separado. Cada divindade devia ser adorada por vez, o que de fato refletia um monoteísmo momentâneo ainda que velado.
A ausência de um deus exclusivo tirava a possibilidade dos cananeus naquele momento adorarem a Yahweh, outro fator importante é que no âmbito do politeísmo não havia um padrão moral, uma só linha ética para ser vivida. Os valores eram baseados numa pluralidade despadronizada, isso pelo motivo de que havia várias divindades e várias condutas para serem vividas. Portanto, pode se dizer que muitas práticas foram aceitas pelos cananeus, visto que sua religião estava distanciada de um padrão de conduta moral, eles dissociaram a moral da religião e isso foi visto até na liturgia de seus cultos.
A religião cananeia tinha em seus cultos elementos de adoração que externavam condutas relacionadas aos seus deuses. Eles criam que as divindades poderiam ser influenciadas pelos seres humanos através de práticas semelhantes às que o deus adorado fazia. Nesse sentido, em busca de fertilidade vinda do céu, os cananeus buscavam praticar atos de fertilidade nos seus cultos. A prática de sexo era algo normal nos cultos cananeus. Essa relação entre prática sexual e adoração foi evidenciada através da prostituta cultual ou prostituta sagrada (sagrada, no sentido de separada para algo). Para Packer, Tenney e White Jr (2001, p. 94).
Religiões de fertilidade como as de Ugarite acentuam sobremodo a reprodução na terra, nas safras, e no ventre. Esta ênfase ajuda a explicar a importância que era dada às uniões sexuais. A Bíblia e os textos de Ugarite empregam as palavras cadeche e quedecha, que significam "santo" e "santa". Em Ugarite esses "santos" eram sacerdotes homossexuais e sacerdotisas que atuavam como prostitutas. Encontramos forte reação hebraica contra essa "prostituição cultual" em passagens como Levítico 19:29: "Não contaminarás a tua filha, fazendo-a prostituir-se", e Deuteronômio 23:17: "Das filhas de Israel não haverá quem se prostitua (quedecha) . . . nem dos filhos (cadeche) de Israel haverá quem o faça." Uma das reformas de Josias foi derribar "as casas da prostituição cultuai" (2 Reis 23:7).
Na mesma direção do exposto acima J.D. Douglas (2006, p. 1106) escreve:
A pior forma de prostituição era aquela que gozava de sanção religiosa. Essa era uma característica proeminente da adoração canaanita, na qual a prostituição tanto feminina como masculina estava ligada aos santuários e ao templo. A classe de prostitutas femininas é conhecida no AT como qedeshah, enquanto a classe masculina é chamada de qadesh. Os ganhos ilícitos desta última classe são chamados de “preço de sodomita” (Dt 23.18). Entre os tabletes de Ugarite, certa classe de prostitutos masculinos é referida como qdsm, juntamente com os sacerdotes (khnm) como fazendo parte dos serviços do templo. Novo dicionário da Bíblia J D Douglas p 1106.
Essa prática horrenda e destrutiva moralmente não era solitária, ainda estava presente em seus ritos de adoração outra prática litúrgica totalmente deplorável: o sacrífico infantil. Essa acabava por ser a mais cruel possível, tal sacrifício interrompia uma vida de forma abrupta e injusta; tudo com a intenção de adorar o deus da fertilidade, a saber, Baal. Tanto a prática sexual quanto as crianças representam a fertilidade, para os adoradores ao envolver essas práticas já citadas no culto faria com que Baal enviasse providência nessa área.
O sacrifício de crianças foi algo evidenciado na bíblia (Sl 106.37-38, Lv 18.21), muitos estudiosos ainda hoje comentam sobre tal acontecimento horrorizados. Isso indica que tal povo era de fato difícil de se conviver. Sobre o sacrifício de crianças, André Daniel Reinke (2019, p. 107), escreve:
O sacrifício dos primogênitos era um holocausto realizado em um lugar chamado tofet. [184] As crianças sacrificadas, filhos dos próprios ofertantes e entregues voluntariamente à divindade, eram depositadas em urnas e enterradas com uma epígrafe. Essa prática foi narrada por diversos historiadores romanos e fartamente registrada pela arqueologia em todas as colônias fenícias do Mediterrâneo. As urnas encontradas possuem corpos de crianças de idades variadas, a maioria entre um mês e um ano de idade, outros com no máximo seis ou sete anos. Para “alívio das consciências”, as análises revelaram que as crianças chegavam mortas ou drogadas para serem queimadas. [185] Já o molk era o sacrifício de holocausto que ocorria como forma de infanticídio, promovida pelo Estado e com caráter ritualizado em tempos de crise e pressão demográfica. Ou seja, crianças eram sacrificadas quando havia excesso populacional ou em situações de sítio inimigo a uma cidade, por exemplo. Independentemente do sacrifício em questão ser um tofet ou molk, os deuses a quem se ofertavam as crianças eram Baal (especialmente Baal-Amon, em Cartago) e Astarte [186]. Um dado interessante aqui: o molk poderia substituir a criança por um cordeiro. Mas era inevitável: em situações muito extremas, deveria ser mesmo o filho do ofertante, oferta considerada como o sacrifício supremo para as divindades. [187]
Os habitantes de Canaã externaram de forma inequívoca ter uma natureza totalmente degenerada. Por Baal e os demais deuses, chegaram a ter uma vida sexual desregrada, entregue a prostituição e em específico, práticas homossexuais, somado a isso entregaram seus filhos a morte em sacrifícios no culto.
As condutas e os valores morais dos cananeus deixam claro que não seria possível eles conviverem com Israel. A terra prometida por Yahweh à nação de Israel estava sendo habitada pelos cananeus. Portanto cabia a Israel tirar o povo da terra ou se curvar a sua conduta deplorável vivendo com eles no mesmo lugar.
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REFERÊNCIAS
Douglas, J. D (editor/organizador). O Novo Dicionário da Bíblia. (Editor da edição em português Russel P. Shedd; Tradução João Bentes). 3 Ed. rev. São Paulo: Vida Nova, 2006.
Packer, J. I.; Tenney, Merril C.; White Jr., William. O Mundo do Antigo Testamento São Paulo: Vida,1991.
Reifler, Hans Ulrich. A ética dos dez mandamentos: um modelo de ética para nossos dias. São Paulo: Vida Nova,2007.
Reinke, André Daniel. Os outros da Bíblia: história fé e cultura dos povos antigos e sua atuação no plano divino. Rio de Janeiro: Thomas Nelson,2019.
Walton, John H.; Matthews, Víctor H.; Chavalas, Mark W.. Comentário bíblico Atos: Antigo Testamento. (Tradução Noemi Valéria Altoé). Belo horizonte: Editora Atos, 2003.