Por Paul Copan
Quando nós começamos a falar sobre o tratamento da mulher no Antigo Testamento, começa um pandemônio! As feministas acusam os escritores do Antigo Testamento de endossar todo o tipo de sexismo, patriarcalismo (estruturas socialmente opressivas favorecendo o homem sobre a mulher), e até mesmo misoginia (ódio de mulheres). Misógino é um dos adjetivos que Richard Dawkins usa para descrever o Deus do Antigo Testamento.
Por que Sara se refere a seu esposo como “meu senhor” (Gênesis 18.12)? Por que as meninas hebraicas pertencem a “casa dos seus pais” (e.g. Lv. 22.13)? Por que uma mulher israelita permanece cerimonialmente imunda por somente 40 dias após dar a luz a um garoto, mas oitenta dias após dar a luz a uma menina (Lv. 12.2-5)? Por que a mulher não pode participar do sacerdócio em Israel? E sobre todas as concubinas? E sobre o casamento por meio do levirato? Por que Deus permite a poligamia? O Antigo Testamento não endossa o dote [preço da noiva] que somente reforça a ideia da mulher como uma propriedade?
Neste capítulo nós olharemos as igualdades fundamentais entre homem e mulher no Antigo Testamento e algumas passagens que alegadamente sugerem o contrário. Então, neste capítulo, revisaremos algumas passagens chaves ligadas à poligamia (múltiplas esposas) e concubinas tanto quanto as passagens relacionadas que os críticos comumente mencionam. [1]
Gênesis 1-2: O Ideal Original
No entanto, nós entendemos as leis levíticas e as narrativas do Antigo Testamento com respeito às mulheres, Gênesis 1-2 destaca para nós a visão ideal da mulher, que está longe de ser uma atitude caída, degradante ou distorcida. Deus criou macho e fêmea a sua imagem (Gn. 1.26-27). Eva é tomada da costela de Adão (Gn. 2.22), um quadro de igualdade e parceria, não de um superior sobre um inferior. O casamento é para ser uma parceria de iguais e o sexo (a união em uma só carne) é para ser desfrutado dentro de um casamento heterossexual seguro e vitalício (Gn. 2.24).
Embora Gênesis 1-2 enuncia o ideal de igualdade entre macho e fêmea, as leis com respeito à mulher em Israel tomam uma abordagem realista as estruturas humanas caídas no antigo Oriente Próximo. Na legislação de Israel, Deus faz duas coisas: (1) Ele trabalha dentro de uma sociedade patriarcal para apontar Israel como o melhor caminho; e (2) Ele provê muita proteção e controle contra os abusos direcionados às mulheres em, admitidamente, condições inferiores. Nós vemos exemplos de mulheres oprimidas no Antigo Testamento? Sim, e nós vemos muitos homens oprimidos também! Em outras palavras, nós não deveríamos considerar esses exemplos negativos, como apoio ou aval de opressão e abuso.
A igualdade da mulher – sob vários ângulos
Ler o Antigo Testamento revela duas características paralelas importantes: (1) estruturas sociais patriarcais nas famílias Israelitas ao lado de (2) a honra de mulheres como iguais, incluindo uma legião de proeminentes matriarcas e mulheres líderes em Israel.
Por um lado, os pais tinham responsabilidade legal por suas famílias (com freqüência chegando de 15 a 20 membros); isso incluía herança de família, posse de propriedade, arranjo de casamentos de filhos e filhas e ser o porta-voz da família em geral. Por exemplo, quando uma filha ou uma esposa fez um voto, tal promessa solene foi aprovada pelo pai/esposo como um referencial judicial na casa (Nm. 30). Isso representa mais do que somente uma proteção legal para a esposa ou a filha, não obstante. Ideias e atitudes sociais incorporadas são difíceis de morrer, especialmente em lugares como o Oriente Próximo antigo. Atitudes patriarcais foram mantidas fortemente no Oriente Próximo antigo – atitudes que estavam muito longe da linguagem de igualdade na criação. Gênesis 2.4 afirma que o homem deixe seus pais e se “una” a sua esposa como uma parceira igual (NRSV). Mas a queda afetou profundamente os relacionamentos humanos. Como resultado, Sarah seguiu o costume do antigo Oriente Próximo de chamar seu esposo de “Senhor [‘adon]” (Gn. 18.12). Ela deu sua serva Hagar a Abraão para gerar um filho (Gn. 16.3), uma prática comum no antigo Oriente Próximo. Mais tarde, o Rei Abimeleque “tomou” Sarah como sua esposa (Gn. 20.2-3). E quando Sarah deu a luz a Isaque, ela “deu um filho a Abraão” (Gn. 21.2-3).
Por outro lado essas atitudes patriarcais incorporadas distorceram as muitas fortes afirmações bíblicas da dignidade e igualdade feminina. Mães/esposas mereceram honra igual ao dos maridos/pais, e fortes matriarcas tanto ajudaram a conduzir Israel, quanto exerceram influência dentro de suas famílias. Sim, o marido era o referencial legal para a família israelita, mas nós não deveríamos automaticamente assumir que a mulher considerava isso uma disposição opressiva. De fato, esposas em muitos casamentos no Antigo Testamento foram, para todos os propósitos práticos, iguais e igualmente influentes em seus casamentos e ainda além (e.g. Pv. 31).
De fato, muitas passagens falam de proteção e cuidado por aqueles que, com frequência, as pessoas se aproveitam delas, especialmente viúvas ou mulheres divorciadas. Deus está preocupado com a justiça, com as viúvas e a outros vulneráveis, tais como os órfãos e os desconhecidos não israelitas ou estrangeiros. Deus advertiu severamente os pretensos opressores que Ele está do lado dos fracos e indefesos (Ex. 22.22; Dt. 10.18; 14.29; 24.17,19; etc.).
Agora, as feministas disputariam a declaração que as mulheres/esposas israelitas foram consideradas iguais em personalidade e dignidade aos homens/maridos. Vamos abordar esse ponto. Sim, estruturas patriarcais influenciaram fortemente a mentalidade da sociedade israelita. Ainda, nós vemos afirmações inegáveis de igualdade no Antigo Testamento a partir de perspectivas teológicas, históricas e legais.
Teológicas: igualdade feminina é presumida nas seguintes passagens (ênfase adicionada):
“E criou Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou”. Gênesis 1:27
“Portanto deixará o homem o seu pai e a sua mãe, e apegar-se-á à sua mulher, e serão ambos uma carne”. Gênesis 2:24
“Honra a teu pai e a tua mãe, para que se prolonguem os teus dias na terra que o Senhor teu Deus te dá”. Êxodo 20:12 (c.f. 21.15; Dt. 5.16; 21.18-21; 27.16).
“Cada um temerá a sua mãe e a seu pai, ... Eu sou o Senhor vosso Deus”. Levítico 19:3 (c.f. 20.9).
“Filho meu, guarda o mandamento de teu pai, e não deixes a lei da tua mãe”; Provérbios 6:20
“Aquele que encontra uma esposa, acha o bem, e alcança a benevolência do Senhor”. Provérbios 18:22
“O que aflige o seu pai, ou manda embora sua mãe, é filho que traz vergonha e desonra”. Provérbios 19:26
“Ouve teu pai, que te gerou, e não desprezes tua mãe, quando vier a envelhecer”. Provérbios 23:22
“Alegrem-se teu pai e tua mãe, e regozije-se a que te gerou”. Provérbios 23:25
“Eu sou do meu amado, e o meu amado é meu;”. Cânticos 6:3
Quando se trata de Gênesis 2.18, onde a esposa de Adão é chamada uma “ajudadora [’Ezer]”, nós devemos lembrar que, ao invés de sugerir inferioridade, a mesma palavra é usada para Deus em todo lugar na Escritura (Sl. 10.14; 30.10; 54.4). Nós listaríamos mais passagens sobre esses aspectos teológicos, mas você já pegou a ideia.
Históricas: O Antigo Testamento está cheio de ponderosas matriarcas que foram altamente valorizadas e exerceram grande influência. O testemunho dos autores do Antigo Testamento revelam uma perspectiva que dificilmente pode ser chamada de misógina. Considere a seguinte lista para os iniciantes: Sara, Hagar, Rebeca, Raquel, Lea e Tamar (todas em Gênesis); as parteiras hebraicas Sifrá e Puá (Ex. 1); as princesas Egípcias (Ex. 2); Miriam e as sete filhas de Jetro, incluindo Zípora, esposa de Moisés (Ex. 2. 4, 15); as filhas de Zelofeade (Nm. 27); Débora, Rute, Noemi, Abigail e Bateseba (Jz. 4-5; Rt. 1-4; I Sm. 25; I Rs. 1-2); e não vamos esquecer a excelente mulher de Provérbios 31. Essas mulheres fortes se adiantaram e exerceram influência com os melhores homens.
Legais: As leis morais e cerimoniais de Israel presumiram que as mulheres eram não somente iguais, mas também repartiam responsabilidade moral com os homens. Um autor escreve que o sistema de lei dos rituais de impureza de Israel é “bastante equilibrado em seu tratamento com o gênero”.[2] Alguns podem usar subterfúgios com a impureza cerimonial da menstruação que obviamente afeta a mulher e não o homem. Mas, como veremos, o homem tem as suas próprias questões! E as leis de purificação também são endereçadas a eles (e.g., Lv. 15.16-18, 32; 22.4; Dt. 23.10).
Os aspectos morais – não somente os cerimoniais – da lei levítica que tratam o incesto e o adultério (e.g., Lv. 18,20) são aplicados aos homens e mulheres sem distinção. De fato, aquelas declarações de que cometer adultério com a esposa do próximo era uma “ofensa contra a propriedade” em Israel estão incorretas. Ambos, homens e mulheres podiam ser colocados à morte por adultério, mas, ao contrário do Código de Hamurábi, a lei do Antigo Testamento nunca requer a pena de morte por ofensa contra a propriedade.[3]
Textos que (alegadamente) promovem a inferioridade feminina
Agora, é hora de olhar aquelas passagens potencialmente embaraçosas que menosprezam as mulheres.
O Julgamento do Ciúme: Números 5
Vamos sumarizar o tema desse texto. Se um homem suspeitou que sua esposa adulterou, ele a traria diante do Sacerdote para a acusar. Nesse caso, duas ou três testemunhas não estavam disponíveis (Dt. 17.6-7); a única “testemunha” era a suspeição do marido que sua esposa o traiu. Críticos acusam que essa seria uma prova terrível: o abdômen da mulher traidora iria inchar e sua coxa iria murchar depois de beber a “água da amargura”. Os críticos levantam a questão, “por que a mulher não poderia trazer seu esposo diante do Sacerdote se ela suspeitasse que ele fosse culpado de adultério?”
Como se vê, os críticos escolheram um texto pobre para ilustrar a opressão da mulher. Por um lado, considere o contexto que nos dá toda a razão para pensar que essa lei era aplicada ao homem também. Antes e depois dessa passagem, a legislação diz respeito a ambos, homens e mulheres: “Israelitas” (Nm. 5.2 NVI), “homem ou mulher” (Nm. 5.6), “um homem ou uma mulher” (Nm. 6.2). Não era somente prerrogativa do marido chamar esse tribunal especial; a esposa podia também.
Segundo, essa corte sacerdotal era arranjada na verdade para proteção e defesa da mulher, não para humilhá-las diante dos maridos ciumentos ou turbas preconceituosas. A lei protegia a mulher da ira do marido violento ou do tratamento arbitrário do divórcio, para se livrar de sua esposa levianamente.[4] E se acontecia da mulher ser culpada, então, ela tinha toda a razão de ficar aterrorizada por um sinal sobrenatural afetando o seu corpo. De fato, como as mortes de Ananias e Safira na igreja primitiva (Atos 5), os Israelitas tinha uma advertência preocupante com respeito a atitude de Deus concernente o adultério.
Alguns críticos têm comparado esse evento com “O Rio da Provação” praticado nas culturas antigas do Oriente Próximo (Babilônia, Assíria, Suméria). Como isso funcionava? Quando a evidência criminal era inconclusiva, o acusado era jogado dentro de um poço de betume – isto é, um petróleo natural, piche comumente usado como um selante e adesivo e como argamassa para tijolos. Na Suméria, esse “rio” de piche era a morada da identidade de deus (que significa “rio”). Às vezes esses “puladores” ou “mergulhadores” que foram “dentro de deus” foram envolvidos pelo liquido e seus fumos tóxicos; a maioria sobrevivia (eles foram “cuspidos” pelo rio de deus), mas ainda era um pesadelo a suportar. Se alguém era subjugado pelo “rio”, ele era culpado, desde que sua morte era o “julgamento” do rio de deus. Se ele sobrevivesse, ele era inocente e o acusador era culpado de fazer falsas acusações.[5]
Ainda que exista uma grande diferença entre esta “prova” e Números 5, a prova do rio era o tratamento geral para evidência criminal inconclusiva em todos os sentidos. No entanto, na lei Mosaica, a acusação não seria estabelecida a menos que duas ou três testemunhas estivessem disponíveis; do contrário, o lado acusador não tinha um fato – fim da história. (No julgamento singular de ciúmes em Números 5, embora as testemunhas não estivessem disponíveis, é compreensível que algumas pistas podem alertar um marido ou uma esposa a algo suspeito que esteja acontecendo com o cônjuge – comportamento estranho, reações irracionais, freando-se em suores súbitos, ou simplesmente, a crença do marido de que ele não estava envolvido na concepção de um filho na sua esposa).
Segundo, se o acusado não pudesse nadar e sair do piche, ele pareceria culpado mesmo se ele fosse inocente! Não é assim, se uma esposa Israelita (ou marido) fosse falsamente acusada. Um sinal revelador sobrenatural era providenciado para provar a culpa. Terceiro, a prova do rio assumia a culpa até que a inocência fosse provada; no tribunal do ciúme, a corte assumia a inocência, a menos que o culpado fosse exposto por um milagre divinamente revelado.
Impureza no nascimento: Levítico 12.1-8
Alguns declaram que esta passagem implica em inferioridade feminina: a mulher é impura cerimonialmente por 40 dias (7+33 dias) após dar a luz a um garoto, porém 80 dias (14+66 dias) após dar a luz a uma garota. Certamente, isso revela um status social inferior para as mulheres.
Novamente, não tão rápido! Várias explicações sensíveis foram propostas. Alguns estudiosos argumentam que mais dias para a fêmea, na verdade indica um tipo de proteção das fêmeas ao invés de sinal de inferioridade. Outros sugerem que o motivo pode ser preservar a singularidade religiosa de Israel em oposição à religião Canaanita, em que as fêmeas estavam envolvidas nos ritos sexuais religiosos em seus templos.
Em geral, a longa separação da mãe Judaica do tabernáculo (ou templo) após dar a luz a uma menina, produziu uma declaração teológica e ética. No politeísmo do antigo Oriente Próximo, a forte ênfase era sobre os ritos de fertilidade, prostituição cúltica e a dramatização do nascimento de deuses e divindades. A distância entre o evento do nascimento e a adoração no templo – especialmente com bebês meninas – era cuidadosamente mantida.
Outra explicação plausível enfoca a fonte natural de impureza – a saber, o fluxo de sangue. O verso 5 se refere à razão: por causa do “sangue de sua purificação”. A experiência vaginal da mãe com a hemorragia no nascimento. Ainda, tal hemorragia vaginal é comum nas meninas recém nascidas também, devido à retirada do estrogênio da mãe quando a bebê sai do ventre da mãe. Então nós temos duas fontes de impureza ritual com o nascimento de uma menina, mas somente uma com o nascimento de um menino.
Note também que quando o tempo da purificação é terminado, se “por um filho ou uma filha”, a mãe tem que trazer a oferta idêntica (seja um cordeiro, pombo ou uma rola); isto é uma oferta de purificação (12. 6) – não tecnicamente uma oferta de pecado – e seu propósito é retirar a impureza ritual (não moral).[6]
O casamento pelo Levirato: Deuteronômio 25. 5-10
Se um homem morrer sem um filho para continuar o nome da família, então, seu irmão solteiro poderá se casar com a viúva a fim de manter o nome da família. Legalmente, o primeiro filho nascido dessa união era oficialmente o filho do marido morto. Desde que o primeiro marido estivesse morto, isso não era considerado incesto (relações sexuais com um parente). O termo levirato vem da palavra latina para “irmão do marido” ou “cunhado”, levir. Esta legislação soa completamente estranha aos ouvidos modernos e certamente reflete o pano de fundo patriarcal. Uma prática similar era conduzida pelos hititas. Suas leis declaravam que se um homem tivesse uma esposa e morresse, seu irmão deve tomar a viúva como esposa.[7]
Enquanto o casamento por meio do levirato era uma disposição admitidamente patriarcal, nós devemos manter certas coisas em mente. Primeiro, se a viúva casar com o irmão do marido morto, isso ajudaria a manter a propriedade da viúva (que ela pode ter trazido ao casamento) dentro da família. Casando fora da família significa correr o risco de perder os bens.[8] Segundo, embora o homem pudesse recusar isso era desencorajado. E se ele recusar a consentir, a própria viúva poderia exercer seu papel e seus direitos na vergonhosa “cerimônia da sandália”. Então, a viúva tinha certa vantagem natural nesse acordo.
É instrutivo colocar esse cenário do levirato próximo da história das filhas de Zelofeade (Nm. 27.1-11). No antigo Oriente Próximo, existiam as leis patriarcais de primogenitura – o direito do primogênito de receber propriedade e herdar a liderança da família do pai. Deuteronômio 21.17 revela que isso significa uma dupla porção para o primogênito sobre seus irmãos. Ainda, a primogenitura é sutilmente anulada em vários pontos do Antigo Testamento. Embora a legislação Mosaica operasse dentro das estruturas patriarcais do antigo Oriente Próximo, o Antigo Testamento revela certo dinamismo e abertura a mudanças. As filhas do falecido sem filhos, Zelofeade, apelaram a Moisés com respeito às leis de herança que favoreciam os homens. A luz das circunstâncias particulares das mulheres, Moisés colocou esse assunto diante de Deus e os apelos das filhas foram garantidos.
Quando humanos procuram mudar estruturas sociais a luz de uma visão moral mais profunda e uma determinação para se mover em direção ao ideal, nós testemunhamos uma adaptação das estruturas do antigo Oriente Próximo. Mesmo mais cedo, no Antigo Testamento, várias narrativas atacam sutilmente o acordo da primogenitura; o jovem regularmente substitui o mais velho: Abel sobre Caim, Isaac sobre Ismael, Jacó sobre Esaú, José/Judá sobre Rubem.[9] Esta amostragem bíblica revela uma ética revolucionária e mais democrática; embora não ideal isso é uma melhora drástica sobre outras leis antigas do Oriente Próximo.[10]
A esposa do seu próximo: Êxodo 20. 17
“Não cobiçarás” é o décimo mandamento. Ele proíbe desejar o que legitimamente pertence a outro. O que incluía nessa proibição? A casa do próximo, esposa, servos machos ou fêmeas, gado, jumento, e “nada que pertence ao seu próximo”. Os críticos se queixam que a esposa é desfavoravelmente e inapropriadamente vista como uma propriedade – na mesma categoria da casa, gado ou jumento do seu próximo!
Um grande problema: somente alguns mandamentos antes (Ex. 20.12), os filhos são comandados a dar a sua mãe honra igual a do pai. A mãe era para ter autoridade igual sobre seus filhos (confira a sequência de versos citados antes neste capítulo). Outro grande problema: a mulher em Israel não era item comercializável como casas, bois e jumentos. Um fato ainda mais revelador é que em outras culturas no antigo Oriente Próximo, a mãe estava com freqüência sob o controle do filho.[11] Ainda, as leis Mosaicas apresentam um impressionante contraste a este respeito. Levítico 19. 3 comanda o filho reverenciar a mãe e o pai juntos – e a mãe é até mesmo listada primeiro.
Nenhuma sacerdotisa feminina?
Porque a mulher não podia participar no sacerdócio? Porque era restrito apenas aos homens? Muitos críticos têm algo contra esse clube religioso masculino exclusivo. Mas se você pensar sobre isso, a maioria dos israelitas homens foram excluídos também! Os sacerdotes tinham que ser da tribo de Levi e da linhagem de Arão; também, os homens não israelitas não eram permitidos ser sacerdotes.
Mas não é como se pensava do Antigo Testamento, que colocava automaticamente as mulheres e o sacerdócio em categorias opostas. A Bíblia fala abundantemente sobre sacerdotes mulheres. Lá atrás, no Gênesis, a própria Eva teve uma função sacerdotal no jardim do Éden; estudiosos bíblicos vêem esse local como um santuário que prefigurava o tabernáculo (cf. Gn. 2.12). Ambos, Adão e Eva realizaram obrigações sacerdotais de adoração e serviço a Deus que andaria e conversaria com eles (Gn. 2.15; 3.8).
Mais tarde, o sacerdócio foi estendido à nação inteira de Israel – homens e mulheres. Deus desejou que todos os israelitas se aproximassem dele como um “Reino de Sacerdotes” (Ex. 19.6). No entanto, eles recusaram subir a montanha; então, Moisés foi no lugar deles (20.19,21). Como resultado, um sacerdócio masculino oficial foi formado para funcionar dentro da estrutura do tabernáculo/templo.[12]
Então, ter sacerdotisas não é inerentemente problemático e não bíblico. De fato, o Novo Testamento reafirma isso: com a morte e ressurreição de Jesus, um novo Israel – a igreja – foi criada; ela é um sacerdócio santo e um reino de sacerdotes que oferecem sacrifícios espirituais a Deus (I Pedro 2.5, 9; Ap. 1.6; 5.10; 20.6).
Porque então nenhuma mulher no templo/tabernáculo no Antigo Testamento? A razão é esta: prevenir a contaminação da adoração pura em Israel. Nas religiões do antigo Oriente próximo, os próprios deuses (e divindades) participavam em atos de sexo grotesco. Eles estavam envolvidos em incesto (e.g., Baal com a sua irmã Anat). Eles participavam em bestialidade (e.g., Baal tendo sexo com uma novilha que deu a luz a um filho). E eles estavam envolvidos em seduções e orgias sexuais. E tudo isso sem um pingo de condenação![13]
As religiões do antigo Oriente Próximo incluíam comumente rituais do culto a fertilidade, adoração às deusas e sacerdotisas (que servia como a esposa de deus). Prostitutas do templo existiam em abundância e a imoralidade sexual era conduzida em nome da religião. Ter sexo com a sacerdotisa significava união com a divindade que a pessoa adorava. De fato, sexo com a prostituta do templo induziria Baal e sua consorte Aserá a ter sexo no céu, que em retorno resultaria em fertilidade em tudo a volta – mais filhos, mais gado, mais colheita. O sexo era deificado em Canaã e em outras culturas no antigo Oriente Próximo. O adultério era uma coisa boa tanto quanto o sexo era “religioso”.[14] Se nós nos tornamos no que nós adoramos, então não é surpreendente que a religião e a sociedade Canaanita se corromperam pelo “sexo sagrado”. Portanto, a prostituição cultual, tanto masculina quanto feminina, foi proibida (cf. Gn. 38.15, 22-30; Dt. 23. 18-19; também Oséias 4.14). Não era para Israel imitar as nações cujas deidades estavam envolvidas em imoralidade sexual.
Essas religiões eram tolerantes? Sim, de todas as formas erradas! Dos deuses para baixo, todos os tipos de desvios sexuais eram tolerados, mas em detrimento da sociedade e da família. De fato, muitos códigos legais no antigo Oriente Próximo permitiam atividades que minavam a integridade e a estabilidade da família. Por exemplo, os homens eram permitidos se envolver em relacionamentos adúlteros com escravas e prostitutas. As leis de Lipit-Ishtar da baixa mesopotâmia (1930 a.C.) garantiram a prática da prostituição.[15] Na lei Hitita (1650-1500 a.C.), está escrito “se um pai e um filho dormir com a mesma mulher escrava ou prostituta, isso não é uma ofensa”.[16] Como por um lado, a lei Hitita até mesmo permitia a bestialidade: “Se um homem tem relações sexuais ou com um cavalo ou com uma mula, isso não é uma ofensa”.[17]
A lei de Moisés procurou prevenir os Israelitas de glorificar o adultério (ou pior) em nome da devoção religiosa. Mantendo um sacerdócio todo masculino ajudou a criar esse tipo de religião distintiva tanto quanto preservou a santidade do casamento. Isso não era um golpe contra a mulher. Isso era uma forma de preservar a pureza religiosa e a santificação do sexo dentro do casamento.
Mantenha em mente que em Israel, os sacerdotes carregavam três tipos de obrigações:
1. Ensino, jurídico, administrativo;
2. Profético (e.g., discernindo a vontade de Deus por meio do lançamento de sorte, conhecido como o Urim e o Tumim);
3. Cúltico (cerimônias religiosas/rituais).
No Israel do Antigo Testamento, mulheres como Miriam (Ex. 15.20), Débora (Jz. 4-5, especialmente 4.4) e Hulda (2 Reis 22.14) realizaram as duas primeiras funções como professoras, juízas e profetizas. A terceira área era proibida as mulheres – e a maioria dos outros homens. De fato, até mesmo os reis de Israel não podiam conduzir várias obrigações no culto (2 Cr. 26.16-21). Então, enquanto o patriarcalismo foi incorporado nas atitudes dos Israelitas, isso não era o que o que preservava a mulher de ser sacerdotisa; isso era um assunto da identidade religiosa de Israel e do bem estar moral.
Nós poderíamos cobrir mais território do que esse, mas estamos esperançosos que estas respostas aos argumentos dos críticos ajudem a colocar essas passagens no contexto – e colocar essa disputa para repousar um pouco.
Tradução: Walson Sales
Fonte:
COPAN, Paul. Is God a Moral Monster? Making sense of The Old Testament God. Grand Rapids, MI: Baker Books, 2011, pp. 101-109
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Notas
[1] Muito do material desse capítulo é tomado do livro de Richard M. Davidson, Flame of Yahweh: Sexuality in the Old Testament (Peabody, MA: Hendrickson, 2007).
[2] Jonathan Klawans, Impurity and Sin in Ancient Judaism (New York: Oxford University Press, 2000), 39.
[3] Daniel I.Block, “Marriage and Family in Ancient Israel”, in Marriage and Family in the Biblical World, ed. Ken M. Campbell (Downers Grove, IL: InterVarsity, 2003), 63.
[4] John Goldingay, Old Testament Theology: Israel’s Life, Vol. 3 (Downers Grove, IL: InterVarsity, 2009), 376.
[5] D. Hollander and M. Schwartz, “Annealing, Distilling, Recheating, and Recycling: Bitumen Processing in the Ancient Near East”, Paléorient 26, n. 2 (2000): 83-91; and Wolfgang Heimpel, ed., Letters to the King of Mari: A New Translation, with Historical Introduction, Notes and Comentary (Winona Lake, IN: Eisenbrauns, 2003), 272-75.
[6] Davidson, Flame of Yahweh, 327.
[7] Hittite Laws §193. Um belo sumário sobre os crimes as punições relacionados às mulheres é Elisabeth Meier Tetlow, Women, Crime, and Punishment in Ancient Law and Society, Vol. 1, The Ancient Near East (New York: Continuum, 2004).
[8] J. G. McComville, Deuteronomy, Apollos Old Testament Commentary (Doeners Grove, IL: InterVarsity, 2002), 369.
[9] Robin Parry, Old Testament Story and Christian Ethics: The Rape of Dinah as a Case Study (Bletchley, UK: Paternoster, 2004), 68.
[10] Gordon McComville, “Old Testament Laws and Canonical Intentionality, 1992), 51-59.
[11] Davidson, Flame of Yahweh, 250.
[12] John Sailhamer, The Pentateuch as Narrative (Grand Rapids: Zondervan, 1992), 51-59.
[13] Entre os Hititas, bestialidade com certos animais tornavam uma pessoa apenas ritualmente impura. Veja Westbrook, History of Ancient Near Eastern Law, 1.648-49.
[14] Veja Douglas K. Stuart, Exodus, New American Commentary 2 (Nashville: B & H Publishing, 2008), 450-54; and Clay Jones, “Why We Don’t Hate Sin so We Don’t Understand What Happened to the Canaanites: An Addendun to ‘Divine Genocide’ Arguments”, Philosophia Christi n.s. 11 (2009): 53-72.
[15] Laws of Lipit-Ishtar §§27, 30.
[16] Hittite Laws §194.
[17] Hittite Laws § 200a. Estranhamente, a lei Hitita não permitia relações sexuais com uma vaca ou ovelha, porco ou cachorro (§§187-88, 199).
Texto publicado no CACP.
Livro publicado pela Editora Sal Cultural.