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sábado, 10 de abril de 2021

A FALÁCIA GNÓSTICA E O EVANGELHO DE JESUS CRISTO.


POR LEONARDO MELO.


INTRODUÇÃO.


Desde os primeiros séculos de existência da Igreja, os falsos mestres e hereges sempre surgiram como obstáculos a serem superados pela Igreja de Cristo. Assim como Jesus, o apóstolo Paulo ensinou sobre falsos evangelhos que surgiriam ao longo da existência da Igreja, conforme, Mateus 24.4-5,11; Marcos 13.5-6, Lucas 22.8;II Coríntios 11.4; Gálatas 1.8-9;  I Timóteo 4.1-2; II Timóteo 3.1-9; II Pedro 2.1-3; Judas 4,10,12-13 O próprio apóstolo Paulo falando sobre os hereges à Igreja grega em Corinto admite a existência deles e exorta que em certa medida é salutar a existência deles para a Igreja, pois, eles[os hereges] serviriam de referencial para a justificação da verdade, e seriam descobertas suas mentiras, I Coríntios 11.19 [E até importa que haja entre vós heresias, para que os que são sinceros se manifestem entre vós]. Então, os ensinos heréticos iriam servir   como parâmetro afim de separar a mentira da verdade.   Os hereges sempre tiveram uma capacidade inquestionável de se multiplicarem, sejam em números de membros sejam em provocar cisão entre sí, criando novas perspectivas doutrinárias, porém, com a mesma proposta inicial. Não é uma lei, mas as seitas invariavelmente sofrem rupturas e são criados novos grupos heréticos, mas que não deixam seu objetivo primordial que é pregar suas mentiras e enganos sobre Jesus e o Evangelho. 


Os temas ligados ao  gnosticismo tem  atualmente  avançado com outras abordagens filosóficas e religiosas e em certa medida  tem  influenciado várias Igrejas cristãs e seus líderes.


Dentre aqueles que defendiam e apoiavam o  gnosticismos não houve um consenso quanto a sua doutrina. Vários pensadores gnósticos tinha seu entendimento próprio e dessa forma surgiram várias correntes gnósticas, isto é, ao longo dos anos floresceram várias concepções e sistemas gnósticos que possuíam sua própria visão acerca do mal, de Jesus Cristo, da pobreza, do universo, enfim, cada uma delas apresentavam seus dogmas e doutrinas independentes, porém, algumas correntes eram apenas extensões ou ampliação dos pensamentos da outras. Havia o gnosticismo sírio, o egípcio, o judaizante e o pôntico, o gnosticismo cristão dentre outra correntes gnóstica.


AS VARIANTES GNÓSTICAS E SUA CONCEPÇÃO SOBRE  JESUS CRISTO.


A data acerca do início do Gnosticismo é incerta e imprecisa. Alguns acreditam que ela nasceu como uma seita formada por um grupo de dissidentes do judaísmo. Outros creem que ele surge do meio cristão, todavia, os pais da Igreja acreditam que o gnosticismo apareceu no século I com Simão, o mágico de Samaria, conforme o Livro dos Atos dos Apóstolos, cap. 8 e segundo os pais da Igreja, Simão foi o primeiro gnóstico. A fim de justificar o surgimento do gnosticismo a partir do judaísmo,  alguns autores citam dois documentos: O Apocalipse de Adão e  A Paráfrase de Sem, que teriam influência gnósticas e surgiram dentro do Judaísmo. No entendimento de ALTANER & STUIBER[2010]: “Na verdade a origem exata do gnosticismo como fenômeno genérico, não foi plenamente elucidada, apesar das minuciosas e perseverantes  pesquisas a respeito da procedência de seus diversos elementos constitutivos, nos ambientes babilônico-astrológico, , Iraniano, egípcio, judaico tardio, helenista e cristão. Há quem considere o gnosticismo  uma transformação sincretista do Cristianismo, outros opinam por uma gnose pré-cristã, proveniente do judaísmo heterodoxo ou do mundo do helenismo  tão fortemente diferenciado  em sua estruturação, atingindo o máximo  de energia e expressão  apenas no Cristianismo do séc. II.


O que se deixa transparecer através dos pais da Igreja em seus escritos, é que  a partir dos séculos II a IV, conforme, Agostinho, Justino Martir, Irineu de Lião dentre outros, é que o gnosticismo exerceu uma pressão considerável de fora para dentro sobre a Igreja. Eles procuravam primordialmente negar as verdades contidas nas Sagradas Escrituras acerca de Jesus e sua Palavra, doutrina esta ensinada pelos pais apostólicos que tiveram que refutar os ensinos dos hereges. Na verdade, Deus levantou vários apologistas  a partir do séc. II contra esta heresia, além dos mencionados anteriormente: Agripa Castor escreveu contra Basilides,; Filipe de Gortina, Modesto e Rhodon, discípulo de Taciano, originário da Ásia Menor, refutaram Marcião; Musano combateu os encratitas, segundo   Eusébio de Cesareia. Gnosticismo é uma  palavra de origem  grega que tem como raiz a palavra gnose[γνοσε], que significa “conhecimento”. Eles tem uma visão cosmológica dualista sobre o universo, o bem e o mal e suas influências sobre o homem e a religião. 


Segundo [GEISLER. 2017]: “ O livro de Irineu , “Contra as Heresias”, dá um tratamento extenso ao que os gnósticos acreditavam. Três códices gnósticos escritos em copta foram publicados. Dois foram descobertos em Nag-Hammadi, no Egito, em 1945. O Códice Askewi-nus, contém Pistis Sophia; Códice Brucianus contém o livro de Jéu. O mais conhecido entre os documentos  de Nag-Hammadi  é o evangelho de Tomé. Uma terceira obra desse período , Códice Berolinensis, foi encontrada em outra parte e publicada em 1955. Contém o evangelho de Maria[Magdalena], a Sofia de Jesus, Atos de Pedro e o Apócrifo de João. A primeira tradução  de um tratado, O Evangelho da Verdade apareceu em 1956, e uma tradução de 51 tratados, inclusive o Evangelho de Tomé, apareceu em 1977”. Havia vários sistemas gnósticos e cada um deles tinha suas bases doutrinárias conforme o pensamento do líder. No entendimento de, [SOARES. 2012] os principais sistemas gnósticos surgidos nos primeiros séculos da existência da Igreja,  séculos II e IV foram:


1.Gnosticismo Sírio. Saturmino era seu defensor, também conhecido como Sartunilo[120 d.C.]. ele ensinava que Jesus Cristo  não nasceu,  não teve  forma nem teve corpo, foi simplesmente visto de forma humana  em mera aparência. Segundo Saturmino, Cristo veio para destruir o Deus do Antigo Testamento e salvar os  que cressem nele. Esse representante da escola  Síria ensinava que o Deus dos judeus era apenas  um dos sete anjos. Seguia a linha de Meandro , o qual ensinava que tudo veio a existir mediante os anjos, e era o seu número sete.


2.Gnosticismo  Egípcio. 

Era o de Saturmino ampliado e desenvolvido por Basilides[130 a.C.], cuja essência foi transmitida  por Valentino de maneira  poética e popular em 140 d. C.. Basilides ensinava que  que Cristo era a mente de primogênita  do Pai Ingênito – o Deus dos judeus. Negava a crucificação de Cristo, dizia que Simão , o cirineu, transfigurou-se e foi equivocadamente  crucificado, e que o populacho o tomou por Jesus. Assim, sendo, Cristo apenas presenciou a crucificação de Simão, seu sósia.


3. Gnosticismo Judaizante. Era um gnosticismo muito parecido  com as doutrinas dos Ebionitas]Judeus cristãos que negavam a divindade de Cristo e rejeitavam  todos os  Evangelhos, exceto o de Mateus]. Cerinto,  o mentor dos judaizantes, teve ligações com os Ebionitas no final do primeiro século. Cerinto negava o nascimento virginal de Jesus Cristo. Segundo ele, Jesus foi concebido normalmente de José e Maria e a sua sabedoria e poderes sobrenaturais advieram-lhe do Espírito Santo, no seu batismo, perdendo tudo quando foi crucificado e voltando a condição original.


4. Gnosticismo Pôntico. 

Foi o desenvolvido por Marcião[falecido por volta de 165 d.C,], natural de Sinope, província do Ponto , na Ásia Menor. Transferiu-se para Roma em 135 d.C., e a partir daí passou a considerar o Deus de Israel mau e depois de muitas reflexões,  o considerou fraco. Segundo ele, o Senhor Jesus não era o Filho do Deus do A.T., e Cristo revelou-se em Deus até então desconhecido. Pregava Marcião que todos os cristãos deviam rejeitar as Escrituras Sagradas dos judeus e o Deus nelas reveladas. Selecionou para sí uma coleção de livros autorizados contendo as epístolas paulinas ]sem as pastorais  e mutiladas todas as passagens que revelam ser Cristo o Filho de Deus do Antigo Testamento], pois, segundo ele, somente Paulo entendeu o Evangelho de Cristo e os demais apóstolos caíram “no erro do judaísmo”. Ele incluiu no seu cânon o Evangelho de Lucas mutilando todas as passagens que afirmam que o Deus dos patriarcas Abraão,  Isaque e Jacó é o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo. Dentre os pais da Igreja, Irineu de Lião foi um dos  que combateram veementemente a heresia gnóstica. Sua obra “Adversus Haereses[Contra as Heresias], foi discípulo de Policarpo e este Do apóstolo João.


Os defensores do Gnosticismo são tão influenciados pelas trevas que tiveram a ousadia de associar esse movimento filosófico-religioso com o Cristianismo. E o movimento iniciado por Carpócrates de Alexandria de alguma forma tenta associar os ensinos do Evangelho e as cartas  paulinas a esse movimento herético. É fundado o Gnosticismo Carpocratis[cristão] em meados da metade do século II.


5. Gnosticismo carpocratis[cristão].  Carpocraciano é a denominação dada aos seguidores de um movimento cristão gnóstico do século II  que professava as doutrinas de Carpócrates de Alexandria. Epífanes, filho de Carpócrates e sua mulher Marcelina, organizaram a seita em Roma quando o  Papa Aniceto exercia seu pontificado. Rejeitavam o Antigo Testamento e defendiam que José é o pai carnal de Jesus. Em seu escopo doutrinário Defendiam a pré-existência das almas para explicar as imperfeições do homem e diziam que nosso fim supremo era nos unir a um ser superior, divino. Durante os cultos, os sacerdotes e sacerdotisas sujavam suas mãos de   excrementos e  durante as celebrações eles passavam as mãos uns nos outros, e entre os membros da seita, eles praticavam orgias entre sí. também durante o culto os sacerdotes e sacerdotisas rezavam nus e faziam sexo. Era considerada  uma seita libertina. Irineu de Lyon os acusou de praticar magia e os repreendeu duramente. São considerados hereges pela Igreja cristã.


É oportuno salientar o ponto de vista de ALTANER & STUIBER [2010] acerca das características do sistema gnóstico: “[...] entre as características do gnosticismo  se destacam tanto um dualismo absoluto de:  Deus-Mundo, Espírito-Matéria, Bem-Mal, , como ainda uma sequência  de emanações  do Deus transcendente e supremo, a se desdobrarem até o mundo ínfimo da matéria e do Mal. Também o homem foi implacavelmente  arrastado a luta entre a luz e as trevas, ou seja , pelo pendor á caducidade, do qual só pode ser salvo pelo conhecimento[Gnosis] das interdependências das coisas”.


Ao estudarmos sobre o gnosticismo percebemos facilmente como seus líderes tiveram suas mentes e corações perturbados e influenciadas por doutrinas de demônios. O apóstolo Paulo deixa isso bem claro, tanto em sua carta à Igreja de Corinto quanto ao escrever ao jovem pastor Timóteo, por exemplo: “Mas o Espírito expressamente diz que nos últimos tempos apostatarão alguns da fé, dando ouvidos a espíritos enganadores, e a doutrinas de demônios”; “Pela hipocrisia de homens que falam mentiras, tendo cauterizada a sua própria consciência”; I Timóteo 4.1-2. E hoje, alguns líderes eclesiásticos tem incorporado em suas pregações  sutilmente  elementos do gnosticismo. Paulo, o apóstolo João, Tertuliano, Irineu de Lião, foram os principais apologistas entre outros que mais combateram o gnosticismo em suas época. O Gnosticismo também tem influenciado o movimento filosófico-religioso Nova Era, e em   pregações de cunho positivista e de auto-ajuda de forma sutil, que se a audiência não estiver atenta e não conhecer a Palavra de Deus, certamente se deixará se seduzir  por muitos   pregadores que doutrinam os fieis com suas falácias gnósticas.  


Será razoável compreendermos que o Gnosticismo, evidencia a busca ao conhecimento ocultista, assim como, nega peremptoriamente a encarnação de Cristo, contrariamente do que afirma a Bíblia. É razoável citarmos o profeta Isaías ao falar profeticamente acerca do Messias [Jesus Cristo] : “Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu, e o principado está sobre os seus ombros, e se chamará o seu nome: Maravilhoso Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz”, Isaías 9.6, e esta verdade é confirmada pelo apóstolo João: “E o Verbo se fez Carne e habitou entre nós”, Jo. 1.1, e como em um efeito cascata negam a morte e a ressurreição de Cristo. Defendem um  dualismo filosófico-religioso que não tem respaldo nas Escrituras, trazendo da mitologia babilônica um confronto eterno entre o bem e o mal e a questão do elemento material do ser humano[carne, corpo] e o elemento imaterial[espírito], isto é,  entre outras heresias pregadas pelos gnósticos estar a assertiva que o mal estar entrelaçado a ignorância humana e  que  portanto a ação do mal na vida do homem leva a uma vida de fracasso, miséria espiritual e pobreza.  Logo, só os gnósticos tem um conhecimento superior e poucos tem o privilégio de possuir tal conhecimento, distinguindo-os assim da massa ignorante.


CONCLUSÃO


O Gnosticismo surgiu nos primórdios da Igreja, e muitos foram seduzidos pela suas falácias filosófico-religiosa. Atualmente algumas pregações feitas  por lideres eclesiásticos percebemos de maneira sutil a influência gnóstica nestes sermões. Vimos a interferência gnóstica em determinadas pregações pela inserção de elementos que compõem o sistema gnóstico, como a confissão positiva, o materialismo, a rejeição do mal, porém sugerindo que o bem sempre triunfará sobre o mal, e que o homem nasceu para ser abençoado e livre de enfermidades, enfim, pregações onde a influência gnóstica se faz conhecer. A influência gnóstica também é observada em alguns sistemas religiosos heréticos da antiguidade: Monarquianismo, Arianismo, Sabelianismo, e outros movimentos heréticos, todavia, essas práticas heréticas demoníacas que tentou-se introduzir na Igreja do Senhor Jesus, Paulo pelo Espírito Santo já advertia: “Porque, se alguém for pregar-vos outro Jesus que nós não temos pregado, ou se recebeis outro espírito que não recebestes, ou outro evangelho que não abraçastes, com razão o sofreríeis”, II Co. 11.4.


É debalde a luta pela verdade, desviando-se dela, pois, a verdade sempre irá prevalecer não importa quão duradouro seja o embate. Temos esse corolário advindo da Bíblia: “Porque nada podemos contra a verdade, senão pela verdade”, II Coríntios 13.8. É como o apóstolo Paulo exortou aos crentes em Colossos: “Tende cuidado, para que ninguém vos faça presa sua, por meio de filosofias e vãs sutilezas, segundo a tradição dos homens, segundo os rudimentos do mundo, e não segundo Cristo”, Cl. 2.8. Gigantes pós era apostólica foram levantados por Deus para combater essa heresia terrível que se alastrou no mundo religioso da época: Agostinho, Justino Martir, Tertuliano, Irineu de Lião, dentre outros que foram verdadeiros apologistas contra essa heresia. É incompatível o gnosticismo com o Cristianismo. Ambos se opõem diametralmente. Sobre Jesus Cristo, a Bíblia é bem clara ao se referir ao Filho de Deus. É Ele o Deus que encarnou, que na forma de homem cumpriu tudo o que lhe estava proposto. Os escritos Neo-Testamentário é bastante enfático ao discorrer sobre Jesus. Temos os seguintes textos bíblicos que confirmam essas assertivas: João 1.1; 1.14; 1.36; 9.35; 11.4;  13.31,  I João 4.15, 5.5; Marcos 1.1; Atos  13.32;  I Coríntios 1.9; II Coríntios 1.3;   Filipenses 2.6-11; 3.20-21; Colossenses 1.12-20, 26-27; 2.9, 15,


Percebemos anteriormente que vários textos confirmam a assertiva que Jesus é o Filho de Deus e o próprio Deus. Os sinóticos atestam esta verdade. As Escrituras Sagradas Neo-Testamentária não deixam dúvidas sobre a identidade de Jesus como Deus e o verdadeiro propósito do Filho de Deus ao vir a terra, tomar forma humana, morrer e ressuscitar ao terceiro dia. Jesus tomou seu cálice a fim de conceder liberdade ao homem. Não há registros nos anais da história universal de qualquer homem que exerceu o poder da liderança nos impérios, ou foi um guru religioso ou líder de uma religião e que  esteja vivo até os dias de hoje comandando seus súditos. Simplesmente não existe, porque o único que detém o poder sobre a vida e a morte é Deus, é Jesus Cristo: I Sm. 2.6; Sl. 30.3; 139.13-17; Ec. 8.8; Mt.  28.18;  Ef. 4.10; Fp. 2.10; Ap. 5.13,ss.


A morte e ressurreição de Jesus Cristo  denotam  sua  singularidade, pois, Ele foi e é o único que morreu, ressuscitou e estar vivo diante de Deus. Esse é o fundamento da fé dos cristãos. Seu líder supremo estar vivo. Sua ética e Teologia é muito mais elevada do que meros conceitos religiosos e filosóficos criados pelos homens, que em seu racionalismo cético vão caminhando para a perdição. A Bíblia é o Livro de Jesus. Conta sua origem e sua História. Ainda que os céticos, apóstatas e hereges preguem o contrário. Jesus é Senhor, Sumo-Sacerdote, Rei, Profeta, Messias, Salvador, Servo sofredor, o Filho do Homem e do Deus Vivo, Jesus é Deus!

domingo, 9 de agosto de 2020

CONTEÚDO DOUTRINAL DO GNOSTICISMO



A pesar da diversidade das correntes e seitas, o gnosticismo tem em comum o dualismo da matéria e do espírito como oposição eterna.  Este dualismo se traduz na concepção da ordem cósmica e moral, na luta do bem contra o mal, na queda da alma no corpo.  Em resumo, dois problemas intimamente ligados preocupam os gnósticos: a criação e o mal.  Se Deus é bom, como criou o mundo, de onde vem o mal? Se principais questões que a gnose pretendia resolver eram: 1. De onde procede o mal do mundo? 2. Como se originou a matéria? 3. Como se unem, no homem, matéria e espírito? 4. Como se liberta o espírito da matéria (problema da redenção) e volta para Deus?

Para responder a estas questões, criaram sistemas “audaciosos” e complicadíssimos.  De maneira breve e simples, pode-se dizer o seguinte: há um reino de luz, que é o Deus bom e o das trevas que é o da Matéria eterna.  Entre o Deus-Abismo e o organizador da Matéria, o Demiurgo, há um número incalculável de graduações, que chamam de Eões.  Estes, por sua vez, são as emanações superiores que participam dos atributos da essência divina, distribuídos em classes, A união dos Eões formava o Pleroma ou plenitude da Inteligência.  A emanação última, mais imperfeita, foi criadora.  Em outras palavras, o Demiurgo, criador deste nosso Deus-Abismo, ou o Demônio que arrebatara uma centelha mundo material era o último dos Eões, o mais afasta de 30 da Plenitude divina para com ela animar a matéria.  Tal é a origem do mundo, o que explica também a diversidade dos homens.  Estes, segundo os gnósticos, estão divididos três classes ou categorias: os hílicos, são os pagãos, os materiais.  Estes serão eliminados com a matéria; os psíquicos ou anímicos, são os cristãos ordinários, em quem a Matéria e o Espírito estão equilibrados mais ou menos.  Estes gozarão uma felicidade de segunda classe, intermediária; por fim, OS espirituais ou gnósticos, os instruídos, em quem a matéria é dominada totalmente pelo Espírito de Deus.

Aplicando o próprio sistema à fé cristã, os gnósticos fazem de Cristo um Eão superior, um Nõus (Inteligência-Logos) enviado por Deus para revelar aos homens o Deus supremo e verdadeiro até então desconhecido e lhes ensinar como superar a matéria.  Esse Eão apoderou-se de Jesus de Nazaré no momento em que foi batizado no Jordão.  Daí por diante sua mente se iluminou e compreendeu que sua missão era levar aos homens a verdadeira gnose, isto é, o verdadeiro conhecimento que é o Evangelho, para libertar os homens da matéria.  Assim, operou a redenção.  Quando o Evangelho completar sua obra na terra, todas as parcelas do espírito divino, aprisionadas na matéria, voltarão à Plenitude do Deus-Pleroma.

Os gnósticos distinguem, portanto, nitidamente, dois mundos: o mundo material, mau, e o mundo espiritual, bom.  Os homens possuem um elemento material, o corpo, a carne, e um elemento espiritual, a alma, que constitui o homem verdadeiro, autêntico.  Só este recebe o apelo para a salvação, ou seja, só o espírito é elemento de salvação.  A redenção consiste em sair deste mundo material, mau, à destruição, e voltar ao mundo espiritual do Pai.  Portanto, a salvação está assegurada somente aos “espirituais” gnósticos, aqueles que têm, em si mesmos, a centelha divina originária.  Esta centelha é despertada por um processo de conhecimento através da revelação feita ao espírito, através do qual a alma do gnóstico toma consciência da sua verdadeira natureza: sufocada pela matéria, aspira libertar-se dos liames do corpo e do mundo material.

Esta concepção de redenção parece conter uma contradição com o princípio escatológico por eles mesmos assentado, segundo o qual, tudo há de terminar com uma reconciliação geral de tudo (apocatástase panton), isto é, com o retorno todas as coisas ao lugar correspondente à sua natureza, ou devolução das coisas a seus estados primitivos.  Assim, negavam a ressurreição da carne; o inferno e o céu deixavam de ser lugares de recompensa ou castigo.

Ireneu de Lião esforçar-se-á em dizer que a salvação não consiste em fazer os homens saírem deste mundo para atingir um mundo espiritual, mas na vinda de Deus a este mundo para habitar entre os homens.

O gnosticismo é, portanto, uma doutrina religioso-filosófica marcada por um dualismo acentuado em que a matéria é desprezível.  Quanto a isso, deve muito de sua fundamentação filosófica ao platonismo.  Em Enéade I,8.14, Plotino escreve que a “matéria é a causa da debilidade da alma e de sua disposição viciosa. Ela é o mal, ou melhor, o mal original” (protonkakon).  Afasta, o quanto possível, o Deus supremo, bom, do contato com a matéria.  Entre o mundo visível, material, e o Deus supremo imaginam intermediários numerosíssimos, por meio dos quais chega até nós a ação divina, descendo de grau em grau.  Do mesmo modo, por seu meio, a alma pode, de grau em grau, se elevar até o Deus supremo.

Não admitindo que o espírito divino se una à matéria, gnosticismo nega toda a possibilidade de encarnação.  A humanidade de Cristo-Logos é uma humanidade tomada às pressas, sobre a qual desce em forma de pomba no momento do batismo do homem Jesus de Nazaré e abandonando-a antes da paixão.

Resumindo: a gnose é uma revelação e uma doutrina de salvação.  Ela ensina a alma a se libertar do mundo material, onde está prisioneira, e a sair para o mundo espiritual e luminoso, de onde caiu.  Esta libertação se efetuará por meio de uma revelação (conhecimento) celeste acompanhada, frequentemente, por fórmulas e ritos mágicos.  Nem todos podem participar da gnose.  Ela é reservada só aos iniciados, e aí parecia residir sua fortíssima atração.

Extraído do Livro: Histórias das Heresias (séculos I-VII) de Roque Frangiotti, pp. 33-36.

Por Nivaldo Gomes.

sábado, 4 de julho de 2020

O GNOSTICISMO

By Justo L. González

De todas as diversas interpretações do cristianismo que apareceram no século II, nenhuma foi tão perigosa, nem esteve tão perto de triunfar, corno o gnosticismo. Este não foi um grupo ou uma organização compacta que surgiu diante da igreja, mas foi, antes de tudo, um movimento que existiu tanto dentro do cristianismo como fora dele e que, dentro do cristianismo, tratava de reinterpretar a fé em termos inaceitáveis para os demais cristãos. Como movimento, o gnosticismo foi sempre amorfo, o que tomava impossível assinalar um chefe. Basílides, Valentino e outros foram mestres gnósticos, cada qual com suas doutrinas e seus discípulos. Mas o sincretismo do gnosticismo era tal que suas doutrinas e escolas se confundiam, e no dia de hoje é bem difícil ao historiador distinguir entre elas.

O termo “gnosticismo” vem da palavra grega “gnosis”, que quer dizer “conhecimento”. Segundo os gnósticos, sua doutrina era um conhecimento especial, reservado para quem possuísse verdadeiro entendimento. Além disso, parte dessa doutrina consistia na chave secreta mediante a qual se alcança a salvação.

A salvação era a preocupação principal dos gnósticos. Baseados em muitas doutrinas que circulavam nessa época, os gnósticos criam que tudo o que fosse matéria era necessariamente mau. O ser humano, segundo eles, é um espírito eterno que, dc algum modo, ficou encarcerado neste corpo. Já que o corpo é cárcere do espirito, e já que oculta a nossa verdadeira natureza, o corpo é mau. O propósito último do gnóstico é, então, escapar deste corpo e deste mundo material no qual estamos como que exilados.

A imaginação do exílio é fundamental para o gnosticismo. Este mundo não é o nosso verdadeiro lar. Ainda mais, este mundo, como o corpo, é material, e não é senão um cárcere para o espírito e um obstáculo para a salvação.

Como explicar, então, a origem do mundo e do corpo? Os gnósticos afirmam que originalmente toda a realidade era espiritual. O Ser Supremo não tinha intenção alguma de criar um mundo material, mas apenas um mundo espiritual. Com esse propósito, foram criados vários seres espirituais. Cada mestre gnóstico oferecia uma lista distinta de tais seres, e alguns chegavam até 365 seres distintos. Em todo caso, um desses seres espirituais, distante do ser supremo, foi o causador deste mundo. Segundo alguns gnósticos, o que sucedeu foi que Sofia ou Sabedoria — assim se chamava aquele ser espiritual quis produzir algo por si só, e o resultado foi um “aborto”. Esse é o nosso mundo: um aborto do espírito, e não uma criação de Deus.

Mas — continuam os gnósticos — já que este mundo foi criado por um ser espiritual, ficaram nele algumas “centelhas” ou “faíscas" do espírito. Esses elementos espirituais são os que estão encerrados dentro dos corpos humanos, e que é necessário libertar.

A fim de chegar a essa libertação, é necessário que venha um mensageiro do reino espiritual. A função desse mensageiro consiste antes de tudo em despertar-nos de nosso “sono”. Nossos espíritos estão “adormecidos” dentro de nossos corpos deixando-se levar pelos impulsos e as paixões do corpo, c é necessário que alguém venha de fora para nos despertar e recordar quem somos, incitando-nos assim a lutar contra nosso encarceramento. Além disso, esse mensageiro deve nos dar outra informação (gnosis) necessária para nossa libertação. Acima da terra encontram se as esferas celestiais. Cada uma delas é governada por um poder maligno, cuja função consiste em nos manter prisioneiros. Para chegar ao reino puramente espiritual, temos de atravessar essas esferas. E o único modo de fazê-lo é possuindo o conhecimento secreto que nos abrirá as portas a cada passo, algo como um santo e uma senha sem os quais o caminho nos será vedado. O mensageiro celestial foi enviado então para nos comunicar esse conhecimento secreto, sem o qual não há salvação.

No gnosticismo cristão — também havia gnósticos fora do cristianismo — esse mensageiro é Cristo. Segundo os gnósticos cristãos, o que Cristo fez foi vir à terra para nos recordar de nossa origem celestial e para nos dar o conhecimento secreto sem o qual não poderemos regressar às moradas espirituais.

Já que Cristo é um mensageiro celestial, e já que o corpo e a matéria são maus, a maioria dos gnósticos cristãos pensava que Cristo não podia ter tido um corpo como o nosso. Alguns diziam que seu corpo era pura aparência, uma espécie de fantasma que parecia ter corpo físico por meios milagrosos. Outros diziam que tinha corpo, mas que esse corpo era feito de uma “matéria espiritual” distinta do nosso corpo. A maioria negava o nascimento de Jesus, pois tal nascimento o havia colocado sob o poder deste mundo material. Essas doutrinas acerca do Salvador recebem o nome de “docetismo” — de uma palavra grega que quer dizer “aparentar”, pois o que essas doutrinas implicam, de um modo ou de outro, era que o corpo de Jesus era uma aparência.

Segundo os gnósticos, nem todos os seres humanos têm espírito. Alguns são apenas seres carnais; em razão disso, estão irremediavelmente condenados à destruição quando este mundo físico for destruído. Quanto aos espíritos encarcerados dentro dos “espirituais”, no final serão salvos, porque sua natureza é espiritual e necessariamente tem de voltar para o reino do espírito.

Porém, nesse ínterim, como viveremos aqui nesta vida? Diante dessa pergunta, os gnósticos respondiam de dois modos distintos. A maioria dizia que, já que o corpo é o cárcere do espírito, o que temos de fazer é castigar o corpo, para debilitar seu poder sobre o espírito, e para que suas paixões não nos arrastem. Outros, em troca, sustentavam que, já que o espírito é por natureza bom, e nada pode destruí-lo, o que devemos fazer é dar liberdade total ao corpo e a suas paixões. Em consequência, enquanto alguns gnósticos advogavam ascetismo extremo, outros praticavam a libertinagem.

Durante o século II, o gnosticismo foi séria ameaça para o cristianismo. Os principais dirigentes da igreja se opuseram tenazmente a ele, porque viam nele uma negação de várias das principais doutrinas cristãs: a criação, a encarnação, a ressurreição etc. Mais adiante veremos como a igreja respondeu ante essa ameaça. Antes devemos prestar atenção a outro mestre cujos ensinos, semelhantes ao gnosticismo, constituíram também uma ameaça para o “depósito da fé”.

Extraído do Livro: História Ilustrada do Cristianismo (A Era dos Mártires até a Era dos Sonhos Frustrados. Vol. 1, 2011, pp. 64,65.  (Justo L. González)

Via Nivaldo Gomes.

SALVAÇÃO PELO CONHECIMENTO

Quando estudamos Inácio de Antioquia no capítulo 1, descobrimos que os gnósticos eram mestres ativos e competentes que propagavam suas ideias particulares sobre Jesus Cristo. Os pais ortodoxos da igreja frequentemente identificavam Simão, o mago, de Atos 8, como a origem dessa heresia. Embora não se possa atribuir todo o movimento gnóstico a esse único personagem, é provável que Simão representasse uma versão inicial da sabedoria pseudocristã que outros mestres gnósticos também adotaram. Em sua Epístola aos Colossenses, o apóstolo Paulo se opôs a essas primeiras crenças gnósticas típicas. Os falsos mestres em Colossos haviam adotado filosofias humanas (2.8), o legalismo judaico (2.16), a adoração de poderes angélicos (2.18) e o ascetismo sob a premissa de que o corpo é mau (2.21-23). Estes são alguns dos mesmos aspectos que descobrimos no gnosticismo posterior e mais desenvolvido. Em contraste, Paulo diz que os verdadeiros “tesouros da sabedoria e da ciência” (2.3) só podem ser encontrados em Cristo, que reconciliou todas as coisas pelo sangue da sua cruz (1.20). Os escritos do apóstolo João também revelam que ideias gnósticas conquistaram muitos seguidores no século primeiro. Em resposta João diz: “Se alguém vem vos visitar e não traz esse ensino [do próprio Cristo], não o recebais em casa, nem o cumprimenteis” (2Jo 1.10). Os autores bíblicos haviam identificado com bastante rapidez essas tendências gnósticas iniciais como uma ameaça à fé.

Conquanto seja possível identificar no Novo Testamento um movimento gnóstico incipiente, foi no século segundo que ocorreu uma explosão de seitas gnósticas formais. Elas se tornaram mais organizadas, e seus mestres, que com frequência eram intelectuais, tornaram-se mais sofisticados. Dessa forma, muitas pessoas, que inicialmente foram atraídas a Cristo, estavam sendo induzidas ao erro. Na época de Ireneu, o ajuntamento de crenças gnósticas dos mais variados matizes havia se tornado uma força poderosa que ameaçava afundar a igreja ortodoxa. Conforme já observamos, o legado de Jesus estava sendo contestado com veemência nessa época. Ireneu reconheceu imediatamente o perigo. Em um momento crítico na história da igreja, apresentou seu livro Contra as heresias como a resposta cristã.

Em que exatamente os gnósticos acreditavam? Seus mitos parecem tão ridículos para nós atualmente que quase não conseguimos acreditar que alguém chegaria a segui-los. Mas temos de reconhecer que, para muitas pessoas na Antiguidade, o gnosticismo oferecia uma alternativa atraente ao cristianismo ortodoxo. Pessoas em busca das verdades espirituais foram atraídas pela aparente intelectualidade do gnosticismo e pelas percepções misteriosas que tinha do cosmo. Ireneu registra as doutrinas de uma divisão específica do gnosticismo ensinadas por um mestre chamado Valentino (ou, mais precisamente, por seu discípulo Ptolomeu). Os gnósticos valentinianos acreditavam que existia uma “Plenitude” celeste que consistia em trinta seres angélicos chamados éons. Os éons sempre vinham em pares de macho e fêmea. (E uma característica comum do gnosticismo que a divindade seja formada de ambos os sexos, de modo que éons masculinos requerem consortes ou equivalentes femininas.) Esses pares conjugais emitiam éons inferiores, e a última dessas emissões foi Sofia (Sabedoria). Mas Sofia se apaixonou e desejou perversamente o Pai supremo à parte de seu consorte. Embora tenha sido finalmente curada de sua repugnante ação, o “Pensamento” mau dela, que dera origem a seu pecado, foi expulso da Plenitude como um feto abortado. Esse Pensamento informe assumiu uma forma personificada denominada mãe Achamoth. Ela estava em um estado sem esperança até que o “Cristo” veio a Achamoth e lhe deu condições de produzir substâncias de dentro de si. Um dos seres que ela deu à luz foi o Demiurgo. Ele foi o criador ignorante de todo o mundo físico em que vivemos. Em muitos relatos gnósticos, o Demiurgo foi identificado com Yahweh, o Deus judaico do Antigo Testamento, que tolamente achava que era o único Deus verdadeiro. Apenas os gnósticos iluminados “sabiam” que ele era, na verdade, um ser corrompido, muito inferior à deusa Sofia.

Para os gnósticos valentinianos, havia três tipos de pessoas, correspondentes à divisão de cada ser humano em corpo, alma e espírito. Todos os seres humanos são divididos em três classes: a física, a anímica e a espiritual. As pessoas “físicas” perdidas do mundo são os pagãos incrédulos. As “anímicas” são pessoas como Ireneu,que pertencem às igrejas ortodoxas. Embora não tenham plena gnosis ou conhecimento da verdade, podem alcançar a salvação por meio de boas obras. É claro que os seres humanos mais elevados são os próprios gnósticos, os únicos cristãos verdadeiros. Não precisam realizar boas obras, uma vez que sua salvação está assegurada por sua natureza “espiritual” inata. Por isso, podem se envolver em certas atividades (como assistir disputas de gladiadores ou seduzir mulheres casadas) que estão proibidas a outros. As regras dos crentes comuns não se aplicam a eles.

A fim de conceder sabedoria secreta aos gnósticos espirituais, afirma-se que o Demiurgo (Yahweh) deu à luz um filho que era cheio da semente espiritual da mãe Achamoth. Esse filho era o “Cristo”, que passou por Maria sem assumir um corpo gerado por ela. Assim, ele foi como a água que flui através de um cano. Os gnósticos diziam com frequência que o “Cristo” habitou o corpo do homem Jesus de Nazaré, mas seu corpo não era verdadeiramente de carne. Quando analisamos os adversários de Inácio de Antioquia, fizemos referência a esse ensino como “docetismo”. O Cristo dos docetas, que parecia possuir um corpo, veio ao mundo para ensinar preceitos espirituais que somente os gnósticos iluminados eram capazes de compreender. Por meio da ação purificadora desse conhecimento revelado, na condição de espíritos purificados, os gnósticos finalmente chegavam à Plenitude. Mas os cristãos comuns estavam fadados a permanecer em uma posição inferior.

Então, quais são os temas distintivos que descobrimos no gnosticismo? Permita-me mencionar três temas importantes. Em primeiro lugar, podemos facilmente ver como o gnosticismo enfatizava o elitismo espiritual. Era um sistema inerentemente concebido para fazer distinção entre os “mais espirituais” e os “menos dignos”. Temos de lembrar que os gnósticos não se viam de modo algum como pessoas de fora da igreja. Ao contrário, acreditavam que eram a expressão mais fiel do que o cristianismo supostamente devia ser. Ao afirmar que tinham acesso a verdades que ninguém mais tinha, seduziam cristãos frágeis a deixarem os círculos ortodoxos e adotarem suas doutrinas misteriosas. Também ensinavam que não tinham de se conformar aos padrões morais aos quais os crentes inferiores deviam obedecer. A certa altura, os gnósticos se afastaram para formar congregações rivais que alegavam ser superiores às de todos os outros cristãos. Apenas eles eram a elite espiritual.

Outra característica do gnosticismo foi a falta de ênfase histórica. Visto que a salvação vinha por meio do conhecimento místico, as ações históricas de Jesus Cristo — que nem sequer foram realizadas em um corpo real — não tinham importância alguma. Dessa forma, os gnósticos roubaram do cristianismo o que é na realidade seu ponto central: a obra salvadora de Cristo na cruz e sua ressurreição corpórea do túmulo. Isso é exatamente o que os apóstolos haviam enfatizado com tanta clareza. A pregação deles focalizava o Crucificado e o Ressurreto. Repetindo uma síntese muito antiga do evangelho, Paulo escreveu: “Porque primeiro vos entreguei o que também recebi: Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras; e foi sepultado; e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras” (1Co 15.3,4). Ireneu percebeu que os gnósticos não estavam contando a mesma história que os apóstolos haviam anunciado, por isso, tornou a falta de apostolicidade dos gnósticos um ponto importante de sua “refutação e derrota”.

Em terceiro lugar, os gnósticos usavam um método de interpretação bíblica duvidoso para promover suas doutrinas. Encontravam significados secretos codificados nas páginas da Bíblia. Por exemplo, para alcançar o número sagrado de trinta éons, os valentinianos somaram as horas do dia em que os trabalhadores foram enviados ao campo na Parábola dos Trabalhadores (Mt 20.1-7). Ireneu cria que usar simbolismo enigmático e códigos ocultos não era evidentemente a maneira que a Bíblia devia ser interpretada. [18] Ele comparava esse método a alguém que retirou as pedras de um mosaico com a imagem de um rei, reorganizou-as de modo a formar a imagem de uma raposa e em seguida disse que a imagem originalmente pretendida era a da raposa! Somente um tolo seria seduzido por essa metodologia. Em vez disso, o crente deveria interpretar as Escrituras à luz do credo que havia recebido por ocasião do batismo, conhecido como a Regra de Fé. Essa Regra funcionava como um resumo preciso do verdadeiro cristianismo, conforme os apóstolos sempre o haviam proclamado.

Será que os conceitos religiosos do gnosticismo ainda estão presentes nos dias atuais? Com certeza. Aliás, uma forma contemporânea de gnosticismo pode ser encontrada em meu bairro em Wheaton, no estado de Illinois, um lugar normalmente conhecido por seu cristianismo evangélico! Em frente ao supermercado em que faço compras há um prédio imponente onde funciona a sede nacional da Sociedade Teosófica nos Estados Unidos. [19] Embora já tivesse passado muitas vezes em frente ao prédio e fizesse uma ideia geral do que se tratava, um dia decidi realizar uma visita para investigar mais. As pessoas do lugar foram muito simpáticas comigo, convidando-me para sua festa, que ocorreria em breve, e até me dando a oportunidade de caminhar em seu labirinto de meditação. Folheando os livros de sua biblioteca, descobri obras sobre praticamente todas as religiões do mundo, inclusive uma secção sobre os antigos gnósticos. Enquanto estava ali, apanhei vários livretes sobre a Sociedade Teosófica. Juntos, esses livretes descrevem um movimento que, em sua busca pela “Sabedoria Divina” (que é o que a palavra teosofia significa), é surpreendentemente parecido com o gnosticismo. Aliás, o livrete “Christianity and theosophy” [O cristianismo e a teosofia] estabeleceu uma ligação concreta entre o movimento contemporâneo e os “primeiros grupos gnósticos e herméticos do cristianismo, que mais tarde desapareceram ou foram para a clandestinidade”. O livrete expressa alguns pontos de vista que Valentino certamente teria endossado. [20]

A teosofia contemporânea não é, porém, a única manifestação de crença tipicamente gnóstica nos Estados Unidos atualmente. Outro exemplo é a Igreja de Cristo, Cientista. [21] Há até mesmo vários grupos que atualmente se intitulam “Igreja Gnóstica” ou algo semelhante. Basta procurar esse termo no Google e você descobrirá por si mesmo. Um desses grupos tem íntima ligação com a França, onde o culto gnóstico à deusa Sofia ainda floresce no século 21 da mesma maneira que acontecia no século segundo. [22] Outro grupo se denomina Igreja Apostólica Gnóstica dos Estados Unidos — com referências a Sofia, a consorte de Cristo, também aparecendo com destaque em suas páginas na web. [23] D a mesma maneira, muitos outros grupos ocultistas se enquadram nessa categoria religiosa geral. E, se você deseja encontrar uma expressão mais popular da espiritualidade esotérica contemporânea, está aí O código Da Vinci, romance de enorme sucesso e repleto de referências à teosofia e a crenças gnósticas sobre Jesus. O u você acha que é coincidência o nome da protagonista ser Sofia?

Extraído do Livro: Conhecendo os Pais da Igreja – Bryan M. Litfin, pp. 83-88.

Por Nivaldo Gomes.

Notas de Rodapé:

[18] Irenaeus, Against heresies 1.9.4, A N F, 1:330.
[19] No Brasil, o movimento tem o nome de Sociedade Teosófica no Brasil. (N. do T.)
[20] “Algumas das declarações notáveis do panfleto incluem:

• “Pode-se ver a história da vida de Cristo como uma representação do nascimento, da crucificação e da ressurreição do espírito em todos nós à medida que fazemos a viagem espiritual descrita na literatura teosófica.”
• “A teosofia, longe de ser incompatível com o caminho cristão, é, na realidade, seu outro lado. A teosofia merece a consideração de todos os que desejam fazer com que sua fé cristã seja mais compreensível à sua mente e mais viva em seu coração.”
• “Cada palavra da Bíblia não é infalivelmente verdadeira em seu sentido literal — a letra mata, mas o Espírito vivifica (2Co 3.6) —, porém, cada palavra diz algo com o que podemos aprender.”
• “O s que se posicionam firmemente nas verdades eternas, no aspecto interior ou oculto do cristianismo, são como o homem da parábola que ‘teve o bom senso de construir sua casa sobre a rocha’ [...] a casa fica firme porque seus ocupantes não estão mais escravizados à letra da lei. Permanecem fiéis ao alicerce espiritual oculto do qual os fatos exteriores são apenas sinal e símbolo. De posse da Sabedoria divina, conhecem a verdade que nos liberta.”

[21] Os preceitos da Igreja de Cristo, Cientista [também conhecida como Ciência Cristã], estão resumidos no livro Science and health iuith key to the Scriptures, da autoria de Mary Baker Eddy [edição em português: Ciência e saúde como a chave das Escrituras (Boston: lh e First Church of Christ, Scientist, 1973)]. Entre suas crenças estão: Deus como Pai-Mãe (p. 332, linha 4); Cristo como um ser incorpóreo, que é separado do homem Jesus nascido de Maria (p. 332, linhas 9ss.); rejeição do sangue expiatório de Cristo para salvação (p. 25, linha 6); e salvação por meio da revelação de conhecimento da parte de Jesus (p. 315, linhas 30ss.). Descobrimos uma concep¬ ção verdadeiramente gnóstica de salvação na declaração de M ary Baker Eddy de que “Jesus veio buscar e salvar os que creem na realidade do irreal; salvá-los desta crença falsa; para que possam obter a vida eterna...” (Miscellaneous writings, p. 63).

[22] Veja www.gnosis.org/eghome.htm e analise em particular o Catecismo Gnóstico. Informações sobre o grupo francês podem ser encontradas em  www.gnostique.org. Esses websites não deixarão você ficar com a sensação de que o gnosticismo foi extinto na época de Ireneu.

[23] Comece por www.gnostic-church.org. Esse grupo se considera uma autêntica expressão contemporânea do movimento gnóstico da época do cristianismo antigo. Seus textos básicos são os códices egípcios conhecidos como Biblioteca de Nag Hammadi, que atualmente são a principal fonte primária de informação acerca do gnosticismo. Um dos textos mais famosos dessa biblioteca é o Evangelho de Tomé.

Por
Nivaldo Gomes

sábado, 27 de julho de 2019

AS PRIMEIRAS HERESIAS: OS JUDAIZANTES E GNÓSTICOS NA IGREJA PRIMEVA – CONTESTAÇÃO ORTODOXA

Por Leonardo Melo – Parte II
2. O GNOSTICISMO.
É um sistema religioso cujo início deu-se antes da era cristã. Eram pagãos que quando aceitavam o Cristianismo queriam introduzir suas concepções pessoais, suas filosofias. Eram Considerado por muitos como resultado da interação do Judaismo, Cristianismo e as filosofia religiosas do Oriente Próximo. o Gnosticismo designa um dos movimentos religioso Cristão que tornou-se bem conhecido durante os séculos II e III, cujas bases filosóficas eram as da antiga Gnose, com influências do neoplatonismo, e dos filósofos pitagóricos, Possui seus próprios textos sagrados, sendo que o principal é o Evangelho de Tomé. O termo gnosticismo, vem da palavra grega gnoses, que significa conhecimento. Os gnósticos se julgavam pensadores originais que não podiam se dobrar a fé dos simples fiéis. Originou-se provavelmente na Ásia menor, e tem como base as filosofias pagãs, que floresciam na Babilônia, Egito, Síria e Grécia. Segundo (GONZÁLEZ. 2009, pg 96) ”O Gnosticismo não foi um grupo ou uma organização compacta que surgiu diante da Igreja, mas, foi antes de tudo, um movimento que existiu dentro do Cristianismo como fora dele e que, dentro do Cristianismo, tratava de reinterpretar a fé em termos inaceitáveis para os demais cristãos”.
Segundo o testemunho de Irineu de Lião e de outros pais da Igreja antiga, numerosos Evangelhos circulavam entre diversos grupos cristãos, além daqueles que compõem o N.T., como o Evangelho de Tiago, o Evangelho de Filipe, o Evangelho de Pedro, o Evangelho da verdade; e muitos outros hinos e poemas atribuídos a Jesus e a alguns dos seus discípulos. Alguns destes escritos gnósticos foram descobertos em Nag Hammadi e outros se perderam.
OBS.: Nag Hammadi , Cidade do Egito, antigo Chenoboskion, entre Siut e Luxor, a norte de Hamra Dom, próx. a cidade de Farshut. Os escritos de Nag Hammadi se referem á Biblioteca de escritos em língua copta, descoberta por Muhammad 'Ali al-Sammãn Khalifah, em dezembro de 1945. É certo também, que as pesquisas operadas sobre os documentos descobertos em Nag Hammadi conduzem o debate em outra dimensão. elas deixam entrever que essas discussões religiosas a respeito da natureza de Deus ou de Cristo comportam, simultaneamente, implicações essenciais para o desenvolvimento do Cristianismo. enquanto Religião institucional.
Em síntese, doutrinariamente , o gnosticismo manteve sua visão em algumas proposições que chamaram a atenção deles: o problema da criação e o problema do mal. Pois, se Deus criou o mundo, de onde veio o mal? Se não criou o mal, como pode ser considerado Criador único de todas as coisas? A salvação era a preocupação principal dos gnósticos, baseados em muitas doutrinas que circulavam á época, os gnósticos criam que tudo que era matéria era necessariamente mau. O ser humano, segundo eles, é um espírito eterno, que de alguma maneira ficou encarcerado neste corpo.
Então, como se unem, no homem, matéria e espírito? Como se liberta o espírito da matéria(problema de redenção) e volta para Deus? Sobre o tema, os gnósticos construíram sistemas filosófico-religiosos a fim de resolver essas questões doutrinárias, criaram complexas doutrinas pseudo-cristãs. (FRANGIOTTI. 2013)”Para os gnósticos há um reino de luz, que é o Deus bom, e o das trevas que é o da matéria eterna. Entre o deus-abismo e o organizador da matéria, o Demiurgo, há um número incalculável de graduações, que chamam de Eões”, estes por sua vez, são as emanações superiores que participam dos atributos da essência da divindade, distribuidos em classe. a união dos Eões formava o Pleroma ou plenitude da inteligência.
Em outras palavras, o Demiurgo, criador deste mundo material era o último dos Eões, o mais afastado do deus-abismo, ou o demônio que arrebatara uma centelha da plenitude divina para com ela animar a matéria, e segundo essa visão os homens estão divididos em classes(três), onde a classe dos espirituais ou gnósticos tem suas matéria dominada pelo Espírito de Deus.
Enfim, aplicando o próprio sistema á fé cristã, os gnósticos fazem de Cristo, um Eão superior, um Nõus(inteligência-logos) enviado por Deus aos homens, afim de revelar o Deus supremo e verdadeiro, até então desconhecido. O gnosticismo também influenciou a época apostólica, com Simão, o mago, cf. At. 9.8-11. A gnose simoniana, exaltou progressivamente seu fundador, chegando ao absurdo de considerá-lo divino. Eusébio denominou Simão como o principal autor de todo tipo de heresia (PELIKAN. 2014).
No século II, entre os anos 90 e 130, houve no meio da cristandade uma evolução das seitas heréticas, segundo Irineu de Lião e Epifânio, eles catalogaram 32 seitas. Os gnósticos nesses período, influenciados por seus sistemas doutrinários, negam a realidade humana de Cristo, sendo refutado de forma veemente por Inácio de Antioquia.

Também no rastro do gnosticismo, surge Marcião,nascido no início do século II, em Sinope(no Ponto, hoje Turquia) filho do bispo da cidade, que pregava um dualismo gnóstico que rejeitava o Deus do Antigo Testamento, e substituia o Eterno, por um Deus amoroso, Jesus
REFUTAÇÃO.
É razoável comentar que as heresias fizeram avançar a reflexão teológica, obrigaram os apóstolos e os primeiros pais da Igreja a fazerem uma primeira defesa da fé, todavia, a definição com precisão dos temas doutrinários relevantes no Cristianismo e o estudo minucioso dos termos ambíguos, vieram efetivamente, nos idos dos séculos II e III da nossa era, e como afirma o apóstolo Paulo de Tarso “E até importa que haja entre vós heresias, para que os que são sinceros se manifestem entre vós”, cf. I Co. 11.19, também é propício destacar que o nosso Senhor Jesus Cristo em sua oração sacerdotal, orou pela unidade da Igreja, portanto, conhecia Jesus, tanto o preço como a dificuldade da unidade, é a batalha anunciada que a Igreja há de travar até o seu recolhimento pelo seu Mestre e Senhor, cf. Jo.17.11,20-24, e o que Judas chamou de batalhar pela fé, cf. Jd. 3, corroborando com o exposto anteriormente , entendemos que nem sempre é possível haver concordância entre as filosofias humanas e a fé genuína nas Escrituras Sagradas, e desta maneira os teólogos cristãos terão que executar uma tarefa árdua entre a razão e a fé.
Quando se faz uma exegese comprometida com a revelação real daquilo que o texto escriturístico quer afirmar como Palavra de Deus, as falácias dos ensinos dos hereges são dissolvidos e desmascarados. Percebemos nas heresias judaizantes e no gnosticismo verdadeiro extravio exegético, pois o Texto Neo-Testamentario é bastante trasnslúcido nas principais questões doutrinárias, quais sejam: Jesus sendo o próprio Deus, e veio a terra e se humanizou, isto é tabernaculou entre seu povo, cf. . Is.9.6; Jo.1.1,14, 5.18, 10.30,8.58; 14.9-10, 20.27-28; Mt. 1.23; Cl. 2.9-10; Fp.2.5-7; etc. fez um sacrífico perfeito que libertou o homem, é o Senhor da Igreja, e um dia virá buscar sua noiva, e vai julgar a humanidade com equidade, cf. Mt. 20.18-19; Rm. 5.6, 6.13, 8.32; Ef. 5.2,25-27; Tt.2.14; Hb.9.14 e 28,10.10, 9.28;I Co. 1.7-8, 6.17; I Ts. 5.23; Tt.2.11-13, Mc.13.26-27; Ap. 19.7-8, 20.7-15, 22.17; Sl.28.4,62.12; Rm.2.6, etc.
(McGRATH. 2014) “As ideias morrem quando deixam de ser úteis. A heresia continua a existir - quer como uma noção teológica, quer como uma noção secular”. Batalhemos pela fé que uma vez nos foi dada, Jd. 3. Amém.
REFERÊNCIA.
1. GONZALEZ, Justo L.. A Era dos Mártires. Uma história ilustrada do Cristianismo. Vol. 1. S. Paulo. Vida Nova. 1995. 177 pg.
2. ALTANER, B. & STUIBER A.. Patrologia. S. Paulo. Paulus. 1988. 545 pg.
3. PELIKAN, Jaroslav V.. Tradição Cristã. Uma história do desenvolvimento da doutrina. Vol.I. Trad. Lena Aranha & Regina Aranha. S. Paulo. Shedd. 2014. 376 pg.
4. FRANGIOTTI, ROQUE. História das Heresias (séculos I - IV). Conflitos Ideológicos dentro do Cristianismo. S. Paulo. Paulus. 2013. 168 pg.
5. CAIRNS, Earle E.. O Cristianismo através dos Séculos. Uma História da Igreja Cristã. S. Paulo. Vida Nova. 2008. 671 pg.
6. CRISTIANI, Quirino. Breve História das Heresias. Trad. José A. Dellagnelo. S. Paulo. Ed. Flamboyant. 1962. 128 pg.

AS PRIMEIRAS HERESIAS: OS JUDAIZANTES E GNÓSTICOS NA IGREJA PRIMEVA - CONTESTAÇÃO ORTODOXA

Por Leonardo Melo (1* parte)
INTRODUÇÃO
Considerando as crônicas da Igreja Primeva, temos como primeiras heresias surgidas a dos judaizantes e seus vários desdobramentos e os Gnósticos. Os judaizantes hereges defendiam os cerimoniais da Lei, e as regras de adoração no Templo, a negação de Cristo como Filho de Deus e consequentemente da mesma substância (Homoousios), assim como, defendiam a circuncisão dos novos convertidos, recusando-se a reconhecer e compreender a universalidade da Igreja de Cristo.
O cap. 6.1-7 do Livro de Atos dos Apóstolos relata os conflitos internos no âmago da Igreja emergente, e os novos convertidos de origem grega começam a queixar-se dos novos conversos de origem judaica, cf. At.6.1 “Ora naqueles dias, crescendo o número dos discípulos, houve murmuração dos gregos contra os hebreus, porque as suas viúvas eram desprezadas no ministério cotidiano”, além de que, Estevão, diácono da Igreja, era acusado pelos homens do Templo e pelos chefes da Sinagoga e também pelos judaizantes de blasfemarem contra o Eterno e contra a Torá.
Já em referência aos gnósticos, há um entendimento nos círculos acadêmicos tanto cristão, Teológico e filosófico que a origem do gnosticismo não tem um marco temporal. Porém, é razoável lembrar que há concordância entre os eruditos que está heresia surgiu antes do Cristianismo, sob a influência da religião de mistério da Mesopotâmia, assim como do sistema sincrético persa(iraniano), do misticismo judaico da cabala, da filosofia grega platônica, neo-platlatonismo, Babilônia, Egito e Síria.
OS JUDAIZANTES
Segundo, Jean Danielou, havia nos círculos judaico-cristão, duas tendências fundamentais, isto é, uma antinomia: uma herética, representada sobre tudo pelos ebionitas cujo pensamento se expressa nas Paeudoclementinas, e chamavam-se “Igreja dos pobres “, de outro modo: Ebionitas ou pobres. Chegou-se a relacionà-la com a seita essênia; e a outra ortodoxa , influenciada pela Igreja em Jerusalém.
A despeito dos judaizantes hereges, eles começaram a criar problemas a partir do conflito em Antioquia, cf. At. 15.1-5, pois, exigiam que os novos convertidos se circundassem , segundo a Lei de Moisés, se não perderiam a salvação, e Paulo e Barnabé quando tomaram conhecimento dessa situação, entraram em conflito com eles, gerando um sério imbróglio para a Igreja local.
Alguns deles que tinham pertencido ao farisaísmo e se
convertidos a fé cristã, queriam que os convertidos do paganismo observassem as práticas prescritas na Torá de Moisés, e denunciavam os seguidores de Jesus como blasfemos e os acusavam de ensinamentos frívolos contra a Lei. segundo eles não podiam pertencer ao “povo eleito de Deus”, logo o batismo principalmente para eles não substituíam à circuncisão.

Foi através do Concílio de Jerusalém, liderado por Pedro e Tiago, que a Igreja deliberou que os novos convertidos não necessitavam de passar pela circuncisão nem observar toda a liturgia e cerimonial do Judaísmo, contudo, devem aceitar o monoteísmo e os mandamentos, e estão obrigados a aceitarem certas normas alimentares, tais como: abster-se das carnes sufocadas ou imoladas aos ídolos, as uniões ilegítimas, e comer sangue, estas resoluções foram tomadas no Concílio da Igreja em Jerusalém, cf. At. 15.13-21; e como em Antioquia o problema se agravou, então a Igreja em Jerusalém resolve enviar algumas cartas para dirimir as tensões e apaziguar os ânimos, cf. At. 15.22-29. Essa palavra final foi da maior autoridade da Igreja de Jerusalém, Tiago, irmão do Senhor.
NICOLAITAS
Temos como desdobramento da matriz herética judaica, os Nicolaitas, que provavelmente surgiu entre os anos 93-94 d.C. na Ásia e se expandiram pelas cidades de Éfeso, Tiatira e Pérgamo, que no cerne do seu pensamento doutrinário, deu ênfase dentro da Igreja a um movimento de cunho doutrinal, é especificamente ético-moral.
Não há como afirmar quem é o seu fundador de maneira precisa, há várias conjecturas, e alguns eruditos associam o fundador da seita a Nicolau de Antioquia, um dos sete , que seriam diáconos na Igreja primitiva, cf. At. 6.5, e também nos textos do Livro da Revelação, Ap. 2.6,14-15,20.
Outros associam Nicolau ao movimento herético que leva seu nome, levando em consideração a tradução grega do nome do Nikolau do hebraico Bil’am(Balaão, dominador do povo, vencedor), em referência ao profeta que, cf. Nm. 31.16, instigou ao desvio moral e religioso os israelitas, levando-os à fornicação. Os Nicolaitas seriam , então, sinônimo de corruptores dos costumes morais e religiosos. Embora combatido, este movimento herético conseguiu sobreviver até o ano 200 d.C., quando, então se dissolveu na heresia gnóstica dos ofitas, nome que se refere ao culto da serpente!
CERINTIANISMO
Também como consequência das matrizes judaizantes heréticas, temos o Cerintianismo, pregada por Cerinto, que surgiu na Ásia Menor, no século I , sendo contemporâneo de Nicolau.
Cerinto um gnóstico-judaizante que afirmava que “Jesus não é o Cristo”, e que o teólogo Alfred V. Harnack vai dizer que “Cerinto é o pai das duas naturezas de Cristo”. Segundo
Irineu de Lião: “Um certo Cerinto, na Ásia, ensinou a seguinte
doutrina: Não foi o primeiro Deus quem fez o mundo, mas uma virtude(potência) separada por uma distância considerável da Suprema Virtude(Potência-Princípio) que está acima de todas as coisas e ignorando o Deus que está acima de tudo..., O Cristo, vindo do Supremo Princípio, que está acima de todas as coisas, desceu sobre Jesus sob a forma de pomba,..., E depois se retirou dele, abandonando-o a Jesus”.(FRANGIOTTI. 1995, pg. 15)

OS ELCASAÍTAS.
Ainda como desdobramento dos judaizantes, temos a Variante elcasaíta, que surgiu durante o reinado de Trajano (90-117 d.C.), alguns judeu-cristão seguiram a liderança de um certo Elchasai ou Elkasai.
Este movimento provinha da região dos partas(província iraniana da Pérsia Antiga), também conhecida como Asárcida. Opunha-se de maneira inflexível aos ensinamentos do apóstolo Paulo, afirmava a existência de um único Deus, e afirmavam que Jesus Cristo era humano e a reencarnação dos profetas passado; observavam a Lei Mosaica, a Circuncisão, o sábado e as liturgias da Sinagoga. Admitiam dois princípios originais, um masculino, “Senhor das Grandezas, Rei da Luz”, e o segundo feminino “Espírito Santo, Ruach”, e tinham em Jesus como o primeiro mensageiro excelso de Deus, que teria aparecido personificado várias vezes, de modo particular em Adão. Há um entendimento, que eles não eram uma corrente religiosa, mas uma seita sob a influência de um misterioso livro de Revelações, que dentre o livro de Revelações, que dentre o seu conteúdo anunciavam um juízo vindouro. Hipólito, em sua tradição Apostólica cita um certo livro de revelação elcasaíta, pregando um segundo batismo, assim como, Orígenes escreveu que os elcasaítas apareceram em Cesareia anunciando que o perdão era também para aqueles que renegaram a fé.
ADOCIONISMO DE HERMAS E O ADOCIONISMO EBIONITA.
A matriz judaica herética do Adocionismo de Hermas e o Adocionismo Ebionita, de certa forma também influenciaram a Igreja primeva dos dois primeiros séculos, porém, de maneira mais moderada, a princípio Hermas tem sua Teologia influenciada sobremaneira pelo Judaísmo, e sua Cristologia identifica Jesus como divino, só após a ressurreição, é que
Ele recebe o Espírito Santo, por causa da sua fidelidade e caráter como “carne”, mas, não como o Filho do Deus vivo;

Já o Adocionismo ebionita viviam, conforme a Lei judaica e rejeitavam peremptoriamente a pregação paulina. Negavam a divindade de Cristo, porém o reconhecem como o Messias anunciado pela Lei e pelos profetas, nasceu naturalmente da relação entre Maria e José, porém sua filiação divina só ocorre durante o batismo com o Espírito Santo. Os ebionitas
interpretavam as expressões “Filho de Deus”, “Verbo”, “Espírito Santo”, segundo as categorias hebraicas, no sentido em que nenhuma delas era considerada “pessoas”, no sentido filosófico e ontológico; negavam Jesus como Deus e sua preexistência como Verbo. Eles defendiam que Deus deu o título ao nosso Senhor Jesus Cristo, de Filho porque o
adotou.

REFERÊNCIA.
1. GONZALEZ, Justo L.. A Era dos Mártires. Uma história ilustrada do Cristianismo. Vol. 1. S. Paulo. Vida Nova. 1995. 177 pg.
2. ALTANER, B. & STUIBER A.. Patrologia. S. Paulo. Paulus. 1988. 545 pg.
3. PELIKAN, Jaroslav V.. Tradição Cristã. Uma história do desenvolvimento da doutrina. Vol.I. Trad. Lena Aranha & Regina Aranha. S. Paulo. Shedd. 2014. 376 pg.
4. FRANGIOTTI, ROQUE. História das Heresias (séculos I - IV). Conflitos Ideológicos dentro do Cristianismo. S. Paulo. Paulus. 2013. 168 pg.
5. CAIRNS, Earle E.. O Cristianismo através dos Séculos. Uma História da Igreja Cristã. S. Paulo. Vida Nova. 2008. 671 pg.
6. CRISTIANI, Quirino. Breve História das Heresias. Trad. José A. Dellagnelo. S. Paulo. Ed. Flamboyant. 1962. 128 pg.

sábado, 20 de julho de 2019

Dúvidas sobre o evangelho Gnóstico de Tomé

Um quase intacto Evangelho de Tomé foi um dos manuscritos encontrados em Nag Hammadi.
Para aqueles que não conhece esse documento, não é realmente um Evangelho, apesar de seu título, mas uma coleção de 114 textos não relacionados entre si, que foram juntados aleatoriamente e atribuídos a Jesus. Não há nenhuma narrativa sobre qualquer evento envolvendo Jesus ou seus discípulos. A figura que aparece nesse manuscrito é um Jesus alternativo, cujo caráter não é Claramente definido.
Ele é humano, divino ou os dois?
O Evangelho de Tomé recebe uma atenção especial da comunidade gnóstica por dois motivos: eles afirmam que pode ter sido escrito antes dos outros textos gnósticos (mas ainda não antes dos manuscritos originais do N.T) e retrata Jesus como um guru sábio. Mais sua datação foi questionada. Muitos estudiosos acreditam que agora a origem do manuscrito está na Síria em algum momento depois do final do século II.
Várias declarações parecem ser tiradas dos textos do N.T que foram escritos originalmente pelos apóstolos e mudadas um pouco para dar um ar gnóstico. Vejamos os textos:
Os discípulos disseram a Jesus: "Dize-nos o que se assemelha o reino do Céu." Ele lhe disse: "Ele se assemelha a uma semente de mostarda, a menor de todas as sementes. Mas, quando cai em terra cultivada, produz uma grande planta e torna-se um refúgio para as aves do céu." (O Evangelho Gnóstico de Tomé, Texto 20)
Jesus disse: "se os dois fizerem as pazes nesta casa, eles dirão à montanha: 'move-te!' e ela se moverá". (O Evangelho Gnóstico de Tomé, Texto 48)
Os dois textos anteriormente citados usam imagens bem conhecidas ( a semente da mostarda e a montanha que se move) tiradas das palavras de Jesus como elas aparecem no N.T.
No entanto, perceba como o assunto original da fé foi removido das passagens (ver Mateus 17:20; Marcos 11:23; Lucas 17:6) para alterar completamente o sentido dos textos.
Jesus disse a seus discípulos: Comparai-me com alguém e dizei-me com quem me assemelho." Simão Pedro disse-lhe: "Tu és semelhante a um anjo justo." 
Mateus lhe disse: "Tu te assemelhas a um filósofo sábio." 
Tomé lhe disse: "Mestre, minha boca é inteiramente incapaz de dizer com quem te assemelhas."
Jesus disse: "Não sou teu mestre. Porque bebeste na fonte borbulhante que fiz brotar, tornaste ébrio. E, pegando-o, retirou-se e disse-lhe três coisas. Quando Tomé retornou a seus companheiros, eles lhe perguntaram: "O que te disse Jesus?" Tomé respondeu: "Se eu vos disser uma só das coisas que ele me disse, apanhareis pedras e as atirareis em mim, e um fogo brotará das pedras e vos queimará ." (O Evangelho Gnóstico de Tomé, Texto 13)

Essa estranha passagem representa o tipo de conhecimento secreto que o Jesus Gnóstico supostamente ensinava a seus discípulos quando achava que eles estavam prontos. De várias formas, esse exemplo não é diferente dos mantras entregues aos seguidores dos gurus hindus que alcançaram um certo nível na chamada iluminação. Os mantras hindus, ou palavras secretas, como as apresentadas por Tomé no texto citado anteriormente, não devem ser compartilhados com mais ninguém. Agir assim seria algo completamente distinto do caráter de Jesus. Ele entregava livremente sua sabedoria para todos que o ouvissem e esperavam que eles, em troca, passassem as lições para outros.
Jesus disse: " Seria uma maravilha se a carne tivesse sugerido por causa do espírito. Mas seria a maior das maravilhas se o espírito tivesse surgido por causa do corpo. Estou realmente surpreso pela forma como essa grande riqueza fez morada nessa pobreza." (O Evangelho Gnóstico de Tomé, Texto 29)
A crença gnóstica básica de que o espírito é bom e o corpo, ruim, está reforçada por essa passagem. Novamente, Jesus nunca faria uma declaração como essa. Nem iria de propósito, enganar seus discípulos em relação a verdade sobre a futura ressurreição e o reino vindouro, como o texto 51 adiante mostra:
Seus discípulos perguntaram-lhes "Quando ocorrerá o repouso dos mortos e quando virá o novo mundo?" Ele lhe respondeu-lhes: "Aquilo que esperais já chegou, mas não o reconheceis." (O Evangelho Gnóstico de Tomé, Texto 51)
Os aderentes gnósticos de hoje admitem que o verdadeiro apóstolo Tomé não teve nada a ver com esse manuscrito, apesar de que seu nome aparece de forma errônea (alguns dizem de forma fraudulenta) como o autor no primeiro versículo do texto. Na verdade, uma tendência perturbadora pode ser vista na nomeação desses textos gnósticos por figuras bíblicas --- tal como Evangelho de Pedro, o Evangelho de Filipe, o Evangelho de Maria Madalena, o Evangelho de Bartolomeu, o Apócrifo de João e o Apócrifo de Tiago --- como forma de dar um ar de legitimidade a eles. 
Não há dúvidas de que os primeiros defensores gnósticos tentaram dar alguma credibilidade a seus documentos questionáveis, indentificando-os com os escritos dos apóstolos.

Por: Tim LaHaye
JESUS descubra os mistérios do homem que fascinou o mundo e mudou a história da humanidade.
Via: Eziel Ferreira.

sábado, 25 de maio de 2019

O agnosticismo e a realidade

A afirmação "Eu existo" é incontestável! Se eu dissesse: "eu não existo", teria de existir para dizer ou pensar isso! Ao negar explicitamente minha existência, eu a estou afirmando implicitamente. Da mesma forma, não posso negar que a realidade é cognoscível. Pois a afirmação de que a realidade não é cognoscível é em si uma afirmação de conhecimento sobre a realidade. O agnosticismo total derrota a si mesmo!
Via Walson Sales.

sábado, 13 de abril de 2019

Sobre o agnóstico que afirma que não se pode saber nada sobre Deus:

Para dizer que não podemos dizer nada sobre Deus é dizer algo sobre Deus; é dizer que se existe um Deus Ele é incognoscível. Mas, nesse caso, ele não é inteiramente desconhecido para o agnóstico que certamente pensa que nós podemos saber uma coisa sobre Ele: que nada mais pode ser conhecido sobre Ele. No fim, o agnosticismo é uma posição ilógica de se manter”.
J. Budziszewski

Citado em Ron Rhodes, Answering the Objections of Atheists, Agnostics & Skeptics, (p. 25).
By Walson Sales.