Uma Heresia pode ser definida como um falso ensino acerca da Palavra de Deus, ou seja, um desvio da verdade revelada por Deus ao Seu povo. Segundo Raimundo de Oliveira, do ponto de vista cristão, “heresia é o ato de um indivíduo ou de um grupo afastar-se do ensino da Palavra de Deus e adotar e divulgar suas próprias ideias, ou ideias de outrem, em matéria de religião. Em resumo é o abandono da verdade” (OLIVEIRA. 2002.p.7). Existem muitos ensinos heréticos passados pelos líderes da Igreja Católica Apostólica Romana acerca de vários assuntos, pois mostram-se afastados da verdade, porém dentre tantos abordaremos aqui os principais ensinamentos acerca da adoração e da veneração de Maria, seu desenvolvimento histórico.
A Assunção de Maria
A Assunção de Maria é uma doutrina muito conhecida e difundida pelo catolicismo romano que diz ter Maria subido ao céu de corpo e alma. Isso deve ser crido e ensinado por todos os líderes e fiéis do catolicismo. Esse ensino foi promulgado como doutrina no ano de 1950 pelo Papa Pio XII, portanto é bastante novo em relação às tradições e aos ensinos passados por Jesus, pelos Apóstolos, pelos Pais da Igreja e finalmente pela igreja cristã primitiva.
Este dogma não tem relação com Cristo, como alguns outros acerca de Maria, no entanto o ensino prático acerca da Assunção de Maria já era feito dentro dos templos muito antes de sua promulgação. Vejamos o que Carlos H. fala sobre isso: “A festa da ascensão da Virgem Maria não vem mencionada em nenhum documento antigo. Nesse ano (855) Leão III estabeleceu definitivamente a festividade em questão (da Assunção de Maria)” (COLLETTE, 2001. p. 238). A Assunção de Maria foi proclamada mais para o mundo que para a igreja, pois este ensino já era um fato comum para os cristãos católicos, os quais, de acordo com Clodovis, fundamentam este ensino na “potência da ressurreição de Jesus” (2006, p.520). Enfim, a Assunção de Maria, para a Igreja Católica Apostólica Romana, tornou-se a garantia da esperança cristã na futura ressurreição dos mortos e na redenção de nosso corpo.
A Imaculada Conceição de Maria
O ensino da Imaculada Conceição de Maria foi definido como dogma da Igreja Católica Apostólica Romana em 8 de dezembro de 1854. Esse ensino diz que Maria foi preservada do pecado original (sem mácula): “Deus se agradou extraordinariamente de vós e foste preservada do pecado original” (LIGÓRIO, 2016, p.253). Tal ensino contraria o que a Bíblia diz sobre o pecado que atingiu toda a humanidade, conforme está escrito no livro de Romanos 3.23: “Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus” (grifo nosso). Em Romanos 5.12 também está escrito: “Concluindo, da mesma forma como o pecado ingressou no mundo por meio de um homem, e pelo pecado a morte foi legada a todos os seres humanos, portanto todos pecaram” (grifo nosso). Esse ensino é amplamente defendido pelos romanistas de hoje, mas foi rejeitada por alguns de seus teólogos da época, como Tomás de Aquino, que atribuía honra a Maria, mas era contra a doutrina da concepção imaculada, conforme registra Justo Gonzalez:
Enquanto ele mostrou grande respeito pela Virgem, que nunca cometeu nenhum pecado real, e que foi sempre uma virgem, ele afirmou que Maria herdou o pecado original, do qual ela foi purificada por meio da santificação após sua concepção e não antes. Além do mais, mesmo essa santificação não a libertou da pena do pecado, e ela, portanto, foi capaz de entrar no paraíso apenas por causa do sacrifício de Cristo (2004, Vol. 2, p. 268).
Com o passar do tempo, essa doutrina se consolidou: “Daí não admira que nos Santos Padres prevalece o costume de chamar a Mãe de Deus toda santa, imune de toda mancha de pecado, como que plasmada pelo Espírito Santo e formada nova criatura’ (Compendio Vaticano II, p. 105 Apud, OLIVEIRA, 2002, p. 22). Embora tenha sido uma doutrina amplamente discutida pelos teólogos, a questão não era se Maria havia concebido Jesus sem pecado, mas se ela havia sido preservada do pecado original. O desdobramento desta doutrina deu-se através de uma bula papal chamada “Ineffabilis”, promulgada pelo Papa Pio IX: “por meio de uma graça singular e privilégio do Deus onipotente, Maria foi preservada imune de qualquer culpa original, e que esta doutrina é revelada por Deus e deve, portanto, ser crida por todos” (GONZALEZ, 2004, p. 402). Essa declaração teve fundamental importância na questão da Mariologia para a história do catolicismo romano, que enfrentava, na época, o problema do racionalismo e uma crise a respeito da autoridade central da igreja contra o poder das forças organizadas sob a bandeira da razão e do progresso. Esta bula foi a primeira doutrina formulada através da infalibilidade papal. Ao que constatamos, este dogma é o pilar da mariolatria. Os que não cressem seriam considerados hereges, segundo a bula Ineffabilis.
Maria, Mãe de Deus
Maria também recebeu o título de Mãe de Deus (Theotokos). Embora essa não seja a melhor tradução, foi adotado o termo Theotokos (portadora de Deus). Este título no início não foi estabelecido para a glorificação da pessoa de Maria, mas para que parecesse claro e popular sobre a natureza divina de Jesus, para mostrar que Deus, em Cristo, se fez carne e Maria era a Sua mãe. Foi em torno do título Theotokos que giraram as principais controvérsias teológicas na segunda metade do século IV. O que podemos perceber é que não há menção honrosa à pessoa de Maria na formulação inicial do dogma, pois as preocupações dos teólogos envolvidos nessas discussões giravam em torno de questões Cristológicas, somente. Vejamos:
Nenhuma das palavras precedentes pode ser omitida sem que o sentido de Teotokos seja falsificado. Maria é mãe de Cristo segundo a carne porque Cristo segundo o espírito é Filho de Deus Pai; é mãe não da divindade em si (pensamento blasfemo), mas da hipóstase do Logos; não, porém do Logos em si que não tem mãe, mas do Logos encarnado; e é mãe do Logos encarnado, segundo o seu aspecto de humanidade, porque as propriedades das duas naturezas devem ser respeitadas, e não se deve dizer de Cristo como homem, o que se diz dele como Deus. Não obstante isso, visto que em virtude da união hipostática, há um só Cristo, pode-se dizer, com todas as reservas e esclarecimentos precedentes, que a Mãe de Cristo é a Mãe de Deus e que tal é o paradoxo da fé. (MIEGGE, 1959, p. 64)
Atanásio diz a respeito deste ensino: “esse título deve ser dado a Maria como uma consequência da divindade e humanidade em Jesus Cristo. Negar que Maria é a Mãe de Deus [...] negar a encarnação do Verbo” (GONZALEZ, vol 1, 2004, p.293). Portanto, podemos observar que a discussão teológica em torno deste título não se tratava de uma honra ou algum tipo de exaltação a Maria, como ocorre hoje, mas era uma questão de Cristologia acerca da natureza de Cristo. O que mais incomodava Nestório (segunda metade do séc. IV) acerca deste ensino era a questão de se dar honra a Maria, por isso ele defendia o uso do termo Cristótokos (portadora de Cristo). Hoje os líderes e fiéis da Igreja Católica Apostólica Romana usam este termo para honrar a pessoa de Maria, dizendo ser ela a Mãe de Deus, sem fazer distinção entre Jesus Cristo e Deus, O Criador, dando a entender que Maria é mãe de divindade como um todo.
A Virgindade Perpétua de Maria
A Sempre Virgem Maria é uma doutrina que está ligada totalmente ao fato de ela também ser considerada A Imaculada, ou seja, sem manchas, sem pecados ou sem defeitos pelos fiéis da Igreja Católica Apostólica Romana, como diz Clodovis: “a Santíssima Virgem não só nunca pecou em nada e, por isso, nem contra a castidade” (2006. p.433). Ela permaneceu virgem mesmo após o nascimento de Jesus.
Não há dúvidas que gerem controvérsias teológicas na história da Igreja que digam que a concepção de Jesus violou a virgindade de Maria. Com exceção dos gnósticos que não acreditam no Cristo em carne, na teologia cristã não existe a menor dúvida de que não houve violação no corpo de Maria concernente à concepção de Jesus. No entanto, o que é defendido pelos romanistas é o fato de Maria ter permanecido virgem depois do nascimento de Jesus, mesmo estando casada com José, por isso Maria é considerada por eles como “a Inviolável”.
De fato, a Virgem foi a mulher cujo corpo não padeceu forma alguma de violência, nem antes nem durante, nem depois do parto. Não sofreu os espasmos do ato sexual nem o trabalho de parto. Ela foi imune daquela forma particular de “violência” [...] A figura da Virgem, por ser inviolada e não violadora, é um grande símbolo da não violência (BOFF. 2006, p.488).
Ainda concernente ao ensino da Virgindade de Maria, percebemos que este dogma foi sofrendo uma evolução dentro da teologia católica com passar do tempo, não só sustentando a virgindade de Maria até o nascimento de Jesus, mas também após a morte de Jesus e sua própria morte, permanecendo assim, mesmo sem ter um versículo sequer nas Escrituras Sagradas afirmando isto nem mesmo nos ensinos dos primeiros séculos da era cristã, até a sua possível ascensão.
Digamos apenas que sua dogmatização passou de Maria, “a Virgem” de Calcedônia em 451, para a “sempre Virgem” em Constantinopla II em 553, até a especificação tríplice da Virgindade antes, durante e depois do parto no sínodo regional de Latrão em 649 e na bula de 1555 de Paulo IV. (BOFF, 2006, p.476).
Esse ensino sempre enfrentou dificuldades em se manter sem críticas, principalmente após a Reforma Protestante, devido ao surgimento de vários estudantes e teólogos contrários à virgindade perpétua de Maria. Leiamos o que Adelson escreve sobre isso: “Maria sempre foi virgem: Esta é a doutrina tradicional da Igreja Católica. No entanto, a grande maioria das igrejas protestantes afirma que Maria não guardou a sua virgindade e teve outros filhos além de Jesus” (SANTOS, p. 74). Na visão da época da definição deste dogma, a virgindade tinha o seu valor ligado mais intimamente à dignidade da mulher do que propriamente à sexualidade, pois a visão da Igreja estava influenciada pela cultura da época. De acordo com Clodovis, esse ensino sofreu influências culturais da época como “o platonismo, o estoicismo, o gnosticismo, o maniqueísmo e especialmente o encratismo” (2006, p.477). Portanto, para atribuir dignidade a pessoa de Maria, foi-lhe atribuída a virgindade perpétua.
O Culto à Maria
O Culto à Maria não é somente uma heresia, por não se tratar exclusivamente de um ensino, mas é uma prática exclusiva dos crentes católicos. O Culto a Maria, chamado de Hiperdulia, foi sendo introduzido aos poucos na Igreja Católica com a promulgação de sua imaculada conceição e outros ensinos que levaram a sua divinização. Não demorou muito para que se começasse a honrá-la com um culto específico. Conforme Giovanni, “... pelo fim do século quarto e certamente início do século quinto, algumas igrejas do oriente e ocidente começou a honrá-la com um culto público e com uma festa especial” (1959, p. 83). Nesses cultos e festas eram celebradas a Anunciação e outros episódios escritos nos Evangelhos Sinóticos. Logo após o Concílio de Éfeso, essas celebrações difundiram-se largamente. Isso mostra o seu desenvolvimento dentro da Igreja Católica Apostólica Romana.
Quanto ao culto e invocação à Virgem Maria, que é o ponto principal das devoções romanistas modernas, foi demonstrado pelo Ver. J. E. Taylor, depois de um minucioso exame das atas dos concílios primitivos e obras dos escritores cristãos primitivos até o fim dos cinco primeiros séculos, que todos eles testificam, a uma voz, “que estes escritores e seus contemporâneos não tinham crença alguma no suposto poder que hoje em dia se atribui à Virgem Maria: Nenhuma prática, pública ou particular, de orar a Deus por intermédio dela, nem invocar seus bons ofícios de intercessão, advocacia e patrocínio, nem lhe render ações de graças e louvor, nem lhe atribuir honra ou glória divina...” (COLLETTE, 2001, p. 92).
Portanto, podemos perceber que, como os demais ensinos a respeito de Maria, o culto a Maria testifica ser mais uma inovação da Igreja Católica Apostólica Romana, pois não existem registros disso no período apostólico da Igreja Primitiva, ou seja, nos cinco primeiros séculos da história cristã. Mas não nos cabe refutar esse fato agora.
A Mediadora das Graças Divinas
A Mediadora ou A Medianeira é mais um ensino acerca da pessoa de Maria, atribuindo-lhe o papel de medianeira entre Deus e os homens, tanto em todas as graças de Deus que o homem pode alcançar, como na salvação futura. Neste capítulo, já falamos um pouco sobre parte desta heresia quando tratamos sobre a salvação à luz da mariolatria e vimos que, de acordo com algumas obras de apologia à mariolatria, a salvação dos fiéis católicos está somente nas mãos de Maria. Entretanto, acrescentaremos aqui que o catolicismo defende que todas as outras graças oferecidas por Deus devem passar aos homens por intermédio de Maria como sendo medianeira. Afonso Ligório afirma que “ao império de Maria todos estão sujeitos, até o próprio Deus. Isto é, Deus lhe atende os seus rogos como se fossem ordens” (2016, p. 152). Percebemos que Maria é como uma Rainha dentro do catolicismo romano. Até o próprio Deus está sujeito a ela, portanto, cabe ao homem rogar a ela para que alcance qualquer favor da parte de Deus, incluindo a sua salvação, sendo impossível ao homem alcançar qualquer favor, graça ou a salvação que não seja por intermédio da pessoa de Maria.
A mariolatria é um grave problema teológico dentro da Igreja Católica Apostólica Romana, que desfaz da Verdade de Deus e ensina-a como se fosse esta Verdade.
Por Rafael Félix.