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terça-feira, 18 de fevereiro de 2025

O conceito de concorrência divina em Luís de Molina

O conceito de concorrência divina em Luís de Molina é um aspecto crucial de sua teologia que busca explicar como a ação de Deus e o livre arbítrio humano podem coexistir sem conflito. Essa ideia é parte do esforço mais amplo de Molina para reconciliar a providência divina com a liberdade humana e é um conceito importante na discussão sobre a relação entre a graça divina e o livre arbítrio.

DEFINIÇÃO DE CONCORRÊNCIA DIVINA

Concorrência divina é o conceito de que Deus coopera com as ações humanas sem violar a liberdade das criaturas. Em outras palavras, é a maneira pela qual Deus está presente e atua em todas as ações das criaturas, tanto boas quanto más, enquanto ainda permite que essas ações sejam realizadas de acordo com o livre arbítrio das pessoas.

Aspectos Principais da Concorrência Divina

1. Cooperação na Ação:

Deus não é apenas um observador passivo das ações humanas, mas atua ativamente em cada ação. A concorrência divina implica que Deus é uma causa eficiente que trabalha juntamente com a causa secundária (ou seja, a ação humana). Ele contribui para a realização das ações sem forçar ou coagir a vontade humana.

2. Preservação da Liberdade:

A ação divina cooperativa é compatível com o livre arbítrio. Deus não causa diretamente cada ação humana, mas oferece suporte e orientação que não interfere na liberdade das decisões das criaturas. Essa cooperação garante que as escolhas feitas pelos seres humanos sejam verdadeiramente livres, apesar da presença e influência contínua de Deus.

3. Sustentação do Mundo:

Além de cooperar em ações específicas, a concorrência divina também se refere à maneira pela qual Deus sustenta o mundo em funcionamento. Deus não apenas cria o mundo e depois se afasta, mas continua a sustentar e coordenar as ações dentro da criação, garantindo a ordem e o funcionamento contínuo do universo.

4. Relação com a Providência:

A concorrência divina é uma parte da providência de Deus. Deus não apenas conhece todas as possibilidades e resultados (como no conhecimento médio), mas também está ativamente envolvido no direcionamento e sustentação das ações das criaturas para cumprir Seus propósitos divinos.

CONCORRÊNCIA NEUTRA

Dentro do conceito de concorrência divina, há um sub-conceito importante conhecido como concorrência neutra. A concorrência neutra refere-se ao tipo de cooperação divina que não impõe uma direção específica ou resultado à ação humana, mas simplesmente sustenta e permite a realização da ação de acordo com a escolha livre do agente.

Características da Concorrência Neutra

1. Neutralidade em Relação ao Resultado:

A concorrência neutra implica que Deus coopera com as ações humanas sem favorecer um resultado específico. Deus não interfere diretamente na escolha ou nos resultados da ação; Ele simplesmente garante que as capacidades e os meios para que a ação aconteça estejam disponíveis.

2. Apoio à Liberdade:

 A ideia de concorrência neutra é importante para assegurar que a liberdade humana não seja comprometida. Deus fornece a força e os recursos necessários para a realização das ações humanas, mas não determina nem controla os resultados específicos das escolhas humanas.

3. Sustentação da Ordem:

Enquanto a concorrência divina pode envolver uma cooperação mais ativa na realização de propósitos específicos, a concorrência neutra refere-se a uma forma de sustentar e permitir a ordem natural e a realização de ações sem direcionar ou influenciar diretamente o conteúdo das escolhas livres.

Exemplo de Concorrência Neutra

Suponha que alguém decida iniciar um projeto pessoal, como escrever um livro. Segundo o conceito de concorrência neutra, Deus coopera fornecendo as habilidades cognitivas e a energia necessária para que o projeto possa ser realizado, mas não dirige o conteúdo do livro nem interfere na decisão do autor sobre o que escrever. Deus garante que a capacidade e as condições para realizar o projeto estejam presentes, mas a escolha do conteúdo e os resultados do projeto dependem da decisão e do livre arbítrio do autor.

CONCLUSÃO

A concorrência divina, de acordo com Luís de Molina, é uma tentativa de conciliar a soberania de Deus com o livre arbítrio humano. Dentro desse conceito, a concorrência neutra é uma forma de Deus cooperar com as ações humanas de maneira que respeita plenamente a liberdade das criaturas, sem determinar ou influenciar os resultados das suas escolhas. Esse conceito é essencial para compreender a interação entre a ação divina e o livre arbítrio na teologia de Molina.

Walson Sales.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2025

Quem foi Luís de Molina e qual foi sua contribuição na Teologia e Filosofia?

Pai do Molinismo, Luís de Molina (1535-1600) foi um influente teólogo jesuíta espanhol, notável por suas contribuições à teologia da graça e pela formulação do conceito de conhecimento médio. Sua obra mais renomada, *“Concordia liberi arbitrii cum gratiae donis”* (Concordância entre o livre arbítrio e os dons da graça), explora a complexa interação entre a liberdade humana e a graça divina, apresentando conceitos que continuam a ser discutidos na filosofia e na teologia.

Conhecimento Natural

O conhecimento natural de Deus, segundo Molina, refere-se ao conhecimento absoluto e necessário que Deus tem de todas as realidades que são necessárias e inevitáveis. Este tipo de conhecimento inclui verdades matemáticas, lógicas e outras realidades que não dependem da escolha ou livre arbítrio das criaturas.

Conhecimento Médio

O conhecimento médio é uma inovação crucial na teologia de Molina. Ele refere-se ao conhecimento que Deus tem sobre todas as possibilidades contingentes e os resultados associados a cada uma delas, com base nas escolhas livres das criaturas. Em outras palavras, Deus conhece todas as alternativas e o que ocorreria em cada uma dessas possibilidades, considerando o livre arbítrio das criaturas. Esse tipo de conhecimento é abrangente e detalhado, incluindo o conhecimento das consequências de cada ação livre possível. Portanto, enquanto Deus sabe o que aconteceria em cada cenário contingente, a realização efetiva de uma possibilidade específica depende das escolhas livres das criaturas.

Conhecimento Livre

O conhecimento livre de Deus é o conhecimento das realidades concretas e efetivas, ou seja, o conhecimento do que realmente acontece no mundo real. Esse conhecimento é condicionado pelo exercício do livre arbítrio das criaturas e pelos eventos históricos reais. Diferentemente do conhecimento médio, que lida com possibilidades e contingências, o conhecimento livre é sobre o que realmente ocorre, com base nas decisões e ações realizadas.

Conclusão

A teologia de Molina oferece uma solução sofisticada para o problema da relação entre a providência divina e o livre arbítrio humano. Ao introduzir o conceito de conhecimento médio, Molina possibilita a conciliação entre a presciência divina e a liberdade humana, mantendo a ideia de que Deus conhece todas as possibilidades e suas implicações sem interferir diretamente nas escolhas livres das criaturas.

Esses conceitos têm sido fundamentais e amplamente debatidos no campo da teologia e filosofia, especialmente em discussões sobre como a liberdade humana pode coexistir com a soberania divina.

Por Walson Sales

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022

O Paradigma das Vontades Antecedente/Consequente

 

Kenneth Keathley

 

(Salvation and Sovereignty, pp. 58-62)

 

Por toda a história da igreja, tanto as igrejas orientais quanto ocidentais ensinaram que Deus deseja a salvação de todos, embora requeira a resposta de fé da parte do ouvinte.[1] Esta abordagem das vontades antecedente/consequente não vê nenhum conflito entre as duas vontades de Deus. Deus antecedentemente deseja que todos sejam salvos. Mas para aqueles que recusam arrepender-se e crer, Ele consequentemente deseja que sejam condenados. Desta forma entende-se que Deus é como um justo juiz que deseja que todos vivam mas que relutantemente ordena a execução de um assassino.[2] Os desejos antecedentes e consequentes são diferentes, mas eles não estão em conflito.

A posição das vontades antecedente/consequente parece ser o claro ensino da Escritura. Deus antecedentemente “amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito”, e consequentemente “para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna”. Cristo antecedentemente ordena que o Evangelho seja pregado “a toda criatura”, mas Ele consequentemente decreta que “quem não crer será condenado”. O paradigma das vontades antecedente/consequente combina muito bem com a Grande Comissão.

Oden lista quatro características da vontade antecedente de Deus.[3] A primeira é que ela é universal. A salvação é desejada para todos, proporcionada para todos e oferecida a todos. Esta atitude onibenevolente incondicional é verdadeiramente antecedente no sentido que ela é dirigida a toda a humanidade antes de sua aceitação ou rejeição. Segunda, a vontade antecedente é imparcial. Cristo morreu pelos pecados do mundo todo. O amor universal logicamente exige a expiação ilimitada. Terceira, a vontade de Deus de salvar a todos é sincera. Não há nenhuma vontade oculta, nenhum decreto secreto da reprovação. E quarta, a vontade antecedente é uma vontade ordenada. É impossível o desejo de Deus permanecer impotente ou irrealizado. A vontade antecedente de salvar a todos é a base de Suas ações para proporcionar os meios da graça aos pecadores através de Cristo.

A vontade consequente de Deus possui três componentes.[4] Primeiro, é consistente com as qualidades com que Ele dotou Suas criaturas. Os humanos estão caídos, mas eles ainda são à imagem de Deus. A graça de Deus não é coerciva e pode ser recusada. Quando o ouvinte encontra o evangelho, ele é graciosamente capacitado pelo Espírito para responder livremente. A decisão do ouvinte de aceitar ou rejeitar o evangelho é genuinamente, e assustadoramente, sua. Sem dúvida, por que alguns rejeitam o evangelho é um mistério. Mas no paradigma antecedente/consequente, o mistério da iniquidade reside no homem e não em Deus.

O segundo aspecto da vontade consequente de Deus segue do primeiro. Se Deus deseja que a salvação seja consequente a nossa escolha, então esta vontade é condicional. Terceiro, a vontade consequente é justa. A concessão de Deus da salvação àqueles que creem é perfeitamente consistente com Sua natureza santa por causa da obra propiciatória de Cristo (Rm 3.21-26). A condenação de todos que não creem concorda inteiramente com Sua justiça. A vontade antecedente de Deus é perfeitamente graciosa; Sua vontade consequente é perfeitamente justa.

Geralmente, os teólogos reformados consideram a abordagem das vontades antecedente/consequente inaceitável. Eles fazem várias objeções dentre as quais três se sobressaem. A primeira é que o paradigma das vontades antecedente/consequente parece tornar a decisão de Deus contingente à escolha do homem. Eles afirmam que esta abordagem sutilmente coloca o homem no trono de Deus. Berkouwer argumenta que uma salvação que depende de uma decisão do homem torna Deus “impotente” e “expectante”.[5] Robert Shank responde que Deus pode estar esperando mas Ele não é impotente.[6] De fato, a imagem de Deus esperando é um tema rico encontrado em toda a Bíblia (Is 1.18-20, por exemplo). A abordagem das vontades antecedente/consequente entende que Deus é o soberano Iniciador e gracioso Completador da redenção. Se o homem deve escolher entre o céu e o inferno, é porque o Senhor da Criação colocou esta escolha diante dele.

A segunda objeção à abordagem das vontades antecedente/consequente é que ela parece sugerir a noção de mérito. Se todos os ouvintes são igualmente capacitados pela graça para receber o evangelho, e uma pessoa aceita a mensagem enquanto outro a rejeita, então isto não significa que de algum modo a primeira pessoa é mais virtuosa do que a segunda?[7] Esta é uma objeção difícil, mas dois pontos devem ser tidos em mente. Primeiro, esta objeção parece ver a fé como uma espécie de obra, enquanto a Bíblia consistentemente contrasta a fé com as obras (Rm 3.21-4.8). A fé, por sua própria natureza, é o oposto das obras porque é uma admissão de uma completa falta de mérito ou capacidade. O mendigo não adquire mérito quando abre suas mãos para receber um dom gratuito.[8] Segundo, o mistério não é porque alguns creem, mas porque todos não creem. Isto novamente aponta para o mistério do pecado. Não há mérito em aceitar o evangelho, mas há culpa em rejeitá-lo. Esta questão merece mais atenção, o que explica porque ela é o foco do capítulo sobre a graça superadora (cap. 4). Creio que o modelo apresentado nesse capítulo – que a graça de Deus é tanto monergística quanto resistível – é suficiente para responder esta objeção.

Uma terceira objeção feita por teólogos reformados é que o paradigma das vontades antecedente/consequente dá “lugar de destaque” ao livre-arbítrio humano sobre a glória de Deus.[9] John Piper argumenta que a visão secreta/revelada e a visão antecedente/consequente são basicamente as mesmas exceto por uma diferença importante.[10] Ambas as visões afirmam que Deus genuinamente deseja a salvação de todos, ambas as visões sustentam que este desejo é suplantado por um desejo ainda maior, mas as duas visões discordam sobre o que esse desejo maior é. Piper afirma que a posição secreta/revelada vê que o desejo maior é o desejo de Deus de glorificar a Si mesmo, enquanto a posição antecedente/consequente o desejo maior é Sua dádiva da auto-determinação aos humanos. Piper conclui que o paradigma secreto/revelado faz maior justiça à glória de Deus.

Entretanto, em sua resposta a Piper, Walls e Dongell enfatizam que os proponentes da posição das vontades antecedente/consequente não afirmam um poder humano graciosamente capacitado de auto-determinação por causa dele mesmo. Antes, a preocupação é retratar fielmente o caráter de Deus. Deus considera o incrédulo responsável porque o pecado da incredulidade verdadeiramente pertence ao incrédulo. Os condenados por Deus são justamente condenados porque receber Cristo era uma escolha genuinamente disponível. Aderir à escolha humana genuína não é um fim em si mesmo; sustentar a integridade do caráter de Deus é. Antes que deixar de engrandecer a glória de Deus, a posição das vontades antecedente/consequente glorifica a Deus mantendo que Seu procedimento é justo é consistente com Sua natureza santa.[11] Se a melhor forma dos humanos trazerem glória a Deus for escolhê-lo livremente, então a visão das vontades antecedente/consequente cumpre melhor este objetivo. Novamente, daremos mais atenção a esta questão no capítulo sobre a graça superadora.

De maneira interessante, Piper usa a analogia do justo juiz para fazer seu caso em favor do cenário das vontades secreta/revelada.[12] Ele dá o exemplo específico de quando George Washington enfrentou o difícil dilema de ter um de seus oficiais favoritos culpado de um crime capital. Apesar de sua afeição pelo jovem rapaz, Washington deu a ordem para a sua execução. A ilustração de Piper, na verdade, é um exemplo do paradigma das vontades antecedente/consequente, porque de acordo com o modelo das vontades secreta/revelada, Washington secretamente deseja o crime do oficial e inclina a vontade do jovem para executar o ato.

 

Tradução: Paulo Cesar Antunes

 


[1] T. Oden, The Transforming Power of Grace (Nashville: Abingdon, 1993), 112. Oden afirma que a Igeja chegou a este consenso acerca das duas vontades de Deus através de uma série de concílios: Éfeso (431), Arles (475), Orange (529) e Quiersy (853). Jewett, calvinista, admite que somente a tradição reformada rejeita o paradigma das vontades antecedente/consequente. Veja Jewett, Election and Predestination, 98.

[2] João de Damasco parece ser o primeiro a usar a analogia do justo juiz para explicar a congruência das duas vontades de Deus. Veja Oden, The Transforming Power of Grace, 83, e Jewett, Election and Predestination, 98.

[3] Oden, The Transforming Power of Grace, 83-86.

[4] Ibid., 87-89.

[5] G. C. Berkouwer, Divine Election (Grand Rapids: Eerdmans, 1960), 229.

[6] Shank, Elect in the Son, 129.

[7] Veja T. L. Tiessen, Who Can Be Saved? Reasessing Salvation in Christ and World Religions (Downers Grove, IL: InterVarsity, 2004), 238-39; e T. R. Schreiner e A. B. Caneday, The Race Set Before Us: A Biblical Theology of Perseverance and Assurance (Downers Grove, IL: InterVarsity, 2001), 318.

[8] Geisler aponta que a fé pode ser vista como uma obra somente por meio de um equívoco da palavra “fazer”. “Fé é algo que ‘fazemos’ no sentido de que envolve um ato de nossa vontade sugerido pela graça de Deus. Contudo, a fé não é alguma coisa que ‘fazemos’ no sentido de uma obra meritória necessária para Deus nos dar a salvação”. Veja N. Geisler, Eleitos Mas Livres: Uma Perspectiva Equilibrada entre a Eleição Divina e o Livre-Arbítrio, 1ª. Edição (São Paulo: Editora vida, 2001), 218.

[9] D. Westblade, “Divine Election in the Pauline Literature”, em Schreiner e Ware, The Grace of God, the Bondage of the Will, 69-70.

[10] Piper, “Are There Two Wills in God?”, 123-24.

[11] Walls e Dongell, Why I Am Not a Calvinist, 8.

[12] Piper, “Are There Two Wills in God?”, 128.

 

quarta-feira, 25 de agosto de 2021

Conhecimento Médio e Eleição Divina

 Conhecimento Médio e Eleição Divina

 

William Lane Craig

 

Questão 1:

 

Tenho estudado o conceito de conhecimento médio e gostaria de saber o seu ponto de vista sobre o seguinte:

 

1) Existem pessoas que Deus não pode predestinar à salvação porque elas livremente rejeitariam a Cristo não importam quais circunstâncias Deus as jogue?

2) Existem pessoas que não responderiam a um apelo[1]  mas que responderiam a um encontro com Cristo na estrada de Damasco?

3) Deus negaria passivamente um encontro com Cristo na estrada de Damasco à pessoa da Q2 se Deus não a houvesse escolhido?

 

Agradecido,

Michael.

 

Questão 2:

 

Dr. Craig,

 

Eu aprecio esta oportunidade de fazer uma pergunta a um grande pensador como você. Estou fascinado pelo debate em torno do conhecimento médio, mas superficialmente parece que ele pode ser muito simplista. Por exemplo, digamos que entre os mundos possíveis existam dois sob as seguintes condições:

 

Mundo Possível #1:

 

1. Existem três pessoas (A, B e C).

2. A Pessoa A encontra uma Bíblia e é salva.

3. A pessoa A compartilha o Evangelho com a pessoa B que é então salva.

4. A Pessoa C nunca é salva porque mesmo que ela escute o evangelho, colocou na cabeça que sempre discordaria com qualquer coisa que B acredita. (Eu conheço pessoas assim!)

 

Mundo Possível #2:

 

1. Existem três pessoas (A, B e C).

2. A Pessoa A encontra uma Bíblia e é salva.

3. A pessoa A compartilha o evangelho com a pessoa C que é então salva.

4. A Pessoa B nunca é salva porque mesmo que ela escute o evangelho, colocou na cabeça que sempre discordaria com qualquer coisa que C acredita.

 

Pergunta: Que mundo Deus preferiria? Aquele em que as pessoas A e B são salvas (Mundo #1) ou aquele no qual as pessoas A e C são salvas (Mundo #2)? Como muitos mundos possíveis de contingências existem, parece que Deus pode ter de fazer escolhas onde pessoas potencialmente salvas nunca seriam salvas.

 

Obrigado,

Bruce.

 

Dr. Craig responde:

 

É importante ter sempre em mente que Luis de Molina desenvolveu sua doutrina do conhecimento médio divino em resposta às visões fortemente predeterminacionistas dos Reformadores Protestantes como Lutero e Calvino. Ele quis enunciar uma doutrina extremamente forte da soberania divina, satisfazendo para tanto as demandas teológicas dos reformadores, tendo a vantagem de afirmar também a realidade do livre arbítrio humano. Pessoas que não gostam das afirmações fortes dos reformadores sobre a soberania divina estão, portanto, inclinados a desgostar também das visões de Molina. Mas Molina, assim como os reformadores, tomou com seriedade, gostassem disso ou não, a afirmação bíblica sobre a soberania divina acima dos negócios dos homens.

 Bruce, tomemos primeiro a sua questão, e assumamos que esses não são apenas mundos possíveis, mas mundos que são viáveis para Deus de criar (Sobre a diferença veja a Questão #138). Além disso, pelo bem do argumento, suponhamos que esses sejam os únicos mundos habitados por apenas A, B e C que são viáveis para Deus. Num caso como esse, cabe à liberdade e soberania de Deus escolher qual mundo preferir. Tudo o mais sendo igual (não sabemos como é o restante desses mundos), esses dois mundos parecem exatamente os mesmos em valor, e portanto eu não posso ver qualquer razão para a preferência de Deus sobre um mundo em vez do outro. Parece ser uma escolha como aquela descrita no caso clássico do asno de Buridan, o infeliz animal que foi pego à mesma distância entre dois pacotes igualmente apetitosos de feno. O debate foi sobre se o asno, em faltando-lhe o livre-arbítrio, iria morrer de fome, não tendo ímpeto para escolher um ao invés do outro. Um ser humano nunca cairia numa armadilha como essa, já que é da própria natureza do livre arbítrio fazer escolhas arbitrárias entre alternativas igualmente boas. Então, parece-me que Deus poderia escolher arbitrariamente entre esses dois mundos (embora existam outras incontáveis opiniões).

 Suponha que Deus escolha fazer surgir o mundo #2. Então B está condenado, mesmo que ele teria sido salvo se Deus tivesse escolhido criar, pelo contrário, o mundo #1. Isso parece deixá-lo desconfortável, Bruce. Se sim, então o que você precisa manter em mente é que em qualquer mundo, Deus deseja a salvação de todas as pessoas e provê graça suficiente para a salvação delas. O mundo de A, B e C que Deus realmente prefere criar é aquele em que A, B e C todos abraçam livremente a graça de Deus e encontram a salvação. Infelizmente,  ex hypothesi, esse mundo, embora possível, não é viável para Deus de criar. Uma das três pessoas irá perversamente rejeitar a graça salvadora de Deus e separar-se dEle eternamente. Então, mesmo embora a soberania de Deus escolha qual mundo criar, a decisão é das pessoas daquele mundo se serão ou não salvas. Um molinista francês colocou esse paradoxo muito eficientemente:

 Cabe a Deus decidir se eu me encontro num mundo no qual sou predestinado; mas cabe a mim decidir se eu sou predestinado no mundo em que me encontro.

 Pense muito e cuidadosamente sobre isso. Contanto que a segunda cláusula seja verdadeira, Deus não pode ser culpado pela condenação de ninguém.

 Agora, nós estamos restringindo artificialmente as opções de Deus pelo bem do argumento. Portanto, não segue do seu experimento mental que Deus tem de “fazer escolhas onde pessoas potencialmente salvas nunca são salvas”. Porque talvez Deus tenha escolhido realizar um mundo no qual os condenados são exclusivamente pessoas que teriam rejeitado a graça de Deus em todo mundo viável para Deus no qual elas existem. Nesse caso, não é verdade que Deus criou quaisquer pessoas não salvas que são, como você colocou, “potencialmente salvas”. (É claro, todas as pessoas são potencialmente salvas já que existem mundos possíveis nos quais aquelas pessoas são livremente salvas; mas tais mundos podem não ser viáveis para Deus). Talvez todos os réprobos são indivíduos trans-mundialmente condenados pelo seu próprio livre-arbítrio. Isso é, obviamente, pura especulação, mas mostra que nós não deveríamos assumir assim tão precipitadamente que existem pessoas que são condenadas mas que seriam salvas se algum outro mundo viável fosse o real.

 Isso nos traz à sua questão, Michael. A resposta curta a todas elas é, “Nós não sabemos”. (1), como já vimos, é certamente possível; de fato, talvez todos os réprobos sejam assim. Novamente, talvez existam pessoas como aquelas descritas em (2). Tome, por exemplo, alguém que é salvo lendo a Escritura e tornando-se cônscio da convicção do Espírito Santo. Talvez ele também teria sido salvo se tivesse tido uma experiência como a do apóstolo Paulo na estrada de Damasco; mas ele não teria respondido a um apelo. Não consigo ver qualquer razão para pensar que não existam pessoas assim.

 Com respeito à (3), sua pergunta é um pouco enganadora: Numa visão molinista, o problema não é que Deus não tenha escolhido essa pessoa, mas que essa pessoa não o escolheu. De acordo com a visão de Molina, Deus oferece graça suficiente para a salvação de todo ser humano, mas a sua graça é extrinsecamente eficaz, não intrinsecamente, porque ela requer a livre resposta da parte da pessoa para que seja eficaz em salvá-la. O que Deus realmente faz é escolher um mundo no qual aquela pessoa livremente responde à salvação de Deus ou livremente a rejeita. Então o que eu penso que você realmente está perguntando é isso: existem pessoas que são condenadas porque elas livremente rejeitam à graça de Deus mas que teriam sido salvas livremente num mundo viável em que elas estivessem em outras circunstâncias? E a resposta para essa pergunta é, como venho dizendo, “Nós não sabemos”. Podemos muito bem imaginar por que Deus não criaria um mundo no qual essas pessoas se encontrassem em outras circunstâncias: talvez, em um mundo assim, incontáveis outras pessoas teriam sido perdidas, de tal forma que esse mundo tem desvantagens predominantes. Por outro lado, talvez, como sugerido acima, todos os réprobos são trans-mundialmente condenáveis, de forma que ninguém poderia dizer a Deus no dia do julgamento: “Se você tivesse me criado em outras circunstâncias, então eu teria escolhido livremente ser salvo!”.

 A doutrina do conhecimento médio não toma uma posição específica nessa espécie de questões, mas pode ser empregada com criatividade para elaborar várias opções.

 

Fonte:  http://www.reasonablefaith.org/site/News2?page=NewsArticle&id=7803


Tradução: Samuel Carvalho Santos

______________

[1]  Nota do tradutor: No original está “altar call”. Um “altar call”, segundo a Wikipedia, é aquela prática em algumas igrejas evangélicas em que aqueles que desejam fazer uma nova aliança espiritual com Cristo são convidados a irem à frente do altar, para “aceitar a Jesus” publicamente. É o chamado “apelo”, realizado algumas vezes no final das reuniões ou dos cultos.

sábado, 22 de fevereiro de 2020

O argumento ontológico

O famoso argumento de Anselmo foi reformulado e defendido por Alvin Plantinga, Robert Maydole, Brian Leftow e outros. Deus, observa Anselmo, é por definição o maior ser concebível. Se você pudesse conceber algo maior do que Deus, então isso seria Deus. Portanto, Deus é o maior ser concebível, um ser maximamente grande. Então, como seria tal ser? Ele seria todo-poderoso, onisciente e todo bondoso, e iria existir em todos os mundos logicamente possíveis. Então, pode-se argumentar:

1. É possível que um ser maximamente grande (Deus) exista.
2.Se é possível que um ser maximamente grande exista, então um ser maximamente grande existe em algum mundo possível.
3. Se um ser maximamente grande existe em algum mundo possível, então ele existe em todos os mundos possíveis.
4. Se um ser maximamente grande existe em todos os mundos possíveis, então ele existe no mundo real.
5. Logo, um ser maximamente grande existe no mundo real.
6. Logo, um ser maximamente grande existe.
7. Logo, Deus existe.

Pode ser uma surpresa saber que os passos 2-7 deste argumento são relativamente incontroversos. A maioria dos filósofos concordaria que se a existência de Deus é até mesmo possível, então ele deve existir.

Então a única questão é: a existência de Deus é possível? O ateu deve sustentar a impossibilidade da existência de Deus. Ele deve dizer que o conceito de Deus é incoerente, como o conceito de um solteiro casado ou um quadrado redondo. Mas o problema é que o conceito de Deus não parece ser incoerente desta maneira. A idéia de um ser que é todo-poderoso, onisciente e todo-bondoso em qualquer mundo possível parece perfeitamente coerente. E na medida em que a existência de Deus é até mesmo possível, conclui-se que Deus deve existir.


Neste artigo de capa para a revista Christianity Today, o Dr. Craig  descreve o renascimento, entre  os filósofos contemporâneos, dos argumentos a favor da existência de Deus. Conclui com alguns provocantes comentários sobre a relevância dos argumentos, explodindo o mito de que vivemos em uma cultura pós-moderna.
Originalmente publicado como: "God Is Not Dead Yet." InChristianity Today, Julho, 2008, pp.22-27. Texto reproduzido na íntegra em http://www.reasonablefaith.org/god-is-not-dead-yet.

Traduzido por Wagner Kaba. Revisado por Djair Dias Filho.

Enviado por Sandro Nascimento.

As intenções absolutas e condicionais de Deus

O Molinismo requer que tracemos uma distinção entre as intenções absolutas de Deus e suas intenções condicionais. Sua intenção absoluta é que todas as pessoas sejam salvas e venham ao conhecimento da verdade. Mas devido a liberdade e a obstinação humana esta intenção absoluta é frustrada. A intenção condicional de Deus é salvar certas pessoas e realizar certos eventos sem anular a liberdade humana, e as intenções condicionais de Deus são sempre cumpridas. Assim, enquanto a vontade absoluta de Deus não é realizada, sua vontade permissiva é. Tal entendimento é fiel ao testemunho das escrituras com respeito à vontade salvadora universal de Deus e o trágico fato de que muitas pessoas serão condenadas. O calvinismo não pode levar a sério o testemunho das escrituras acerca da vontade salvadora universal de Deus.

Willian Lane Craig

Four Views on Divine Providence, pp. 171

Tradução Walson Sales.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

Deus a Única Realidade Última


[Nota do tradutor: a tradução deste capítulo tem a intenção precípua de buscar editoras interessadas em comprar os direitos autorais e publicar a obra completa em português. Os demais objetivos são para informar os amantes de Teologia e Filosofia sobre assuntos correlatos diversos. O Dr. William Lane Craig mais uma vez provou ser um acadêmico de ponta, um pensador original. Apenas neste capítulo, o leitor verá o quão denso e profundo é o tema da relação do Logos com o Pai e como os Pais da Igreja trataram desse tema em respostas aos Gnósticos, Platonistas Médios e Neo-Platônicos. Este livro é leitura obrigatória para os amantes da Palavra de Deus.] 

Deus 
A Única Realidade Última 

Por William Lane Craig 

[capítulo 2 do livro God Over All: Divine Aseity and the Challenge of Platonism

Neste capítulo, quero revelar os fundamentos bíblicos e teológicos da doutrina da aseidade divina. Fazer isso deve nos ajudar a resistir a qualquer tentação de nos acomodar ao Platonismo, que sustenta que, além de Deus, também existem outras coisas não criadas. Espero mostrar que o Platonismo atinge o coração do teísmo bíblico. 

BASE BÍBLICA DA ASEIDADE DIVINA 

O testemunho bíblico do status de Deus como a única realidade última é claro e abundante. No Novo Testamento, João e Paulo, por exemplo, testemunham essa doutrina. Vamos examinar primeiro o que João tem a dizer e depois o testemunho de Paulo. 

O Prólogo de João 

Sem dúvida, um dos principais textos que testemunham o status de Deus como a única realidade última é o prólogo do Evangelho de João. Lá João escreve, 

No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez. Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens. E a luz resplandece nas trevas, e as trevas não a compreenderam. João 1:1-5 

Observe que, na visão de João, embora Deus e Sua Palavra (logos em Grego) simplesmente estivessem no princípio (v. 1), é dito que tudo mais surgiu através dele (v. 3). A palavra Grega que João usa no v. 3 é ginomai, que significa "tornarse" ou "originar". Serve para contrastar todo o resto com Deus e Sua Palavra, que não tiveram nenhuma origem, mas estavam 'no princípio' (uma frase emprestada de Gênesis 1: 1). João implica, portanto, que não existem entidades eternas a parte de Deus, pois todas as coisas, exceto Deus, passaram a existir. 

O verbo ginomai também tem o significado "ser criado" ou "ser feito". Esse significado do verbo é destacado por João, indicando o agente responsável por todas as coisas que estão sendo criadas. João fala da Palavra de Deus como aquela “através de quem” todas as coisas surgiram. No grego, a preposição dia ('através, por meio') + o caso genitivo do substantivo ou pronome indica a agência por meio da qual é produzido algum resultado. Então, João está dizendo que todas as coisas foram criadas por meio da Palavra de Deus. João implica, portanto, não apenas que não existem seres eternos separados de Deus; também não há seres incriados separados de Deus. 

Logo, a princípio, o prólogo de João está repleto de implicações metafísicas, pois implica que somente Deus existe eternamente a se. Não há coisas co-eternas e não criadas ao lado de Deus. 

Os Platonistas que seriam Cristãos biblicamente fiéis devem, portanto, dizer que João não está realmente falando sobre tudo quando diz 'todas as coisas', assim como nós quando dizemos, por exemplo, 'todos vieram para a festa do escritório' ou 'Não há nada Na geladeira'. Ao fazer tais declarações, obviamente não queremos dizer que Nelson Mandela veio à festa do escritório ou que a geladeira não tem prateleiras e que não tenha nem ar circulando dentro! Antes, em cada caso, estamos falando com relação a certas classes de coisas, por exemplo, pessoas que trabalham no escritório ou coisas boas para comer. 

Os lógicos chamam de afirmação universalmente quantificada aquela que diz algo sobre todos os membros de uma classe, não apenas sobre alguns membros de uma classe. As afirmações universalmente quantificadas podem ser afirmativas; nesse caso, normalmente usamos palavras como 'todos', 'todo', 'cada', 'qualquer' e assim por diante; ou negativas, casos em que geralmente empregamos palavras como 'não', 'nenhum', 'nada', 'ninguém' e assim por diante, com respeito à classe de coisas que estamos nos referindo. Os lógicos chamam a classe relevante de coisas como o domínio, esfera da quantificação. 

Agora, o terceiro verso do prólogo de João é uma afirmação universalmente quantificada: 'Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez.' A primeira parte do v. 3 é uma declaração afirmativa, universalmente quantificada, enquanto a segunda parte do verso é uma declaração negativa, universalmente quantificada. A questão é: João tinha em mente que a classe de coisas que ele está se referindo são irrestritas ou ele está falando apenas de uma classe restrita de coisas? Os pretensos Platonistas Cristãos devem sustentar que o domínio da quantificação de João é restrito de tal maneira que objetos abstratos escapam de suas afirmações quantificadas universalmente. 

Agora, obviamente, a classe de coisas de que João está falando não é totalmente irrestrita. Pois João claramente exclui o próprio Deus e Sua Palavra de pertencer à classe das coisas sobre as quais está falando, uma vez que elas já foram ditas no v. 1, ou seja, que simplesmente já existiam no princípio. Deus e Sua Palavra não são os sujeitos da criação temporal, como são as outras coisas. Eles não passaram a existir, mas simplesmente estavam lá 'no princípio'. Então, ao dizer que "todas as coisas vieram a existir através dele", João obviamente não pretende incluir o próprio Deus no domínio/esfera da quantificação. O Platonista deve dizer, no entanto, que o domínio da quantificação de João é ainda mais restrito do que dessa maneira óbvia. 

Agora, é importante que entendamos claramente a questão diante de nós, pois ela é muitas vezes incompreendida. A questão não é: João tinha objetos abstratos explicitamente em mente quando disse que "todas as coisas passaram a existir por meio dele"? Duvido que João explicitamente tenha entendido que os objetos abstratos faziam parte da criação de Deus, seja porque ele nunca tenha pensado em objetos abstratos ou porque, se o tivesse, ele não atribuiu a eles existência extra-mental, como explicarei abaixo. 

Talvez João nunca tivesse pensado em objetos abstratos; mas, da mesma forma, João também não pensara em quarks, galáxias e buracos negros; no entanto, ele sem dúvida aceitaria tais coisas e inúmeras outras coisas, se fosse informado sobre elas, como coisas que tivessem sido criadas por Deus e coisas que estivessem na classe das coisas sobre as quais ele está falando. Se João não teria considerado esse tipo de coisas desconhecidas como não criadas, se ele fosse informado sobre elas, por que pensar que ele teria isentado os objetos abstratos Platônicos? 

Lembre-se de que para os Platonistas pesos pesados,[*] objetos abstratos e objetos físicos comuns estão em um nível ontológico. O filósofo Platonista Mark Steiner enfatiza que "os números naturais ... são objetos no mesmo sentido que moléculas são objetos".[1] Como o eminente filósofo de Harvard W.V.O. Quine colocou de maneira ilustrada, "Números de todos os tipos, funções e muito mais ... são tão essenciais à teoria física que os utiliza, como os átomos, os elétrons, os gravetos, são para esse assunto e as pedras”.[2] As entidades abstratas podem até parecer mais remotas das percepções diretas dos sentidos do que as microentidades, mas elas são, de acordo com o Platonismo, apenas reais, de modo que, se as entidades subatômicas se situam no domínio ou esfera dos quantificadores de João, o mesmo acontece com os números.[3] Portanto, se os objetos abstratos existem, como o Platonista pensa, eles veriam como arbitrário excluí-los dos domínios dos quantificadores de João. 

[*Nota do tradutor: Craig faz uma distinção entre os Platonistas Pesos Pesados e Pesos leves, e na introdução e diz: “Um é uma espécie de platonismo "peso pesado", que considera objetos abstratos tão reais quanto os objetos físicos que compõem o mundo. Para esse tipo de Platônico, os números são como automóveis, apenas mais numerosos, abstratos e eternos. Essa comparação nos faz sorrir; mas serve para sublinhar a seriedade do compromisso ontológico do Platônico peso pesado com objetos abstratos.” (p. 7, 8). Craig menciona que o Platônico “Peso Leve” tem um compromisso mais obscuro com os Objetos abstratos, mas que não comprometem a visão tradicional Cristã sobre Deus.] 

A questão, então, não é o que João pensava estar no domínio/esfera de seus quantificadores; antes, a questão é se João pretende que seu domínio de quantificação, uma vez que Deus esteja isento, seja irrestrito. Ele pensou que, à parte de Deus, tudo o mais que existe foi criado por Deus? Ele acreditava que Deus é a única realidade incriada? É mais do que provável que ele acreditava. Pois o status de Deus como o único ser eterno, não criado, é uma marca do Judaísmo do primeiro século, que é o pano de fundo contra o qual o Novo Testamento foi escrito. 

Em sua influente obra sobre o caráter do monoteísmo Judaico antigo, Richard Bauckham identifica duas características que marcam exclusivamente o Deus de Israel de todos os outros, a saber: 'ele é criador de todas as coisas e soberano Governador de todas as coisas'.[4] Existe no Judaísmo dos dias de João, uma linha divisória brilhante que separa Deus ontologicamente de tudo o mais, uma bifurcação que Bauckham tenta capturar por meio de uma 'singularidade transcendente'. Bauckham observa que as chamadas figuras intermediárias no Judaismo caem em uma de duas categorias: (1) seres que são sobrenaturais, mas criados, como anjos, e (2) personificações dos aspectos do próprio Deus que não têm existência independente, como a Palavra de Deus e a Sabedoria de Deus. O status de Deus como a única realidade última vem à expressão prática na restrição Judaica da adoração, quando adequadamente direcionada somente a Deus. Segundo Bauckham, essa restrição 'claramente sinalizou a distinção entre Deus e toda a outra realidade'.[5] 

É interessante que, como João, Bauckham não faz menção explícita a objetos abstratos. Como um estudioso bíblico, e não um filósofo, ele pode desconhecer completamente esses objetos. No entanto, é óbvio que ele lê os textos Judaicos que cita como irrestritos em seu domínio de quantificação (uma vez que Deus é isento). Por exemplo, ele escreve: 

Este Deus de Israel é o único criador de todas as coisas e o Senhor soberano sobre todas as coisas. Entre as muitas outras coisas que os Judeus do final do período do Segundo Templo disseram sobre a singularidade de seu Deus, esses dois aspectos de seu relacionamento singular com todas as outras realidades foram os mais citados, usados repetidamente para colocar YHWH em uma categoria absolutamente singular.[6] 

Bauckham usa esses textos Judaicos para distinguir Deus de todo o resto da realidade, e a maioria dos estudiosos concordou com a exegese de Bauckham desses textos. 

O ponto crucial aqui é que a irrestrição do domínio da quantificação se baseia, não em que tipos de objetos se pensava estar no domínio, mas na doutrina Judaica de Deus como o único ser que existe eternamente e a se. É quem ou o que Deus é que exige que o domínio da quantificação seja irrestrito, quaisquer que sejam os seres que possam ser descobertos neste domínio. 

O próprio João identifica a Palavra (logos) sozinha como existindo com Deus e sendo Deus no princípio. A criação de tudo o mais através do Logos divino se segue. Bauckham chama essa visão de 'monoteísmo cristológico': o Logos divino está do lado de Deus na linha divisória entre Deus e o resto da realidade. Ele não é, portanto, uma entidade adicional não criada que existe à parte de Deus. 

Então, embora eu pense que João provavelmente não tinha em mente os objetos abstratos quando afirmou que todas as coisas surgiram através do Logos, não há razão para duvidar que ele acreditasse que todas as coisas existentes, exceto Deus, haviam surgido através do Logos. Se um filósofo moderno se sentasse com João e explicasse a ele o que supostamente é um objeto abstrato, dandolhe exemplos como números, proposições e mundos possíveis, e dissesse a ele que muitos Platonistas do século XXI acreditam que tais coisas como objetos independentes da mente existem de maneira tão robusta quanto objetos físicos familiares, João sem dúvida teria respondido que, se existem realmente essas coisas, elas também devem ter sido criadas pelo Logos divino. Postular uma plenitude infinita de seres tão reais quanto os planetas existentes, como independentemente de Deus, de modo que o domínio dos objetos concretos criados por Deus seja literalmente infinitesimal por comparação, seria trair o monoteísmo Judaico e banalizar a doutrina da criação. Portanto, acho que fica claro que João pretendia que seu domínio de quantificação incluísse tudo à parte de Deus, qualquer que seja a ideia que ele possa ter sobre os objetos que estão no domínio/esfera. 

Mas João, de fato, desconhecia os objetos abstratos, como assumimos? Isso não parece óbvio. Pois na época de João, o Platonismo clássico havia evoluído para o chamado Platonismo médio, e o Judaísmo Helenístico tem essa marca. A doutrina do Logos criativo divino encontrada no prólogo de João, está longe de ser original a João, pois era difundida no Platatonismo Médio. É atestado desde Antíoco de Ascalon (125-68 a.C.) e Eudorus (primeiro século a,C.), dois dos primeiros Platonistas médios. Judeus Helenistas, notavelmente Filo de Alexandria (20 a.C. - 50 d.C.), adaptaram a doutrina do Logos ao monoteísmo Judaico. As semelhanças entre a doutrina do Logos de Filo e a doutrina do Logos de João são impressionantes e numerosas. Em uma revisão cuidadosa dos papéis do Logos, como encontrados em Filo e em João, a estudiosa alemã Jutta Leonhardt-Balzer resume as semelhanças mais importantes: 

ambos usam o Logos de maneira semelhante à literatura [Judaica] de Sabedoria; ambos descrevem o Logos como temporalmente anterior à criação (Op. 17; 24; Jo 1.1-2). Na medida em que vão além da tradição da Sabedoria, eles o chamam de "Deus" (Som. 1.228-230; Jo.1.1). Ambos conectam a operação do Logos com o começo do mundo (Conf. 146; Jo 1.1–2) e veem o mundo como criado "através" (διά) do Logos (Cher.127; Jo 1.3). Ambos conectam o Logos à luz (Som. 1.75; Op. 33; Conf. 60-63; Jo 1.4-5, 9) e vêem no Logos o caminho para as pessoas se tornarem filhos de Deus (Conf. 145-146; Jo 1.12) Ambos fazem uma distinção clara entre o Logos com Deus e o Logos na criação, pelo qual não apenas o prólogo de João, mas ambos trazem as declarações de Gênesis para colocar o Logos com Deus.[7] 

Há muita coisa aqui que merece um comentário; mas quero chamar atenção especial para o papel do Logos divino na criação. Tanto Filo quanto João conectam o Logos com o início do cosmos. João diz que o Logos existia no princípio e que o cosmos passou a existir por meio dele (1: 3,10). Filo, citando Gênesis 1: 1: 'No princípio criou Deus os céus e a terra', também conecta o Logos com o início do mundo (On the Creation of the World 26–7). Ambos entendem o Logos como o agente da criação, através do qual o mundo foi feito. O uso da preposição dia + o genitivo para expressar a criação instrumental não é derivada da literatura de Sabedoria Judaica, antes é uma marca do Platonismo Médio; de fato, tanto que os estudiosos desse movimento gostam de falar sobre a 'metafísica preposicional', na qual várias frases preposicionais são empregadas para expressar categorias causais:[8] 

Frase: to huph’ hou // to eks hou //to di’ hou // to di’ ho 
Categoria: to aition Causa eficiente // hē hulē Causa material //to ergaleion Causa instrumental // hē aitia Causa final 
Entidade: Deus o Criador // Os quatro elementos // O Logos de Deus // A Bondade de Deus 

Filo identifica os quatro tipos de causas de Aristóteles por essas frases preposicionais, afirmando que 'através do qual' (to di' hou) representa a criação pelo Logos (On the Cherubim 124–7).  Filo freqüentemente se refere ao Logos como a causa instrumental da criação.[9] Embora alguns comentaristas do Evangelho de João tenham insistido corretamente que João não está interessado em metafísica a princípio, mas em salvação, não podemos ignorar suas afirmações explicitamente metafísicas pelas quais todas as coisas surgiram por meio do Logos (di' autou) e que o mundo (kosmos) surgiu por meio dele (di' autou) (1: 3, 10). 

As semelhanças entre as doutrinas de Filo e João sobre o Logos são tantas e tão parecidas que a maioria dos estudiosos Joaninos, embora não desejem afirmar a dependência direta de João em relação a Filo, reconhecem que o autor do prólogo do evangelho de João compartilha com Filo de uma tradição intelectual comum da interpretação Platônica Média de Gênesis 1.[10] 

Agora, interessado como ele é na encarnação do Logos divino, João não faz uma pausa para refletir sobre o papel do Logos 'no início', causalmente antes da criação. Mas esse papel na pré-criação aparece com destaque na doutrina de Filo sobre o Logos. De acordo com David Runia, uma pedra angular do Platonismo Médio era a divisão da realidade das esferas do inteligível e sensível.[11] A divisão percebida é genuína, mas acho que é um pouco enganador fazer a distinção em tais termos.[12] A distinção fundamental aqui, originalmente encontrada em Platão, é entre a esfera do ser estático e a esfera da vinda do que é temporal. A primeira esfera é apreendida pelo intelecto, enquanto a segunda é percebida pelos sentidos. A esfera de se tornar um objeto primordialmente físico, enquanto a esfera estática de ser constituído pelo que hoje chamaríamos de objetos abstratos. Para os Platônicos Médios, como para Platão, o mundo inteligível serviu como modelo para a criação do mundo sensível. Como um Judeu monoteísta, Filo não acha que essa esfera inteligível exista independentemente de Deus, mas antes como o conteúdo de Sua mente. 

Contudo, essa visão não era original de Filo. A interpretação das Ideias Platônicas como pensamentos na mente de Deus era característica do Platonismo Médio e se espalhou por todo o mundo antigo.[13] Por exemplo, Nicômaco de Gerasa (60-120 d.C.), que floresceu na Síria Romana, adjacente à Judéia, sustentou que, dos quatro assuntos do quadrivium clássico, 

A aritmética ... existia antes de todos os outros na mente do Deus criador, como um plano universal e exemplar, baseando-se no qual, como projeto e exemplo arquetípico, o Criador do universo coloca em ordem as criações materiais e as faz pertencer aos seus próprios fins... 

Tudo o que, por natureza, com método sistemático, foi organizado no universo, parece que ambas as partes foram determinadas e ordenadas de acordo com os números, pela premeditação e pela mente daquele que criou todas as coisas; pois o padrão fora fixado, como um esboço preliminar, pela dominação dos números existentes na mente do Deus criador do mundo, números apenas conceituais e imateriais em todos os sentidos, mas ao mesmo tempo a essência verdadeira e eterna, de modo que com referência aos números, como a um plano artístico, devem ser criadas todas essas coisas, tempo, movimento, céus, estrelas, todos os tipos de revoluções.[14] 

Filo concordou. O mundo inteligível (kosmos noētos), ele sustenta, pode ser pensado como formado pelo Logos divino ou, mais redutivamente, o próprio Logos, como Deus, está empenhado em criar. Embora as referências a esse papel do Logos sejam frequentes em Filo,[15] a exposição mais completa de sua doutrina aparece em sua obra On theCreation of the World according to Moses: 

Deus, porque Ele é Deus, entendeu antecipadamente que uma cópia justa não surgiria à parte de um modelo justo e que nenhum dos objetos da percepção sensorial ficaria sem defeitos, a menos que fosse modelado na ideia arquetípica e inteligível. Quando ele decidiu construir esse cosmos visível, ele primeiro marcou o cosmos inteligível, para poder usá-lo como um paradigma incorpóreo e mais divino e, assim, produzir o cosmos corpóreo, uma semelhança mais jovem de um modelo mais antigo, o que conteria tantos tipos sensíveis aos sentidos quanto havia tipos inteligíveis naquele outro. 

Declarar ou supor que o cosmos composto pelas ideias existe em algum lugar não é permissível. Como foi constituído, entenderemos se prestarmos muita atenção a uma imagem trazida de nosso próprio mundo. Quando uma cidade é fundada, de acordo com a alta ambição de um rei ou governante que reivindicou o poder supremo e, porque essa cidade é ao mesmo tempo magnífica em sua concepção, acrescenta mais adornos à sua riqueza, isso pode acontecer se um arquiteto treinado se apresente. Tendo observado tanto o clima favorável quanto a localização do local, ele primeiro projeta em sua mente um plano de praticamente todas as partes da cidade a serem concluídas - templos, ginásios, repartições públicas, mercados, portos, estaleiros, ruas, construção de muros, o estabelecimento de outros edifícios, privados e públicos. Então, pegando as impressões de cada objeto em sua própria alma como impressos em uma cera, ele carrega a cidade inteligível como uma imagem em sua cabeça. Reunindo as imagens por meio de seu poder inato de memória e gravando suas características ainda mais distintamente em sua mente, ele começa, como um bom construtor, a construir a cidade com pedras e madeira, olhando o modelo e garantindo que os objetos físicos correspondam a cada uma das ideias incorpóreas. 

A concepção que temos a respeito de Deus deve ser semelhante a essa, a saber, quando ele decidiu a grande cidade cósmica, ele primeiro concebeu seus contornos. Destes, ele compôs o cosmos inteligível, que serviu de modelo quando ele também completou o cosmos sensível aos sentidos. Assim como a cidade previamente marcada pelo arquiteto não tinha localização fora, mas estava gravada na alma do artesão, da mesma forma que o cosmos composto pelas ideias não teria outro lugar senão o Logos divino, que fornece (ideias) sua disposição ordenada. Afinal, que outro lugar haveria para que seus poderes fossem suficientes para receber e conter, não falo sobre todos eles, mas apenas um deles em seu estado não misturado? Se você deseja usar uma formulação que foi reduzida ao essencial, pode-se dizer que o cosmos inteligível nada mais é do que o Logos de Deus, pois Ele está realmente empenhado em fazer o cosmos. Pois a cidade inteligível também não é nada mais senão o raciocínio do arquiteto, pois ele está realmente envolvido no planejamento da fundação da cidade. (On the Creation of the World 16–20, 24). 

Especialmente digna de nota é a insistência de Filo de que o mundo das ideias não pode existir em lugar algum, a não ser no Logos divino. Assim como o plano arquitetônico ideal de uma cidade existe apenas na mente do arquiteto, o mundo das ideias existe apenas na mente de Deus. 

Na visão de Filo, então, não há esfera de objetos abstratos independentemente existentes. Como afirma Runia, o mundo inteligível, embora não faça parte da esfera criada, "deve ser considerado dependente em Deus para sua existência".[16] 

Dada a estreita semelhança da doutrina do Logos no prólogo de João com a doutrina de Filo, não é de todo impossível que o autor do prólogo estivesse ciente da relação do Logos com a esfera do mundo das ideias. É impressionante como o verbo do ser dominam os vv. 1–2 do prólogo de João, enquanto o verbo vir a ser dominam nos vv. 3–5.[17] Pode ser que o autor do prólogo tenha pensado que apenas objetos concretos haviam sido criados por Deus porque a esfera inteligível existe apenas na mente de Deus. A esfera inteligível não tem realidade fora do Logos divino. 

Eu acho que não é improvável que o autor do prólogo, se não o próprio evangelista, tenha sustentado a visão Platônica Média de Deus e de objetos abstratos. Mas, quer ele tenha ou não, é claro que o autor do Evangelho de João concebe Deus como o Criador de tudo à parte de Si, através da Sua Palavra. Não existem objetos eternos não criados, independentemente existentes, pois Deus existe unicamente a se. 

AS CARTAS DE PAULO 

Passamos agora ao que Paulo tem a dizer em suas várias cartas sobre o status de Deus como a única realidade última. O mesmo Judaísmo Helenístico, resumido em Filo, que forma o pano de fundo do prólogo de João, molda as tradições que Paulo sustenta. Considere os seguintes textos paulinos: 

todavia, para nós há um só Deus, o Pai, de quem são todas as coisas e para quem existimos; e um só Senhor, Jesus Cristo, pelo qual são todas as coisas, e nós também, por ele. (1 Coríntios 8:6) 

Porque, como provém a mulher do homem, assim também o homem é nascido da mulher; e tudo vem de Deus. (1 Coríntios 11:12) 

Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém! (Romanos 11:36) 

Este [Cristo] é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação; pois, nele, foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades. Tudo foi criado por meio dele e para ele. Colossenses (1:15,16) 

Paulo, como João, atribui a Deus a origem de 'todas as coisas'. Um Judeu fiel, Paulo sustentou o entendimento monoteísta tradicional de que Deus é a fonte de tudo a parte dEle próprio. 

Perceba o uso de frases com preposições que Paulo utiliza, como "dele", "por meio dele" e "para ele". Douglas Moo comenta Romanos 11: 36, ‘O conceito de Deus como fonte (ek), sustentador (dia) e objetivo (eis) de todas as coisas é particularmente forte entre os filósofos Estóicos Gregos. Judeus Helenistas pegaram essa linguagem e a aplicaram a Yahweh; e é provavelmente, portanto, da sinagoga que Paulo toma emprestado essa fórmula.'[18] Sim, mas o pensamento Estóico é a fonte mais distante; mais imediatamente, o que vemos aqui são variações da metafísica preposicional do Platonismo Médio que moldou o Judaísmo Helenístico. Richard Horsley percebe como essa formulação preposicional é incomum para Paulo e argumenta que a proveniência das expressões de Paulo pode ser encontrada em Filo. Observando que "inúmeras passagens nos escritos de Filo fornecem uma analogia para quase todos os aspectos da linguagem e do ponto de vista religioso dos Coríntios",[19] Horsley comenta, 

I Cor. 8.6 é uma adaptação da forma Judaica Helenística Tradicional de predicação aos respectivos papéis criativos e soteriológicos de Deus e Sofia/Logos, que Filo ou seus antecessores haviam adaptado de uma fórmula filosófica Platônica relativa aos princípios primordiais do universo. O que já era um princípio fundamental da religião Judaica Helenística expressa no livro da Sabedoria aparece em uma formulação mais filosófica em Filo; que Deus é o Criador supremo e a causa final do universo, e que Sofia/Logos é o agente (e paradigma) da criação ou a causa instrumental (e formal).[20] 

Observe no comentário de Horsley que, embora Deus seja considerado a causa eficiente e final do universo das coisas criadas, Sofia/Logos (Sabedoria / Palavra) é a causa instrumental e a causa formal (ou paradigma) da criação. Este último papel faz de Sofia/Logos especificamente a fonte ou o fundamento do kosmos noētos ou do mundo inteligível. A inovação de Paulo é que ele substitui Cristo por Sofia/Logos, tendo 'Cristo assumido o que eram as funções de Sofia, de acordo com a gnosis dos Coríntios'.[21] 

Do mesmo modo, Paulo, em sua carta aos Colossenses, parece ter adaptado o material hinário Judaico Helenístico tradicional sobre Sofia/Logos para tornar Cristo o agente da criação. Peter O'Brien comenta: 

Embora existam pontos de contato lingüístico com o Estoicismo, especialmente, e assim a linguagem do hino pode ter servido de ponte para aqueles de tal formação (cf. a função semelhante do λόγος em João 1), no entanto, o pensamento Paulino é diferente da alma mundial estoicista panteísta concebida... os paralelos do Judaísmo Helenístico, especialmente a LXX, estão muito mais próximos.[22] 

Por exemplo, lemos em Sabedoria (ou Sirach) 43: 26 que "por meio de sua palavra todas as coisas se mantêm juntas". Os paralelos se tornam ainda mais próximos se a maioria dos comentaristas estiverem corretos de que o material original adaptado por Paulo falava do cosmos e não da igreja como o corpo do qual Sofia/Logos é a cabeça.[23] 

É interessante que, em Colossenses 1: 15–16 e 1 Coríntios 8: 6, Paulo nomeie Cristo como a causa instrumental da criação, em Romanos 11: 36 Paulo declara que o Pai é a fonte, sustentador e objetivo de todas as coisas. Romanos 11: 36 é assim, nas palavras de Moo, "uma declaração a favor de Deus como causa última".[24] James D.G. Dunn concorda: "Onde o foco é tão exclusivamente a suprema majestade e auto-suficiência de Deus, a fórmula do tipo Estóico fornece um ajuste clímax: ele é a fonte, o meio e o objetivo de tudo, o começo, o meio e o fim de tudo o que existe”.[25] 

Novamente, o pretenso Cristão Platonista deve sustentar que a esfera sobre o qual Paulo quantifica ao dizer 'todas as coisas' é restrita de tal maneira que objetos abstratos, se existirem, escapam de seus quantificadores. Mas a irrestrição do domínio dos quantificadores de Paulo é evidente pelo fato de que a expressão 'os céus e a terra' (Colossenses 1: 15-16) é um hebraísmo Judaico típico ou uma linguagem totalizadora que compreende tudo que não seja Deus.[26] A caracterização de Paulo sobre a esfera criada como "todas as coisas no céu e na terra" não compreendia qualquer tipo de restrição, na mente de um Judeu do primeiro século. Além disso, Paulo caracteriza o Filho como o criador de 'todas as coisas visíveis e invisíveis' (Col. 1: 15-16), uma caracterização coletivamente exaustiva: Cristo criou tudo, seja A ou não-A. De fato, o pensamento de Paulo em Colossenses é amplo: ele fala desde todas as coisas no céu e na terra, a todas as coisas visíveis e invisíveis e, finalmente, a todas as coisas mais simples que sejam. Sua intenção é que a esfera de seus quantificadores seja irrestrito. 

A irrestrição da esfera de quantificação de Paulo não é comprometida pelo fato de que apenas coisas concretas realmente habitam a esfera. Como vimos, no Judaísmo Helenístico, o kosmos noētos não era considerado parte do mundo criado, mas apenas existindo na mente do Logos e servindo como padrão para a criação de Deus do mundo concreto. Objetos ideais não fazem parte da criação ou do mundo, mas são ideias de Deus. Eles não têm existência fora da mente divina. Portanto, ao atribuir a Cristo o papel do Logos na criação do mundo, Paulo está afirmando que tudo à parte de Deus foi criado por Deus por meio de Cristo. A esfera dos quantificadores de Paulo é ilimitado: tudo, exceto Deus, foi criado por Deus. 

Talvez os autores bíblicos como João e Paulo tenham seguido o exemplo do Judaísmo Helenístico ao colocar os objetos matemáticos e seus correlatos na mente do Logos; talvez nunca tivessem considerado o assunto. Nós não sabemos. Mas, assim como a descoberta de outros planetas não os levaria a pensar que esses objetos escaparam, de alguma forma, da criação de Cristo, então, a descoberta de que existem objetos abstratos independentes da mente não os levaria a pensar que tais objetos são incriados. Leftow certamente está correto quando diz: ‘eles queriam dizer "todas as coisas" com o significado de cobrir coisas conhecidas e desconhecidas: eles não poderiam ter acreditado que sabiam tudo o que "todas as coisas" abrangiam. Mas uma vez se conceda esse argumento, é difícil entender por que devemos limitar seu escopo ao concreto.'[27] Assim, os 'autores bíblicos que passaram a acreditar em objetos abstratos gostariam de responsabilizar Deus por todos eles. A ideia desses autores certamente não é que Deus tenha feito o suficiente para merecer louvores e assim por diante (isto é, ter feito uma grande parte da realidade), mas que existem esferas da realidade para as quais Ele não merece louvores e assim por diante''.[28] Antes,Deus e Cristo merecem louvor por tudo o que existe, porque tudo encontra sua fonte em Deus. 

Duas Questões Teológicas 

Antes de deixarmos os autores bíblicos, há mais duas questões sobre a doutrina bíblica que merecem atenção. Observei que a afirmação dos escritores bíblicos de que todas as coisas que estão a parte de Deus foram criadas por Deus, sem dúvida, remete ao relato da criação em Gênesis 1. A forma de João 1: 1 reflete Gênesis 1: 1 e o uso consistente de verbos no passado para a criação - por exemplo, 'Todas as coisas foram criadas por meio dele' (João 1: 3) e 'Pois nele foram criadas todas as coisas no céu e na terra' (Colossenses 1: 15) - indica que algum evento no passado está à vista. Mas e as coisas que não foram criadas no ato original da criação de Deus, mas que só entraram em cena depois? Em que sentido se pode dizer que eles foram criados por Deus? Esta é uma questão que os próprios autores bíblicos podem ter ponderado. Pois eles sabiam que novos organismos vivos nascem todos os dias através de processos aparentemente naturais e que os seres humanos produzem novos artefatos por causas naturais diariamente. Em que sentido João ou Paulo podem dizer que o Logos criou essas coisas? 

Leftow chama a criação dessas coisas de 'criação tardia' e oferece vários modelos.[29] 

(i) Deus criou do nada as partículas fundamentais ("átomos") que compõem as coisas materiais. Se não há partículas fundamentais, então, em algum nível, Deus criou do nada as coisas compostas das quais as coisas materiais consistem. Objetos compostos, portanto, devem sua existência a Deus. 

(ii) Deus não apenas criou o material a partir do qual as coisas materiais são feitas, mas também estabeleceu sistemas causais determinísticos, preparados para produzir certos efeitos posteriormente. Pode-se dizer que Deus cria esses efeitos posteriores estabelecendo as cadeias causais que levam a eles de acordo com sua intenção. Pode-se suplementar esse modelo incluindo agentes livres entre as coisas que Deus pretende que seja produzida, bem como os artefatos que Ele os leva a produzir ou sabia que produziriam livremente. Nesse modelo, Deus é a causa remota e as criaturas as causas imediatas das coisas que estão surgindo. 

(iii) Deus poderia querer e causar toda uma sequência causal de eventos terminando na produção de alguma criatura. Nesse modelo, Deus causa, não apenas o primeiro membro de uma sequência causal, mas toda a sequência. No entanto, cada membro da sequência possui antecedentes causais na sequência. Novamente, esse modelo pode ser aprimorado, fazendo com que alguns agentes livres causem criaturas, cujas escolhas produzam efeitos pretendidos por Deus. 

(iv) O modelo (iii) pode ser estendido acrescentando que Deus conserva os objetos momento a momento, desejando que eles persistam de um tempo até um momento posterior. Assim, a cada momento de sua existência, eles são criados do nada, no sentido de que Deus deseja que eles persistam em ser, em vez de serem aniquilados. Nesse modelo, a criação tardia é uma questão de Deus conservar o mundo em existência.

Obviamente, nem todos esses modelos seriam aplicáveis à criação de entidades imateriais por Deus, como anjos, almas ou objetos abstratos. Mas a criação tardia ou não se relaciona com a maioria dessas coisas ou não apresenta problemas. Anjos podem ter sido criados apenas uma vez, talvez no momento da criação e nunca mais. Almas poderiam ser criadas imediatamente por Deus ao longo da história nos vários momentos apropriados. Os objetos abstratos são apresentados em tipos tão diversos que nenhum modelo se aplica.[30] Como nossa preocupação aqui é com a teologia bíblica, e não sistemática, deixemos de lado por um momento a criação de objetos abstratos por Deus, uma vez que eles não aparecem explicitamente no texto bíblico.

Embora o teólogo sistemático normalmente deseje afirmar uma doutrina da conservação divina de acordo com a opção (iv), é duvidoso que João e Paulo tivessem esse modelo em mente nas passagens que examinamos, dado o uso de verbos no passado.[31] Provavelmente, eles olharam para o ato inicial de criação de Deus 'no princípio'. Dado que eles não eram teóricos da lei natural, provavelmente tinham algo como a opção (i) em mente, em vez da (ii) ou (iii), embora talvez complementados pelas intenções providenciais de Deus de que as coisas posteriores deveriam acontecer. Não pretendo sugerir que João e Paulo eram atomistas, mas apenas que eles acreditavam que, além de anjos e almas, Deus criou as coisas a partir das quais as coisas físicas são feitas, e que se pode dizer que ele é o Criador de todas as coisas, inclusive as que foram configuradas apenas recentemente. Também não estou atribuindo aos escritores bíblicos algum tipo de niilismo mereológico, a visão de que não há objetos compostos. Pois eles podiam acreditar consistentemente e sem dúvida acreditavam que coisas como tijolos, espadas e cavalos existem como coisas autênticas, mesmo que sejam compostas de partes. Agentes finitos são artífices que modelam coisas como facas e tijolos ou geram descendentes através de materiais como sêmen. São, portanto, como a opção (ii) afirma, causas próximas do que existe. Deus continua sendo o Criador supremo, na medida em que Ele é a fonte das coisas de que todas as coisas materiais são feitas, assim como o Criador de anjos e almas. 

Agora, para a nossa segunda pergunta. Devemos considerar a aseidade um atributo essencial de Deus ou apenas uma propriedade que Deus possui contingentemente? Enquanto os escritores bíblicos não abordam essa questão, Leftow argumenta corretamente:

quanto mais central e proeminente um atributo está na imagem bíblica de Deus, mais forte é a hipótese de considerar necessário este atributo para ser Deus, ceteris paribus: esta é a única razão pela qual os filósofos geralmente tratam ser onisciente ou onipotente, como necessário. Se criar tudo é proeminente e central no relato bíblico, e este é o nosso único tipo de razão para considerar as condições necessárias aceitas da divindade como condições necessárias, temos uma boa razão para tomar ‘criar tudo’ como requisito, como fazemos em qualquer outro caso.[32] 

Vimos que Deus sendo a única realidade última estava no cerne do monoteísmo Judaico. É impensável que os escritores bíblicos possam ter considerado a aseidade como uma propriedade que Deus simplesmente possuía, mas que poderia não ter possuído, de modo que Deus poderia ter Sua existência sob dependência de alguma outra coisa. Qualquer coisa tão dependente não merece ser chamado de Deus. Além disso, o fato de que somente Deus existe a se não parece ser uma questão contingente. Se Deus é a única realidade última no mundo real, é difícil imaginar por que Ele não seria assim em qualquer mundo possível em que Ele exista. Sugerir que, em algum outro mundo possível, Deus se encontre confrontado com algum ser contingente existente independentemente, não criado por Ele, impugnaria o poder e a majestade de Deus. Assim, devemos considerar Deus como a única realidade última como pertencendo à natureza de Deus. 

De qualquer forma, mesmo que devamos confiar na proeminência e centralidade como nossos únicos guias ao fazer teologia bíblica, no entanto, quando fazemos teologia sistemática, em particular, a teologia do ser perfeito, então a concepção de Deus como o maior ser concebível entra crucialmente no jogo, como veremos. Thomas Morris observa que é "um julgamento bastante incontroverso entre os teólogos do ser perfeito" que a aseidade é uma propriedade ou ingrediente de grande perfeição.[33] Deus deve, portanto, existir a se. Quando associamos o atributo da aseidade divina ao atributo da necessidade metafísica de Deus, estamos no caminho de uma concepção verdadeiramente grande de Deus que é digna do Deus bíblico. 

O ENSINO DOS PAIS DA IGREJA 

Os Pais da Igreja primitiva, citando freqüentemente João e Paulo, entendiam que Deus era a única realidade última. Essa convicção alcançou status de Credo em 325 no Concílio de Nicéia. O Credo Niceno afirma: 

Creio em um Deus, o Pai Todo-Poderoso, Criador do céu e da terra e de todas as coisas visíveis e invisíveis; 

E em um Senhor, Jesus Cristo, o único Filho de Deus, gerado do Pai antes de todas as épocas, luz da luz, Deus verdadeiro do Deus verdadeiro, gerado, não criado, consubstancial ao Pai, através do qual todas as coisas surgiram.

A frase 'Criador do céu e da terra e de todas as coisas visíveis e invisíveis' deriva de Paulo, e a expressão 'através do qual todas as coisas surgiram' do prólogo do Evangelho de João. O Concílio afirma que tudo, exceto Deus, foi criado por Deus por meio do Filho, para que somente Deus seja incriado. Mais uma vez, o pretenso Cristão Platonista, se quiser sustentar a ortodoxia Nicena, deve considerar a esfera/domínio de quantificação dos Pais como tacitamente restrita de tal maneira que objetos abstratos escapem dos quantificadores universais do credo.

O Único Agenētos 

Temos, no entanto, evidências convincentes de que os Pais da Igreja consideraram o domínio de quantificação, uma vez que Deus é isento, como sendo irrestrito em seu escopo. No centro da controvérsia teológica que levou ao Concílio de Nicéia, havia um par de distinções terminológicas: agenētos / genētos e agennētos / gennētos.[34] o par de palavras agenētos / genētos deriva do verbo grego ginomai, que significa tornar-se ou vir a ser. Agenētos significa não originado ou não criado, em contraste com genētos, que é criado ou originado. O segundo par de palavras agennētos / gennētos deriva de um verbo diferente, gennaō, que significa gerar. Agennētos significa não gerado, enquanto gennētos sifnifica gerado. Muitos de nós estamos familiarizados com o famoso 'i', que marcou a diferença entre a confissão ortodoxa de que Cristo é homoousios (o mesmo em essência) com o Pai e a confissão Ariana de que Cristo é homoiousios (de essência semelhante) com o Pai, de modo que podese dizer que a diferença entre ortodoxia e heresia depende de um único iota. Mas um mundo semelhante de diferença está no simples 'n', por meio do qual se pode dizer que Cristo não foi criado (agenētos), mas gerado (gennētos), em contraste com o Pai, que é ao mesmo tempo incriado (agenētos) e não-gerado (agennētos). 

Atanásio, o grande campeão da ortodoxia Nicena nos anos seguintes ao Concílio, explica que os Arianos haviam tomado emprestado o termo agenētos da filosofia Grega e o aplicado exclusivamente a Deus Pai (Defense of the Nicene Definition 7: ‘On the Arian symbol “Agenētos”’; cf. Discourses against the Arians 1.9.30; On the Councils of Ariminum and Seleucia 46–7). O significado relevante do termo, observa ele, é "o que existe, mas não foi originado nem teve origem do ser, mas é eterno e indestrutível". Ele reclama com indignação óbvia que a estratégia Ariana era perguntar ao leigo desavisado se existe um ou dois seres não criados. Quando a pessoa respondia que havia apenas um ser não criado, os Arianos jogavam a armadilha exclamando: 'Então o Filho é criado!' E, portanto, uma criatura. Não é de surpreender que Atanásio diga que prefere usar o termo 'Pai' em vez de agenētos, embora reconheça que o último termo tem um uso adequado e religioso (Defense 7.31-2; Discourses 1.9.33-4). 

Os Pais da Igreja ante-Nicenos e Nicenos, assim como os próprios Arianos, todos concordaram que não há agenēta a parte de Deus. Considere estes textos representativos: 

não existe uma pluralidade de seres incriados: pois se houvesse alguma diferença entre eles, você não descobriria a causa da diferença, embora a procurasse; mas, depois de deixar a mente vagar pela infinidade, você finalmente se cansaria, pararia em um ser não criado e diria que essa é a Causa de todas as coisas. (Justin, Dialogue with Trypho, a Jew 5) 

é impossível que dois seres incriados existam juntos (Methodius, On Free Will 5) 

em todas as coisas Deus tem a preeminência, que por si só é incriado, o primeiro de todas as coisas e a causa primária da existência de tudo, enquanto todas as outras coisas permanecem sob a sujeição de Deus (Irenaeus, Against Heresies 4.38.3)

Pois antes de todas as coisas Deus estava sozinho, ele próprio possui seu mundo, localização e todas as coisas - sozinho, no entanto, porque não havia nada externo a seu lado. (Tertullian, Against Praxeas 5.13–15).

Nunca ouvimos dizer que existem dois seres não-gerados, nem que um foi dividido em dois ...; mas afirmamos que o não gerado é um. (Letter of Eusebius of Nicomedia to Paulinus of Tyre, in Theodoret, Ecclesiastical History 1.5)

Deus, subsistindo sozinho, e não tendo nada contemporâneo consigo mesmo, determinado a criar o mundo. E concebendo o mundo em mente, e desejando e proferindo a Palavra, Ele criou; e imediatamente apareceu formado como lhe agradara. Para nós, então, basta simplesmente saber que não havia nada contemporâneo com Deus. Ao lado dele, não havia nada. (Hippolytus, Against Noetus 10.1; cf. Refutation of All Heresies 10.28) 

o Pai é aquele que não foi criado (Epiphanius, Panarion 33.7.6) 

Seria simplesmente uma exegese imperfeita, eu acho, sugerir que o domínio/esfera sobre o qual os quantificadores dos Pais se estendem nessas declarações não se destinam como irrestritos.

Agenētos é, portanto, a palavra que os Pais da Igreja usavam para denotar a ideia Judaica do que Bauckham chama de "singularidade transcendente" de Deus. Prestige explica: 

Desde que a transcendência, embora seja uma ideia caracteristicamente Hebraica, não seja filosoficamente exposta na Bíblia, um termo teve que ser adotado para expressar sua definição. Isso foi encontrado na palavra agenetos, "não criado". A ideia da criação estava lá em contraste com a de existência auto-fundamentada. Chamar Deus de incriado equivalia a chamá-Lo de perfeição infinita, realidade independente e a fonte de todo ser finito: somente Ele é absoluto; tudo o mais é dependente e contingente.[35] 

Os Pais da Igreja consideraram essa propriedade única para Deus: ‘a ênfase ... sobre Deus não ser criado (ἀγένητος) implica que Ele é o único criador de todas as coisas que existem, a fonte e o fundamento da existência; e a concepção é tomada como um critério positivo da divindade.[36] De acordo com o estudioso da patrística Harry Austryn Wolfson,[37], todos os Pais da Igreja aceitaram os três princípios a seguir: 

1. Apenas Deus é incriado. 
2. Nada é co-eterno com Deus. 
3. A eternidade implica deidade.

Cada um desses princípios implica que não há outra agenēta senão somente Deus. 

Propriedades e Números

Mas, para que não seja sugerido que objetos abstratos estivessem de alguma forma isentos desses princípios, devemos observar que os Pais da Igreja ante Nicenos rejeitaram explicitamente a visão de que entidades como propriedades e números são agenēta. Os Pais eram familiarizados com as visões metafísicas de mundo de Platão e Pitágoras e concordaram com eles que há um agênētos do qual toda a realidade se deriva; mas os Pais identificaram esse agenētos, não com uma forma ou número impessoal, mas com o Deus hebraico, que criou todas as coisas (a parte de si mesmo) ex nihilo. 

Considere as primeiras propriedades. Embora o objetivo principal dos Pais em sua defesa da creatio ex nihilo fosse a doutrina da independência e eternidade da matéria, eles não aceitavam a ideia de que, embora a matéria pudesse ser originada, as propriedades, no entanto, não poderiam ter começo e não foram criadas. Atenágoras caracteriza os Cristãos como aqueles que "distinguem e separam os incriados e os criados" (Plea for the Christians 15). Embora Atenágoras presumisse que o reino criado era o mundo material (incluindo os espíritos materiais), isso não é porque ele considerava as propriedades incriadas. Em vez disso, ele considerava que as propriedades não tinham existência independente de objetos concretos. Sua convicção é evidente em seu comentário sobre como Satanás se opõe à bondade de Deus:

ao bem que está em Deus, que lhe pertence por necessidade e coexiste com Ele, como a cor com corpo, sem o qual não existe (não como parte dele, mas como propriedade auxiliar coexistindo com ele, unida e mesclada, assim como é natural que o fogo seja amarelo e o éter azul escuro) - para o bem que há em Deus, digo, o espírito que é sobre a matéria ... se opõe. (Plea 24; grifo meu) 

Atenágoras aqui rejeita claramente a ideia de que propriedades têm algum tipo de existência independente, a parte de objetos concretos.

Seu colega apologista Taciano afirma que somente Deus é sem começo e atribui a Ele a criação tanto da matéria, quanto da forma:

Nosso Deus não teve princípio com o tempo; Somente Ele é sem princípio, e Ele é o princípio de todas as coisas. Deus é um Espírito, não a matéria penetrante, mas o Criador dos espíritos materiais e das formas (schematōn) que estão na matéria; Ele é invisível, impalpável, sendo Ele mesmo o Pai das coisas sensíveis e invisíveis. (Address to the Greeks 4.10–14)

Taciano rejeitou a noção de que existe além de Deus qualquer coisa eterna, não criada, mesmo formas puras. Formas instanciadas que ele presumivelmente adotaria como pertencente ao domínio das coisas invisíveis. 

Orígenes, que foi treinado na filosofia neo-Platônica, repudiou a identificação do domínio das ideias Platônicas com o domínio bíblico celestial de onde Cristo veio, ao comentar:

É difícil para nós explicar esse outro mundo; e por esse motivo, se o fizéssemos, haveria o risco de dar a alguns homens a impressão de que estávamos afirmando a existência de certas formas imaginárias que os Gregos chamam de 'ideias'. Pois é certamente estranho ao nosso modo de raciocinar falar de um mundo incorpóreo que existe apenas na fantasia da mente ou na região não substancial do pensamento; e como os homens poderiam afirmar que o Salvador veio dali ou que os santos irão para lá, não vejo como. (On First Principles 2.3.6) 

Como Filo, Orígenes acreditava que as formas das coisas mundanas preexistiam como ideias na segunda pessoa da Trindade, identificadas biblicamente como Sabedoria ou Logos de Deus.[38] Ele escreveu: 

Deus o Pai sempre existiu, e ... ele sempre teve um Filho unigênito, que ao mesmo tempo ... se chama Sabedoria. Essa é a Sabedoria em quem Deus se deleitou quando o mundo foi concluído. ... Portanto, nesta Sabedoria que já existia com o Pai, a Criação sempre esteve presente em forma e esboço, e nunca houve um tempo em que a prefiguração daquelas coisas que seriam criadas não existiam na Sabedoria. (On First Principles 1.4.4[39])

Os gêneros e espécies de todas as coisas sempre existiram, estando contidos na Sabedoria de Deus (On First Principles 1.2.2-3, 1.4.5). Orígenes contrasta a maneira pela qual as coisas pré-existem na Sabedoria com sua existência substancial posterior: 'Desde que a Sabedoria sempre existiu, sempre existiram na Sabedoria, por uma pré-figuração e pré-formação, as coisas que posteriormente receberam existência substancial. (On First Principles 1.4.4). Vemos aqui um contraste apontado entre a existência substancial desfrutada por objetos concretos e a existência insubstancial e até imaginária que se diz que as ideias tenham, mesmo no Logos.

Metódio, em seu diálogo On Free Will,[40], depois de declarar que não pode haver duas agenēta, defende a creatio ex nihilo fazendo Ortodoxo dizer a Valentiniano: 

ORTODOXO. Você diz então que coexiste com Deus matéria sem qualidades das quais Ele formou o começo deste mundo? 
VALENTINIANO. Eu acho. 
ORTODOXO. Se, então, a matéria não tinha qualidades, e o mundo foi produzido por Deus, e as qualidades existem no mundo, então Deus é o criador das qualidades? 
VALENTINIAN. É assim. 
ORTODOXO. Agora, como ouvi você dizer há algum tempo, que é impossível que algo passe a existir do que não existe, responda à minha pergunta: Você acha que as qualidades do mundo não foram produzidas a partir de nenhuma das qualidades existentes? 
VALENTINIAN. Eu acho. 
ORTODOXO. E que elas são algo distinto das substâncias?
VALENTINIAN. Sim. 
ORTODOXO. Se, então, as qualidades não foram feitas por Deus de nenhuma maneira já pronta, nem derivam sua existência de substâncias, porque não são substâncias, devemos dizer que foram produzidas por Deus a partir do que não existia. Por isso, pensei que você falasse extravagantemente ao dizer que era impossível supor que algo foi produzido por Deus a partir do que não existia.

Aqui, Ortodoxo, que obviamente fala em defesa da fé ortodoxa, não permitirá que nem mesmo as propriedades sejam afirmadas como incriadas por Deus. Pois somente Deus não foi criado. 

Os Pais da Igreja também não pensavam que os números existissem independentemente de Deus como agênēta. Assim, Hipólito traça a heresia do gnosticismo Valentiniano aos sistemas de Platão e Pitágoras e, em última instância, aos Egípcios (Refutation 6.16). Este último afirmou que a realidade última é uma unidade de agennētos e que os outros números são gerados a partir dela (Refutation 4.43). 'Pitágoras, então, declarou que o princípio originário do universo era a mônada não-gerada, o dueto gerado e o restante dos números' (Refutation 6.18). Pensa-se que o mundo material seja, por sua vez, gerado a partir desses princípios incorpóreos. ‘Segundo Pitágoras, existem dois mundos: um inteligível, que possui a mônada como princípio originário; e o outro sensível ... Nada, ele diz, de inteligível nos pode ser conhecido a partir dos sentidos. Pois ele diz que nem os olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem qualquer dos sentidos conhecem (o que é conhecido pela mente)' (Refutation 6.19; cf. Clement of Alexandria, Stromata 5.14). Hipólito então faz a conexão com Valentino: 'E a partir deste (sistema), não dos Evangelhos, Valentino ... coletou (os materiais da) heresia - e pode (portanto) ser justamente considerado um Pitagórico e Platônico, não um Cristão’ (Refutation 6.24). Hipólito acusa ‘Valentino ... e toda a escola destes (hereges), como discípulos de Pitágoras e Platão, (e) seguindo esses guias, estabeleceram como o princípio fundamental de sua doutrina o sistema aritmético. Pois, da mesma forma, de acordo com esses (Valentinianos), a causa originária do universo é uma mônada, um agennētos, imperecível, incompreensível, inconcebível, produtiva e uma causa da geração de todas as coisas existentes' (Refutation 6.24). 

A Cristologia do Logos 

Os Pais da Igreja se voltaram para a doutrina do Logos dos primeiros Apologistas Gregos como o meio de fundamentar a esfera inteligível em Deus, em vez de em alguma esfera independente de entidades autosubsistentes, como números ou formas.[41] Combinando a apresentação do Evangelho de Cristo de João como o Logos preexistente, que no princípio estava com Deus e era Deus e através de quem todas as coisas foram criadas (João 1: 1–3), com a concepção do Logos como a mente de Deus de Filo de Alexandria, na qual o domínio Platônico de ideias subsiste, Taciano oferece uma das primeiras exposições Cristãs dessa doutrina: 

Deus estava no princípio; mas o princípio, fomos ensinados, é o poder do Logos. Pois o Senhor do universo, que é Ele mesmo o fundamento necessário de todo ser, na medida em que nenhuma criatura ainda era existente, estava sozinho; mas na medida em que Ele era todo o poder, Ele próprio era o fundamento necessário das coisas visíveis e invisíveis, com Ele estavam todas as coisas; com ele pelo poder do Logos, o próprio Logos também, que estava nele, subsiste. E por Sua simples vontade, o Logos brota; e o Logos, não se revelando em vão, torna-se a primeira obra do Pai. Sabemos que ele (o Logos) é o começo do mundo. (Address to the Greeks 5.1–9)[42] 

O domínio/esfera invisível e inteligível das ideias exemplares existe no Logos imanente, que, procedente de Deus Pai (eternamente ou no momento da criação), é gerado como Deus Filho. Ele então cria o mundo sensível das coisas que experimentamos. Hipólito, em linguagem que mais tarde ecoaria em Nicéia, exulta no fato de que mesmo os oponentes da ortodoxia devem finalmente admitir que há apenas um agênētos que é a fonte de toda a realidade: 

Deus, subsistindo sozinho, e não tendo nada contemporâneo consigo mesmo, determinou criar o mundo. E concebendo o mundo em mente, e desejando e proferindo a Palavra, Ele o criou; e imediatamente apareceu, formado como Lhe agradou. Para nós, então, basta simplesmente saber que não havia nada contemporâneo com Deus. Ao lado dele, não havia nada; mas Ele, enquanto existia sozinho, ainda existia na pluralidade. Pois Ele não existia nem sem razão, nem sabedoria, nem poder, nem conselho. E todas as coisas estavam nEle, e Ele era o Todo .... Ele gerou a Palavra; ... e assim apareceu outro fora de Si. Mas quando digo outro, não quero dizer que haja dois deuses, mas que é apenas como luz de luz. ... Quem então apresenta uma multidão de deuses trazidos várias vezes? Pois todos estão calados, ainda que de má vontade, para admitir esse fato, que o todo se encerra em Um. Se, então, todas as coisas se encontram em Um, mesmo de acordo com Valentino, Marcião e Cerínto, e todas as suas tolices, eles também são reduzidos, ainda que de má vontade, a essa posição, que precisam reconhecer que Aquele é a causa de todas as coisas. Assim, também estes, embora não o desejem, caem na verdade e admitem que um Deus fez todas as coisas de acordo com Seu bom prazer. (Against Noetus 10–11; cf. Refutation 10.28–9) 

É irônico, em vista do debate contemporâneo entre filósofos Cristãos sobre Deus e objetos abstratos, que mesmo os hereges contra os quais os Pais da Igreja disputavam, não pensavam em postular uma pluralidade de agênēta. Sejam Gnósticos, Arianos ou Cristãos, todos se comprometeram a haver um único agênetos.[43] O desafio enfrentado pelos autores de Nicéia foi como preservar a divindade e a distinção do Filho sem admitir uma pluralidade de agênēta. 

Voltando à fórmula Nicena, podemos ver à luz de seu histórico que, quando se diz que Deus, o Pai, é o Criador de todas as coisas visíveis e invisíveis, o domínio da quantificação é ilimitado. Há um estado de coisas no mundo real que consiste em Deus existindo em absoluta solidão. Mesmo números e propriedades não existem fora dele, muito menos independentemente dele, pois ele é a base de todo ser, e nada é co-eterno com ele. A Cristologia do Logos dos Apologistas Gregos expressa a afirmação Nicena de que o Filho de Deus é gerado, não criado. É dito que Ele é aquele por quem todas as coisas vieram a existir. Uma vez que ele mesmo é incriado e tudo o mais é genētos, o Filho deve ser agenētos e, portanto, é Deus, mesmo que, como Filho, seja gerado (gennētos) do Pai. 

Se confrontados por um Platonista moderno que defende uma ontologia que inclui objetos causalmente eficientes que são agênēta e assim co-eternos com Deus, os Pais da Igreja teriam rejeitado tal relato como blasfêmia, pois esse relato negaria que Deus fosse a fonte de todas as coisas . Os Pais não podiam e não isentaram esses objetos do poder criativo de Deus, uma vez que Ele é o único e o todo originador agenētos. 

A TEOLOGIA DO SER PERFEITO 

Além do testemunho bíblico e patrístico do status de Deus como a única realidade última, os requisitos da sólida teologia sistemática incluem a afirmação de que Deus é a fonte de todas as coisas além de si mesmo. Pois a aseidade divina é um requisito fundamental da Teologia do Ser Perfeito. Como um ser perfeito, o maior ser concebível, Deus deve ser a fonte auto-existente de toda a realidade à parte de si. Por ser a causa da existência de outras coisas, é plausivelmente uma grande propriedade criadora, e o grau máximo dessa propriedade é a causa de tudo o mais que existe.[44] Deus seria diminuído em Sua grandeza se Ele fosse a causa de apenas algumas das outras coisas que existem. Se entidades abstratas, como objetos matemáticos, existissem de forma real independentes de Deus, então Deus seria a fonte de apenas uma parte infinitesimal do que existe. Pois o Platonismo postula domínios infinitos do ser que são metafisicamente necessários e não criados por Deus. O universo físico que foi criado por Deus seria uma trivialidade infinitesimal e totalmente obscurecida pela quantidade indescritível de seres não criados. Para apreciar, em certa medida, a vastidão dos domínios incriados que estão sendo postulados pelo Platonismo, considere a hierarquia teorética definida, como mostrado na Figura 2. [Nota do tradutor: não consegui colocar a figura aqui, entretanto, se alguém se interessar, pode solicitar que envio uma foto. O texto de explicação da Figura 2 no livro é esse: “A hierarquia teorética definida, começando em zero e prosseguindo pelos números naturais para se transformar em números infinitos. (Adaptado de A. W. Moore, The Infinite [London: Routledge, 1990], 157.)] 

Certamente, a existência de quaisquer entidades independentes de Deus é incompatível com Deus ser o Criador de todas as coisas, mas a extravagância do Platonismo a esse respeito realmente tira o fôlego. O status de Deus como o maior ser concebível requer que Ele seja a fonte da existência de todas as coisas à parte de si. Não apenas isso, mas a grandeza de Deus seria ainda mais aumentada se fosse impossível que algo existisse independentemente do Seu poder criativo. Assim, em qualquer mundo possível, Deus, como o maior ser concebível, é a fonte de todas as coisas, se houver, à parte de Si mesmo. 

Visto sob essa luz, a aseidade divina é um corolário da onipotência de Deus, que pertence indiscutivelmente à máxima grandeza.[45] Pois, se algum ser existe independentemente de Deus, Deus não tem o poder de aniquilá-lo ou criá-lo. Um ser onipotente pode dar e tirar a existência a medida que Ele vê a relação com outros seres. O poder de Deus seria assim atenuado pela existência de objetos abstratos independentemente existentes. 

Além disso, existe um poderoso argumento filosófico-teológico contra a existência de propriedades Platônicas não criadas.[46] Considere o conjunto de atributos divinos que compõem a natureza de Deus. Chame-os de natureza da deidade. No Platonismo, a deidade é um objeto abstrato que existe independentemente de Deus, para o qual Deus se mantém na relação de exemplificação ou instanciação. Além disso, é em virtude de permanecer em relação a esse objeto que Deus é divino. Ele é Deus porque ele exemplifica a deidade. Assim, no Platonismo, Deus não existe realmente a se de forma nenhuma. Pois Deus depende desse objeto abstrato para Sua existência. O Platonismo simplesmente não postula algum objeto existente independentemente de Deus - um comprometimento suficientemente sério da realidade última de Deus - mas torna Deus dependente desse objeto, negando assim a aseidade divina. A implicação? "Então, a divindade / o domínio Platônico, não Deus, é a realidade suprema".[47] 

Pior, se possível: uma vez que a aseidade, como a onipotência, é um dos atributos essenciais de Deus incluídos na deidade, verifica-se que Deus não exemplifica a deidade, afinal. Como a aseidade é essencial para a deidade e Deus, no Platonismo, não existe a se, acontece que Deus não existe! No Platonismo, pode haver um demiurgo, como é apresentado no Timeu de Platão, mas o Deus do teísmo clássico não existe. O teísmo é assim desfeito pelo Platonismo. 

CONCLUSÃO
Parece-me, portanto, que temos razões muito fortes, tanto biblicamente quanto teologicamente, para apoiar a tradição Cristã histórica em afirmar que Deus é a única realidade última, que Ele existe e que é fonte de todas as coisas à parte de Si. Essa conclusão implica que o Cristão ortodoxo não pode ser um Platonista (metafisicamente peso pesado), pois o Platonismo afirma que existem objetos abstratos que existem necessariamente, eternamente, e a se, em contradição com a afirmação Cristã de que Deus é a única realidade última. O desafio colocado pelo Platonismo à teologia ortodoxa é, portanto, sério e deve ser confrontado diretamente. 

Fonte: CRAIG, William Lane. God Over All: Divine Aseity and the Challenge of Platonism. New York, NY: Oxford University Press, 2018 Tradução Walson Sales 

Notas: 
[1] Mark Steiner, Mathematical Knowledge, Contemporary Philosophy (Ithaca, NY: Cornell University Press, 1975), 87; cf. 127. 
[2] W. V. O. Quine, ‘Responses’, in Theories and Things (Cambridge, MA: Harvard University Press, 1981), 182. 
[3] Para o Platônico, como Quine nos lembra, não há distinção entre o 'há' de 'há universais' e o 'há' de 'há unicórnios', o 'há hipopótamo' e o 'há' de ‘(∃x) (x)' ('existem entidades x tais que'). W.V.O. Quine, 'Logic and the Reification of Universals', em From a Logical Point of View (Cambridge, MA: Harvard University Press, 1953), p. 105. Se queremos entender o Platonismo, devemos resistir à tentação de pensar que objetos abstratos existem em algum sentido fantasmagórico e diminuído. De fato, para os Platonistas antigos, o mundo ideal era realmente mais real do que o mundo dos objetos concretos. 
[4] RichardBauckham,‘God Crucified’, in Jesus and the God of Israel (Grand Rapids, MI: William B. Eerdmans, 2008), 8. Citando a obra de Bauckham, Chris Tilling relata que a maioria dos estudiosos encontrou no início do Judaísmo um monoteísmo estrito que "traça uma linha nítida entre Deus e tudo o mais". Chris Tilling, ‘Problems with Ehrman’s Interpretive Categories’, in Michael F. Bird (ed.), How God Became Jesus (Grand Rapids, MI: Zondervan, 2014), 129. 
[5] Bauckham, ‘God Crucified’, 11. 
[6] Richard Bauckham, ‘Biblical Theology and the Problems of Monotheism’, in Jesus and the God of Israel, 83–4. YHWH é a abreviação do nome Hebraico de Deus, Yahweh, ou o SENHOR. 
[7] Jutta Leonhardt-Balzer, ‘Der Logos und die Schöpfung: Streiflichter bei Philo (Op 20–25) und im Johannesprolog (Joh 1, 1–18)’, in Jörg Frey und Udo Schnelle (eds), Kontexte des Johannesevangeliums (Tübingen: Mohr Siebeck, 2004), 318. As abreviações indicam os títulos em latim das obras de Filo De opificio mundi (On the Creation of the World), De somniis (On Dreams), De confusione linguarum (On the Confusion of Tongues), and De cherubim (On the Cherubim). 
[8] D. T. Runia, Philo of Alexandria and the ‘Timaeus’ of Plato (Amsterdam: Free University of Amsterdam, 1983), 140–3; Gregory E. Sterling, ‘“Day One”: Platonizing Exegetical Traditions of Genesis 1:1–5 in John and Jewish Authors’, artigo apresentado em uma das seções sobre Filo da Society of Biblical Literature, San Antonio, TX, 20–3 Nov.2004. 
[9] A lista de Runia é útil: Allegorical Interpretation 3.9; On the Cherubim 28; On the Sacrifices of Abel and Cain 8;On the Unchangeableness of God 57; On the Confusion of Tongues 62; On the Migration of Abraham 6; On Flight and Finding 12; 95; On Dreams 2.45; The Special Laws 1.81. 
[10] So Leonhardt-Balzer, ‘Der Logos und die Schöpfung’, 309–10, com citações de extensa literatura; cf. Craig S. Keener, The Gospel of John: A Commentary, 2 vols. (Peabody, MA: Hendrickson, 2003), i. 346–7. 
[11] Runia, Philo and the ‘Timaeus’, 68. O locus classicus da distinção foi o Timeu de Platão 27d5–28a4, que por sua vez é citado por Apuleius, De Platone et eius dogmate 193; Nicomachus, Introduction to Arithmetic 1.2.1; Numenius fr. 7; Justin Martyr, Dialogue with Trypho 3.5; Sextus Empiricus, Adversus mathematicos 7.142. 
[12] A distinção em questão não é realmente inteligível versus sensível; ao contrário, o problema é ser vs se tornar. O problema com a primeira caracterização da distinção é que ela parece não dar lugar a objetos concretos imateriais, como anjos ou almas. Dado que o domínio inteligível existe na mente de Deus, tais seres não podem ser classificados como parte do domínio inteligível. Eles devem fazer parte do domínio sensível, que é descrito com mais precisão como o domínio de objetos concretos sujeitos ao devir temporal. 
[13] Veja Audrey N. M. Rich, ‘The Platonic Ideas as the Thoughts of God’, Mnemosyne, 7/2 (1954): 123–33. Rich observa: 'Embora Platão fale da Ideia transcendente como existindo "sozinha e por si mesma" e nunca "em algo mais" [Sympos [ium] 211A]], a tendência entre muitos de seus intérpretes [por exemplo, Albinus, Plutarco, Filo, Galeno, Ático, Orígenes, Stobaeus, Hipólito, Teodoreto] parecem ter tornado a ideia dependente de Deus como um pensamento residente em sua mente' (123). R. M. Jones diz que a doutrina das Ideias Platônicas como pensamentos de Deus era tão conhecida na época de Filo que Filo poderia empregá-la sem hesitar: "As Ideias como os Pensamentos de Deus", Classical Philology, 21 (1926): 317–26. 
[14] Nicomachus of Gerasa, Introduction to Arithmetic 1.4, 6, tr. Martin Luther D’Ooge (New York: Macmillan Co., 1926), 187, 189. 
[15] E.g. Allegorical Interpretation 3.96; On the Migration of Abraham 6; On Flight and Finding 12; On Dreams 1.75;2.45; Special Laws 1.81; On the Confusion of Tongues 60–3, 172. 
[16] Runia, Philo and the ‘Timaeus’, 138. Filo interpretou Gênesis 1: 1–5 para relacionar a criação, não do mundo concreto, mas do mundo ideal na mente de Deus, que então serviu como Seu modelo para o mundo concreto. Filo enfatiza o fato de que objetos ideais não existem a se. 
[17] De acordo com Sterling, 'Tradições exegéticas Platonizantes', esse contraste verbal 'tornou-se uma maneira padrão para os Platonistas posteriores distinguirem entre o mundo eterno das ideias e o mundo perceptível dos sentidos em que vivemos. Sugiro que o autor do hino [Joanino] entendeu a mudança de ἦν to ἐγένετο em Gênesis 1 como uma garantia textual a favor de um entendimento Platônico.’ O ponto é especialmente forte se incluirmos a frase ho gegonen no v. 3 em vez de no v. 4. 
[18] Douglas J. Moo, The Epistle to the Romans (Grand Rapids, MI: Wm. B. Eerdmans, 1996), 743. James D. G. Dunn fornece convenientemente trechos de textos paralelos em seu comentário Romans 9–16 (Nashville, TN: Thomas Nelson, 1988), 702. 
[19] Richard A. Horsley, ‘Gnosis in Corinth: I Corinthians 8.1–6’, New Testament Studies, 27/1 (1980): 43. 
[20] Ibid., 46. 
[21] Ibid., 51. 
[22] Peter T. O’Brien, Colossians, Philemon (Nashville, TN: Thomas Nelson, 2000), 47. 
[23] O'Brien rejeita a visão majoritária porque 'corpo' é normalmente usado por Paulo para se referir a igreja, mas nunca ao mundo. Mas essa objeção não é muito poderosa, mesmo se o ceticismo de O’Brien sobre tentativas de recuperar a redação original seja justificado. A visão de Paulo da igreja como corpo de Cristo pode motivar Paulo a adaptar esse material para se adequar à sua teologia. 
[24] Moo, Epistle to the Romans, 740. 
[25] Dunn, Romans 9–16, 704. 
[26] Veja Paul Copan and William Lane Craig, Creation out of Nothing: A Biblical, Philosophical, and Scientific Exploration (Grand Rapids, MI: Baker Academic, 2004), 43. 
[27] Brian Leftow, God and Necessity (Oxford: OUP, 2012), 63 (ênfase minha). 
[28] Ibid., 64 (ênfase minha). 
[29] Ibid., 15–20. 
[30] Muitos, como números, são plausivelmente atemporais, se existem, e, portanto, propriamente falando, não podem ser criados nem conservados por Deus, pois são atividades temporais. Portanto, a criação tardia nem sequer é vista por eles. No máximo, pode-se dizer que são sustentados (incansavelmente sem distinções de tempo) por Deus (ver Copan e Craig, Creation from Nothing, 164). Por outro lado, se estamos falando de objetos abstratos temporais, então alguns deles, como o Equador [linha] ou o centro de massa do sistema solar, poderiam ser criados imediatamente por Deus quando o material é arranjado adequadamente ou então ser criado tardiamente de acordo com as linhas dos modelos (ii), (iii) ou (iv). Da mesma forma, os mesmos modelos poderiam explicar a criação tardia de objetos abstratos que são produtos de agentes livres, como composições literárias e musicais. Infelizmente, alguns objetos abstratos temporais, como propriedades, existiriam desde a eternidade passada e, assim, escapariam à criação. No máximo, eles são conservados em Deus. Assim, o Platonista está preso a uma infinidade de objetos não criados, tanto temporais quanto atemporais. 
[31] Embora os verbos no tempo presente apareçam em 1 Coríntios. 8: 6, 11: 12, Rom. 11: 36, estes parecem olhar para a criação inicial de Deus através do Logos. Passagens como Colossenses 1: 17b; Heb. 1: 3b podem ser interpretadas de maneira mais plausível em termos da conservação de Deus no mundo. Para mais informações sobre o testemunho bíblico do ato inicial de Deus de criar tudo, consulte Copan e Craig, Creation out of Nothing, caps. 1–2. 
[32] Leftow, God and Necessity, 412–13. 
[33] Thomas V. Morris, ‘Metaphysical Dependence, Independence, and Perfection’, in Scott MacDonald (ed.), Being and Goodness: The Concept of the Good in Metaphysics and Philosophical Theology (Ithaca, NY: Cornell University Press, 1991), 287. [34] Em Grego, ἀγένητος/γενητός e ἀγέννητος/γεννητός. 
[35] George L. Prestige, God in Patristic Thought (London: SPCK, 1964), p. xx. 
[36] Ibid., 5. 
[37] Harry A. Wolfson, ‘Plato’s Pre-existent Matter in Patristic Philosophy’, in Luitpold Wallach (ed.), The Classical Tradition (Ithaca, NY: Cornell University Press, 1966), 414. 
[38] Em seu Commentary on the Gospel of John, Orígenes considera Cristo, na medida em que ele é a Sabedoria de Deus, como o começo ou a fonte de todas as coisas, incluindo suas formas: Pois Cristo é, de certa maneira, o demiurgo, a quem o Pai diz: 'Haja luz' e 'Haja um firmamento'. Mas Cristo é o demiurgo como um princípio (archē), na medida em que é Sabedoria. É em virtude de seu ser Sabedoria que ele é chamado archē. ... Considere, no entanto, se temos a liberdade de tomar esse significado de archē para o nosso texto: 'No princípio era o Verbo', para obter o significado de que todas as coisas surgiram de acordo com a Sabedoria e de acordo com os modelos do sistema que estão presentes em seus pensamentos. Pois considero que, como uma casa ou um navio é construído e modelado de acordo com os esboços do construtor ou projetista, a casa ou o navio tendo seu começo (archē) nos esboços e cálculos em sua mente, então tudo veio à tona estando de acordo com os desígnios do que deveria ser, claramente estabelecido por Deus na Sabedoria. E devemos acrescentar que, tendo criado, por assim dizer, a sabedoria concedida [sabedoria amalgamada com a alma], ele a deixou entregar, dos tipos que nela estavam, às coisas existentes e importantes, o surgimento real delas, seus moldes e formas. Mas considero, se é permitido dizer isso, que o início (archē) da existência real era o Filho de Deus, dizendo: 'Eu sou o começo e o fim, o Α e Ω, o primeiro e o último' (1.22). 
[39] Seções 3-5 do cap. 4, que contêm esta passagem, não estão incluídos na antiga edição dos Pais Ante-Nicenos editada por Roberts e Donaldson em 1885, mas estão incluídas, com base no texto reconstruído de Koetschau, na tradução mais recente de Butterworth (Gloucester, MA: Peter Smith, 1973) 
[40] O estudioso da Patrística Mark Edwards me informa que On Free Will não é universalmente atribuído a Methodius. Alguns o atribuem a Orígenes, outros a um Maximus desconhecido. 
[41] Para uma discussão dos textos extraídos de pseudo-Justino, Irineu, Tertuliano, Clemente de Alexandria, Orígenes e Agostinho, ver Harry Austryn Wolfson, The Philosophy of the Church Fathers, i.Faith, Trinity, and Incarnation, 3rd edn rev. (Cambridge, MA: Harvard University Press,1970), cap. 13: ‘The Logos and the Platonic Ideas’. Segundo Wolfson, todo Pai da Igreja que abordou a questão rejeitou a visão de que as ideias eram entidades autoexistentes, mas localizaram o mundo inteligível no Logos e, portanto, na mente de Deus. 
[42] Da mesma forma, Atenágoras declara que 'nossa doutrina reconhece um Deus, o Criador deste universo, que Ele mesmo não foi criado ... mas fez todas as coisas pelo Logos que é Dele' (Plea for the Christians 4). Os padrões pelos quais todas as coisas criadas são feitas (8) podem ser encontrados no Logos, que é a mente do Pai: ‘O Filho de Deus é o Logos do Pai, em ideia e em operação; pois segundo o padrão dele e por ele todas as coisas foram feitas, sendo o Pai e o Filho um. E o Filho estando no Pai e o Pai no Filho ..., o entendimento e a razão do Pai é o Filho de Deus' (10; cf. Theophilus, To Autolycus 2.22; Eusebius, Demonstratio evangelica 4.13). 
[43] Certos defensores Marcionitas do dualismo metafísico foram a exceção que provou a regra. 
[44] Um argumento de Leftow, God and Necessity, 22. [45] Ibid., 22. 
[46] Ibid., 234. 
[47] Ibid., 235. Leftow também oferece um segundo argumento para esta conclusão. Veja também Leftow, ‘Is God an Abstract Object?’, Noûs, 24/4 (1990): 581–98, onde ele apresenta uma objeção contra Deus criar Sua própria natureza, que, salvo a simplicidade divina, deixa Deus dependente de Sua natureza para a sua existência.