[Nota do tradutor: a tradução deste capítulo tem a intenção precípua de buscar
editoras interessadas em comprar os direitos autorais e publicar a obra completa
em português. Os demais objetivos são para informar os amantes de Teologia e
Filosofia sobre assuntos correlatos diversos. O Dr. William Lane Craig mais uma
vez provou ser um acadêmico de ponta, um pensador original. Apenas neste
capítulo, o leitor verá o quão denso e profundo é o tema da relação do Logos
com o Pai e como os Pais da Igreja trataram desse tema em respostas aos
Gnósticos, Platonistas Médios e Neo-Platônicos. Este livro é leitura obrigatória
para os amantes da Palavra de Deus.]
Deus
A Única Realidade Última
Por William Lane Craig
[capítulo 2 do livro God Over All: Divine Aseity and the Challenge of
Platonism]
Neste capítulo, quero revelar os fundamentos bíblicos e teológicos da doutrina
da aseidade divina. Fazer isso deve nos ajudar a resistir a qualquer tentação de
nos acomodar ao Platonismo, que sustenta que, além de Deus, também existem
outras coisas não criadas. Espero mostrar que o Platonismo atinge o coração do
teísmo bíblico.
BASE BÍBLICA DA ASEIDADE DIVINA
O testemunho bíblico do status de Deus como a única realidade última é claro e
abundante. No Novo Testamento, João e Paulo, por exemplo, testemunham
essa doutrina. Vamos examinar primeiro o que João tem a dizer e depois o
testemunho de Paulo.
O Prólogo de João
Sem dúvida, um dos principais textos que testemunham o status de Deus como
a única realidade última é o prólogo do Evangelho de João. Lá João escreve,
No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era
Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas
por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez. Nele estava a vida, e a
vida era a luz dos homens. E a luz resplandece nas trevas, e as trevas
não a compreenderam. João 1:1-5
Observe que, na visão de João, embora Deus e Sua Palavra (logos em Grego)
simplesmente estivessem no princípio (v. 1), é dito que tudo mais surgiu através
dele (v. 3). A palavra Grega que João usa no v. 3 é ginomai, que significa "tornarse" ou "originar". Serve para contrastar todo o resto com Deus e Sua Palavra,
que não tiveram nenhuma origem, mas estavam 'no princípio' (uma frase
emprestada de Gênesis 1: 1). João implica, portanto, que não existem entidades
eternas a parte de Deus, pois todas as coisas, exceto Deus, passaram a existir.
O verbo ginomai também tem o significado "ser criado" ou "ser feito". Esse
significado do verbo é destacado por João, indicando o agente responsável por
todas as coisas que estão sendo criadas. João fala da Palavra de Deus como
aquela “através de quem” todas as coisas surgiram. No grego, a preposição dia
('através, por meio') + o caso genitivo do substantivo ou pronome indica a
agência por meio da qual é produzido algum resultado. Então, João está dizendo
que todas as coisas foram criadas por meio da Palavra de Deus. João implica,
portanto, não apenas que não existem seres eternos separados de Deus;
também não há seres incriados separados de Deus.
Logo, a princípio, o prólogo de João está repleto de implicações metafísicas, pois
implica que somente Deus existe eternamente a se. Não há coisas co-eternas e
não criadas ao lado de Deus.
Os Platonistas que seriam Cristãos biblicamente fiéis devem, portanto, dizer que
João não está realmente falando sobre tudo quando diz 'todas as coisas', assim
como nós quando dizemos, por exemplo, 'todos vieram para a festa do escritório'
ou 'Não há nada Na geladeira'. Ao fazer tais declarações, obviamente não
queremos dizer que Nelson Mandela veio à festa do escritório ou que a geladeira
não tem prateleiras e que não tenha nem ar circulando dentro! Antes, em cada
caso, estamos falando com relação a certas classes de coisas, por exemplo,
pessoas que trabalham no escritório ou coisas boas para comer.
Os lógicos chamam de afirmação universalmente quantificada aquela que diz
algo sobre todos os membros de uma classe, não apenas sobre alguns membros
de uma classe. As afirmações universalmente quantificadas podem ser
afirmativas; nesse caso, normalmente usamos palavras como 'todos', 'todo',
'cada', 'qualquer' e assim por diante; ou negativas, casos em que geralmente
empregamos palavras como 'não', 'nenhum', 'nada', 'ninguém' e assim por
diante, com respeito à classe de coisas que estamos nos referindo. Os lógicos
chamam a classe relevante de coisas como o domínio, esfera da quantificação.
Agora, o terceiro verso do prólogo de João é uma afirmação universalmente
quantificada: 'Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi
feito se fez.' A primeira parte do v. 3 é uma declaração afirmativa, universalmente
quantificada, enquanto a segunda parte do verso é uma declaração negativa,
universalmente quantificada. A questão é: João tinha em mente que a classe de
coisas que ele está se referindo são irrestritas ou ele está falando apenas de
uma classe restrita de coisas? Os pretensos Platonistas Cristãos devem
sustentar que o domínio da quantificação de João é restrito de tal maneira que
objetos abstratos escapam de suas afirmações quantificadas universalmente.
Agora, obviamente, a classe de coisas de que João está falando não é
totalmente irrestrita. Pois João claramente exclui o próprio Deus e Sua Palavra
de pertencer à classe das coisas sobre as quais está falando, uma vez que elas
já foram ditas no v. 1, ou seja, que simplesmente já existiam no princípio. Deus
e Sua Palavra não são os sujeitos da criação temporal, como são as outras
coisas. Eles não passaram a existir, mas simplesmente estavam lá 'no princípio'.
Então, ao dizer que "todas as coisas vieram a existir através dele", João
obviamente não pretende incluir o próprio Deus no domínio/esfera da
quantificação. O Platonista deve dizer, no entanto, que o domínio da
quantificação de João é ainda mais restrito do que dessa maneira óbvia.
Agora, é importante que entendamos claramente a questão diante de nós, pois
ela é muitas vezes incompreendida. A questão não é: João tinha objetos
abstratos explicitamente em mente quando disse que "todas as coisas passaram
a existir por meio dele"? Duvido que João explicitamente tenha entendido que os
objetos abstratos faziam parte da criação de Deus, seja porque ele nunca tenha
pensado em objetos abstratos ou porque, se o tivesse, ele não atribuiu a eles
existência extra-mental, como explicarei abaixo.
Talvez João nunca tivesse pensado em objetos abstratos; mas, da mesma
forma, João também não pensara em quarks, galáxias e buracos negros; no
entanto, ele sem dúvida aceitaria tais coisas e inúmeras outras coisas, se fosse
informado sobre elas, como coisas que tivessem sido criadas por Deus e coisas
que estivessem na classe das coisas sobre as quais ele está falando. Se João
não teria considerado esse tipo de coisas desconhecidas como não criadas, se
ele fosse informado sobre elas, por que pensar que ele teria isentado os objetos
abstratos Platônicos?
Lembre-se de que para os Platonistas pesos pesados,[*] objetos abstratos e
objetos físicos comuns estão em um nível ontológico. O filósofo Platonista Mark
Steiner enfatiza que "os números naturais ... são objetos no mesmo sentido que
moléculas são objetos".[1] Como o eminente filósofo de Harvard W.V.O. Quine
colocou de maneira ilustrada, "Números de todos os tipos, funções e muito mais
... são tão essenciais à teoria física que os utiliza, como os átomos, os elétrons,
os gravetos, são para esse assunto e as pedras”.[2] As entidades abstratas
podem até parecer mais remotas das percepções diretas dos sentidos do que as
microentidades, mas elas são, de acordo com o Platonismo, apenas reais, de
modo que, se as entidades subatômicas se situam no domínio ou esfera dos
quantificadores de João, o mesmo acontece com os números.[3] Portanto, se os
objetos abstratos existem, como o Platonista pensa, eles veriam como arbitrário
excluí-los dos domínios dos quantificadores de João.
[*Nota do tradutor: Craig faz uma distinção entre os Platonistas Pesos Pesados
e Pesos leves, e na introdução e diz: “Um é uma espécie de platonismo "peso
pesado", que considera objetos abstratos tão reais quanto os objetos físicos que
compõem o mundo. Para esse tipo de Platônico, os números são como
automóveis, apenas mais numerosos, abstratos e eternos. Essa comparação
nos faz sorrir; mas serve para sublinhar a seriedade do compromisso ontológico
do Platônico peso pesado com objetos abstratos.” (p. 7, 8). Craig menciona que
o Platônico “Peso Leve” tem um compromisso mais obscuro com os Objetos
abstratos, mas que não comprometem a visão tradicional Cristã sobre Deus.]
A questão, então, não é o que João pensava estar no domínio/esfera de seus
quantificadores; antes, a questão é se João pretende que seu domínio de
quantificação, uma vez que Deus esteja isento, seja irrestrito. Ele pensou que, à
parte de Deus, tudo o mais que existe foi criado por Deus? Ele acreditava que
Deus é a única realidade incriada? É mais do que provável que ele acreditava.
Pois o status de Deus como o único ser eterno, não criado, é uma marca do
Judaísmo do primeiro século, que é o pano de fundo contra o qual o Novo
Testamento foi escrito.
Em sua influente obra sobre o caráter do monoteísmo Judaico antigo, Richard
Bauckham identifica duas características que marcam exclusivamente o Deus
de Israel de todos os outros, a saber: 'ele é criador de todas as coisas e soberano
Governador de todas as coisas'.[4] Existe no Judaísmo dos dias de João, uma
linha divisória brilhante que separa Deus ontologicamente de tudo o mais, uma
bifurcação que Bauckham tenta capturar por meio de uma 'singularidade
transcendente'. Bauckham observa que as chamadas figuras intermediárias no
Judaismo caem em uma de duas categorias: (1) seres que são sobrenaturais,
mas criados, como anjos, e (2) personificações dos aspectos do próprio Deus
que não têm existência independente, como a Palavra de Deus e a Sabedoria
de Deus. O status de Deus como a única realidade última vem à expressão
prática na restrição Judaica da adoração, quando adequadamente direcionada
somente a Deus. Segundo Bauckham, essa restrição 'claramente sinalizou a
distinção entre Deus e toda a outra realidade'.[5]
É interessante que, como João, Bauckham não faz menção explícita a objetos
abstratos. Como um estudioso bíblico, e não um filósofo, ele pode desconhecer
completamente esses objetos. No entanto, é óbvio que ele lê os textos Judaicos
que cita como irrestritos em seu domínio de quantificação (uma vez que Deus é
isento). Por exemplo, ele escreve:
Este Deus de Israel é o único criador de todas as coisas e o Senhor
soberano sobre todas as coisas. Entre as muitas outras coisas que os
Judeus do final do período do Segundo Templo disseram sobre a
singularidade de seu Deus, esses dois aspectos de seu
relacionamento singular com todas as outras realidades foram os
mais citados, usados repetidamente para colocar YHWH em uma
categoria absolutamente singular.[6]
Bauckham usa esses textos Judaicos para distinguir Deus de todo o resto da
realidade, e a maioria dos estudiosos concordou com a exegese de Bauckham
desses textos.
O ponto crucial aqui é que a irrestrição do domínio da quantificação se baseia,
não em que tipos de objetos se pensava estar no domínio, mas na doutrina
Judaica de Deus como o único ser que existe eternamente e a se. É quem ou o
que Deus é que exige que o domínio da quantificação seja irrestrito, quaisquer
que sejam os seres que possam ser descobertos neste domínio.
O próprio João identifica a Palavra (logos) sozinha como existindo com Deus e
sendo Deus no princípio. A criação de tudo o mais através do Logos divino se
segue. Bauckham chama essa visão de 'monoteísmo cristológico': o Logos divino
está do lado de Deus na linha divisória entre Deus e o resto da realidade. Ele
não é, portanto, uma entidade adicional não criada que existe à parte de Deus.
Então, embora eu pense que João provavelmente não tinha em mente os objetos
abstratos quando afirmou que todas as coisas surgiram através do Logos, não
há razão para duvidar que ele acreditasse que todas as coisas existentes, exceto
Deus, haviam surgido através do Logos. Se um filósofo moderno se sentasse
com João e explicasse a ele o que supostamente é um objeto abstrato, dandolhe exemplos como números, proposições e mundos possíveis, e dissesse a ele
que muitos Platonistas do século XXI acreditam que tais coisas como objetos
independentes da mente existem de maneira tão robusta quanto objetos físicos
familiares, João sem dúvida teria respondido que, se existem realmente essas
coisas, elas também devem ter sido criadas pelo Logos divino. Postular uma
plenitude infinita de seres tão reais quanto os planetas existentes, como
independentemente de Deus, de modo que o domínio dos objetos concretos
criados por Deus seja literalmente infinitesimal por comparação, seria trair o
monoteísmo Judaico e banalizar a doutrina da criação. Portanto, acho que fica
claro que João pretendia que seu domínio de quantificação incluísse tudo à parte
de Deus, qualquer que seja a ideia que ele possa ter sobre os objetos que estão
no domínio/esfera.
Mas João, de fato, desconhecia os objetos abstratos, como assumimos? Isso
não parece óbvio. Pois na época de João, o Platonismo clássico havia evoluído
para o chamado Platonismo médio, e o Judaísmo Helenístico tem essa marca.
A doutrina do Logos criativo divino encontrada no prólogo de João, está longe
de ser original a João, pois era difundida no Platatonismo Médio. É atestado
desde Antíoco de Ascalon (125-68 a.C.) e Eudorus (primeiro século a,C.), dois
dos primeiros Platonistas médios. Judeus Helenistas, notavelmente Filo de
Alexandria (20 a.C. - 50 d.C.), adaptaram a doutrina do Logos ao monoteísmo
Judaico. As semelhanças entre a doutrina do Logos de Filo e a doutrina do Logos
de João são impressionantes e numerosas. Em uma revisão cuidadosa dos
papéis do Logos, como encontrados em Filo e em João, a estudiosa alemã Jutta
Leonhardt-Balzer resume as semelhanças mais importantes:
ambos usam o Logos de maneira semelhante à literatura [Judaica] de
Sabedoria; ambos descrevem o Logos como temporalmente anterior
à criação (Op. 17; 24; Jo 1.1-2). Na medida em que vão além da
tradição da Sabedoria, eles o chamam de "Deus" (Som. 1.228-230;
Jo.1.1). Ambos conectam a operação do Logos com o começo do
mundo (Conf. 146; Jo 1.1–2) e veem o mundo como criado "através"
(διά) do Logos (Cher.127; Jo 1.3). Ambos conectam o Logos à luz
(Som. 1.75; Op. 33; Conf. 60-63; Jo 1.4-5, 9) e vêem no Logos o
caminho para as pessoas se tornarem filhos de Deus (Conf. 145-146;
Jo 1.12) Ambos fazem uma distinção clara entre o Logos com Deus e
o Logos na criação, pelo qual não apenas o prólogo de João, mas
ambos trazem as declarações de Gênesis para colocar o Logos com
Deus.[7]
Há muita coisa aqui que merece um comentário; mas quero chamar atenção
especial para o papel do Logos divino na criação. Tanto Filo quanto João
conectam o Logos com o início do cosmos. João diz que o Logos existia no
princípio e que o cosmos passou a existir por meio dele (1: 3,10). Filo, citando
Gênesis 1: 1: 'No princípio criou Deus os céus e a terra', também conecta o Logos
com o início do mundo (On the Creation of the World 26–7). Ambos entendem o
Logos como o agente da criação, através do qual o mundo foi feito. O uso da
preposição dia + o genitivo para expressar a criação instrumental não é derivada
da literatura de Sabedoria Judaica, antes é uma marca do Platonismo Médio; de
fato, tanto que os estudiosos desse movimento gostam de falar sobre a
'metafísica preposicional', na qual várias frases preposicionais são empregadas
para expressar categorias causais:[8]
Frase: to huph’ hou // to eks hou //to di’ hou // to di’ ho
Categoria: to aition
Causa
eficiente // hē hulē
Causa material //to ergaleion
Causa
instrumental // hē aitia
Causa final
Entidade: Deus o Criador // Os quatro
elementos // O Logos de
Deus // A Bondade de
Deus
Filo identifica os quatro tipos de causas de Aristóteles por essas frases
preposicionais, afirmando que 'através do qual' (to di' hou) representa a criação
pelo Logos (On the Cherubim 124–7). Filo freqüentemente se refere ao Logos
como a causa instrumental da criação.[9] Embora alguns comentaristas do
Evangelho de João tenham insistido corretamente que João não está
interessado em metafísica a princípio, mas em salvação, não podemos ignorar
suas afirmações explicitamente metafísicas pelas quais todas as coisas surgiram
por meio do Logos (di' autou) e que o mundo (kosmos) surgiu por meio dele (di'
autou) (1: 3, 10).
As semelhanças entre as doutrinas de Filo e João sobre o Logos são tantas e
tão parecidas que a maioria dos estudiosos Joaninos, embora não desejem
afirmar a dependência direta de João em relação a Filo, reconhecem que o autor
do prólogo do evangelho de João compartilha com Filo de uma tradição
intelectual comum da interpretação Platônica Média de Gênesis 1.[10]
Agora, interessado como ele é na encarnação do Logos divino, João não faz
uma pausa para refletir sobre o papel do Logos 'no início', causalmente antes da
criação. Mas esse papel na pré-criação aparece com destaque na doutrina de
Filo sobre o Logos. De acordo com David Runia, uma pedra angular do
Platonismo Médio era a divisão da realidade das esferas do inteligível e
sensível.[11] A divisão percebida é genuína, mas acho que é um pouco
enganador fazer a distinção em tais termos.[12] A distinção fundamental aqui,
originalmente encontrada em Platão, é entre a esfera do ser estático e a esfera
da vinda do que é temporal. A primeira esfera é apreendida pelo intelecto,
enquanto a segunda é percebida pelos sentidos. A esfera de se tornar um objeto
primordialmente físico, enquanto a esfera estática de ser constituído pelo que
hoje chamaríamos de objetos abstratos. Para os Platônicos Médios, como para
Platão, o mundo inteligível serviu como modelo para a criação do mundo
sensível. Como um Judeu monoteísta, Filo não acha que essa esfera inteligível
exista independentemente de Deus, mas antes como o conteúdo de Sua mente.
Contudo, essa visão não era original de Filo. A interpretação das Ideias
Platônicas como pensamentos na mente de Deus era característica do
Platonismo Médio e se espalhou por todo o mundo antigo.[13] Por exemplo,
Nicômaco de Gerasa (60-120 d.C.), que floresceu na Síria Romana, adjacente à
Judéia, sustentou que, dos quatro assuntos do quadrivium clássico,
A aritmética ... existia antes de todos os outros na mente do Deus criador,
como um plano universal e exemplar, baseando-se no qual, como projeto
e exemplo arquetípico, o Criador do universo coloca em ordem as criações
materiais e as faz pertencer aos seus próprios fins...
Tudo o que, por natureza, com método sistemático, foi organizado no
universo, parece que ambas as partes foram determinadas e ordenadas de
acordo com os números, pela premeditação e pela mente daquele que criou
todas as coisas; pois o padrão fora fixado, como um esboço preliminar, pela
dominação dos números existentes na mente do Deus criador do mundo,
números apenas conceituais e imateriais em todos os sentidos, mas ao
mesmo tempo a essência verdadeira e eterna, de modo que com referência
aos números, como a um plano artístico, devem ser criadas todas essas
coisas, tempo, movimento, céus, estrelas, todos os tipos de revoluções.[14]
Filo concordou. O mundo inteligível (kosmos noētos), ele sustenta, pode ser
pensado como formado pelo Logos divino ou, mais redutivamente, o próprio
Logos, como Deus, está empenhado em criar.
Embora as referências a esse papel do Logos sejam frequentes em Filo,[15] a
exposição mais completa de sua doutrina aparece em sua obra On theCreation
of the World according to Moses:
Deus, porque Ele é Deus, entendeu antecipadamente que uma cópia justa
não surgiria à parte de um modelo justo e que nenhum dos objetos da
percepção sensorial ficaria sem defeitos, a menos que fosse modelado na
ideia arquetípica e inteligível. Quando ele decidiu construir esse cosmos
visível, ele primeiro marcou o cosmos inteligível, para poder usá-lo como
um paradigma incorpóreo e mais divino e, assim, produzir o cosmos
corpóreo, uma semelhança mais jovem de um modelo mais antigo, o que
conteria tantos tipos sensíveis aos sentidos quanto havia tipos inteligíveis
naquele outro.
Declarar ou supor que o cosmos composto pelas ideias existe em algum
lugar não é permissível. Como foi constituído, entenderemos se prestarmos
muita atenção a uma imagem trazida de nosso próprio mundo. Quando
uma cidade é fundada, de acordo com a alta ambição de um rei ou
governante que reivindicou o poder supremo e, porque essa cidade é ao
mesmo tempo magnífica em sua concepção, acrescenta mais adornos à
sua riqueza, isso pode acontecer se um arquiteto treinado se apresente.
Tendo observado tanto o clima favorável quanto a localização do local, ele
primeiro projeta em sua mente um plano de praticamente todas as partes
da cidade a serem concluídas - templos, ginásios, repartições públicas,
mercados, portos, estaleiros, ruas, construção de muros, o
estabelecimento de outros edifícios, privados e públicos. Então, pegando
as impressões de cada objeto em sua própria alma como impressos em
uma cera, ele carrega a cidade inteligível como uma imagem em sua
cabeça. Reunindo as imagens por meio de seu poder inato de memória e
gravando suas características ainda mais distintamente em sua mente, ele
começa, como um bom construtor, a construir a cidade com pedras e
madeira, olhando o modelo e garantindo que os objetos físicos
correspondam a cada uma das ideias incorpóreas.
A concepção que temos a respeito de Deus deve ser semelhante a essa, a
saber, quando ele decidiu a grande cidade cósmica, ele primeiro concebeu
seus contornos. Destes, ele compôs o cosmos inteligível, que serviu de
modelo quando ele também completou o cosmos sensível aos sentidos.
Assim como a cidade previamente marcada pelo arquiteto não tinha
localização fora, mas estava gravada na alma do artesão, da mesma forma
que o cosmos composto pelas ideias não teria outro lugar senão o Logos
divino, que fornece (ideias) sua disposição ordenada. Afinal, que outro lugar
haveria para que seus poderes fossem suficientes para receber e conter,
não falo sobre todos eles, mas apenas um deles em seu estado não
misturado? Se você deseja usar uma formulação que foi reduzida ao
essencial, pode-se dizer que o cosmos inteligível nada mais é do que o
Logos de Deus, pois Ele está realmente empenhado em fazer o cosmos.
Pois a cidade inteligível também não é nada mais senão o raciocínio do
arquiteto, pois ele está realmente envolvido no planejamento da fundação
da cidade. (On the Creation of the World 16–20, 24).
Especialmente digna de nota é a insistência de Filo de que o mundo das ideias
não pode existir em lugar algum, a não ser no Logos divino. Assim como o plano
arquitetônico ideal de uma cidade existe apenas na mente do arquiteto, o mundo
das ideias existe apenas na mente de Deus.
Na visão de Filo, então, não há esfera de objetos abstratos independentemente
existentes. Como afirma Runia, o mundo inteligível, embora não faça parte da
esfera criada, "deve ser considerado dependente em Deus para sua
existência".[16]
Dada a estreita semelhança da doutrina do Logos no prólogo de João com a
doutrina de Filo, não é de todo impossível que o autor do prólogo estivesse ciente
da relação do Logos com a esfera do mundo das ideias. É impressionante como
o verbo do ser dominam os vv. 1–2 do prólogo de João, enquanto o verbo vir a
ser dominam nos vv. 3–5.[17] Pode ser que o autor do prólogo tenha pensado
que apenas objetos concretos haviam sido criados por Deus porque a esfera
inteligível existe apenas na mente de Deus. A esfera inteligível não tem realidade
fora do Logos divino.
Eu acho que não é improvável que o autor do prólogo, se não o próprio
evangelista, tenha sustentado a visão Platônica Média de Deus e de objetos
abstratos. Mas, quer ele tenha ou não, é claro que o autor do Evangelho de João
concebe Deus como o Criador de tudo à parte de Si, através da Sua Palavra.
Não existem objetos eternos não criados, independentemente existentes, pois
Deus existe unicamente a se.
AS CARTAS DE PAULO
Passamos agora ao que Paulo tem a dizer em suas várias cartas sobre o status
de Deus como a única realidade última. O mesmo Judaísmo Helenístico,
resumido em Filo, que forma o pano de fundo do prólogo de João, molda as
tradições que Paulo sustenta. Considere os seguintes textos paulinos:
todavia, para nós há um só Deus, o Pai, de quem são todas as coisas e para quem
existimos; e um só Senhor, Jesus Cristo, pelo qual são todas as coisas, e nós também,
por ele. (1 Coríntios 8:6)
Porque, como provém a mulher do homem, assim também o homem é nascido da
mulher; e tudo vem de Deus. (1 Coríntios 11:12)
Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória
eternamente. Amém! (Romanos 11:36)
Este [Cristo] é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação; pois, nele,
foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis,
sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades. Tudo foi criado
por meio dele e para ele. Colossenses (1:15,16)
Paulo, como João, atribui a Deus a origem de 'todas as coisas'. Um Judeu fiel,
Paulo sustentou o entendimento monoteísta tradicional de que Deus é a fonte de
tudo a parte dEle próprio.
Perceba o uso de frases com preposições que Paulo utiliza, como "dele", "por
meio dele" e "para ele". Douglas Moo comenta Romanos 11: 36, ‘O conceito de
Deus como fonte (ek), sustentador (dia) e objetivo (eis) de todas as coisas é
particularmente forte entre os filósofos Estóicos Gregos. Judeus Helenistas
pegaram essa linguagem e a aplicaram a Yahweh; e é provavelmente, portanto,
da sinagoga que Paulo toma emprestado essa fórmula.'[18] Sim, mas o
pensamento Estóico é a fonte mais distante; mais imediatamente, o que vemos
aqui são variações da metafísica preposicional do Platonismo Médio que moldou
o Judaísmo Helenístico.
Richard Horsley percebe como essa formulação preposicional é incomum para
Paulo e argumenta que a proveniência das expressões de Paulo pode ser
encontrada em Filo. Observando que "inúmeras passagens nos escritos de Filo
fornecem uma analogia para quase todos os aspectos da linguagem e do ponto
de vista religioso dos Coríntios",[19] Horsley comenta,
I Cor. 8.6 é uma adaptação da forma Judaica Helenística Tradicional de
predicação aos respectivos papéis criativos e soteriológicos de Deus e
Sofia/Logos, que Filo ou seus antecessores haviam adaptado de uma
fórmula filosófica Platônica relativa aos princípios primordiais do universo.
O que já era um princípio fundamental da religião Judaica Helenística
expressa no livro da Sabedoria aparece em uma formulação mais filosófica
em Filo; que Deus é o Criador supremo e a causa final do universo, e que
Sofia/Logos é o agente (e paradigma) da criação ou a causa instrumental
(e formal).[20]
Observe no comentário de Horsley que, embora Deus seja considerado a causa
eficiente e final do universo das coisas criadas, Sofia/Logos (Sabedoria / Palavra)
é a causa instrumental e a causa formal (ou paradigma) da criação. Este último
papel faz de Sofia/Logos especificamente a fonte ou o fundamento do kosmos
noētos ou do mundo inteligível. A inovação de Paulo é que ele substitui Cristo
por Sofia/Logos, tendo 'Cristo assumido o que eram as funções de Sofia, de
acordo com a gnosis dos Coríntios'.[21]
Do mesmo modo, Paulo, em sua carta aos Colossenses, parece ter adaptado o
material hinário Judaico Helenístico tradicional sobre Sofia/Logos para tornar
Cristo o agente da criação. Peter O'Brien comenta:
Embora existam pontos de contato lingüístico com o Estoicismo,
especialmente, e assim a linguagem do hino pode ter servido de ponte para
aqueles de tal formação (cf. a função semelhante do λόγος em João 1), no
entanto, o pensamento Paulino é diferente da alma mundial estoicista
panteísta concebida... os paralelos do Judaísmo Helenístico,
especialmente a LXX, estão muito mais próximos.[22]
Por exemplo, lemos em Sabedoria (ou Sirach) 43: 26 que "por meio de sua
palavra todas as coisas se mantêm juntas". Os paralelos se tornam ainda mais
próximos se a maioria dos comentaristas estiverem corretos de que o material
original adaptado por Paulo falava do cosmos e não da igreja como o corpo do
qual Sofia/Logos é a cabeça.[23]
É interessante que, em Colossenses 1: 15–16 e 1 Coríntios 8: 6, Paulo nomeie
Cristo como a causa instrumental da criação, em Romanos 11: 36 Paulo declara
que o Pai é a fonte, sustentador e objetivo de todas as coisas. Romanos 11: 36
é assim, nas palavras de Moo, "uma declaração a favor de Deus como causa
última".[24] James D.G. Dunn concorda: "Onde o foco é tão exclusivamente a
suprema majestade e auto-suficiência de Deus, a fórmula do tipo Estóico fornece
um ajuste clímax: ele é a fonte, o meio e o objetivo de tudo, o começo, o meio e
o fim de tudo o que existe”.[25]
Novamente, o pretenso Cristão Platonista deve sustentar que a esfera sobre o
qual Paulo quantifica ao dizer 'todas as coisas' é restrita de tal maneira que
objetos abstratos, se existirem, escapam de seus quantificadores. Mas a
irrestrição do domínio dos quantificadores de Paulo é evidente pelo fato de que
a expressão 'os céus e a terra' (Colossenses 1: 15-16) é um hebraísmo Judaico
típico ou uma linguagem totalizadora que compreende tudo que não seja
Deus.[26] A caracterização de Paulo sobre a esfera criada como "todas as coisas
no céu e na terra" não compreendia qualquer tipo de restrição, na mente de um
Judeu do primeiro século. Além disso, Paulo caracteriza o Filho como o criador
de 'todas as coisas visíveis e invisíveis' (Col. 1: 15-16), uma caracterização
coletivamente exaustiva: Cristo criou tudo, seja A ou não-A. De fato, o
pensamento de Paulo em Colossenses é amplo: ele fala desde todas as coisas
no céu e na terra, a todas as coisas visíveis e invisíveis e, finalmente, a todas as
coisas mais simples que sejam. Sua intenção é que a esfera de seus
quantificadores seja irrestrito.
A irrestrição da esfera de quantificação de Paulo não é comprometida pelo fato
de que apenas coisas concretas realmente habitam a esfera. Como vimos, no
Judaísmo Helenístico, o kosmos noētos não era considerado parte do mundo
criado, mas apenas existindo na mente do Logos e servindo como padrão para
a criação de Deus do mundo concreto. Objetos ideais não fazem parte da criação
ou do mundo, mas são ideias de Deus. Eles não têm existência fora da mente
divina. Portanto, ao atribuir a Cristo o papel do Logos na criação do mundo, Paulo
está afirmando que tudo à parte de Deus foi criado por Deus por meio de Cristo.
A esfera dos quantificadores de Paulo é ilimitado: tudo, exceto Deus, foi criado
por Deus.
Talvez os autores bíblicos como João e Paulo tenham seguido o exemplo do
Judaísmo Helenístico ao colocar os objetos matemáticos e seus correlatos na
mente do Logos; talvez nunca tivessem considerado o assunto. Nós não
sabemos. Mas, assim como a descoberta de outros planetas não os levaria a
pensar que esses objetos escaparam, de alguma forma, da criação de Cristo,
então, a descoberta de que existem objetos abstratos independentes da mente
não os levaria a pensar que tais objetos são incriados. Leftow certamente está
correto quando diz: ‘eles queriam dizer "todas as coisas" com o significado de
cobrir coisas conhecidas e desconhecidas: eles não poderiam ter acreditado que
sabiam tudo o que "todas as coisas" abrangiam. Mas uma vez se conceda esse
argumento, é difícil entender por que devemos limitar seu escopo ao
concreto.'[27] Assim, os 'autores bíblicos que passaram a acreditar em objetos
abstratos gostariam de responsabilizar Deus por todos eles. A ideia desses
autores certamente não é que Deus tenha feito o suficiente para merecer
louvores e assim por diante (isto é, ter feito uma grande parte da realidade), mas
que existem esferas da realidade para as quais Ele não merece louvores e assim
por diante''.[28] Antes,Deus e Cristo merecem louvor por tudo o que existe,
porque tudo encontra sua fonte em Deus.
Duas Questões Teológicas
Antes de deixarmos os autores bíblicos, há mais duas questões sobre a doutrina
bíblica que merecem atenção. Observei que a afirmação dos escritores bíblicos
de que todas as coisas que estão a parte de Deus foram criadas por Deus, sem
dúvida, remete ao relato da criação em Gênesis 1. A forma de João 1: 1 reflete
Gênesis 1: 1 e o uso consistente de verbos no passado para a criação - por
exemplo, 'Todas as coisas foram criadas por meio dele' (João 1: 3) e 'Pois nele
foram criadas todas as coisas no céu e na terra' (Colossenses 1: 15) - indica que
algum evento no passado está à vista. Mas e as coisas que não foram criadas
no ato original da criação de Deus, mas que só entraram em cena depois? Em
que sentido se pode dizer que eles foram criados por Deus? Esta é uma questão
que os próprios autores bíblicos podem ter ponderado. Pois eles sabiam que
novos organismos vivos nascem todos os dias através de processos
aparentemente naturais e que os seres humanos produzem novos artefatos por
causas naturais diariamente. Em que sentido João ou Paulo podem dizer que o
Logos criou essas coisas?
Leftow chama a criação dessas coisas de 'criação tardia' e oferece vários
modelos.[29]
(i) Deus criou do nada as partículas fundamentais ("átomos") que compõem
as coisas materiais. Se não há partículas fundamentais, então, em algum
nível, Deus criou do nada as coisas compostas das quais as coisas
materiais consistem. Objetos compostos, portanto, devem sua existência a
Deus.
(ii) Deus não apenas criou o material a partir do qual as coisas materiais
são feitas, mas também estabeleceu sistemas causais determinísticos,
preparados para produzir certos efeitos posteriormente. Pode-se dizer que
Deus cria esses efeitos posteriores estabelecendo as cadeias causais que
levam a eles de acordo com sua intenção. Pode-se suplementar esse
modelo incluindo agentes livres entre as coisas que Deus pretende que seja
produzida, bem como os artefatos que Ele os leva a produzir ou sabia que
produziriam livremente. Nesse modelo, Deus é a causa remota e as
criaturas as causas imediatas das coisas que estão surgindo.
(iii) Deus poderia querer e causar toda uma sequência causal de eventos
terminando na produção de alguma criatura. Nesse modelo, Deus causa,
não apenas o primeiro membro de uma sequência causal, mas toda a
sequência. No entanto, cada membro da sequência possui antecedentes
causais na sequência. Novamente, esse modelo pode ser aprimorado,
fazendo com que alguns agentes livres causem criaturas, cujas escolhas
produzam efeitos pretendidos por Deus.
(iv) O modelo (iii) pode ser estendido acrescentando que Deus conserva os
objetos momento a momento, desejando que eles persistam de um tempo
até um momento posterior. Assim, a cada momento de sua existência, eles
são criados do nada, no sentido de que Deus deseja que eles persistam
em ser, em vez de serem aniquilados. Nesse modelo, a criação tardia é
uma questão de Deus conservar o mundo em existência.
Obviamente, nem todos esses modelos seriam aplicáveis à criação de entidades
imateriais por Deus, como anjos, almas ou objetos abstratos. Mas a criação
tardia ou não se relaciona com a maioria dessas coisas ou não apresenta
problemas. Anjos podem ter sido criados apenas uma vez, talvez no momento
da criação e nunca mais. Almas poderiam ser criadas imediatamente por Deus
ao longo da história nos vários momentos apropriados. Os objetos abstratos são
apresentados em tipos tão diversos que nenhum modelo se aplica.[30] Como
nossa preocupação aqui é com a teologia bíblica, e não sistemática, deixemos
de lado por um momento a criação de objetos abstratos por Deus, uma vez que
eles não aparecem explicitamente no texto bíblico.
Embora o teólogo sistemático normalmente deseje afirmar uma doutrina da
conservação divina de acordo com a opção (iv), é duvidoso que João e Paulo
tivessem esse modelo em mente nas passagens que examinamos, dado o uso
de verbos no passado.[31] Provavelmente, eles olharam para o ato inicial de
criação de Deus 'no princípio'. Dado que eles não eram teóricos da lei natural,
provavelmente tinham algo como a opção (i) em mente, em vez da (ii) ou (iii),
embora talvez complementados pelas intenções providenciais de Deus de que
as coisas posteriores deveriam acontecer. Não pretendo sugerir que João e
Paulo eram atomistas, mas apenas que eles acreditavam que, além de anjos e
almas, Deus criou as coisas a partir das quais as coisas físicas são feitas, e que
se pode dizer que ele é o Criador de todas as coisas, inclusive as que foram
configuradas apenas recentemente. Também não estou atribuindo aos
escritores bíblicos algum tipo de niilismo mereológico, a visão de que não há
objetos compostos. Pois eles podiam acreditar consistentemente e sem dúvida
acreditavam que coisas como tijolos, espadas e cavalos existem como coisas
autênticas, mesmo que sejam compostas de partes. Agentes finitos são artífices
que modelam coisas como facas e tijolos ou geram descendentes através de
materiais como sêmen. São, portanto, como a opção (ii) afirma, causas próximas
do que existe. Deus continua sendo o Criador supremo, na medida em que Ele
é a fonte das coisas de que todas as coisas materiais são feitas, assim como o
Criador de anjos e almas.
Agora, para a nossa segunda pergunta. Devemos considerar a aseidade um
atributo essencial de Deus ou apenas uma propriedade que Deus possui
contingentemente? Enquanto os escritores bíblicos não abordam essa questão,
Leftow argumenta corretamente:
quanto mais central e proeminente um atributo está na imagem bíblica de
Deus, mais forte é a hipótese de considerar necessário este atributo para
ser Deus, ceteris paribus: esta é a única razão pela qual os filósofos
geralmente tratam ser onisciente ou onipotente, como necessário. Se criar
tudo é proeminente e central no relato bíblico, e este é o nosso único tipo
de razão para considerar as condições necessárias aceitas da divindade
como condições necessárias, temos uma boa razão para tomar ‘criar tudo’
como requisito, como fazemos em qualquer outro caso.[32]
Vimos que Deus sendo a única realidade última estava no cerne do monoteísmo
Judaico. É impensável que os escritores bíblicos possam ter considerado a
aseidade como uma propriedade que Deus simplesmente possuía, mas que
poderia não ter possuído, de modo que Deus poderia ter Sua existência sob
dependência de alguma outra coisa. Qualquer coisa tão dependente não merece
ser chamado de Deus. Além disso, o fato de que somente Deus existe a se não
parece ser uma questão contingente. Se Deus é a única realidade última no
mundo real, é difícil imaginar por que Ele não seria assim em qualquer mundo
possível em que Ele exista. Sugerir que, em algum outro mundo possível, Deus
se encontre confrontado com algum ser contingente existente
independentemente, não criado por Ele, impugnaria o poder e a majestade de
Deus. Assim, devemos considerar Deus como a única realidade última como
pertencendo à natureza de Deus.
De qualquer forma, mesmo que devamos confiar na proeminência e centralidade
como nossos únicos guias ao fazer teologia bíblica, no entanto, quando fazemos
teologia sistemática, em particular, a teologia do ser perfeito, então a concepção
de Deus como o maior ser concebível entra crucialmente no jogo, como veremos.
Thomas Morris observa que é "um julgamento bastante incontroverso entre os
teólogos do ser perfeito" que a aseidade é uma propriedade ou ingrediente de
grande perfeição.[33] Deus deve, portanto, existir a se. Quando associamos o
atributo da aseidade divina ao atributo da necessidade metafísica de Deus,
estamos no caminho de uma concepção verdadeiramente grande de Deus que
é digna do Deus bíblico.
O ENSINO DOS PAIS DA IGREJA
Os Pais da Igreja primitiva, citando freqüentemente João e Paulo, entendiam que
Deus era a única realidade última. Essa convicção alcançou status de Credo em
325 no Concílio de Nicéia. O Credo Niceno afirma:
Creio em um Deus, o Pai Todo-Poderoso, Criador do céu e da terra e de
todas as coisas visíveis e invisíveis;
E em um Senhor, Jesus Cristo, o único Filho de Deus, gerado do Pai antes
de todas as épocas, luz da luz, Deus verdadeiro do Deus verdadeiro,
gerado, não criado, consubstancial ao Pai, através do qual todas as coisas
surgiram.
A frase 'Criador do céu e da terra e de todas as coisas visíveis e invisíveis' deriva
de Paulo, e a expressão 'através do qual todas as coisas surgiram' do prólogo
do Evangelho de João. O Concílio afirma que tudo, exceto Deus, foi criado por
Deus por meio do Filho, para que somente Deus seja incriado. Mais uma vez, o
pretenso Cristão Platonista, se quiser sustentar a ortodoxia Nicena, deve
considerar a esfera/domínio de quantificação dos Pais como tacitamente restrita
de tal maneira que objetos abstratos escapem dos quantificadores universais do
credo.
O Único Agenētos
Temos, no entanto, evidências convincentes de que os Pais da Igreja
consideraram o domínio de quantificação, uma vez que Deus é isento, como
sendo irrestrito em seu escopo. No centro da controvérsia teológica que levou
ao Concílio de Nicéia, havia um par de distinções terminológicas: agenētos /
genētos e agennētos / gennētos.[34] o par de palavras agenētos / genētos deriva
do verbo grego ginomai, que significa tornar-se ou vir a ser. Agenētos significa
não originado ou não criado, em contraste com genētos, que é criado ou
originado. O segundo par de palavras agennētos / gennētos deriva de um verbo
diferente, gennaō, que significa gerar. Agennētos significa não gerado, enquanto
gennētos sifnifica gerado. Muitos de nós estamos familiarizados com o famoso
'i', que marcou a diferença entre a confissão ortodoxa de que Cristo é
homoousios (o mesmo em essência) com o Pai e a confissão Ariana de que
Cristo é homoiousios (de essência semelhante) com o Pai, de modo que podese dizer que a diferença entre ortodoxia e heresia depende de um único iota.
Mas um mundo semelhante de diferença está no simples 'n', por meio do qual
se pode dizer que Cristo não foi criado (agenētos), mas gerado (gennētos), em
contraste com o Pai, que é ao mesmo tempo incriado (agenētos) e não-gerado
(agennētos).
Atanásio, o grande campeão da ortodoxia Nicena nos anos seguintes ao
Concílio, explica que os Arianos haviam tomado emprestado o termo agenētos
da filosofia Grega e o aplicado exclusivamente a Deus Pai (Defense of the
Nicene Definition 7: ‘On the Arian symbol “Agenētos”’; cf. Discourses against the
Arians 1.9.30; On the Councils of Ariminum and Seleucia 46–7). O significado
relevante do termo, observa ele, é "o que existe, mas não foi originado nem teve
origem do ser, mas é eterno e indestrutível". Ele reclama com indignação óbvia
que a estratégia Ariana era perguntar ao leigo desavisado se existe um ou dois
seres não criados. Quando a pessoa respondia que havia apenas um ser não
criado, os Arianos jogavam a armadilha exclamando: 'Então o Filho é criado!' E,
portanto, uma criatura. Não é de surpreender que Atanásio diga que prefere usar
o termo 'Pai' em vez de agenētos, embora reconheça que o último termo tem um
uso adequado e religioso (Defense 7.31-2; Discourses 1.9.33-4).
Os Pais da Igreja ante-Nicenos e Nicenos, assim como os próprios Arianos,
todos concordaram que não há agenēta a parte de Deus. Considere estes textos
representativos:
não existe uma pluralidade de seres incriados: pois se houvesse alguma
diferença entre eles, você não descobriria a causa da diferença, embora a
procurasse; mas, depois de deixar a mente vagar pela infinidade, você
finalmente se cansaria, pararia em um ser não criado e diria que essa é a
Causa de todas as coisas. (Justin, Dialogue with Trypho, a Jew 5)
é impossível que dois seres incriados existam juntos (Methodius, On Free
Will 5)
em todas as coisas Deus tem a preeminência, que por si só é incriado, o
primeiro de todas as coisas e a causa primária da existência de tudo,
enquanto todas as outras coisas permanecem sob a sujeição de Deus
(Irenaeus, Against Heresies 4.38.3)
Pois antes de todas as coisas Deus estava sozinho, ele próprio possui seu
mundo, localização e todas as coisas - sozinho, no entanto, porque não
havia nada externo a seu lado. (Tertullian, Against Praxeas 5.13–15).
Nunca ouvimos dizer que existem dois seres não-gerados, nem que um foi
dividido em dois ...; mas afirmamos que o não gerado é um. (Letter of
Eusebius of Nicomedia to Paulinus of Tyre, in Theodoret, Ecclesiastical
History 1.5)
Deus, subsistindo sozinho, e não tendo nada contemporâneo consigo
mesmo, determinado a criar o mundo. E concebendo o mundo em mente,
e desejando e proferindo a Palavra, Ele criou; e imediatamente apareceu
formado como lhe agradara. Para nós, então, basta simplesmente saber
que não havia nada contemporâneo com Deus. Ao lado dele, não havia
nada. (Hippolytus, Against Noetus 10.1; cf. Refutation of All Heresies 10.28)
o Pai é aquele que não foi criado (Epiphanius, Panarion 33.7.6)
Seria simplesmente uma exegese imperfeita, eu acho, sugerir que o
domínio/esfera sobre o qual os quantificadores dos Pais se estendem nessas
declarações não se destinam como irrestritos.
Agenētos é, portanto, a palavra que os Pais da Igreja usavam para denotar a
ideia Judaica do que Bauckham chama de "singularidade transcendente" de
Deus. Prestige explica:
Desde que a transcendência, embora seja uma ideia caracteristicamente
Hebraica, não seja filosoficamente exposta na Bíblia, um termo teve que
ser adotado para expressar sua definição. Isso foi encontrado na palavra
agenetos, "não criado". A ideia da criação estava lá em contraste com a de
existência auto-fundamentada. Chamar Deus de incriado equivalia a
chamá-Lo de perfeição infinita, realidade independente e a fonte de todo
ser finito: somente Ele é absoluto; tudo o mais é dependente e
contingente.[35]
Os Pais da Igreja consideraram essa propriedade única para Deus: ‘a ênfase ...
sobre Deus não ser criado (ἀγένητος) implica que Ele é o único criador de todas
as coisas que existem, a fonte e o fundamento da existência; e a concepção é
tomada como um critério positivo da divindade.[36] De acordo com o estudioso
da patrística Harry Austryn Wolfson,[37], todos os Pais da Igreja aceitaram os
três princípios a seguir:
1. Apenas Deus é incriado.
2. Nada é co-eterno com Deus.
3. A eternidade implica deidade.
Cada um desses princípios implica que não há outra agenēta senão somente
Deus.
Propriedades e Números
Mas, para que não seja sugerido que objetos abstratos estivessem de alguma
forma isentos desses princípios, devemos observar que os Pais da Igreja ante
Nicenos rejeitaram explicitamente a visão de que entidades como propriedades
e números são agenēta. Os Pais eram familiarizados com as visões metafísicas
de mundo de Platão e Pitágoras e concordaram com eles que há um agênētos
do qual toda a realidade se deriva; mas os Pais identificaram esse agenētos, não
com uma forma ou número impessoal, mas com o Deus hebraico, que criou
todas as coisas (a parte de si mesmo) ex nihilo.
Considere as primeiras propriedades. Embora o objetivo principal dos Pais em
sua defesa da creatio ex nihilo fosse a doutrina da independência e eternidade
da matéria, eles não aceitavam a ideia de que, embora a matéria pudesse ser
originada, as propriedades, no entanto, não poderiam ter começo e não foram
criadas. Atenágoras caracteriza os Cristãos como aqueles que "distinguem e
separam os incriados e os criados" (Plea for the Christians 15). Embora
Atenágoras presumisse que o reino criado era o mundo material (incluindo os
espíritos materiais), isso não é porque ele considerava as propriedades
incriadas. Em vez disso, ele considerava que as propriedades não tinham
existência independente de objetos concretos. Sua convicção é evidente em seu
comentário sobre como Satanás se opõe à bondade de Deus:
ao bem que está em Deus, que lhe pertence por necessidade e coexiste
com Ele, como a cor com corpo, sem o qual não existe (não como parte
dele, mas como propriedade auxiliar coexistindo com ele, unida e
mesclada, assim como é natural que o fogo seja amarelo e o éter azul
escuro) - para o bem que há em Deus, digo, o espírito que é sobre a matéria
... se opõe. (Plea 24; grifo meu)
Atenágoras aqui rejeita claramente a ideia de que propriedades têm algum tipo
de existência independente, a parte de objetos concretos.
Seu colega apologista Taciano afirma que somente Deus é sem começo e atribui
a Ele a criação tanto da matéria, quanto da forma:
Nosso Deus não teve princípio com o tempo; Somente Ele é sem princípio,
e Ele é o princípio de todas as coisas. Deus é um Espírito, não a matéria
penetrante, mas o Criador dos espíritos materiais e das formas
(schematōn) que estão na matéria; Ele é invisível, impalpável, sendo Ele
mesmo o Pai das coisas sensíveis e invisíveis. (Address to the Greeks
4.10–14)
Taciano rejeitou a noção de que existe além de Deus qualquer coisa eterna, não
criada, mesmo formas puras. Formas instanciadas que ele presumivelmente
adotaria como pertencente ao domínio das coisas invisíveis.
Orígenes, que foi treinado na filosofia neo-Platônica, repudiou a identificação do
domínio das ideias Platônicas com o domínio bíblico celestial de onde Cristo
veio, ao comentar:
É difícil para nós explicar esse outro mundo; e por esse motivo, se o
fizéssemos, haveria o risco de dar a alguns homens a impressão de que
estávamos afirmando a existência de certas formas imaginárias que os
Gregos chamam de 'ideias'. Pois é certamente estranho ao nosso modo de
raciocinar falar de um mundo incorpóreo que existe apenas na fantasia da
mente ou na região não substancial do pensamento; e como os homens
poderiam afirmar que o Salvador veio dali ou que os santos irão para lá,
não vejo como. (On First Principles 2.3.6)
Como Filo, Orígenes acreditava que as formas das coisas mundanas preexistiam
como ideias na segunda pessoa da Trindade, identificadas biblicamente como
Sabedoria ou Logos de Deus.[38] Ele escreveu:
Deus o Pai sempre existiu, e ... ele sempre teve um Filho unigênito, que ao
mesmo tempo ... se chama Sabedoria. Essa é a Sabedoria em quem Deus
se deleitou quando o mundo foi concluído. ... Portanto, nesta Sabedoria que
já existia com o Pai, a Criação sempre esteve presente em forma e esboço,
e nunca houve um tempo em que a prefiguração daquelas coisas que
seriam criadas não existiam na Sabedoria. (On First Principles 1.4.4[39])
Os gêneros e espécies de todas as coisas sempre existiram, estando contidos
na Sabedoria de Deus (On First Principles 1.2.2-3, 1.4.5). Orígenes contrasta a
maneira pela qual as coisas pré-existem na Sabedoria com sua existência
substancial posterior: 'Desde que a Sabedoria sempre existiu, sempre existiram
na Sabedoria, por uma pré-figuração e pré-formação, as coisas que
posteriormente receberam existência substancial. (On First Principles 1.4.4).
Vemos aqui um contraste apontado entre a existência substancial desfrutada por
objetos concretos e a existência insubstancial e até imaginária que se diz que as
ideias tenham, mesmo no Logos.
Metódio, em seu diálogo On Free Will,[40], depois de declarar que não pode
haver duas agenēta, defende a creatio ex nihilo fazendo Ortodoxo dizer a
Valentiniano:
ORTODOXO. Você diz então que coexiste com Deus matéria sem
qualidades das quais Ele formou o começo deste mundo?
VALENTINIANO. Eu acho.
ORTODOXO. Se, então, a matéria não tinha qualidades, e o mundo foi
produzido por Deus, e as qualidades existem no mundo, então Deus é o
criador das qualidades?
VALENTINIAN. É assim.
ORTODOXO. Agora, como ouvi você dizer há algum tempo, que é
impossível que algo passe a existir do que não existe, responda à minha
pergunta: Você acha que as qualidades do mundo não foram produzidas a
partir de nenhuma das qualidades existentes?
VALENTINIAN. Eu acho.
ORTODOXO. E que elas são algo distinto das substâncias?
VALENTINIAN. Sim.
ORTODOXO. Se, então, as qualidades não foram feitas por Deus de
nenhuma maneira já pronta, nem derivam sua existência de substâncias,
porque não são substâncias, devemos dizer que foram produzidas por
Deus a partir do que não existia. Por isso, pensei que você falasse
extravagantemente ao dizer que era impossível supor que algo foi
produzido por Deus a partir do que não existia.
Aqui, Ortodoxo, que obviamente fala em defesa da fé ortodoxa, não permitirá
que nem mesmo as propriedades sejam afirmadas como incriadas por Deus.
Pois somente Deus não foi criado.
Os Pais da Igreja também não pensavam que os números existissem
independentemente de Deus como agênēta. Assim, Hipólito traça a heresia do
gnosticismo Valentiniano aos sistemas de Platão e Pitágoras e, em última
instância, aos Egípcios (Refutation 6.16). Este último afirmou que a realidade
última é uma unidade de agennētos e que os outros números são gerados a
partir dela (Refutation 4.43). 'Pitágoras, então, declarou que o princípio originário
do universo era a mônada não-gerada, o dueto gerado e o restante dos números'
(Refutation 6.18). Pensa-se que o mundo material seja, por sua vez, gerado a
partir desses princípios incorpóreos. ‘Segundo Pitágoras, existem dois mundos:
um inteligível, que possui a mônada como princípio originário; e o outro sensível
... Nada, ele diz, de inteligível nos pode ser conhecido a partir dos sentidos. Pois
ele diz que nem os olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem qualquer dos
sentidos conhecem (o que é conhecido pela mente)' (Refutation 6.19; cf. Clement
of Alexandria, Stromata 5.14). Hipólito então faz a conexão com Valentino: 'E a
partir deste (sistema), não dos Evangelhos, Valentino ... coletou (os materiais
da) heresia - e pode (portanto) ser justamente considerado um Pitagórico e
Platônico, não um Cristão’ (Refutation 6.24). Hipólito acusa ‘Valentino ... e toda
a escola destes (hereges), como discípulos de Pitágoras e Platão, (e) seguindo
esses guias, estabeleceram como o princípio fundamental de sua doutrina o
sistema aritmético. Pois, da mesma forma, de acordo com esses (Valentinianos),
a causa originária do universo é uma mônada, um agennētos, imperecível,
incompreensível, inconcebível, produtiva e uma causa da geração de todas as
coisas existentes' (Refutation 6.24).
A Cristologia do Logos
Os Pais da Igreja se voltaram para a doutrina do Logos dos primeiros Apologistas
Gregos como o meio de fundamentar a esfera inteligível em Deus, em vez de
em alguma esfera independente de entidades autosubsistentes, como números
ou formas.[41] Combinando a apresentação do Evangelho de Cristo de João
como o Logos preexistente, que no princípio estava com Deus e era Deus e
através de quem todas as coisas foram criadas (João 1: 1–3), com a concepção
do Logos como a mente de Deus de Filo de Alexandria, na qual o domínio
Platônico de ideias subsiste, Taciano oferece uma das primeiras exposições
Cristãs dessa doutrina:
Deus estava no princípio; mas o princípio, fomos ensinados, é o poder do
Logos. Pois o Senhor do universo, que é Ele mesmo o fundamento
necessário de todo ser, na medida em que nenhuma criatura ainda era
existente, estava sozinho; mas na medida em que Ele era todo o poder, Ele
próprio era o fundamento necessário das coisas visíveis e invisíveis, com
Ele estavam todas as coisas; com ele pelo poder do Logos, o próprio Logos
também, que estava nele, subsiste. E por Sua simples vontade, o Logos
brota; e o Logos, não se revelando em vão, torna-se a primeira obra do Pai.
Sabemos que ele (o Logos) é o começo do mundo. (Address to the Greeks
5.1–9)[42]
O domínio/esfera invisível e inteligível das ideias exemplares existe no Logos
imanente, que, procedente de Deus Pai (eternamente ou no momento da
criação), é gerado como Deus Filho. Ele então cria o mundo sensível das coisas
que experimentamos.
Hipólito, em linguagem que mais tarde ecoaria em Nicéia, exulta no fato de que
mesmo os oponentes da ortodoxia devem finalmente admitir que há apenas um
agênētos que é a fonte de toda a realidade:
Deus, subsistindo sozinho, e não tendo nada contemporâneo consigo
mesmo, determinou criar o mundo. E concebendo o mundo em mente, e
desejando e proferindo a Palavra, Ele o criou; e imediatamente apareceu,
formado como Lhe agradou. Para nós, então, basta simplesmente saber
que não havia nada contemporâneo com Deus. Ao lado dele, não havia
nada; mas Ele, enquanto existia sozinho, ainda existia na pluralidade. Pois
Ele não existia nem sem razão, nem sabedoria, nem poder, nem conselho.
E todas as coisas estavam nEle, e Ele era o Todo .... Ele gerou a Palavra;
... e assim apareceu outro fora de Si. Mas quando digo outro, não quero
dizer que haja dois deuses, mas que é apenas como luz de luz. ... Quem
então apresenta uma multidão de deuses trazidos várias vezes? Pois todos
estão calados, ainda que de má vontade, para admitir esse fato, que o todo
se encerra em Um. Se, então, todas as coisas se encontram em Um,
mesmo de acordo com Valentino, Marcião e Cerínto, e todas as suas
tolices, eles também são reduzidos, ainda que de má vontade, a essa
posição, que precisam reconhecer que Aquele é a causa de todas as
coisas. Assim, também estes, embora não o desejem, caem na verdade e
admitem que um Deus fez todas as coisas de acordo com Seu bom prazer.
(Against Noetus 10–11; cf. Refutation 10.28–9)
É irônico, em vista do debate contemporâneo entre filósofos Cristãos sobre Deus
e objetos abstratos, que mesmo os hereges contra os quais os Pais da Igreja
disputavam, não pensavam em postular uma pluralidade de agênēta. Sejam
Gnósticos, Arianos ou Cristãos, todos se comprometeram a haver um único
agênetos.[43] O desafio enfrentado pelos autores de Nicéia foi como preservar
a divindade e a distinção do Filho sem admitir uma pluralidade de agênēta.
Voltando à fórmula Nicena, podemos ver à luz de seu histórico que, quando se
diz que Deus, o Pai, é o Criador de todas as coisas visíveis e invisíveis, o domínio
da quantificação é ilimitado. Há um estado de coisas no mundo real que consiste
em Deus existindo em absoluta solidão. Mesmo números e propriedades não
existem fora dele, muito menos independentemente dele, pois ele é a base de
todo ser, e nada é co-eterno com ele. A Cristologia do Logos dos Apologistas
Gregos expressa a afirmação Nicena de que o Filho de Deus é gerado, não
criado. É dito que Ele é aquele por quem todas as coisas vieram a existir. Uma
vez que ele mesmo é incriado e tudo o mais é genētos, o Filho deve ser agenētos
e, portanto, é Deus, mesmo que, como Filho, seja gerado (gennētos) do Pai.
Se confrontados por um Platonista moderno que defende uma ontologia que
inclui objetos causalmente eficientes que são agênēta e assim co-eternos com
Deus, os Pais da Igreja teriam rejeitado tal relato como blasfêmia, pois esse
relato negaria que Deus fosse a fonte de todas as coisas . Os Pais não podiam
e não isentaram esses objetos do poder criativo de Deus, uma vez que Ele é o
único e o todo originador agenētos.
A TEOLOGIA DO SER PERFEITO
Além do testemunho bíblico e patrístico do status de Deus como a única
realidade última, os requisitos da sólida teologia sistemática incluem a afirmação
de que Deus é a fonte de todas as coisas além de si mesmo. Pois a aseidade
divina é um requisito fundamental da Teologia do Ser Perfeito. Como um ser
perfeito, o maior ser concebível, Deus deve ser a fonte auto-existente de toda a
realidade à parte de si. Por ser a causa da existência de outras coisas, é
plausivelmente uma grande propriedade criadora, e o grau máximo dessa
propriedade é a causa de tudo o mais que existe.[44] Deus seria diminuído em
Sua grandeza se Ele fosse a causa de apenas algumas das outras coisas que
existem. Se entidades abstratas, como objetos matemáticos, existissem de
forma real independentes de Deus, então Deus seria a fonte de apenas uma
parte infinitesimal do que existe. Pois o Platonismo postula domínios infinitos do
ser que são metafisicamente necessários e não criados por Deus. O universo
físico que foi criado por Deus seria uma trivialidade infinitesimal e totalmente
obscurecida pela quantidade indescritível de seres não criados. Para apreciar,
em certa medida, a vastidão dos domínios incriados que estão sendo postulados
pelo Platonismo, considere a hierarquia teorética definida, como mostrado na
Figura 2. [Nota do tradutor: não consegui colocar a figura aqui, entretanto, se
alguém se interessar, pode solicitar que envio uma foto. O texto de explicação
da Figura 2 no livro é esse: “A hierarquia teorética definida, começando em zero
e prosseguindo pelos números naturais para se transformar em números
infinitos. (Adaptado de A. W. Moore, The Infinite [London: Routledge, 1990],
157.)]
Certamente, a existência de quaisquer entidades independentes de Deus é
incompatível com Deus ser o Criador de todas as coisas, mas a extravagância
do Platonismo a esse respeito realmente tira o fôlego. O status de Deus como o
maior ser concebível requer que Ele seja a fonte da existência de todas as coisas
à parte de si. Não apenas isso, mas a grandeza de Deus seria ainda mais
aumentada se fosse impossível que algo existisse independentemente do Seu
poder criativo. Assim, em qualquer mundo possível, Deus, como o maior ser
concebível, é a fonte de todas as coisas, se houver, à parte de Si mesmo.
Visto sob essa luz, a aseidade divina é um corolário da onipotência de Deus, que
pertence indiscutivelmente à máxima grandeza.[45] Pois, se algum ser existe
independentemente de Deus, Deus não tem o poder de aniquilá-lo ou criá-lo. Um
ser onipotente pode dar e tirar a existência a medida que Ele vê a relação com
outros seres. O poder de Deus seria assim atenuado pela existência de objetos
abstratos independentemente existentes.
Além disso, existe um poderoso argumento filosófico-teológico contra a
existência de propriedades Platônicas não criadas.[46] Considere o conjunto de
atributos divinos que compõem a natureza de Deus. Chame-os de natureza da
deidade. No Platonismo, a deidade é um objeto abstrato que existe
independentemente de Deus, para o qual Deus se mantém na relação de
exemplificação ou instanciação. Além disso, é em virtude de permanecer em
relação a esse objeto que Deus é divino. Ele é Deus porque ele exemplifica a
deidade. Assim, no Platonismo, Deus não existe realmente a se de forma
nenhuma. Pois Deus depende desse objeto abstrato para Sua existência. O
Platonismo simplesmente não postula algum objeto existente
independentemente de Deus - um comprometimento suficientemente sério da
realidade última de Deus - mas torna Deus dependente desse objeto, negando
assim a aseidade divina. A implicação? "Então, a divindade / o domínio Platônico,
não Deus, é a realidade suprema".[47]
Pior, se possível: uma vez que a aseidade, como a onipotência, é um dos
atributos essenciais de Deus incluídos na deidade, verifica-se que Deus não
exemplifica a deidade, afinal. Como a aseidade é essencial para a deidade e
Deus, no Platonismo, não existe a se, acontece que Deus não existe! No
Platonismo, pode haver um demiurgo, como é apresentado no Timeu de Platão,
mas o Deus do teísmo clássico não existe. O teísmo é assim desfeito pelo
Platonismo.
CONCLUSÃO
Parece-me, portanto, que temos razões muito fortes, tanto biblicamente quanto
teologicamente, para apoiar a tradição Cristã histórica em afirmar que Deus é a
única realidade última, que Ele existe e que é fonte de todas as coisas à parte
de Si. Essa conclusão implica que o Cristão ortodoxo não pode ser um Platonista
(metafisicamente peso pesado), pois o Platonismo afirma que existem objetos
abstratos que existem necessariamente, eternamente, e a se, em contradição
com a afirmação Cristã de que Deus é a única realidade última. O desafio
colocado pelo Platonismo à teologia ortodoxa é, portanto, sério e deve ser
confrontado diretamente.
Fonte:
CRAIG, William Lane. God Over All: Divine Aseity and the Challenge of
Platonism. New York, NY: Oxford University Press, 2018
Tradução Walson Sales
Notas:
[1] Mark Steiner, Mathematical Knowledge, Contemporary Philosophy (Ithaca,
NY: Cornell University Press, 1975), 87; cf. 127.
[2] W. V. O. Quine, ‘Responses’, in Theories and Things (Cambridge, MA:
Harvard University Press, 1981), 182.
[3] Para o Platônico, como Quine nos lembra, não há distinção entre o 'há' de 'há
universais' e o 'há' de 'há unicórnios', o 'há hipopótamo' e o 'há' de ‘(∃x) (x)'
('existem entidades x tais que'). W.V.O. Quine, 'Logic and the Reification of
Universals', em From a Logical Point of View (Cambridge, MA: Harvard University
Press, 1953), p. 105. Se queremos entender o Platonismo, devemos resistir à
tentação de pensar que objetos abstratos existem em algum sentido
fantasmagórico e diminuído. De fato, para os Platonistas antigos, o mundo ideal
era realmente mais real do que o mundo dos objetos concretos.
[4] RichardBauckham,‘God Crucified’, in Jesus and the God of Israel (Grand
Rapids, MI: William B. Eerdmans, 2008), 8. Citando a obra de Bauckham, Chris
Tilling relata que a maioria dos estudiosos encontrou no início do Judaísmo um
monoteísmo estrito que "traça uma linha nítida entre Deus e tudo o mais". Chris
Tilling, ‘Problems with Ehrman’s Interpretive Categories’, in Michael F. Bird (ed.),
How God Became Jesus (Grand Rapids, MI: Zondervan, 2014), 129.
[5] Bauckham, ‘God Crucified’, 11.
[6] Richard Bauckham, ‘Biblical Theology and the Problems of Monotheism’, in
Jesus and the God of Israel, 83–4. YHWH é a abreviação do nome Hebraico de
Deus, Yahweh, ou o SENHOR.
[7] Jutta Leonhardt-Balzer, ‘Der Logos und die Schöpfung: Streiflichter bei Philo
(Op 20–25) und im Johannesprolog (Joh 1, 1–18)’, in Jörg Frey und Udo Schnelle
(eds), Kontexte des Johannesevangeliums (Tübingen: Mohr Siebeck, 2004), 318.
As abreviações indicam os títulos em latim das obras de Filo De opificio mundi
(On the Creation of the World), De somniis (On Dreams), De confusione
linguarum (On the Confusion of Tongues), and De cherubim (On the Cherubim).
[8] D. T. Runia, Philo of Alexandria and the ‘Timaeus’ of Plato (Amsterdam: Free
University of Amsterdam, 1983), 140–3; Gregory E. Sterling, ‘“Day One”:
Platonizing Exegetical Traditions of Genesis 1:1–5 in John and Jewish Authors’,
artigo apresentado em uma das seções sobre Filo da Society of Biblical
Literature, San Antonio, TX, 20–3 Nov.2004.
[9] A lista de Runia é útil: Allegorical Interpretation 3.9; On the Cherubim 28; On
the Sacrifices of Abel and Cain 8;On the Unchangeableness of God 57; On the
Confusion of Tongues 62; On the Migration of Abraham 6; On Flight and Finding
12; 95; On Dreams 2.45; The Special Laws 1.81.
[10] So Leonhardt-Balzer, ‘Der Logos und die Schöpfung’, 309–10, com citações
de extensa literatura; cf. Craig S. Keener, The Gospel of John: A Commentary, 2
vols. (Peabody, MA: Hendrickson, 2003), i. 346–7.
[11] Runia, Philo and the ‘Timaeus’, 68. O locus classicus da distinção foi o Timeu
de Platão 27d5–28a4, que por sua vez é citado por Apuleius, De Platone et eius
dogmate 193; Nicomachus, Introduction to Arithmetic 1.2.1; Numenius fr. 7;
Justin Martyr, Dialogue with Trypho 3.5; Sextus Empiricus, Adversus
mathematicos 7.142.
[12] A distinção em questão não é realmente inteligível versus sensível; ao
contrário, o problema é ser vs se tornar. O problema com a primeira
caracterização da distinção é que ela parece não dar lugar a objetos concretos
imateriais, como anjos ou almas. Dado que o domínio inteligível existe na mente
de Deus, tais seres não podem ser classificados como parte do domínio
inteligível. Eles devem fazer parte do domínio sensível, que é descrito com mais
precisão como o domínio de objetos concretos sujeitos ao devir temporal.
[13] Veja Audrey N. M. Rich, ‘The Platonic Ideas as the Thoughts of God’,
Mnemosyne, 7/2 (1954): 123–33. Rich observa: 'Embora Platão fale da Ideia
transcendente como existindo "sozinha e por si mesma" e nunca "em algo mais"
[Sympos [ium] 211A]], a tendência entre muitos de seus intérpretes [por exemplo,
Albinus, Plutarco, Filo, Galeno, Ático, Orígenes, Stobaeus, Hipólito, Teodoreto]
parecem ter tornado a ideia dependente de Deus como um pensamento
residente em sua mente' (123). R. M. Jones diz que a doutrina das Ideias
Platônicas como pensamentos de Deus era tão conhecida na época de Filo que
Filo poderia empregá-la sem hesitar: "As Ideias como os Pensamentos de Deus",
Classical Philology, 21 (1926): 317–26.
[14] Nicomachus of Gerasa, Introduction to Arithmetic 1.4, 6, tr. Martin Luther
D’Ooge (New York: Macmillan Co., 1926), 187, 189.
[15] E.g. Allegorical Interpretation 3.96; On the Migration of Abraham 6; On Flight
and Finding 12; On Dreams 1.75;2.45; Special Laws 1.81; On the Confusion of
Tongues 60–3, 172.
[16] Runia, Philo and the ‘Timaeus’, 138. Filo interpretou Gênesis 1: 1–5 para
relacionar a criação, não do mundo concreto, mas do mundo ideal na mente de
Deus, que então serviu como Seu modelo para o mundo concreto. Filo enfatiza
o fato de que objetos ideais não existem a se.
[17] De acordo com Sterling, 'Tradições exegéticas Platonizantes', esse
contraste verbal 'tornou-se uma maneira padrão para os Platonistas posteriores
distinguirem entre o mundo eterno das ideias e o mundo perceptível dos sentidos
em que vivemos. Sugiro que o autor do hino [Joanino] entendeu a mudança de
ἦν to ἐγένετο em Gênesis 1 como uma garantia textual a favor de um
entendimento Platônico.’ O ponto é especialmente forte se incluirmos a frase ho
gegonen no v. 3 em vez de no v. 4.
[18] Douglas J. Moo, The Epistle to the Romans (Grand Rapids, MI: Wm. B.
Eerdmans, 1996), 743. James D. G. Dunn fornece convenientemente trechos de
textos paralelos em seu comentário Romans 9–16 (Nashville, TN: Thomas
Nelson, 1988), 702.
[19] Richard A. Horsley, ‘Gnosis in Corinth: I Corinthians 8.1–6’, New Testament
Studies, 27/1 (1980): 43.
[20] Ibid., 46.
[21] Ibid., 51.
[22] Peter T. O’Brien, Colossians, Philemon (Nashville, TN: Thomas Nelson,
2000), 47.
[23] O'Brien rejeita a visão majoritária porque 'corpo' é normalmente usado por
Paulo para se referir a igreja, mas nunca ao mundo. Mas essa objeção não é
muito poderosa, mesmo se o ceticismo de O’Brien sobre tentativas de recuperar
a redação original seja justificado. A visão de Paulo da igreja como corpo de
Cristo pode motivar Paulo a adaptar esse material para se adequar à sua
teologia.
[24] Moo, Epistle to the Romans, 740.
[25] Dunn, Romans 9–16, 704.
[26] Veja Paul Copan and William Lane Craig, Creation out of Nothing: A Biblical,
Philosophical, and Scientific Exploration (Grand Rapids, MI: Baker Academic,
2004), 43.
[27] Brian Leftow, God and Necessity (Oxford: OUP, 2012), 63 (ênfase minha).
[28] Ibid., 64 (ênfase minha).
[29] Ibid., 15–20.
[30] Muitos, como números, são plausivelmente atemporais, se existem, e,
portanto, propriamente falando, não podem ser criados nem conservados por
Deus, pois são atividades temporais. Portanto, a criação tardia nem sequer é
vista por eles. No máximo, pode-se dizer que são sustentados (incansavelmente
sem distinções de tempo) por Deus (ver Copan e Craig, Creation from Nothing,
164). Por outro lado, se estamos falando de objetos abstratos temporais, então
alguns deles, como o Equador [linha] ou o centro de massa do sistema solar,
poderiam ser criados imediatamente por Deus quando o material é arranjado
adequadamente ou então ser criado tardiamente de acordo com as linhas dos
modelos (ii), (iii) ou (iv). Da mesma forma, os mesmos modelos poderiam explicar
a criação tardia de objetos abstratos que são produtos de agentes livres, como
composições literárias e musicais. Infelizmente, alguns objetos abstratos
temporais, como propriedades, existiriam desde a eternidade passada e, assim,
escapariam à criação. No máximo, eles são conservados em Deus. Assim, o
Platonista está preso a uma infinidade de objetos não criados, tanto temporais
quanto atemporais.
[31] Embora os verbos no tempo presente apareçam em 1 Coríntios. 8: 6, 11:
12, Rom. 11: 36, estes parecem olhar para a criação inicial de Deus através do
Logos. Passagens como Colossenses 1: 17b; Heb. 1: 3b podem ser
interpretadas de maneira mais plausível em termos da conservação de Deus no
mundo. Para mais informações sobre o testemunho bíblico do ato inicial de Deus
de criar tudo, consulte Copan e Craig, Creation out of Nothing, caps. 1–2.
[32] Leftow, God and Necessity, 412–13.
[33] Thomas V. Morris, ‘Metaphysical Dependence, Independence, and
Perfection’, in Scott MacDonald (ed.), Being and Goodness: The Concept of the
Good in Metaphysics and Philosophical Theology (Ithaca, NY: Cornell University
Press, 1991), 287.
[34] Em Grego, ἀγένητος/γενητός e ἀγέννητος/γεννητός.
[35] George L. Prestige, God in Patristic Thought (London: SPCK, 1964), p. xx.
[36] Ibid., 5.
[37] Harry A. Wolfson, ‘Plato’s Pre-existent Matter in Patristic Philosophy’, in
Luitpold Wallach (ed.), The Classical Tradition (Ithaca, NY: Cornell University
Press, 1966), 414.
[38] Em seu Commentary on the Gospel of John, Orígenes considera Cristo, na
medida em que ele é a Sabedoria de Deus, como o começo ou a fonte de todas
as coisas, incluindo suas formas:
Pois Cristo é, de certa maneira, o demiurgo, a quem o Pai diz: 'Haja luz' e 'Haja
um firmamento'. Mas Cristo é o demiurgo como um princípio (archē), na medida
em que é Sabedoria. É em virtude de seu ser Sabedoria que ele é chamado
archē. ... Considere, no entanto, se temos a liberdade de tomar esse significado
de archē para o nosso texto: 'No princípio era o Verbo', para obter o significado
de que todas as coisas surgiram de acordo com a Sabedoria e de acordo com
os modelos do sistema que estão presentes em seus pensamentos. Pois
considero que, como uma casa ou um navio é construído e modelado de acordo
com os esboços do construtor ou projetista, a casa ou o navio tendo seu começo
(archē) nos esboços e cálculos em sua mente, então tudo veio à tona estando
de acordo com os desígnios do que deveria ser, claramente estabelecido por
Deus na Sabedoria. E devemos acrescentar que, tendo criado, por assim dizer,
a sabedoria concedida [sabedoria amalgamada com a alma], ele a deixou
entregar, dos tipos que nela estavam, às coisas existentes e importantes, o
surgimento real delas, seus moldes e formas. Mas considero, se é permitido dizer
isso, que o início (archē) da existência real era o Filho de Deus, dizendo: 'Eu sou
o começo e o fim, o Α e Ω, o primeiro e o último' (1.22).
[39] Seções 3-5 do cap. 4, que contêm esta passagem, não estão incluídos na
antiga edição dos Pais Ante-Nicenos editada por Roberts e Donaldson em 1885,
mas estão incluídas, com base no texto reconstruído de Koetschau, na tradução
mais recente de Butterworth (Gloucester, MA: Peter Smith, 1973)
[40] O estudioso da Patrística Mark Edwards me informa que On Free Will não é
universalmente atribuído a Methodius. Alguns o atribuem a Orígenes, outros a
um Maximus desconhecido.
[41] Para uma discussão dos textos extraídos de pseudo-Justino, Irineu,
Tertuliano, Clemente de Alexandria, Orígenes e Agostinho, ver Harry Austryn
Wolfson, The Philosophy of the Church Fathers, i.Faith, Trinity, and Incarnation,
3rd edn rev. (Cambridge, MA: Harvard University Press,1970), cap. 13: ‘The
Logos and the Platonic Ideas’. Segundo Wolfson, todo Pai da Igreja que abordou
a questão rejeitou a visão de que as ideias eram entidades autoexistentes, mas
localizaram o mundo inteligível no Logos e, portanto, na mente de Deus.
[42] Da mesma forma, Atenágoras declara que 'nossa doutrina reconhece um
Deus, o Criador deste universo, que Ele mesmo não foi criado ... mas fez todas
as coisas pelo Logos que é Dele' (Plea for the Christians 4). Os padrões pelos
quais todas as coisas criadas são feitas (8) podem ser encontrados no Logos,
que é a mente do Pai: ‘O Filho de Deus é o Logos do Pai, em ideia e em
operação; pois segundo o padrão dele e por ele todas as coisas foram feitas,
sendo o Pai e o Filho um. E o Filho estando no Pai e o Pai no Filho ..., o
entendimento e a razão do Pai é o Filho de Deus' (10; cf. Theophilus, To
Autolycus 2.22; Eusebius, Demonstratio evangelica 4.13).
[43] Certos defensores Marcionitas do dualismo metafísico foram a exceção que
provou a regra.
[44] Um argumento de Leftow, God and Necessity, 22.
[45] Ibid., 22.
[46] Ibid., 234.
[47] Ibid., 235. Leftow também oferece um segundo argumento para esta
conclusão. Veja também Leftow, ‘Is God an Abstract Object?’, Noûs, 24/4 (1990):
581–98, onde ele apresenta uma objeção contra Deus criar Sua própria
natureza, que, salvo a simplicidade divina, deixa Deus dependente de Sua
natureza para a sua existência.