Pelágio nasceu na Grã-Bretanha por volta de 350. Assim como tantos outros hereges do cristianismo primitivo, sua vida é cheia de mistérios e muitos dos seus escritos são conhecidos somente através das citações e alusões feitas em livros que se opõem a ele e o condenam. Chegou em Roma por volta de 405 e viajou para a África do Norte, onde poderia ter se encontrado com Agostinho, mas não o fez. Depois, continuou a viagem até a Palestina e escreveu dois livros sobre o pecado, o livre-arbítrio e a graça: Da natureza e Do livre-arbítrio. Suas opiniões foram violentamente criticadas por Agostinho e seu amigo, Jerônimo, tradutor e comentarista bíblico, que morava em Belém. Pelágio foi inocentado da acusação de heresia pelo sínodo de Dióspolis na Palestina em 415, mas condenado como herege pelo bispo de Roma em 417 e 418, e pelo Concílio de Éfeso em 431. Não se sabe o ano exato de sua morte, mas, provavelmente, foi um depois de 423. É provável que sua condenação pelo Concílio de Éfeso tenha sido póstuma.
“Herege relutante” é como um escritor moderno descreve Pedágio. [11] Ele não tinha a intenção de pregar um falso evangelho, nem outro evangelho senão aquele que aprendeu em sua juventude na Grã-Bretanha. Ele nunca chegou a negar qualquer doutrina ou dogma da fé cristã, pelo menos, nada que já fosse declarado ortodoxo. Era essencialmente um cristão moralista, uma pessoa que se interessava pela promoção de atitudes e comportamento de alto valor moral nas igrejas e se opunha a certas crenças e práticas comuns dos seus dias. Aceitava o batismo infantil, mas negava a sua eficácia em remover pela lavagem a culpa herdada. Rejeitava completamente a ideia do pecado original. Certamente não era o único. A maioria dos cristãos orientais também rejeitava a ideia da culpa original ou herdada. Acreditava fervorosamente no livre-arbítrio e na necessidade da graça para a salvação, mas entendia que a graça dependia, em parte, de um atributo natural da pessoa, em parte, da revelação da vontade de Deus através da lei.
Embora nem sempre fosse consistente no que dizia, Pelágio ensinava que os seres humanos podem de fato, simplesmente, decidir obedecer a Deus o tempo todo e nunca pecar deliberada e dolosamente. Se o pecado, no sentido da culpa que condena, é inevitável, argumentava, como podemos ser responsabilizados por isso? E por que não simplesmente relaxar e pecar ainda mais, já que é inevitável? E, se qualquer bem que possamos fazer é sempre dom de Deus, por que culpar as pessoas por pecar enquanto esperam receber o dom da bondade?
Os oponentes de Pelágio, sob a liderança de Agostinho, acusaram-no de três heresias. Primeiro alegaram que ele negava o pecado original. Depois o acusaram de negar que a graça de Deus é essencial para a salvação. Por último, disseram que ele pregava a impecabilidade operada pelo livre-arbítrio sem a graça. Sem dúvida, há muita verdade nas três acusações.
Por outro lado, a questão não é tão simples quanto parece. Ao negar o pecado original, Pelágio estava negando a interpretação de Agostinho a esse respeito, mas não exatamente o conceito do pecado original que predominava nas igrejas orientais. Essa foi uma das razões de ter encontrado certa aceitação e refúgio no Oriente. O que, exatamente, Pelágio ensinava então? É importante respondermos a essa pergunta, dentro do possível, para entendermos a teologia mais madura de Agostinho em relação ao pecado e à salvação, teologia que, em grande parte, foi desenvolvida em meio às disputas com Pelágio.
Sem dúvida, Pelágio realmente negou o pecado original no tocante à culpa herdada. Não acreditava que as crianças nasciam responsáveis diante de Deus por causa do pecado de seu ancestral, Adão. Em seu livro Do livre arbítrio, escreveu que “o mal não nasce conosco e somos procriados sem culpa” [12] Acreditava, sim que todos nascemos em um mundo corrompido pelo pecado e que tendemos a pecar por causa dos maus exemplos de nossos pais e amigos. Podemos chamar isso de modelo incubador do pecado original em comparação com os modelos biológico e jurídico propostos por Agostinho. Se pecamos, é porque decidimos deliberada e conscientemente fazê-lo e, se somos responsabilizados por isso, é sempre uma questão de livre-arbítrio. Pelágio chega a negar a inevitabilidade do pecado. Se todo mundo de fato peca, é simplesmente porque decide espontânea e deliberadamente repetir o ato de Adão. Não existe nenhuma tendência ou predisposição inata ao pecado. São os exemplos pecaminosos que seduzem as pessoas ao pecado. Em linguagem metafórica, para Pelágio, o pecado era um mal social e não um mal genético.
No que se referia à necessidade da graça de Deus, Pelágio foi ambivalente e vago. Afirmou que o ser humano necessitava da ajuda de Deus para fazer qualquer coisa boa, mas parece que considerava que a lei e a consciência dadas por ele eram suficientes. Escreveu que "Deus nos ajuda mediante os seus ensinos e sua revelação, abrindo os olhos do nosso coração, indicando-nos o futuro para que não fiquemos preocupados apenas com o presente, desvendando para nós as armadilhas do diabo, iluminando-nos com a incomensurável e inefável dádiva da graça celestial”. [13] Em outras palavras, não precisamos de nada além da graça da Palavra de Deus e da nossa própria consciência. Basta a qualquer cristão batizado simplesmente decidir seguir a vontade de Deus o tempo todo e nunca precisará de nenhuma outra capacitação especial de Deus para viver sem pecado. Pelágio não dizia o mesmo em relação aos não cristãos. Defendia a necessidade do batismo para estabelecer o relacionamento correto com Deus. Nesse aspecto, parece mesmo haver certa inconsistência em sua teologia.
Pelágio afirmou claramente que um cristão pode ficar isento do pecado se assim desejar. Uma criança pode e deve de fato viver de tal maneira que nunca precise implorar por perdão a Deus. O perdão existe para o caso de alguém tropeçar e cair no pecado ou mesmo de pecar deliberadamente, mas Pelágio considerava-o desnecessário para a pessoa que vivia com retidão pelo livre-arbítrio, de acordo com a iluminação fornecida pela Palavra de Deus e pela consciência. Quando, no entanto, foi pressionado pelos bispos no Sínodo de Dióspolis em 415, Pelágio afirmou que a possibilidade de viver sem pecado era teórica e não concreta. Isto é, ele declarou que, embora tal obediência seja uma realização possível para qualquer pessoa, talvez ninguém tenha conseguido esse feito a não ser Cristo:
“Eu disse de fato que um homem pode ficar isento do pecado e seguir os mandamentos de Deus, se assim desejar; essa capacidade, pois lhe foi outorgada por Deus. No entanto, não declarei que existe um homem que nunca tenha pecado desde a infância até a velhice, mas que, ao ser convertido de seus pecados, pode permanecer isento do pecado por seus próprios esforços e pela graça de Deus, embora, mesmo assim, seja capaz de mudar no futuro”. [14]
Nos três casos de acusação de heresia levantados contra ele, é difícil apurar exatamente o que Pelágio acreditava e ensinava. É mais fácil apurar o que ele negava. Ele negava a culpa herdada e a inevitabilidade do pecado. Negava a total necessidade da graça sobrenatural auxiliadora para obedecermos à lei de Deus e admitia a capacidade do livre-arbítrio. Negava que a perfeita obediência à lei de Deus é totalmente impossível para os seres humanos pecadores. Mas, mesmo assim, é possível que essas negações fossem apenas teóricas e que ninguém, senão o próprio Jesus Cristo, realmente levou a vida até ao fim em perfeita conformidade com a vontade e a lei de Deus. Em outras palavras, ele podia alegar que estava apenas dizendo que a impecabilidade operada sem a graça auxiliadora especial tinha de ser possível, caso contrário seria uma injustiça de Deus exigi-la e responsabilizai os seres humanos por não conseguirem ser assim. O renomado filosofo moder¬no alemão, Immanuel Kant, parafraseou a atitude básica de Pelágio no aforismo. “Dever significa poder".
[11] – B.R. RESS, Pelagius: a reluctant herect, Woodbridge and Rochester, Boydell, 1988.
[12] – Apud Rees, op. Cit., p. 91.
[13] – Ibid.
[14] – Ibid., p. 93.
(História da Teologia Cristã – Roger Olson)
Por Nivaldo Gomes.