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quarta-feira, 26 de março de 2025

A Busca pelo Conhecimento de Deus: Uma Reflexão Sobre Fé, Razão e Felicidade

Por Walson Sales

O desejo de conhecer e entender a Deus é uma aspiração profunda que moveu grandes pensadores ao longo dos séculos. A Bíblia afirma que Deus é acessível e pode ser conhecido por aqueles que o buscam com sinceridade e humildade, como em Jeremias 29:13: “Vocês me procurarão e me acharão quando me procurarem de todo o coração.” Essa busca pela compreensão de Deus também é expressa por Blaise Pascal, filósofo e matemático, que propôs a famosa “Aposta de Pascal”, argumentando que a fé é uma escolha racional e vantajosa, mesmo que não possamos provar com certeza a existência de Deus.

Em suas "Pensées", Pascal descreve três tipos de pessoas em relação à fé e à busca por Deus: aquelas que encontraram Deus e O servem, aquelas que ainda estão em busca, e aquelas que não se interessam pela busca. Esse pensamento ilustra a realidade espiritual de muitas pessoas e enfatiza a força do argumento cristão de que Deus deseja ser conhecido por aqueles que o buscam de coração sincero.

1. A Natureza de Deus e a Busca Humana

A proposição de que “Se Deus existe, Ele tanto é capaz de ouvir quanto está pronto a se fazer conhecido àqueles que desejam” sugere uma relação pessoal entre Deus e a humanidade. Na visão cristã, Deus não é uma entidade distante e inacessível, mas um ser pessoal e relacional, que deseja interagir com aqueles que o buscam. A fé cristã baseia-se na revelação, onde Deus se comunica de forma objetiva e subjetiva, tanto na história quanto na experiência interior de cada indivíduo.

Argumento da Revelação

A revelação é uma das bases da fé cristã. Se Deus é um ser pessoal e criador, faria sentido que Ele escolhesse se revelar aos seres humanos. O cristianismo afirma que Deus se revelou de maneira especial na figura de Jesus Cristo, cujo impacto é sentido não só na história, mas também nas vidas transformadas de milhões de pessoas. Como Romanos 1:20 expressa, “Pois desde a criação do mundo os atributos invisíveis de Deus, seu eterno poder e sua natureza divina, têm sido vistos claramente, sendo compreendidos por meio das coisas criadas.”

A Aposta de Pascal

Pascal argumentou que, mesmo sem uma prova definitiva da existência de Deus, apostar em Sua existência é racional. Ele escreveu: “Se você ganhar, você ganha tudo; se você perder, você não perde nada” (Pensées, 233). Apostar na fé oferece um ganho eterno – a comunhão com Deus – enquanto a rejeição poderia significar uma perda infinita. Essa reflexão convida o indivíduo a considerar que o custo da descrença pode ser mais alto do que o da fé, levando em conta que a busca por Deus, mesmo que apenas uma possibilidade, pode transformar a realidade pessoal e existencial do ser humano.

2. Os Tipos de Pessoas e o Papel da Razão e da Fé

Em "Pensées", Pascal propôs uma reflexão sobre três tipos de pessoas em relação a Deus: as que o encontraram e o servem, as que buscam mas ainda não o encontraram, e as que não o buscam. Esse conceito ilustra as diferentes maneiras como a humanidade reage à realidade divina.

Os Racionais e Felizes

Aqueles que encontraram a Deus e o servem, conforme Pascal, são pessoas que abraçam a fé com entendimento, sendo felizes e racionais. Sua felicidade vem de uma paz interior que transcende as circunstâncias, um aspecto que C.S. Lewis também enfatiza ao afirmar que, para ele, o cristianismo ilumina a realidade, assim como o sol permite ver todas as coisas. Jesus prometeu essa paz em João 14:27: “Deixo-lhes a paz; a minha paz lhes dou.”

Os Infelizes e Insensatos

A terceira categoria descrita por Pascal representa aqueles que não buscam a Deus. Em sua visão, essas pessoas vivem uma existência infeliz, pois não reconhecem a razão última da existência e carecem de propósito transcendente. Em Provérbios 1:7, lemos que “o temor do Senhor é o princípio do conhecimento, mas os insensatos desprezam a sabedoria e a disciplina,” indicando que a busca pela sabedoria está enraizada em reconhecer e buscar a Deus.

Os Infelizes e Racionais

O segundo grupo, dos que buscam mas ainda não encontraram, é descrito como infeliz, mas racional. A infelicidade, nesse caso, reflete a inquietude do espírito humano em sua busca por algo que dê sentido e direção à vida. A Bíblia sugere que essa busca é uma forma de inquietação divina, como indicado em Atos 17:27, que menciona o desejo humano de “tatear e encontrar” a Deus. Essa busca contínua pela verdade é uma expressão de uma alma que reconhece sua necessidade do Criador.

3. A Força do Argumento Cristão e o Convite à Reflexão

A declaração final, baseada em Bryan Auten, leva-nos à ideia de que se alguém rejeita a explicação cristã sobre Deus, deve então considerar qual é a sua própria explicação para a realidade. Esse ponto toca numa questão essencial: qualquer visão de mundo, seja religiosa ou secular, precisa oferecer respostas convincentes sobre a origem, o propósito e o destino da humanidade.

O Argumento da Consistência e Coerência

A força do cristianismo, segundo pensadores como C.S. Lewis e Blaise Pascal, está em sua capacidade de oferecer respostas coerentes para as questões fundamentais da existência. Lewis afirmava que o cristianismo faz sentido do mundo, assim como a luz do sol ilumina todas as coisas ao redor. A cosmovisão cristã não apenas proporciona respostas sobre a origem da vida, mas também sobre o propósito e o destino final da humanidade.

O Apelo à Experiência e à Razão

O argumento cristão valoriza tanto a experiência subjetiva quanto a análise racional. A experiência de transformação e paz é um testemunho subjetivo, mas a coerência da explicação cristã em termos de lógica e consistência torna a fé cristã uma opção robusta e racional. Em 1 Pedro 3:15, somos incentivados a sempre estarmos preparados para responder a qualquer pessoa que nos pedir a razão da nossa esperança, mas com gentileza e respeito. O cristianismo, portanto, apresenta-se como uma resposta que não foge da análise crítica, mas que a abraça, convidando a uma reflexão profunda.

Conclusão

A reflexão de Blaise Pascal sobre a busca de Deus nos desafia a reconsiderar o papel da fé e da razão em nossa vida. A fé cristã, conforme apresentada tanto por Pascal quanto por C.S. Lewis, não é uma crença cega, mas uma convicção racional que transforma a realidade. A felicidade e a paz, resultantes dessa fé, são vistas como um testemunho de que Deus pode ser conhecido e desejado, e que aqueles que o encontram não apenas abraçam a verdade, mas vivem em consonância com ela. Em última análise, cabe a cada indivíduo, especialmente aos que rejeitam a explicação cristã, refletir sobre qual é sua própria explicação para as questões mais profundas da vida. Como sugere Bryan Auten em *The Wise Man*, se rejeitarmos a explicação cristã, qual explicação alternativa temos para a nossa existência?

terça-feira, 25 de março de 2025

As Propriedades de Deus no Teísmo Geral: Uma Análise Racional e Bíblica

Por Walson Sales

Este artigo é baseado na Enciclopédia de Apologética de Norman Geisler (2002) e no livro The Coherence of Theism de Richard Swinburne (2016). Exploramos o conceito teísta de Deus independente das revelações específicas do Judaísmo, Cristianismo e Islamismo, em busca de um entendimento racional e universal de Suas propriedades. O teísmo geral sugere que, ao observarmos a ordem no universo, podemos inferir certas características de Deus: Ele é infinito, pessoal, criador e sustentador de tudo, e intervém no mundo de maneira intencional. A partir de atributos como onipotência, onisciência e bondade perfeita, veremos como o conceito de Deus se sustenta tanto racionalmente quanto biblicamente.

1. O Conceito de Deus no Teísmo Geral

O teísmo geral é a crença em um Deus independente de qualquer revelação específica e que pode ser compreendido através da razão. Norman Geisler define o teísmo como a crença em um Deus infinito e pessoal, que criou o universo do nada e que intervém no mundo. Essa concepção não depende de textos sagrados como a Bíblia ou o Alcorão, mas observa Deus como uma realidade transcendente, cujas características essenciais podem ser compreendidas pela razão humana ao observar a criação.

A Bíblia afirma essa visão em Gênesis 1:1: “No princípio, Deus criou os céus e a terra.” O versículo demonstra que Deus é o Criador do universo e que Ele é independente de Sua criação, como um ser transcendente e pessoal.

2. As Propriedades Específicas de Deus

Richard Swinburne destaca certas propriedades fundamentais de Deus no teísmo, como a onipresença, onipotência, onisciência e bondade perfeita. Essas características podem ser inferidas racionalmente ao observarmos a ordem e complexidade do universo.

Onipresença: Deus está presente em todos os lugares e transcende o espaço e o tempo. Ele não está limitado por dimensões físicas e, portanto, é sempre acessível a toda a criação.

Onipotência: Deus é capaz de realizar tudo o que é logicamente possível. Essa capacidade total e ilimitada é central para o teísmo, pois implica que Ele é soberano e exerce poder sobre toda a criação.

Onisciência: Deus possui um conhecimento ilimitado que inclui tanto o que é real quanto o que é potencial. Isso implica que Deus conhece todos os eventos passados, presentes e futuros, bem como os futuros contingentes — ou seja, se a realidade fosse diferente, Deus também saberia. Esse entendimento abrange todos os mundos possíveis: Ele sabe o que aconteceria se o universo fosse diferente e conhece cada possibilidade de cada situação. Sua onisciência, assim, é completa em todas as realidades imagináveis.

Em Salmos 139:4, lemos: “Antes mesmo que a palavra me chegue à língua, tu já a conheces inteiramente, Senhor.” Isso indica que Deus conhece até mesmo as possibilidades do pensamento humano e que Sua sabedoria é ilimitada em qualquer circunstância e realidade possível.

Bondade Perfeita: Deus é perfeitamente bom, sendo a fonte e o padrão de moralidade. Sua bondade implica que Ele sempre age de forma justa e misericordiosa, proporcionando uma base para a moralidade e a ética.

Em Marcos 10:18, Jesus afirma: “Ninguém é bom, a não ser um, que é Deus.” Essa declaração mostra que Deus é a fonte absoluta de toda bondade e justiça, representando o padrão moral universal.

3. Coerência da Existência de Deus e Suas Propriedades

A existência de um Deus com essas propriedades é coerente e plausível. A observação da ordem, complexidade e interdependência no universo nos leva a concluir que há um ser que não só o criou, mas que também o sustenta continuamente. O conceito de necessidade — isto é, um ser que existe de forma independente e incondicional — ajuda a fundamentar a ideia de Deus como a base da realidade.

Em Apocalipse 4:11, está escrito: “Digno és, Senhor, de receber glória, e honra, e poder; porque tu criaste todas as coisas, e por tua vontade são e foram criadas.” Esse versículo mostra que a criação e a preservação do universo são obras de Deus, sugerindo que Ele é essencial para a existência de tudo.

4. Diferentes Tradições Teístas e o Teísmo Geral

Embora o Judaísmo, o Cristianismo e o Islamismo sejam religiões teístas, cada uma possui crenças exclusivas sobre Deus. Por exemplo, o Cristianismo defende a encarnação de Deus em Jesus Cristo, o que é rejeitado pelo Judaísmo e pelo Islamismo. O teísmo geral, por outro lado, se foca nas propriedades racionais e observáveis de Deus, reconhecidas independentemente de revelações específicas.

Em Romanos 1:20, lemos: "Pois desde a criação do mundo os atributos invisíveis de Deus, Seu eterno poder e divindade, são claramente vistos, sendo compreendidos por meio das coisas criadas." Este versículo enfatiza que o conhecimento de Deus pode ser adquirido sem revelações específicas, através da própria criação.

 5. Propriedades Morais e Deus como Fonte de Moralidade

A bondade perfeita de Deus e Seu papel como a fonte da moralidade são centrais no teísmo. Ao ser perfeitamente bom, Deus é a referência para o que é moralmente correto, estabelecendo padrões objetivos para o comportamento humano. Sua natureza moral imutável oferece uma base segura e permanente para a ética.

Em Tiago 1:17, a Bíblia declara: "Toda boa dádiva e todo dom perfeito vêm do alto, descendo do Pai das luzes, que não muda como sombras inconstantes." Esse versículo reforça que a bondade e a moralidade são derivadas de Deus, que é imutável e perfeito.

Conclusão

O teísmo geral defende que Deus possui certas propriedades universais, que podem ser inferidas racionalmente e corroboradas pelas Escrituras. A observação da ordem e propósito na criação sugere um Deus infinito e pessoal, que é onipresente, onipotente, onisciente e perfeitamente bom. Esses atributos fornecem uma compreensão lógica e teológica de Deus, fundamentada tanto na razão quanto na Bíblia. O conhecimento de Deus, acessível a todos, oferece uma base sólida para a moralidade e a compreensão da realidade.

Questionário

1. O que é o teísmo geral, e como ele difere das tradições religiosas específicas?

Resposta: O teísmo geral é a crença em Deus de forma independente das tradições religiosas específicas, inferindo Suas propriedades pela observação do universo e pela razão, sem depender de revelação.

2. Quais são algumas das propriedades de Deus segundo Richard Swinburne, e como elas são descritas?

Resposta: Onipresença (presente em todos os lugares), onipotência (poder absoluto), onisciência (conhecimento total de todas as possibilidades), bondade perfeita (moralidade absoluta).

3. O que significa dizer que Deus conhece os “futuros contingentes” de todos os mundos possíveis?

Resposta: Significa que Deus conhece não apenas o que acontece no mundo atual, mas também o que aconteceria em qualquer outro mundo possível ou em qualquer situação alternativa.

4. Como a Bíblia descreve Deus como o Criador de tudo?

Resposta: Em Gênesis 1:1: “No princípio, Deus criou os céus e a terra.”

5. De que forma a observação do universo leva à conclusão da existência de Deus, segundo o teísmo geral?

Resposta: A complexidade e ordem do universo sugerem a existência de um Criador que o organizou e sustenta.

6. Qual é a base bíblica para a ideia de que Deus é a fonte de toda moralidade?

Resposta: Tiago 1:17, que afirma que toda boa dádiva vem de Deus, que é imutável.

7. Como o versículo Romanos 1:20 apoia a ideia de que o conhecimento de Deus é acessível a todos?

Resposta: Ele declara que os atributos invisíveis de Deus são claramente vistos desde a criação, através das coisas criadas.

Este questionário ajuda a revisar os principais conceitos teístas, reforçando a compreensão de que Deus possui atributos coerentes e universais que são fundamentais para a moralidade e para a compreensão da realidade.

A Importância do Conhecimento sobre Deus: Perspectivas de William Lane Craig e Charles Spurgeon

Por Walson Sales

O conhecimento sobre Deus sempre ocupou uma posição central na teologia cristã e, para muitos pensadores, ele não é apenas uma área de estudo, mas a mais elevada ciência e filosofia a que um ser humano pode se dedicar. Em seu livro O Único Deus Sábio: A Compatibilidade entre Presciência Divina e Liberdade Humana, William Lane Craig, um dos mais renomados apologistas cristãos contemporâneos, enfatiza a importância dessa busca. Ele cita Charles Spurgeon, famoso pregador britânico, para descrever como a contemplação de Deus é um empreendimento vasto e profundo que amplia e enleva a alma humana. Neste artigo, exploraremos os principais argumentos de Craig e Spurgeon sobre a importância desse conhecimento, bem como os benefícios que ele proporciona para a mente e o espírito humanos.

O Conhecimento de Deus como a Mais Alta Ciência

Craig, ao citar Spurgeon, eleva o estudo da divindade ao patamar da mais alta ciência e filosofia. Spurgeon argumenta que nenhum outro estudo é tão elevado quanto contemplar "o nome, a natureza, a pessoa, a obra, as ações e a existência do grande Deus, a quem chamamos de Pai." Em outras palavras, o estudo sobre Deus — sua essência e ações — é uma ciência sublime, pois explora realidades que ultrapassam os limites físicos e materiais.

Essa afirmação apresenta o conhecimento teológico como algo que está além da mera curiosidade humana. Enquanto as ciências naturais procuram entender o universo físico, o estudo sobre Deus busca compreender a realidade que transcende o mundo físico e, ao mesmo tempo, dá sentido a ele. O cristão, ao contemplar Deus, não apenas amplia seu entendimento sobre a criação, mas sobre o propósito e a natureza última de tudo que existe. Esse conhecimento, portanto, se torna uma busca profundamente significativa, pois afeta a própria visão de mundo e a compreensão de todas as demais áreas do saber.

A Expansão Intelectual e Espiritual na Contemplação de Deus

Spurgeon observa que o estudo da divindade é tão vasto que "todos os nossos pensamentos se perdem em sua imensidão" e "nosso orgulho desaparece em sua infinitude". Segundo ele, ao tentar compreender o infinito, o cristão é levado a abandonar a arrogância e o orgulho, percebendo a limitação de seu próprio entendimento. Para Craig, este é um dos efeitos mais transformadores da contemplação de Deus: a humildade diante do mistério divino.

Ao mesmo tempo em que humilha, a busca pelo entendimento divino também enriquece e expande a mente. Craig reforça que "aquele que pensa em Deus com frequência terá uma mente maior" do que alguém que está limitado às coisas deste mundo. Spurgeon descreve que a investigação sobre Deus eleva a alma, o que implica uma expansão intelectual e moral. Conhecer a Deus é um exercício que exige esforço mental, mas ao mesmo tempo gera um crescimento espiritual, pois revela ao cristão a grandeza divina e a responsabilidade humana de viver em consonância com essa grandeza.

A Contemplação Divina como Fonte de Inspiração e Propósito

Para Spurgeon, contemplar Deus enleva "o todo da alma do homem" e direciona suas aspirações para algo maior do que as preocupações diárias. O ato de buscar conhecer a Deus não é apenas uma atividade intelectual; ele desperta uma profunda devoção, incentivando uma vida de serviço e adoração. Isso ocorre porque, à medida que se conhece mais sobre Deus, o cristão é atraído para aquilo que Spurgeon chama de "investigação contínua do grande tema da Deidade".

Craig vê nesse desejo de entender Deus uma forma de buscar o propósito da existência humana. No pensamento cristão, conhecer a Deus é um meio de compreender a razão da própria vida e o propósito da criação. Ao se aprofundar no estudo de Deus, o cristão encontra respostas para questões existenciais fundamentais e é inspirado a viver de modo que reflita os atributos e a vontade divina.

Conclusão

O estudo sobre Deus, como descrito por William Lane Craig e Charles Spurgeon, é um dos mais sublimes empreendimentos humanos, sendo a "mais alta ciência" que se pode buscar. Ao contemplar a natureza e os atributos de Deus, o cristão é conduzido à humildade e, simultaneamente, é engrandecido em sua mente e alma. Esse conhecimento, segundo Spurgeon, não apenas satisfaz a curiosidade intelectual, mas transforma o ser humano em todas as esferas de sua vida, oferecendo-lhe propósito, inspiração e uma compreensão mais profunda de sua própria existência.

Ao elevar sua visão para o divino, o cristão encontra um conhecimento que o enleva e o desafia, moldando-o em um ser mais consciente de suas responsabilidades e mais alinhado com o amor e a verdade que ele descobre em Deus. Desse modo, o estudo sobre a divindade é uma busca que oferece a mais plena realização humana, pois conecta o homem com o que ele acredita ser a realidade última e suprema.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2025

A Importância da Lógica no Estudo da Teologia Cristã

Por Walson Sales

A lógica é fundamental no estudo da teologia cristã, pois nos ajuda a pensar de maneira clara, coerente e racional ao examinarmos as Escrituras e a doutrina. Tenho encontrado alunos do curso de teologia que carecem de um conhecimento mais profundo e um entendimento claro das doutrinas, além de dificuldade em identificar erros lógicos ou heresias. Isso se deve à falta de treinamento em lógica aplicada à teologia. A fé cristã, embora baseada em revelação divina, também se apresenta como uma fé racional, que pode ser defendida e explicada de forma lógica.

O uso da lógica permite que compreendamos melhor os ensinamentos bíblicos e protejamos nossa fé contra erros doutrinários e heresias. Deus nos criou como seres racionais, e o próprio Jesus usou argumentos lógicos para responder aos fariseus e saduceus, mostrando a importância da razão dentro do contexto da fé.

AS PRINCIPAIS LEIS DA LÓGICA E EXEMPLOS BÍBLICOS

1. Lei da Identidade

- Definição: Esta lei afirma que "uma coisa é o que é". Ou seja, cada coisa é idêntica a si mesma.

- Exemplo Bíblico: Em Êxodo 3:14, Deus se revela a Moisés dizendo: *"EU SOU O QUE SOU."* Essa é uma declaração clara de identidade, onde Deus afirma Sua natureza imutável e constante. Deus é o mesmo ontem, hoje e sempre.

2. Lei da Não Contradição

- Definição: Esta lei estabelece que uma afirmação não pode ser verdadeira e falsa ao mesmo tempo e no mesmo sentido. Ou seja, duas proposições contraditórias não podem ser ambas verdadeiras.

- Exemplo Bíblico: Em João 14:6, Jesus declara: *"Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida. Ninguém vem ao Pai, senão por mim."* Esta afirmação implica que, se Jesus é o único caminho, então não pode haver outro caminho para Deus. O cristianismo rejeita o pluralismo religioso porque isso violaria a lei da não contradição.

3. Lei do Terceiro Excluído

- Definição: Esta lei diz que uma afirmação ou é verdadeira ou é falsa, não existe uma terceira opção. Algo ou é ou não é.

- Exemplo Bíblico: Em Mateus 12:30, Jesus ensina: *"Quem não é comigo é contra mim."* Aqui, Jesus aplica o princípio do terceiro excluído, mostrando que não há neutralidade quanto à lealdade a Ele: ou uma pessoa está com Cristo ou contra Cristo.

4. Lei da Causalidade

- Definição: Tudo o que tem um começo deve ter uma causa. Cada efeito tem uma causa proporcional.

- Exemplo Bíblico: Gênesis 1:1 diz: *"No princípio, criou Deus os céus e a terra."* Este versículo estabelece Deus como a causa primeira e fundamental de toda a criação. Nada surge do nada; o universo foi causado por Deus.

ARGUMENTOS DEDUTIVOS, INDUTIVOS E ABDUTIVOS NA TEOLOGIA CRISTÃ

Os tipos de argumentos usados na lógica — dedutivo, indutivo e abdutivo — são extremamente úteis na construção e defesa da teologia cristã. Vejamos como cada um desses argumentos se aplica ao estudo da Bíblia e da doutrina.

1. Argumentos Dedutivos

- Definição: Um argumento dedutivo parte de premissas gerais para chegar a uma conclusão específica que deve ser verdadeira, desde que as premissas sejam verdadeiras.


Exemplo 1: Divindade de Jesus

- Premissa 1: Só Deus pode salvar (Isaías 43:11).

- Premissa 2: Jesus é o nosso Salvador (Tito 2:13).

- Conclusão: Logo, Jesus é Deus (João 10:30).


Exemplo 2: Origem do Universo

- Premissa 1: Tudo que tem um início tem uma causa.

- Premissa 2: O universo teve um início (Gênesis 1:1).

- Conclusão: Portanto, o universo tem uma causa (Atos 17:24).


Exemplo 3: Inerrância da Bíblia

- Premissa 1: Deus não pode errar (Tito 1:2).

- Premissa 2: A Bíblia é a Palavra de Deus (2 Timóteo 3:16).

- Conclusão: Logo, a Bíblia está isenta de erros.


Nota sobre possíveis contradições: Santo Agostinho afirmou que, se encontrarmos uma aparente contradição na Bíblia, devemos considerar três possibilidades:

a. Pode haver um erro de tradução.

b. Pode haver um erro do copista que transmitiu o texto.

c. Nós não estamos entendendo corretamente a passagem.

Essa visão de Agostinho nos lembra que, embora a Bíblia seja inerrante em seus ensinamentos originais, devemos abordar qualquer dificuldade com humildade, reconhecendo a possibilidade de erros humanos na transmissão ou interpretação, ou falhas no nosso entendimento.


2. Argumentos Indutivos

- Definição: Um argumento indutivo é aquele que parte de premissas específicas para chegar a uma conclusão geral, embora a conclusão seja provável e não necessariamente certa.


Exemplo Bíblico:

-Premissa 1: No Antigo Testamento, Deus protegeu e abençoou Israel quando o povo obedecia a Seus mandamentos (Deuteronômio 28:1-2).

- Premissa 2: No Novo Testamento, Jesus ensina que aqueles que seguem Seus mandamentos e permanecem Nele serão abençoados (João 15:7-8).

- Conclusão: Obedecer a Deus e seguir Seus mandamentos traz bênçãos e proteção em qualquer contexto.

Importância: O argumento indutivo aqui mostra que, com base em exemplos específicos da Bíblia, podemos generalizar que obedecer a Deus sempre traz bênçãos, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento. Essa conclusão, embora seja provável, depende da análise de vários exemplos bíblicos e da interpretação de cada contexto. Logo, perceba que o argumento indutivo é probabilístico.


3. Argumentos Abdutivos

- Definição: A abdução é um tipo de inferência onde se escolhe a melhor explicação para um conjunto de dados ou evidências. Diferente da indução e dedução, o argumento abdutivo busca a explicação mais plausível.

Exemplo Bíblico:

- Premissa 1: A tumba de Jesus estava vazia (Mateus 28:6).

- Premissa 2: As aparições de Jesus foram testemunhadas por muitas pessoas (1 Coríntios 15:6).

- Conclusão: A melhor explicação para esses eventos é que Jesus realmente ressuscitou dos mortos, como Ele predisse (Mateus 16:21).

Importância: A abdução é frequentemente usada na apologética cristã, particularmente em argumentos sobre a ressurreição de Jesus (criação do universo e outros eventos), onde os fatos são melhor explicados pela ressurreição literal.

A FALÁCIA DA PETIÇÃO DE PRINCÍPIO NA TEOLOGIA CRISTÃ

1. Definição da Petição de Princípio

- Definição: A petição de princípio, ou "begging the question", é uma falácia onde a conclusão que se busca provar já está assumida nas premissas. É um argumento circular.

2. Exemplo Bíblico:

- Argumento falacioso: "A Bíblia é verdadeira porque eu acredito que a Bíblia é verdadeira."

- Esse é um exemplo clássico de petição de princípio, em que a confiabilidade da Bíblia é assumida com base em uma crença pessoal, sem fornecer uma base externa para justificar a premissa.

3. Porque a crença pessoal não empresta autoridade à veracidade da Bíblia:

- A crença de uma pessoa na verdade da Bíblia, por mais sincera que seja, não torna a Bíblia verdadeira. A autoridade da Bíblia vem de sua origem divina e das evidências históricas, proféticas e lógicas que corroboram sua inspiração. A crença pode ser importante no âmbito pessoal, mas a veracidade de uma afirmação deve ser avaliada com base em sua correspondência com a realidade e em provas objetivas. Não se esqueça, sempre falo isso nas aulas de Apologética Cristã na Esteadeb: existe uma diferença abissal entre SABER que o Cristianismo é verdadeiro e DEMONSTRAR que o Cristianismo é verdadeiro. A petição de princípio é bastante recorrente quando o cristão tem clareza de que o Cristianismo é verdadeiro, mas não tem a mínima condição de fornecer razões, evidências e justificativas pelas quais pode fundamentar suas crenças.

4. Como Evitar a Petição de Princípio:

- A teologia cristã evita a petição de princípio ao construir argumentos baseados em evidências externas e racionais, como a arqueologia, a história e a filosofia. Por exemplo, a autenticidade da ressurreição de Jesus não é defendida apenas com base no texto bíblico, mas também em fontes históricas e evidências fora da Bíblia, como os escritos de Flávio Josefo.

5. Importância de Evitar Falácias:

- Ao evitar falácias como a petição de princípio, a teologia cristã pode apresentar um discurso mais robusto e defensável, especialmente no campo da apologética.

IDENTIFICANDO OUTRAS FALÁCIAS LÓGICAS COMUNS

A lógica nos ajuda a evitar erros de raciocínio e a construir argumentos sólidos. É crucial identificar falácias que muitas vezes enfraquecem o discurso, inclusive no contexto bíblico e teológico. Aqui estão algumas falácias comuns:

1. Falácia do Apelo à Autoridade (Argumentum ad Verecundiam)

- Definição: Esta falácia ocorre quando alguém apela à autoridade de uma pessoa ou instituição para validar uma afirmação, sem oferecer argumentos sólidos ou evidências.

- Exemplo Bíblico: "Os fariseus disseram: 'Nós somos discípulos de Moisés. Sabemos que Deus falou a Moisés, mas quanto a este homem (Jesus), não sabemos de onde ele vem'” (João 9:28-29).

- Os fariseus apelaram à autoridade de Moisés para rejeitar Jesus, sem considerar a legitimidade dos milagres e ensinamentos de Jesus.

Como evitar: Em vez de confiar apenas em autoridades, é importante apoiar argumentos com fatos e raciocínio sólido, mesmo que uma autoridade seja citada.

2. Falácia Ad Hominem

- Definição: O ataque pessoal (ad hominem) ocorre quando alguém ataca a pessoa que está fazendo um argumento, em vez de lidar com o conteúdo do argumento.

- Exemplo Bíblico: "Os judeus lhe responderam: 'Não temos razão em dizer que você é samaritano e está endemoninhado?'” (João 8:48).

- Em vez de responder às palavras de Jesus, os líderes religiosos o insultaram, atacando sua pessoa.

Eu tenho um exemplo bem interessante para ilustrar. Quando traduzi o capítulo 5 do livro de Dave Hunt, Que Amor é Este? A Falsa Representação de Deus no Calvinismo, e esse artigo foi publicado em diversos sites, os calvinistas começaram a atacar a pessoa de Dave Hunt (porque o capítulo desmantela a figura histórica de João Calvino). O que eles diziam sobre Dave Hunt? Que ele era fraco porque não era formado em teologia. Então, fui analisar as fontes utilizadas por Dave Hunt neste capítulo e percebi que ele fez 78 citações, inclusive de muitos calvinistas, mas ele tinha 5 citações principais:

I. Bernard Cottret, principal biógrafo de Calvino;

II. Philip Schaff, pastor e historiador calvinista;

III. Will Durant, historiador, autor da obra História da Civilização;

IV. Stefan Zweig, o historiador que analisou as atas da igreja de Genebra do século 16; e, por incrível que pareça,

V. João Calvino, em suas famosas Cartas Francesas.

Os calvinistas não precisavam atacar a pessoa de Dave Hunt, apenas provar que as fontes que ele citava não eram verdadeiras, o que não foi o caso, pois todas são legítimas.

3. Falácia Genética

- Definição: Esta falácia ocorre quando alguém tenta desacreditar uma ideia com base em sua origem ou fonte, em vez de considerar seus méritos ou argumentos.

- Exemplo Bíblico: "E Natanael disse-lhe: 'Pode vir alguma coisa boa de Nazaré?'” (João 1:46).

- Natanael inicialmente descartou a possibilidade de Jesus ser o Messias com base em sua origem, sem considerar quem Jesus realmente era.

Como evitar: Julgue uma ideia ou argumento com base em seus méritos, não em sua origem ou fonte.

4. Falsa Dicotomia

- Definição: Apresenta apenas duas opções quando podem existir outras.

- Exemplo: "Ou você acredita na Bíblia ou na ciência." Isso ignora a possibilidade de que ambas podem coexistir.

Quem recorre frequentemente à falácia da falsa dicotomia é o Dr. Marcos Eberlin, pois ele sempre deixa subentendido em seus discursos que só existem duas opções no que diz respeito à criação e à evolução, a saber: a Teoria Evolucionista (ateísta, materialista, naturalista) e o Criacionismo da Terra Jovem (a ideia de que o universo tem 6 mil anos). Isso, no entanto, não é verdade. Existem outras teorias criacionistas que levam em consideração uma interpretação literal do texto bíblico, mas que não acreditam que o universo tenha 6.000 anos. Temos uma aula no curso de Apologética Cristã que explica cada uma das teorias criacionistas, demonstrando que essa dicotomia é falsa.

5. Argumento do Espantalho

- Definição: Distorce o argumento do oponente para torná-lo mais fácil de atacar.

- Exemplo: "Os cristãos acham que tudo é fácil e não precisamos fazer nada; por isso, não precisamos trabalhar." Essa simplificação ignora a verdadeira mensagem do cristianismo sobre fé e obras.

SUGESTÃO DE EMENTA DE LÓGICA PARA UM CURSO DE TEOLOGIA OU PARA UM CRONOGRAMA DE ESTUDO PESSOAL

Curso: Lógica Aplicada à Teologia Cristã

Objetivo: Capacitar estudantes de teologia a pensar de maneira clara, crítica e coerente ao formular e defender doutrinas bíblicas, evitando falácias e raciocínios incorretos, e aplicando princípios lógicos no estudo e na prática da fé cristã.

1. Introdução à Lógica

- O que é lógica?

- A importância da lógica no estudo teológico.

- Tipos de raciocínio: dedutivo, indutivo, abdutivo.

2. As Leis Fundamentais da Lógica

- Lei da Identidade.

- Lei da Não Contradição.

- Lei do Terceiro Excluído.

- Lei da Causalidade.

3. Argumentos Dedutivos, Indutivos e Abdutivos na Teologia

- Definições e exemplos bíblicos.

- Aplicações no estudo teológico e apologética.

4. Falácias Lógicas Comuns e Como Evitá-las

- Petição de princípio.

- Falácia do Apelo à Autoridade.

- Ad Hominem.

- Falácia Genética.

-Falácia da Falsa Dicotomia.

- Falácia do Espantalho.

5. Lógica e Apologética Cristã

- Construção de argumentos sólidos para a defesa da fé.

- Como identificar e refutar argumentos falaciosos de céticos e ateus.

6. Estudo de Casos Bíblicos Aplicados

- Análise de debates e diálogos de Jesus e os apóstolos à luz da lógica.

- Exemplos práticos de uso da lógica na interpretação das Escrituras.

Conclusão

A lógica é essencial para o estudo da teologia cristã, pois nos ajuda a construir e defender argumentos sólidos baseados nas Escrituras. Ao usar os princípios dedutivos, indutivos e abdutivos, podemos compreender e comunicar as verdades bíblicas de forma mais clara e eficaz. Além disso, ao aprender a identificar falácias, como o apelo à autoridade, ad hominem e a falácia genética, podemos evitar erros de raciocínio que enfraquecem a defesa da fé.

Ao integrar a lógica ao estudo teológico, estamos cumprindo o mandamento de amar a Deus de todo o nosso entendimento (Mateus 22:37), e isso nos capacita a sermos defensores mais eficazes da verdade cristã em um mundo cada vez mais cético.

Literatura utilizada e sugerida:

1."Logic: A God-Centered Approach to the Foundation of Western Thought" - Vern S. Poythress

-Descrição: Explora como a lógica está fundamentada em Deus e sua revelação, sendo relevante para estudantes de teologia ao demonstrar a importância da lógica para a fé cristã.

2."Come, Let Us Reason: An Introduction to Logical Thinking"- Norman L. Geisler & Ronald M. Brooks

- Descrição: Introduz a lógica aplicada ao raciocínio teológico, abordando falácias comuns, categorização lógica e análise crítica, com exemplos do contexto bíblico.

3."Being Logical: A Guide to Good Thinking" - D.Q. McInerny

 - Descrição: Uma introdução clara e acessível à lógica, com foco na argumentação e no pensamento crítico, aplicável no contexto da teologia para lidar com argumentos doutrinários.

4."Informal Logic: A Pragmatic Approach"- Douglas Walton

 - Descrição: Um guia sobre lógica informal que trata da análise de argumentos do cotidiano, essencial para identificar falácias e aprimorar a habilidade de debate teológico.

5. "Introdução à Lógica" - Irving M. Copi e Carl Cohen

 - Descrição: Um clássico no ensino da lógica, abrangendo tanto a lógica formal quanto a informal. Embora técnico, oferece uma sólida base para a análise de argumentos teológicos.

6. "Filosofia e Cosmovisão Cristã" - J.P. Moreland & William Lane Craig

 - Descrição: Conecta a lógica com a filosofia e a teologia cristã, abordando como construir uma visão de mundo coerente e como a lógica ajuda a defender a fé cristã.

7."Lógica Elementar" - Newton da Costa e Décio Krause

- Descrição: Livro introdutório sobre lógica formal escrito por autores brasileiros, com uma abordagem didática para a análise de argumentos filosóficos e teológicos.

8. "Logical Fallacies: The Key to Proving Christians Wrong" - Matt Slick

- Descrição: Livro focado em identificar e refutar falácias lógicas, especialmente nas discussões sobre teologia e religião.

9. "Lógica para Teólogos" - João Virgilio Tagliavini 

- Descrição: Voltado para estudantes de teologia, este livro introduz conceitos lógicos de forma acessível, ajudando na interpretação e argumentação teológica.

10. "The Philosophy of Logical Atomism" - Bertrand Russell

- Descrição: Embora não seja específico para a teologia, trata da filosofia da lógica, podendo ser aplicado em análises teológicas mais profundas.

11. "A Construção do Argumento" - Anthony Weston

 - Descrição: Um guia prático para desenvolver e avaliar argumentos eficazes. Muito útil para estudantes de lógica, especialmente para aprimorar a clareza e coerência nos debates teológicos.

12."Enciclopédia de Apologética: Respostas aos críticos da fé cristã"- Norman Geisler

- Descrição: Uma obra de referência essencial que oferece uma defesa lógica e bem fundamentada da fé cristã. Serve como apoio ao estudo da lógica aplicada à apologética, oferecendo respostas sólidas a objeções comuns.

Essa lista reúne livros importantes para o estudo da lógica no contexto da teologia, incluindo fundamentos teóricos, guias práticos e referências apologéticas detalhadas.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2023

As guerras recentes de Israel


por Craig Winn


A Guerra da Independência em 1948: Israel, ainda se instalando, perdeu 6.373 pessoas, ou aproximadamente um por cento de sua população, quando as nações islâmicas vizinhas optaram por varrer os Judeus para o mar em vez de conviver pacificamente. Cerca de um terço dessas perdas foram de civis. O número exato de vítimas islâmicas é difícil de mensurar, uma vez que os muçulmanos têm uma propensão para o exagero e que têm pouca consideração pela vida humana. Mas estima-se que 12 mil soldados islâmicos e mujahideen morreram tentando impedir que Israel se tornasse uma nação. Após a guerra, depois de Israel ter batido os muçulmanos de forma tão decisiva, Israel conseguiu definir suas próprias fronteiras. O que é interessante aqui é que os países islâmicos que atacaram Israel tinham forças militares bem estabelecidas e Israel não tinha governo, nem moeda, nem exército, nem força aérea, e praticamente nenhuma arma, nem sequer uma linguagem comum - e, no entanto, venceram. Allah não foi Grande, ou o Islã fez com que os muçulmanos falhassem?

A Guerra do Sinai de 1956: Israel perdeu 177 soldados e tomou toda a Península do Sinai do agressor. O Egito perdeu cerca de 3.000 soldados, teve 5.000 soldados feridos e outros 6.000 foram feitos prisioneiros. Infelizmente, Israel confiou o Sinai aos pacificadores da ONU, que simplesmente se afastaram do caminho quando o Egito violou o acordo de paz menos de uma década depois. A credibilidade da ONU foi a maior vítima desse conflito.

A Guerra dos Seis Dias em 1967: Nasser do Egito impeliu uma resolução islâmica contra Israel e ameaçou um assalto aliado que empurraria todos os Judeus para o mar. Não funcionou como planejara. Israel perdeu 338 soldados no front egípcio, 300 no front da Jordânia e 141 no front da Síria. O Egito, no entanto, perdeu 80% de seu equipamento militar, 10 mil soldados e 1.500 oficiais foram mortos, 5 mil soldados e 500 oficiais capturados e 20 mil soldados feridos. A Jordânia sofreu 7.000 mortos e cerca de 16.000 feridos. A Síria teve 2.500 mortos e 5.000 feridos. Os sírios perderam a metade de seus tanques e quase toda a artilharia que colocaram no cume de Golan. A contagem oficial de vítimas iraquianas foi de 10 mortes e cerca de trinta feridos. Foi a batalha mais desequilibrada da história, ofuscando a bravura dos espartanos em Thermopylae. (Em 480 a.C., 300 soldados espartanos mataram 6.000 dos soldados persas do rei Xerxes e barraram mais de 150.000.) Se não fosse pelas demandas americanas contra Israel, os Judeus teriam capturado o Cairo, Damasco e Amã e teria controlado todo o Egito, Síria e Jordânia.

A Guerra de Atrito em 1968-70: durante a Guerra Fedayeen, 367 soldados israelenses foram mortos e mais de três mil foram feridos por jihadistas islâmicos. Não houve números de vítimas publicados do lado egípcio, pois isso só serve para destacar como os países islâmicos usam seu próprio povo como se fossem munições. No entanto, estima-se que 10.000 jihadistas Fedayeen egípcios morreram.

Guerra do Yom Kippur de 1973: os muçulmanos, liderados pelo Egito e a Síria, apoiados e financiados por petro-dólares iraquianos, iranianos e sauditas da OPEC, lançaram um ataque conjunto surpresa a Israel no dia religioso mais importante, o Yom Kippur, invadindo simultaneamente o Sinai e as montanhas de Golan com aviões, tanques e armamentos soviéticos. Também conhecida como a Guerra do Ramadã, representou o primeiro grande ataque islâmico contra Israel desde que a nação foi restabelecida em 1948. Mal equipados e em uma desvantagem de 100 para 1, Israel venceu - deixando os muçulmanos atônitos e irados em todo o mundo.

Israel foi pego de surpresa e sofreu 2.300 mortes, 5.500 feridos e 294 prisioneiros - quase todos nos dois primeiros dias. Os egípcios sofreram 12 mil mortes, 35 mil feridos e 8,400 prisioneiros. A Síria sofreu 3.000 mortos, 5.600 feridos e mais de 400 presos, dos quais cerca de 20 eram iraquianos e marroquinos. Israel, que estava esmagadoramente inferior em números de soldados e menos equipado, além de ser pego de surpresa, recuperou e consertou um grande número de seus próprios tanques, bem como centenas de tanques russos e transportadores blindados de pessoal que haviam sido abandonados pelos muçulmanos que fugiram. Com esse armamento, eles lutaram e recuperaram o terreno onde inicialmente se renderam.

No primeiro dia, Israel perdeu 105 aviões e 5 helicópteros, um terço de sua força de combate, por causa das baterias russas de mísseis SAM. Os egípcios perderam 235 aviões e 42 helicópteros, enquanto os sírios perderam 135 aviões e 13 helicópteros. A maioria das perdas muçulmanas ocorreram na batalha no ar em que os Judeus eram majoritariamente melhores pilotos. Quando os jihadistas jubilosos invadiram as proteções russas contra os mísseis SAM, a guerra virou-se e 51 baterias antiaéreas egípcias desprotegidas e 12 baterias de mísseis SAM sírios foram destruídas. Israel perdeu uma arma antiaérea. A marinha israelense não teve perdas, e afundou sete navios egípcios e cinco barcos de mísseis sírios, quatro barcos de torpedos egípcios e vários navios de defesa costeira.

Israel conquistou uma vitória clara contra a Síria, conquistando um território considerável além das linhas de cessar-fogo de 1967 e avançando para cerca de 20 milhas de Damasco. No Sinai, os egípcios se apegavam ao lado leste do canal, mas os israelenses cercaram seu terceiro exército e avançaram com sucesso até algumas milhas do Cairo. Mais uma vez, se os Estados Unidos não tivessem obrigado Israel a se retirar, eles teriam conquistado o Egito e a Síria.

Infelizmente, no entanto, o Sinai foi devolvido ao Egito quando Jimmy Carter subornou a nação islâmica para parar de ameaçar publicamente a Israel, dando aos egípcios US $ 2,5 bilhões ao ano, bem como acesso total às armas americanas mais sofisticadas. Os EUA também pressionaram Israel com uma proposta patética da história moderna: "terra pela paz". Eles sacrificaram as terras que controlavam, perderam sua zona de proteção defensiva e tem sido terrorizados pelos muçulmanos desde então. Mas pelo menos agora você sabe por que os muçulmanos trocaram táticas de guerra pelo terror.


Tradução Walson Sales.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2023

Da Recordação dos Inumeráveis Benefícios de Deus

 Thomas à Kempis - A Imitação de Cristo

CAPÍTULO 22

Da Recordação dos Inumeráveis Benefícios de Deus


A alma: Abri, Senhor, meu coração à vossa lei, e ensinai-me o caminho de vossos preceitos.[1]  Fazei-me compreender a vossa vontade, e com grande reverência e diligente consideração rememorar os vossos benefícios, gerais ou particulares, para assim render-vos por eles as devidas graças. Bem sei e confesso que nem pelo menor benefício vos posso render condignos louvores e agradecimentos. Eu me reconheço inferior a todos os bens que me destes,[2]  e quando considero vossa majestade, abate-se meu espírito com o peso de vossa grandeza.

2. Tudo o que temos, na alma e no corpo, todos os bens que possuímos, internos e externos, naturais e sobrenaturais, todos são benefícios vossos, e outras tantas provas de vossa bondade, liberalidade e muníficência, que de vós todos os bens recebemos.

E ainda que este receba mais e outros menos, tudo é vosso, e sem vós ninguém pode alcançar a menor coisa.

E aquele que recebeu mais não pode gloriar-se de seu merecimento, nem elevar-se acima dos outros, nem desprezar o menor; porque só é maior e melhor aquele que menos atribui a si, e é mais humilde e fervoroso em vos agradecer.

E quem se considera mais vil e se julga o mais indigno de todos é o mais apto para receber maiores dons.

O que, porém, recebeu menos não deve afligir-se, nem queixar-se, nem ter inveja do mais rico; olhará, ao contrário, para vós, e louvará vossa bondade, que tão copiosa e liberalmente prodigalizais vossas dádivas, sem acepção de pessoas.

De vós nos vêm todas as coisas; por todas, pois, deveis ser louvado.

3. Vós sabeis o que é conveniente dar a cada um, e não nos pertence indagar por que este tem menos, aquele mais; só vós podeis avaliar os merecimentos de cada um.

Por isso, Senhor meu Deus, considero como grande benefício o não ter eu muitas coisas que trazem a glória exterior e os humanos louvores. Portanto, ninguém, à vista de sua pobreza e da vileza de sua pessoa, deve conceber, por isso, desgosto, tristeza ou desalento, senão grande alegria e consolo, porque vós, Deus meu, escolheste por vossos particulares e íntimos amigos os pobres, os humildes e os desprezados deste mundo.[3]  Testemunho disto são vossos apóstolos, a quem constituístes príncipes sobre a terra.[4]  Todavia, viveram neste mundo tão sem queixa,[5]  tão humildes e com tanta singeleza da alma, tão sem malícia ou dolo, que se alegravam de sofrer contumélias por vosso nome,[6]  e com grande afeto abraçavam o que o mundo aborrece.

Nada, pois, deve alegrar tanto aquele que vos ama e reconhece vossos benefícios, como ver executar-se a seu respeito vossa vontade e o beneplácito de vossas eternas disposições. Tanto deve com isto estar contente e satisfeito, que queira de tão boa vontade ser o menor, como outro desejaria ser o maior; e tão sossegado e contente deve estar no último como no primeiro lugar, tão satisfeito em ser desprezado e abatido, sem nome nem reputação, como se fosse o mais honrado e estimado no mundo. Porque a vossa vontade e o amor de vossa honra deve ser anteposto a tudo, e deve consolar e agradar mais ao vosso servo, que todos os dons presentes ou futuros.

______________

[1]  Sl 119.

[2]  Gn 32.10.

[3]  1Co 1.27, 28.

[4]  Sl 45.16.

[5]  1Ts 2.10.

[6]  At 5.41.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2023

Da Confissão da Própria Fraqueza, e das Misérias desta Vida

 Thomas à Kempis - A Imitação de Cristo

CAPÍTULO 20

Da Confissão da Própria Fraqueza, e das Misérias desta Vida


A alma: Confesso contra mim mesmo minha maldade,[1]  confesso, Senhor, minha fraqueza. Muitas vezes a menor coisa basta para me abater e entristecer. Proponho agir valorosamente, mas assim que me sobrevém uma pequena tentação, vejo-me em grandes apuros. Às vezes é de uma coisa mesquinha que me vem grave aflição. E quando me julgo algum tanto seguro, vejo-me, não raro, vencido por um sopro, quando menos o penso.

Olhai, pois, Senhor, para esta minha baixeza[2]  e fragilidade, que conheceis perfeitamente. Compadecei-vos de mim e tirai-me da lama, para que não fique atolado[3]  e arruinado para sempre. É isto que a miúdo me atormenta e confunde em vossa presença: o ser eu tão inclinado a cair, e tão fraco a resistir às paixões. E embora não me levem ao pleno consentimento, muito me molestam e afligem seus assaltos, e muito me enfastia o viver sempre nesta peleja. Nisto conheço minha fraqueza, que mais depressa me vem do que se vão essas abomináveis fantasias da imaginação.

Ó poderosíssimo Deus de Israel, zelador das almas fiéis, olhai para os trabalhos e dores de vosso servo, e assisti-lhe em todos os seus empreendimentos! Confortai-me com a força celestial, para que não me vença e domine o homem velho, a mísera carne, ainda não inteiramente sujeita ao espírito, contra a qual será necessário pelejar enquanto estiver nesta miserável vida.

2. Ai! que vida é esta, em que nunca faltam as tribulações e misérias, em que tudo está cheio de inimigos e ciladas! Porque mal acaba uma tribulação ou tentação, outra já se aproxima, e até antes de acabar um combate, muitos outros já sobrevêm, e inesperados.

E como se pode amar uma vida cheia de tantas amarguras, sujeita a tantas calamidades e misérias? Como se pode chamar vida o que gera tantas mortes e desgraças? E, não obstante, muitos amam e procuram nela deleitar-se. Muitos acoimam o mundo de enganador e vão, e ainda assim lhes custa deixá-lo, porque se deixam dominar pelos apetites da carne. Muitas coisas nos inclinam a amar o mundo, outras a desprezá-lo. Fazem amar o mundo a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida;[4]  mas as penas e as misérias que estas coisas se seguem geram o ódio e aborrecimento do mundo. Infelizmente, o vil deleite vence a alma mundana, que julga delícia o estar em meio dos espinhos,[5]  porque nunca viu nem provou a doçura de Deus, nem a intrínseca suavidade da virtude.

Mas aqueles que perfeitamente desprezam o mundo e procuram viver para Deus, em santa disciplina, experimentam a doçura divina, e mais claramente conhecem os erros grosseiros do mundo e seus vários enganos.

______________

[1]  Sl 32.5.

[2]  Sl 25.18.

[3]  Sl 69.14.

[4]  1Jo 2.16.

[5]  Jó 30.7.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2023

O Desafio do Sofrimento Imerecido

 

Por Robert Bowman Jr.


Se Deus é todo Poderoso, Todo Amoroso e Todo Bom, então não faria sentido Ele permitir o sofrimento de pessoas inocentes. A crítica segue mais ou menos assim: se Deus é Todo Poderoso, ele pode parar o mal; se Deus é Todo Amoroso e Onibenevolente, ele deveria querer parar o mal; se o mal ocorre a pessoas inocentes, Deus não seria Todo Poderoso ou Onibenevolente. Este é realmente um argumento muito forte, pois se choca diretamente com as nossas emoções e é considerado pelos críticos como um argumento mortal contra o Cristianismo. O que ocorre aqui é o conhecimento como problema dedutivo do mal, este argumento tem sido utilizado sob inúmeras perspectivas diferentes, este argumento é muito conhecido nos bastiões filosóficos e é pouco conhecido fora dele. Contudo, muitos filósofos profissionais hoje não acreditam que essa forma dedutiva de argumento seja um argumento destruidor do Cristianismo, porque, de forma bem simples e direta, o argumento pressupõe que se Deus é Onibenevolente, Ele não permitiria que tal tipo de sofrimento ocorresse. Mas, como bem sabem até mesmo alguns filósofos ateus, Deus pode ter boas razões e justificativas para permitir o mal. Talvez hajam propósitos maiores para que Deus permita que tais coisas aconteçam, desde que nós conhecemos todas as coisas que Deus pode conhecer de antemão, temos que admitir que é plenamente possível que Deus pode ter boas razões para permitir que essas coisas aconteçam a pessoas boas. Perceba que o argumento tem que sair levemente do lado emocional para o lado racional da coisa para fazer sentido. Por isso, muitos céticos abandonaram esse tipo de problema dedutivo da existência do mal e rumaram para o argumento indutivo do problema do mal. 

O argumento indutivo do problema do mal diz que existe muito sofrimento e mal excessivo no mundo e se Deus existisse, Ele poderia permitir alguma medida de mal, mas ele não permitiria uma medida de mal tão absurda no mundo. O problema com esse tipo de argumento indutivo é que ele é realmente muito difícil de se engajar, pois qual é a medida de mal que não seria demais em se tratando de Deus? É muito difícil ser objetivo e poder quantificar uma quantidade de mal e dizer que é muito. O cético geralmente diz que é realmente difícil de quantificar, mas que ele acredita ser demais. Muito sofrimento no mundo, muito mal no mundo, milhões de Judeus mortos no Holocausto, milhares de pessoas sendo tragadas por tsunamis, tornados, furações, realmente parece infindável, e realmente ficamos emocionalmente abalados com tais ocorrências. Agora, uma coisa é certa, esse argumento indutivo é muito mais forte do que o argumento dedutivo em termos de apelo emocional, porque o argumento apela para um sentimentalismo emocional mais sutil e poderoso, pois contempla todas as coisas terríveis que os seres humanos fazem uns contra os outros. Todos os sofrimentos terríveis que as pessoas tem experimentado, às vezes por forças humanas, outras vezes pelas forças da natureza. Mas talvez a coisa realmente séria que faz as pessoas relutarem contra ela é, se temos boas razões para acreditarmos na existência de Deus, e Ele é da forma que a Bíblia o descreve, então nossas concepções ou conceitos sobre o que Deus permitiria ou não, teriam que ser modificados. Contudo, não adianta espernear, bater a cabeça contra a parede, gritar, porque não gostamos das coisas como elas são, se sabemos que Deus realmente existe, teremos que usar este fato e parar de reclamar dizendo que se fôssemos Deus, faríamos as coisas diferentes. Nós não somos Deus e temos que parar com esses chiliques. Temos que encarar de frente esta realidade dupla em especial, a saber, Deus existe e nós não somos ele. 


Tradução e adaptação Walson Sales

quinta-feira, 5 de janeiro de 2023

Como Devemos Examinar e Moderar os Desejos do Coração

 Thomas à Kempis - A Imitação de Cristo


CAPÍTULO 11

 

Como Devemos Examinar e Moderar os Desejos do Coração

 

Jesus: Filho, muitas coisas deves ainda aprender, que não sabes bem.

 

A alma: Que coisas são estas, Senhor?

 

Jesus: Que conformes completamente teu desejo[1]  a meu beneplácito e não sejas amante de ti mesmo, mas zeloso cumpridor de minha vontade.

 Muitas vezes se inflamam teus desejos, e com veemência te impelem; examina, porém, o que mais te move, se minha honra ou teu próprio interesse. Se for eu o motivo, ficarás bem contente, qualquer que seja o sucesso do empreendimento; mas, se lá se ocultar algum interesse próprio,[2]  eis que isto logo te embaraça e aflige. Guarda-te, pois, de confiar demasiadamente em preconcebidos desejos que tens sem me consultar, para que não suceda que te arrependas e te desagrade o que primeiro te agradou e procuraste com zelo, por te haver parecido melhor. Porém nem todo desejo que pareça bom logo devemos seguir, nem tampouco a todo sentimento contrário logo havemos de fugir.

 2. Convém, às vezes, refrear mesmo os bons empenhos e desejos, para que as preocupações não te distraiam o espírito; para que não dês escândalo por falta de discrição; para que, enfim, não te perturbe a resistência dos outros e desfaleças. Outras vezes, ao contrário, é preciso usar de violência[3]  e rebater varonilmente os apetites dos sentidos sem atender ao que a carne quer ou não quer,[4]  mas trabalhando por sujeitá-la ao Espírito,[5]  ainda que se revolte. Cumpre castigá-la e curvá-la à sujeição, a tal ponto, que esteja disposta para tudo, sabendo contentar-se com pouco e deleitar-se com a simplicidade, sem resmungar por qualquer incômodo.

 ______________

[1]  Sl 108.1; Mt 6.10.

[2]  Fp 2.21.

[3]  Fp 2.12.

[4]  Rm 8.1-13; 2Co 4.10; 10.3.

[5]  1Co 9.27.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2022

Como Deus é Delicioso em Tudo e Sobretudo a Quem O Ama

 Thomas à Kempis - A Imitação de Cristo


CAPÍTULO 34

Como Deus é Delicioso em Tudo e Sobretudo a Quem O Ama


A alma: Vós sois meu Deus e meu tudo! Que mais quero eu e que dita maior posso desejar? Ó palavra suave e deliciosa! Mas só para quem ama a Deus, e não o mundo nem as suas coisas.

Meu Deus e meu tudo! Para quem a entende basta esta palavra, e quem ama acha delícia em repeti-la a miúdo. Porque, quando estais presente tudo é aprazível, mas, se vos ausentais, tudo enfastia. Vós dais ao coração sossego, grande paz e jubilosa alegria. Vós fazeis que julguemos bem de todos e em tudo vos bendigamos; nem pode, sem vós, coisa alguma agradar-nos por muito tempo, mas, para ser agradável e saborosa, é necessário que lhe assista a vossa graça e a tempere o condimento da vossa sabedoria. A quem saboreia vossa doçura, que coisa não lhe saberá bem? Mas a quem em vós não se deleita, que coisa lhe poderá ser gostosa?

Diante da vossa sabedoria[1] desaparecem os sábios do mundo e os amadores da carne, porque nos primeiros se acha muita vaidade, nos últimos, a morte; os que, porém, vos seguem pelo desprezo do mundo e pela mortificação da carne, esses são verdadeiramente sábios, porque trocam a vaidade pela verdade, e a carne pelo espírito. Esses acham gosto nas coisas de Deus, e tudo quanto se acha de bom nas criaturas, referem-no à glória do seu Criador. Diferente, porém, e mui diferente, é o gosto que se encontra em Deus e na criatura, na eternidade e no tempo, na luz incriada e na luz criada.

2. Ó luz eterna, superior a toda luz criada, lançai do alto um raio[2]  que penetre todo o íntimo do meu coração. Purificai, alegrai, iluminai e vivificai a minha alma com todas as suas potências, para que a vós se una em transportes de alegria. Oh! Quando virá aquela ditosa e almejada hora, em que haveis de saciar-me com a vossa presença, e ser-me tudo em todas as coisas? Enquanto isso não me for concedido, minha alegria não será perfeita.

Mas ai! Que ainda vive em mim o homem velho,[3]  não de todo crucificado nem inteiramente morto. Ainda se revolta fortemente contra o espírito e move guerras interiores; nem consente em que reine tranquilidade na alma.

Mas vós, que dominais a impetuosidade do mar e aplacais o furor das ondas,[4]  levantai-vos e socorrei-me! Dissipai os poderes que procuram guerras,[5]  esmagai-os com o vosso braço. Manifestai, Senhor, as vossas maravilhas, e seja glorificada a vossa destra, pois não tenho outro refúgio senão em vós, meu Senhor e meu Deus![6]

______________

[1]  1Co 1.26; Rm 8.5; Jo 2.16.

[2]  Sl 144.6.

[3]  Rm 7.

[4]  Sl 89.9.

[5]  Sl 68.30.

[6]  Sl 31.14.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2022

O Apologista, a administração do Tempo e a Leitura

 

Por Walson Sales


Douglas Groothuis diz no curso de Apologetics 101 da Credo House que a meta da apologética é tentar tornar conhecidas as realidades de Deus por meio da razão e das evidências. Ou seja, ele propõe uma apologética a favor da apologética para tentar discutir as razões pelas quais podemos crer e também contrastar a visão de mundo cristã com outras visões de mundo. 

A única coisa que oculta a existência de Deus para os incrédulos é o pecado. Deus tem se revelado a raça humana por meio da natureza, da escritura, e por meio de Cristo, mas a rebelião e a pecaminosidade humana suprime a verdade nas consciências humanas. O apologista que visa proclamar e defender o cristianismo como verdadeiro e racional vai de encontro a ignorância e a tudo o que se levante contra o conhecimento de Deus (II Co 10:5). Para considerarmos a possibilidade de adentrarmos os portais da defesa da fé, devemos mergulhar neste mundo de resistência, desinformação e distorções para tentarmos retirar todos os obstáculos que fazem com que as pessoas não considerem a fé cristã como uma visão de mundo válida, viva, pujante, acessível e verdadeira, para podermos honrar e glorificar a Deus a medida que as pessoas possam ter um relacionamento de salvação com Deus por meio do evangelho e, de fato, com a Bíblia por inteiro. 

O propósito deste curso como um todo e do texto escrito, bem como com o meu interesse com o tema é o de preparar pessoas para o diálogo entre cosmovisões e enfatizar a missão de Deus sobre a terra, a saber, enfatizar o evangelismo e a defesa da fé. Pense comigo: se o propósito de Deus é que cada pessoa na terra escute o evangelho e a vontade de Deus é que cada pessoa no globo ouça sobre Jesus, e se diante disso, você não se preocupa com o evangelismo e com a defesa da fé, principalmente diante de um fenômeno cultural de nossos dias que é a hostilidade com que o cristianismo é visto, então você precisa se engajar mais na missão principal de Deus. Digo isto, porque não há mais como dissociar o evangelismo da defesa da fé. Não devemos negligenciar o fato de que deveríamos ser um santuário do conhecimento bíblico, teológico, lógico, histórico e cultural. O conhecimento é algo que gera medo nas pessoas em nossa cultura, principalmente o conhecimento do que realmente é importante, diante de uma geração fraca, emocionalista, sensível, politicamente correta, pluralista e relativista, o que é realmente estranho, pois vivemos na era da informação. Contudo, informação não é a mesma coisa que conhecimento. Conhecimento tem relação com crenças bem fundamentadas que são verdadeiras, então se pretendemos reestabelecer o conhecimento de Deus na nossa cultura, teremos que enfrentar todos os tipos de distorções e distrações. Tenho a esperança de que os cristãos atuais possam se consagrar como verdadeiros santuários do conhecimento, dedicando seriamente o nosso tempo, esforços e recursos para pensarmos sobre as coisas de Deus e sobre as críticas contra as coisas de Deus. A melhor forma de perseguir essa meta é tentar unificar todos os esforços em uma tarefa de cada vez. Pense numa pessoa meio que polivalente, ou seja, alguém que faz muitas coisas ao mesmo tempo, ouvir música, assistir tv, falar com um interlocutor, atender o celular, assinar um documento, etc., este é um exemplo bem útil para mostrar o que quero dizer. Em se tratando de estudar, ler, pesquisar em áreas da filosofia e teologia, mais detidamente aqui em nosso propósito, fazer apologética, a melhor forma de angariar conhecimento consistente, de forma paulatina e contínua, é focar em tarefas isoladas por vez. Focar no tópico de estudo, mergulhar fundo no tema e tentar juntar e internalizar o máximo de informações. Lembro-me de ter lido um dos livros de Josh McDowell sobre a ressurreição de Jesus e ele diz na introdução do livro que leu durante 700 horas para escrever aquele livro. Pense comigo. Josh McDowell é uma das maiores autoridades no assunto, junto a outros apologistas e ele diz que leu e catalogou em um banco de dados, tudo catalogado em um banco de horas de 700 horas e se tornou um especialista em um assunto específico. 

Um dos grandes problemas da sociedade contemporânea é a questão do tempo. A vida é tão corrida que ninguém tem tempo para mais nada, não é verdade? Mas se você se dedicar em ler sobre um tema específico, como por exemplo, a Divindade de Jesus, ou sobre Teologia Natural, ou ainda sobre os Argumentos Naturalistas para a existência de Deus, ou mais ainda, especificamente sobre apenas um dos argumentos, seja o Cosmológico, Ontológico ou outro qualquer, você se tornaria um especialista no assunto, em apenas dois anos, lendo apenas uma hora por dia! Agora é o momento que você se lamenta por ter perdido tanto tempo conversando nas esquinas, ou assistindo tv ou vendo coisas nas redes sociais. A cultura das redes sociais foi estabelecida com a intenção principal de fazer com que as pessoas desperdicem tempo com passatempos sem importância, jogando nossa capacidade de raciocínio e de interpretação pelo ralo.[1] O afastamento da prática da leitura e a aproximação das características imediatistas das redes sociais está formando uma geração de zumbis que se apresentam como presas fáceis do argumento tosco, por causa da falta de capacidade de raciocínio, interpretação e concentração. 

Então, imergir em uma leitura de um determinado tópico para escrutiná-lo devagar, com cuidado, com aprofundamento, olhando as nuances, detalhes e implicações, e não apenas ficar na superfície de um incontável número de tópicos e não ser profundo ou especialista em nada, ou seja, ser superficial em todos. Caso a obra ou tema que você está debruçado esteja em uma linguagem ou conteúdo um pouco inacessível para você, não desista, corra para os principais especialistas na área e não desista enquanto não se apropriar com conteúdo. Nunca devemos deixar de depender de Deus como também não podemos negligenciar as mentes privilegiadas do passado e do presente. Um fato ocorrido com o filósofo persa Ibn Sīnā,[2] mais conhecido como Avicena é bem esclarecedor. É conhecido que Avicena, ávido por conhecer e internalizar a Metafísica de Aristóteles, leu 40 vezes a Metafísica, até sabê-la de cor, e não entendeu nada do conteúdo nem o objetivo da obra. Mas certo dia, ao passar por um mercado, um homem lhe ofereceu um pequeno livro. A princípio Avicena não se interessou. No entanto, dada a insistência do vendedor, acabou comprando-o: era o livro de al-Fārābī Sobre o objetivo da Metafísica de Aristóteles. De imediato Avicena foi para casa e leu a pequena obra. A partir daí, então, entendeu a Metafísica de Aristóteles. “Fiquei contente com isto”, afirmou Avicena. No outro dia distribuiu esmolas aos pobres para agradecer a Deus pelo ocorrido.[3] Há um debate muito intenso entre os escolásticos Católicos e Muçulmanos se os persas e árabes entenderam corretamente a metafísica, mas isto não vem ao caso aqui. o que chama a atenção é a pujança do interesse em Avicena em aprender e internalizar determinado assunto. 

Então, apologética é a arte de defender e recomendar a fé cristã como uma visão de mundo racional, verdadeira, confiável em todos os aspectos da vida, agora, para levar a cabo tal tarefa, teremos que treinar a nossa mente com os melhores argumentos. Para tal, é importante sabermos o que é uma disputa ou debate. Em um sentido filosófico, uma disputa não é apenas discordar de alguém ou ganhar um debate ou discussão no grito. Este sentido falso vem dos filmes, novelas, programas de televisão, programas de debates onde as pessoas são rudes e agressivas umas com as outras. Para mim, uma disputa é uma discussão fundamentada de uma questão importante. Então, a tarefa do apologista é fornecer um argumento persuasivo, convincente em defesa da fé cristã. Devemos fornecer argumentos, razões para crer no cristianismo e razões para não crer nas visões de mundo concorrentes. Qualquer defensor do cristianismo precisa ter clareza do que é um argumento e conhecer também os diferentes tipos de argumentos que existem. Trataremos sobre alguns tipos de argumentos mais adiante e tentarei apresentá-los da forma mais clara e simples possível. Entraremos um pouco na tradição da filosofia analítica ao analisarmos os diferentes tipos de argumentos para aprendermos como funcionam as premissas e as conclusões de um argumento, com suas formas e possíveis refutações. Essa tarefa mental de antecipação de uma possível refutação é muito importante para o apologista. 


Notas:

[1] Apenas para termos uma ideia, pense em quantas pessoas estão a nossa volta há tantos anos e nunca leram a Bíblia toda. Esse número cai drasticamente se procurarmos pessoas que leram a Bíblia toda mais de uma vez. Outro ponto importante, as leituras clássicas. Quantos jovens são incentivados nas escolas ou pelos pais em casa a lerem os clássicos da literatura? Livros de leitura recreativa que mobilizam as emoções e despertam a criatividade, elevam a capacidade de raciocínio, de articulação e de expressão, além de aumentar e afinar consideravelmente o vocabulário em erudição. Livros como A Ilíada e a Odisséia de Homero, Moby Dick de Herman Melville, As Aventuras de Robinson Crusué de Daniel Dafoe, A Volta ao Mundo em 80 Dias, Viagem ao Centro da Terra, Vinte Mil Léguas Submarinas de Júlio Verne, As Roupas Novas do Imperador, A Garota Judia de Hans Christian Andersen, bem como dos clássicos cristãos como As Crônicas de Nárnia de C. S. Lewis, O Véu Rasgado de Gulshan Esther, O Refúgio Secreto de Corrie ten Boon, O Contrabandista de Deus do irmão André, Fundador da Missão Portas Abertas, Por Esta Cruz te Matarei de Bruce Olson, O Peregrino de John Bunyan, entre outros. Ainda me recordo com emoção e as vezes com lágrimas nos olhos de trechos desses livros que li há muitos anos. Meu coração ainda treme quando me recordo de Odisseu entrando em sua casa anos depois, como um mendigo desconhecido e sendo zombado por todos no desafio do arco, e fico petrificado quando ele pega o arco e o domina com maestria, para a surpresa e desespero de todos. Poderia resumir cada um desses livros citados acima, livros que saíram da minha biblioteca, passaram pelas mãos de minha filha e agora estão em posse de meu filho caçula. Temos que incentivar os nossos filhos a leitura e os nossos jovens na igreja também.

[2] Abu Ali Huceine ibne Abdala ibne Sina (lugar de nascimento, Afshana, atual Uzbequistão c. 980 – Hamadan, Irã, e faleceu em junho de 1037), conhecido como Ibn Sīnā ou por seu nome latinizado Avicena, foi um polímata persa que escreveu tratados sobre variado conjunto de assuntos, dos quais aproximadamente 240 chegaram aos nossos dias. Em particular, 150 destes tratados se concentram em filosofia e 40 em medicina. Para mais curiosidades, assista ao filme O Físico.

[3] ISKANDAR, J. I. Introdução. In: AVICENA (IBN SĪNĀ). A origem e o retorno Introdução e aparelho crítico: Jamil Ibrahim Iskandar. São Paulo: Martins Fontes, 2005. p. XXIII-XXXIII.

sábado, 24 de dezembro de 2022

A IMPORTÂNCIA DA COSMOVISÃO

 

Por Dyêgo Alves 


A maneira como se vê as coisas, as concepções construídas sobre algo, a ótica sobre princípios tem uma influência grandiosa sobre a vida das pessoas. A forma como enxergamos o que nos cerca causa fortes consequências em todo nosso ser, algumas até inamovíveis. Esse conjunto de características nada mais é que uma visão de mundo; conhecido pelos estudiosos como cosmovisão.

Uma cosmovisão é necessária para toda e qualquer pessoa. Caso não haja uma visão de mundo a pessoa estará perdida na vida, sem sentido. Pode se considerar que uma cosmovisão está estritamente ligada a identidade das pessoas. Sendo assim, se quiser conhecer sobre uma pessoa procure qual seja sua visão de mundo. Mas o que é cosmovisão?

  Para Kenneth Richard Samples (2018, p. 398):


Em termos bem simples, cosmovisão pode ser definida como alguém vê a vida e o mundo como um todo. Uma cosmovisão funciona como um par de óculos, como uma lente interpretativa através da qual se dá sentido à vida e se compreende o mundo ao seu redor. ...

Em termos mais técnicos, uma cosmovisão é uma estrutura mental que se organiza como a mais completa. Essa estratégia é uma visão abrangente do que uma pessoa considera real, verdadeiro, racional, bom, valioso e belo.


Ao avaliar a citação acima, é perceptível que uma cosmovisão atende a todas as demandas, quer seja nas questões mais usuais, operativas do cotidiano, como também as mais complexas, as que tem uma dedicação mais bem elaborada para se compreender. Tal abrangência é notada através da assimilação que é feita sobre um referido tema, ideologia ou doutrina; levando aquele portador da cosmovisão a se posicionar sobre algo de acordo com a mesma. 

A abrangência da compreensão do que está relacionado a si, faz com que a pessoa aplique essa compreensão na sua vida. Isso é um tanto quanto comprometedor, uma vez que constrói uma identidade, um conjunto de opiniões sobre o que for apresentado, partindo de princípios tidos como essenciais à vida. Quando é destacado sobre o verdadeiro, racional, bom, valioso e belo; observa-se que a forma que considera esses pontos, traz consequências incisivas à vida de qualquer pessoa.

Ainda sobre o conceito de cosmovisão, para Norman Geisler (2002 p.188) cosmovisão é:


Modo pelo qual a pessoa vê ou interpreta a realidade. A palavra alemã e Weltanschau-ung, que significa um “mundo e uma visão de vida”, ou “um paradigma”. É a estrutura por meio da qual a pessoa entende os dados da vida. Uma cosmovisão influencia muito a maneira em que a pessoa vê Deus, origens, mal, natureza humana, valores e destino.


A realidade é um fato inevitável na vida. O imaginário pode ser desejável, levando a pessoa a buscar sua realização, mas é incerto uma vez que depende de fatos e acontecimentos. A realidade é verdadeira, certa, verídica isso tem uma importância distinta no que tange a cosmovisão, pois ela fará com que se observe a realidade sobre uma direção, não dando espaço para ilações descabidas ou assuntos que não promovem impacto na vida das pessoas. Por isso a cosmovisão observa a realidade como um todo na vida, gerando por sua vez paradigmas que embasam a existência das pessoas.

Os paradigmas como diz Dr. Geisler são direções que se tem na vida tanto no entendimento quanto na conduta; sendo assim, a cosmovisão pode ser um conjunto de paradigmas em sintonia no que diz respeito a questões importantes. Essa sintonia faz com que as questões de suma importância estejam estritamente relacionadas e sejam coerentes, para se manterem firmes diante das demandas que possam ser apresentadas. Nesse sentido, há muita importância em ter uma visão correta sobre leis, Deus, moral, mal, educação, valores, propósito, destino; pois tais questões influenciam diretamente na vida do ser.

A visão de mundo deve ser consistente em fazer com que seus pressupostos uma vez associados, solidifique a vida de quem a vive. Isso se dá pelo fato de que as questões que se apresentam nessa vida como um todo, requer uma razão de ser, estar e permanecer. Caso seus paradigmas não forem eficientes para tratar as questões da vida, a cosmovisão perderá força na conduta do ser humano, deixando o mesmo sem rumo nas veredas da vida.

A cosmovisão deve responder e dá sentido as questões mais intrigantes da vida. A humanidade se sente preocupada diante de fatos comprometedores e busca para tanto uma razão de ser, uma palavra que seja um bálsamo em suas vidas. Nessa linha de raciocínio, a escolha de uma visão de mundo é um divisor de águas na vida de qualquer pessoa, logo, qual visão de mundo seria a mais completa?

O FINAL DO EVANGELHO DE MARCOS (16.9-20) É AUTÊNTICO?

 

Leandro Mendonça Justino [1]


INTRODUÇÃO


Depois de ter comentado uma imagem compartilhada por meu professor, Walson Sales, em uma lista de transmissão pelo WhatsApp, fui convidado por ele a escrever sobre um dos assuntos teológicos contido naquela imagem. O assunto era crítica textual. Na imagem um pastor da Igreja Batista Redenção[2] estava sendo questionado por uma pessoa sobre a atualidade dos dons espirituais (é o que dá a entender), essa pessoa cita um texto que se encontra no final do evangelho de Marcos (16.17,18) e questiona ao pastor se ele acreditava nas palavras de Jesus registradas naqueles versículos. Uma das coisas respondida pelo pastor é que Jesus não falou aquelas palavras e que esse texto é uma inserção feita no texto bíblico no século dois, e que ele acreditava em um texto falso. Então o rapaz questiona: “esse texto não deveria estar na bíblia?” O pastor responde: “esse texto não está na bíblia, alguém colocou lá”. Essas são algumas das informações relevantes daquela imagem.

Por conseguinte, temos por finalidade responder essa pergunta: o final do evangelho de Marcos (16.9-20) não deveria estar na Bíblia? Esse questionamento surgiu “desde que Tischendorf descobriu o Códice Sinaítico, em meados do século dezenove” (PAROSCHI, 2012, p. 208), onde essa passagem não se encontra registrada nele. Esse manuscrito é considerado um dos melhores manuscritos que possuímos pela maioria dos críticos textuais. 

Vamos iniciar essa pesquisa tentando entender a problemática.


ENTENDENDO A QUESTÃO


Para entendermos essa questão da não autenticidade de um texto bíblico do Novo Testamento, o que é para muitos uma dificuldade intelectual, se faz necessário entender como o texto em português que possuímos e utilizamos é produzido. As nossas Bíblias são uma tradução. Acredito que todos saibam que o Novo Testamento não foi escrito originalmente em português. De fato, ele foi escrito em Grego em uma época onde a imprensa ainda não tinha sido inventada e muito menos a foto cópia. No primeiro século, quando o Novo Testamento foi escrito a única maneira de preservar um documento era copiando a mão. E, o que acontece quando tentamos copiar as palavras de um livro à mão? Certamente, erros são cometidos, uma palavra é escrita errada, uma palavra é omitida, uma linha pode ser pulada, pode ser acrescentado uma palavra, etc., e quando nós analisamos as mais de 5.800 cópias do Novo Testamento que possuímos espalhadas pelo mundo é exatamente isso o que observamos, nenhum manuscrito concorda com outro em todos os lugares. Mas, isso não seria um problema se tivéssemos os livros originais do Novo Testamento, pois bastaria comparar as cópias com os documentos originais, identificar os erros e corrigir. Entretanto, nós não possuímos nenhum documento original do Novo Testamento. Temos apenas suas cópias. Isso é um fato e não tem como se esquivar disso. Todavia, não ter os livros originais do Novo Testamento não quer dizer necessariamente que não temos o texto original, vale a pena ter isso em mente, o importante é o texto e não o documento físico.[3]

Dessa forma, para produzir um texto grego do Novo Testamento precisamos de uma disciplina especial que tem por objetivo reconstruir o texto de um documento cujo o original foi perdido ou destruído e que suas cópias sobreviventes possuem divergências entre si – a crítica textual. A crítica textual não deve ser entendida como um apontamento de defeitos do texto do Novo Testamento, mas como um exercício de julgamento. Visto que não temos os documentos originais do Novo Testamento e suas cópias que sobreviveram possuem diferenças entre si, então precisamos avaliar e tentar descobrir qual é o texto correto que o autor escreveu e qual é o texto errado acrescentado ou omitido por aquele que o copiou. E, para isso precisamos de uma metodologia. Não podemos simplesmente escolher os textos que gostamos, e excluir os que não queremos, como as Testemunhas de Jeová fazem com sua bíblia mutilada, a Tradução do Novo Mundo. Precisamos de uma metodologia e precisamos ser consistentes em sua utilização.


EM BUSCA DE UMA METODOLOGIA


Aqui está a chave para entender porque algumas pessoas defendem que o final do evangelho de Marcos (16.9-20) é autêntico e outras não – a metodologia. Existem mais de 5.800 manuscritos Gregos do Novo Testamento, e ninguém até hoje foi capaz de contar quantas diferenças há entre esses manuscritos. O Novo Testamento em Grego, segundo Wallace (2009) tem 138.162 palavras.[4] Uma estimativa dada por Komoszewski, Sawyer e Wallace (2006, p. 54) é que existem 400.000 diferenças ou erros entre os manuscritos gregos, sem contar as versões[5], poderíamos dizer que em média para cada palavra do Novo Testamento em Grego temos três opções. Porém, não devemos nos assustar com esses números, pois apenas mais ou menos 1% do texto Grego do Novo Testamento é afetado por esses erros, de modo a alterá-los de alguma forma significativa e possuindo alguma chance de ser o texto original, os outros 99% do texto os estudiosos não possuem duvidas, pois os erros que aparecem nos manuscritos são fáceis de serem identificados e corrigidos, ou não possuem chance de serem o texto original. Chamamos tecnicamente esses erros entre os manuscritos de variantes textuais.[6] E onde estão essas variantes que alteram o sentido do texto de alguma forma significativa e possuem alguma possibilidade de serem o texto original do Novo Testamento? Esses 1% (1.438)[7] do texto em Grego e suas variantes se encontram nas notas de roda pé (aparato crítico) da Bíblia em Grego da Sociedade Bíblica do Brasil, o GNT (The Greek New Testament), você também pode ver com mais facilidade todas essas variantes e quais as passagens bíblicas que são afetadas no livro: Variantes Textuais do Novo Testamento, do autor: Roger L. Omanson.[8]

São os críticos textuais que trabalham com essas variantes, eles utilizam vários argumentos textuais para dizer qual variante é mais provável de ser o texto original. Isso eles fazem se baseando nas evidências. As evidências são classificadas como sendo de natureza interna e externa. De acordo com Blomberg (2014) a evidência externa se refere ao número e à natureza dos manuscritos que apoiam cada leitura variante. E a evidência interna é a avaliação das mudanças que um copista provavelmente faria, intencionalmente ou não, bem como o que o autor original provavelmente teria escrito. 

Conforme Porter e Pitts (2015), existem diversas metodologias utilizadas para a reconstrução do texto Grego do Novo Testamento e entre elas estão: a abordagem genealógica, a do texto majoritário, os métodos ecléticos e o modelo de texto único. Cada metodologia dá uma certa ênfase as evidências e dessa forma dependendo da metodologia adotada teremos um texto diferente. 

Apesar de ter mencionado quatro metodologias que podem ser adotadas na reconstrução do texto Grego do Novo Testamento, nessa pesquisa defendo o ecletismo ponderado, pois, ela é a metodologia mais coerente e adequada para o Novo Testamento, porque ela dá a mesma importância as evidências (interna e externa). O método eclético possui duas categorias, o ecletismo rigoroso e o ponderado. O motivo pelo qual eu não adoto o ecletismo rigoroso é porque ele não dá muita importância as evidências externas, um crítico textual que se considera um eclético rigoroso é Keith Elliott, o seu posicionamento é que o final do evangelho de Marcos foi perdido.[9] E ao dar ênfase as evidências internas ele não leva em consideração ao tomar esse posicionamento o fato de que provavelmente o evangelho de Marcos foi escrito em formato de rolo, e nesse tipo de manuscrito o final é o mais protegido, então o último texto que poderia ser perdido é justamente o final, mas o ecletismo rigoroso ao dar ênfase as evidências internas, não leva em consideração essas informações das evidências externas. 

O ecletismo rigoroso é um extremo, do outro lado, na outra extremidade se encontra os defensores do texto majoritário, dando ênfase as evidências externas. Esse extremo também deve ser evitado por uma questão simples de logica. Os defensores do texto majoritário advogam a causa de que o texto original do Novo Testamento está preservado na maioria dos manuscritos, porém, se um texto falso foi copiado mais vezes do que o texto original isso faria o texto falso se tornar o texto original? Claro que não, uma mentira contada milhares de vezes não se torna verdade, por esse motivo a maioria dos críticos textuais rejeitam a abordagem do texto majoritário. A questão aqui não é poucos manuscritos versus milhares de manuscritos, mas é um texto preservado em poucos manuscritos contra um texto preservado em milhares de manuscritos. É um contra um. Qual é o mais provável de ser o texto original? Onde as evidências nos levam? A crítica textual é mais complexa do que simplesmente contar manuscritos como os defensores do texto Majoritário fazem. 

E, é justamente essa complexidade que faz com que o método genealógico se torne inadequado para a reconstrução do texto Grego do Novo Testamento. Diferente do Alcorão, o Novo Testamento não teve sua distribuição controlada. Quando Paulo escreveu a carta aos Romanos, ele a enviou por meio de uma irmã chamada Febe, e depois disso, ele não tinha mais controle sobre o texto de sua carta. Cada cristão quando podia, sempre estava fazendo uma cópia do seu livro para preservar para a posteridade o texto das Escrituras. Dessa forma, é muito difícil dizer de que manuscrito um manuscrito do Novo Testamento foi copiado, dificultando a reconstrução de uma árvore genealógica.

Enquanto os defensores do texto majoritário dão ênfase as evidências externas, o modelo de texto único utiliza apenas as evidências externas e não dá valor algum as evidências internas. Em conformidade com Porter e Pitts (2015), o modelo de texto único propõe o uso de um único manuscrito antigo, tendo por objetivo apresentar um texto que era realmente usado pela igreja antiga, deixando as responsabilidades críticas do texto com os editores antigos, que teriam acesso a manuscritos anteriores e melhores do que os editores modernos. O problema desse método é que ele não leva em consideração as evidências internas. Existem erros ortográficos claros nos manuscritos antigos, mas esse método consideraria o erro gráfico, como o texto mais provável a ser o original, isso é incoerente.

Portanto, vamos analisar o final do evangelho de Marcos utilizando o ecletismo ponderado, método que como eu já exprimi é o mais apropriado para a reconstrução do texto Grego do Novo Testamento. 


O FINAL DO EVANGELHO DE MARCOS, AUTÊNTICO OU NÃO?


Poderíamos dizer que o final do evangelho de Marcos (16.9-20) tem um problema textual um pouco complexo. Pois, a questão não é simplesmente se o final faz ou não faz parte do evangelho, como se tivéssemos apenas duas opções, na verdade, entre os manuscritos Grego do Novo Testamento que sobreviveram existem quatro opções, de uma forma simplista são essas opções informada por Omanson (2010, pp. 103, 104):


1. O evangelho de Marcos acaba no capítulo 16, e o versículo 8.

2. O evangelho de Marcos acaba no capítulo 16, e o versículo 20.

3. O evangelho de Marcos acaba no capítulo 16, e o versículo 20, mas antes do versículo 9 há o seguinte acréscimo: “Elas narraram brevemente a Pedro e seus companheiros o que lhes havia sido anunciado. E, depois dessas coisas, o próprio Jesus enviou por meio deles, do Oriente ao Ocidente, a sagrada e incorruptível proclamação da salvação eterna. Amém”.

4. O evangelho de Marcos acaba no capítulo 16, e o versículo 20, mas depois do versículo 14 há o seguinte acréscimo: “E eles alegaram em sua defesa: ‘Este tempo de iniquidade e incredulidade está sob o domínio de Satanás, que não permite que a verdade e o poder de Deus prevaleçam sobre as coisas impuras dos espíritos [ou, que não permite que quem está sob o poder dos espíritos imundos apreenda a verdade e o poder de Deus]. Por isso, revela agora a tua justiça’. Foi o que disseram a Cristo, e Cristo lhes respondeu: ‘O fim dos anos do poder de Satanás se cumpriu, mas outros acontecimentos terríveis se aproximam. E eu fui entregue à morte por aqueles que pecaram, para que retornem à verdade e não pequem mais, a fim de que sejam herdeiros da glória de justiça espiritual e incorruptível que está no céu”.


Como bem sabemos a verdade é absoluta e não relativa, então as quatro opções não podem estar corretas, apenas uma está e as outras três não. Dessas quatro opções duas tem possibilidade real de serem o texto original, que são as opções 1 e 2, as evidências textuais em favor das opções 3 e 4 são pobres, dificilmente você encontraria alguém defendendo-as como sendo provável de ser o texto original. Por outro lado, encontramos estudiosos defendendo as opções 1 e 2, a maioria dos críticos textuais estão convencidos de que a opção 1 é a mais provável de ser a correta, os motivos alistados por Omanson (2010, pp. 102, 103) para chegarmos a essa conclusão são as seguintes:


1. Os doze últimos versículos (16.9-20) não aparecem nos dois mais antigos manuscritos Grego, no manuscrito Bobiense da Antiga Latina, no manuscrito da siríaca sinaítica, em mais ou menos cem manuscritos armênios, e nos dois mais antigos manuscritos georgianos.

2. Os pais da igreja Clemente de Alexandria (segundo século) e Orígenes (terceiro século) não dão mostras de que sabiam da existência desses doze versículos. Eusébio (quarto século) e Jerônimo (quinto século) afirmam que esses versículos estavam ausentes de quase todas as cópias gregas de Marcos que eles conheciam.

3. Vários manuscritos que contêm esses versículos trazem notas de copistas dando conta de que cópias gregas mais antigas não tinham esse texto. Em outros manuscritos, essa passagem traz sinais que os copistas colocavam no texto para indicar que se tratava de um acréscimo ao documento.

4. O vocabulário e o estilo desse final mais longo diferem do resto do Evangelho de Marcos, e isto sugere que os versículos 9-20 não são originais. Existem também certas incoerências entre os versículos 1-8 e os versículos 9-20. Um exemplo de incoerência é a reaparição de Maria Madalena, no versículo 9, onde ela já tinha sido mencionada em 15.47 e 16.1, outra coisa a chamar a atenção é o fato das outras mulheres não serem também mencionada no versículo 9.


Essas e outras razões fazem quem entende sobre crítica textual acreditar que o final do evangelho de Marcos não é autêntico. Porém, embora o final do evangelho de Marcos (9-20) provavelmente não seja autêntico, no entanto, precisamos reconhecer que essa variante textual é antiga, pois, concordando com Omanson (2010), os pais da igreja Irineu, Diatessarão e provavelmente também Justino Mártir (todos do segundo século) conheciam ou dão a entender que conheciam esse final mais longo em seus escritos. Provavelmente, o final do evangelho de Marcos (9-20) foi adicionado por volta da primeira metade do segundo século para dar ao Evangelho um final mais apropriado. Esse final ficou conhecido popularmente a partir da King James Version e outras traduções do textus receptus, como a tradução de João Ferreira de Almeida.

Os defensores do texto majoritário consideram esse final (9-20) como sendo autêntico porque eles se encontram na maioria dos manuscritos Grego, entretanto, as evidências são esmagadoramente contraria a essa ideia, como já foi demonstrado.


COMO OS CRISTÃO DEVEM LIDAR COM ESSAS INFORMAÇÕES?


A pesar desses versículos (9-20) não poderem ser considerados como fazendo parte do Evangelho de Marcos, nenhum cristão deveria hesitar em lê-los como Sagrada Escritura, essa é a conclusão de F. F. Bruce[10] (1945, pp. 180, 181) em um de seus artigos, o motivo disso é bem simples: os ensinos que aparecem nesses versículos (9-20) são encontrados em outras partes da Bíblia. 

Esses são os paralelos que Bruce (1945) apresenta: os versículos 9 e 10 com João 20.11-18; versículo 11 com Lucas 24.11; versículos 12 e 13 com Lucas 24.13-35; versículo 14 com João 20.19; os versículos 15 e 16 com Mateus 28.16-20; versículo 19 com Lucas 24.50; os versículos 17, 18 e 20 possuem paralelos com as atividades dos apóstolos no livro de Atos.

A forma como os cristãos devem tratar essa questão pode ser ilustrada com o que acontece frequentemente nos círculos de oração de muitas igrejas evangélicas. Quem nunca foi a um círculo de oração e ouviu um irmão ou irmã citando Jó 14.7-9 trazendo uma mensagem de esperança para causas perdidas? Quando esse capítulo do livro de Jó não ensina nada sobre isso, na verdade o capítulo 14 do livro Jó é uma suplica de Jó a Deus, dizendo que a vida do homem é breve (Jó 14.1, 2), pedindo descanso de seu sofrimento porque até um trabalhador no final do dia tem descanso (Jó 14.6), e que embora uma arvore possa voltar a viver com um pouco de água (Jó 14.7-9), o homem não (Jó 14.10), o homem morre e não volta a viver (Jó 14.12), se os seus filhos estão em honra ele não sabe, se minguados ele não percebe (Jó 14.21). Pregar mensagem de esperança para causas perdidas se baseando em Jó 14.7-9 está errado no sentido que o texto não ensina isso, porém não está errado no sentido de que a Bíblia não ensina isso, a pessoa apenas está escolhendo o texto errado para trazer aquela mensagem, demonstrando não saber sobre o que está falando.[11]

De forma semelhante é assim que os cristãos devem lidar com o final do evangelho de Marcos (16.9-20). Esse final mais longo provavelmente não faz parte do evangelho de Marcos, mas se alguém prega sobre ele não há problemas, porque os ensinos encontrados nesses versículos podem ser encontrados em outras partes da Bíblia.


CONCLUSÃO


Para muitos é difícil compreender como um texto bíblico conhecido não faz parte das Escrituras. Mas, o importante a se ter em mente é que todas essas questões não alteram o essencial do Cristianismo. Então, nenhum cristão deveria se escandalizar ao tomar conhecimento acerca das variantes textuais da Bíblia, na verdade os cristãos que tem contato com essas informações deveriam se sentir privilegiados por Deus e se tornarem cristãos mais fortes e maduros, com uma consciência solida e sóbria acerca dessas questões bíblicas.


NOTAS: 


[1] Formado no Curso Livre em Teologia da ESTEADEB (Escola de Teologia das Assembleias de Deus no Brasil). Atualmente estudando teologia no IALTH (Instituto Aliança de Linguística, Teologia e Humanidades), e Grego no curso de extensão da UFC (Universidade Federal do Ceará). E-mail: Leandro.m.j.1991@gmail.com

[2] A Igreja Batista Redenção não acredita na atualidade dos dons espirituais, principalmente no batismo do Espírito Santo com a evidência do falar em línguas. Confira o decimo ponto dos seus traços distintivos, disponível em: <http://www.igrejaredencao.org.br/ibr/index.php?option=com_content&view=article&id=31&Itemid=107>. Acesso em: 09 set. 2022.

[3] A preservação do texto do Novo Testamento não é o tema dessa pesquisa, mas é minha convicção que o texto do Novo Testamento foi preservado. E, há boas razões para se acreditar nisso, você pode ler algumas delas na parte dois do livro: Reinventing Jesus: how contemporary skeptics miss the real Jesus and mislead popular culture (Reinventando Jesus: como os céticos contemporâneos deixa escapa o Jesus real e enganam a cultura popular), livro publicado pela Kregel Publications, cujo os autores são: J. Ed Komoszewski; M. James Sawyer; e Daniel B. Wallace.

[4] Essa é a quantidade de palavras da quarta edição do The Greek New Testament, hoje ele está na sua quinta edição, porém, só houve alterações em 30 palavras das epistolas católicas. A quinta edição foi publicada pela Sociedade Bíblica do Brasil com prefácio em português.

[5] As versões são as traduções do Novo Testamento em grego para os outros idiomas.

[6] Uma variante textual é simplesmente qualquer diferença de um texto padrão (por exemplo, um texto impresso, um manuscrito específico, etc.) que envolve ortografia, ordem de palavras, omissão, adição, substituição ou uma reescrita total do texto. Essa é a definição dada por Wallace, disponível em: <https://danielbwallace.com/2013/09/09/the-number-of-textual-variants-an-evangelical-miscalculation/>. Acesso em 09 set. 2022.

[7] Esse é o número de variantes tratadas no Novo Testamento Grego editado por Barbara Aland, Kurt Aland, Johannes Karavidopoulos, Carlos M. Martini e Bruce M. Metzger, esse número se encontra no prefácio da quarta edição.

[8] Esses 1% das variantes que alteraram o texto de alguma forma significativa elas não afetam as doutrinas essenciais do cristianismo, como por exemplo: a divindade de Jesus, seu nascimento virginal, sua ressureição corpórea, e a trindade.


[9] Você pode entender melhor a visão de Keith Elliott no livro: Perspectives on the Ending of Mark: Four Views, publicado pela editora: B&H Academic, cujo os autores são: Maurice Robinson, Darrell L. Bock, Keith Elliott e Daniel B. Wallace, o editor do livro é: David Alan Black.

[10] Teólogo escocês formado pelas universidades de Alberdeen, Cambridge e Viena. Depois de ensinar Grego durante vários anos, primeiro na Universidade de Edimburgo e depois na Universidade de Leeds, assumiu o departamento de história e literatura bíblica na Universidade de Sheffield, em 1947. Em 1959, mudou-se para a Universidade de Manchester (Inglaterra), onde permaneceu como professor de crítica e exegese bíblica até o dia de sua aposentadoria em 1978.

[11] Por exemplo, para se trazer uma mensagem de esperança para causas perdidas poderia ser escolhido a história da ressurreição de Lázaro (João 11.1-45), ou a convicção de Abraão considerando que Deus era poderoso para até dos mortos ressuscitar seu filho (Hebreus 11.18), para nós a morte é como o ponto final, o fim da história, mas para Deus a morte, de um ponto final, Ele pode transforma em uma virgula e dar continuidade a história do homem. Dessa forma, podemos ter esperança mesmo quando as esperanças se acabam, porque para Deus todas as coisas são possíveis (Marcos 10.27).


REFERÊNCIAS:


BLOMBERG, Craig L. Can We Still Believe the Bible? An evangelical engagement with contemporary questions. Brazos Press, 2014.


BRUCE, F. F. The End of the Second Gospel. The Evangelical Quarterly (1945): 169-181.


KOMOSZEWSKI, J. Ed. Reinventing Jesus: how contemporary skeptics miss the real Jesus and mislead popular culture. Kregel Publications, 2006.


OMANSON, Roger L. Variantes Textuais do Novo Testamento: Análise e avaliação do aparato Crítico de “O Novo Testamento Grego”. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 2010.


PAROSCHI, Wilson. Origem e Transmissão do Texto do Novo Testamento. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 2012.


PORTER, Stanley E.; PITTS, Andrew. Fundamentals of New Testament Textual Criticism. Wm. B. Eerdmans Publishing Co, 2015.


WALLACE, Daniel B. Gramática Grega: uma sintaxe exegética do Novo Testamento. São Paulo: Editora Batista Regular do Brasil, 2009.