Por Walson Sales
A lógica é fundamental no estudo da teologia cristã, pois nos ajuda a pensar de maneira clara, coerente e racional ao examinarmos as Escrituras e a doutrina. Tenho encontrado alunos do curso de teologia que carecem de um conhecimento mais profundo e um entendimento claro das doutrinas, além de dificuldade em identificar erros lógicos ou heresias. Isso se deve à falta de treinamento em lógica aplicada à teologia. A fé cristã, embora baseada em revelação divina, também se apresenta como uma fé racional, que pode ser defendida e explicada de forma lógica.
O uso da lógica permite que compreendamos melhor os ensinamentos bíblicos e protejamos nossa fé contra erros doutrinários e heresias. Deus nos criou como seres racionais, e o próprio Jesus usou argumentos lógicos para responder aos fariseus e saduceus, mostrando a importância da razão dentro do contexto da fé.
AS PRINCIPAIS LEIS DA LÓGICA E EXEMPLOS BÍBLICOS
1. Lei da Identidade
- Definição: Esta lei afirma que "uma coisa é o que é". Ou seja, cada coisa é idêntica a si mesma.
- Exemplo Bíblico: Em Êxodo 3:14, Deus se revela a Moisés dizendo: *"EU SOU O QUE SOU."* Essa é uma declaração clara de identidade, onde Deus afirma Sua natureza imutável e constante. Deus é o mesmo ontem, hoje e sempre.
2. Lei da Não Contradição
- Definição: Esta lei estabelece que uma afirmação não pode ser verdadeira e falsa ao mesmo tempo e no mesmo sentido. Ou seja, duas proposições contraditórias não podem ser ambas verdadeiras.
- Exemplo Bíblico: Em João 14:6, Jesus declara: *"Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida. Ninguém vem ao Pai, senão por mim."* Esta afirmação implica que, se Jesus é o único caminho, então não pode haver outro caminho para Deus. O cristianismo rejeita o pluralismo religioso porque isso violaria a lei da não contradição.
3. Lei do Terceiro Excluído
- Definição: Esta lei diz que uma afirmação ou é verdadeira ou é falsa, não existe uma terceira opção. Algo ou é ou não é.
- Exemplo Bíblico: Em Mateus 12:30, Jesus ensina: *"Quem não é comigo é contra mim."* Aqui, Jesus aplica o princípio do terceiro excluído, mostrando que não há neutralidade quanto à lealdade a Ele: ou uma pessoa está com Cristo ou contra Cristo.
4. Lei da Causalidade
- Definição: Tudo o que tem um começo deve ter uma causa. Cada efeito tem uma causa proporcional.
- Exemplo Bíblico: Gênesis 1:1 diz: *"No princípio, criou Deus os céus e a terra."* Este versículo estabelece Deus como a causa primeira e fundamental de toda a criação. Nada surge do nada; o universo foi causado por Deus.
ARGUMENTOS DEDUTIVOS, INDUTIVOS E ABDUTIVOS NA TEOLOGIA CRISTÃ
Os tipos de argumentos usados na lógica — dedutivo, indutivo e abdutivo — são extremamente úteis na construção e defesa da teologia cristã. Vejamos como cada um desses argumentos se aplica ao estudo da Bíblia e da doutrina.
1. Argumentos Dedutivos
- Definição: Um argumento dedutivo parte de premissas gerais para chegar a uma conclusão específica que deve ser verdadeira, desde que as premissas sejam verdadeiras.
Exemplo 1: Divindade de Jesus
- Premissa 1: Só Deus pode salvar (Isaías 43:11).
- Premissa 2: Jesus é o nosso Salvador (Tito 2:13).
- Conclusão: Logo, Jesus é Deus (João 10:30).
Exemplo 2: Origem do Universo
- Premissa 1: Tudo que tem um início tem uma causa.
- Premissa 2: O universo teve um início (Gênesis 1:1).
- Conclusão: Portanto, o universo tem uma causa (Atos 17:24).
Exemplo 3: Inerrância da Bíblia
- Premissa 1: Deus não pode errar (Tito 1:2).
- Premissa 2: A Bíblia é a Palavra de Deus (2 Timóteo 3:16).
- Conclusão: Logo, a Bíblia está isenta de erros.
Nota sobre possíveis contradições: Santo Agostinho afirmou que, se encontrarmos uma aparente contradição na Bíblia, devemos considerar três possibilidades:
a. Pode haver um erro de tradução.
b. Pode haver um erro do copista que transmitiu o texto.
c. Nós não estamos entendendo corretamente a passagem.
Essa visão de Agostinho nos lembra que, embora a Bíblia seja inerrante em seus ensinamentos originais, devemos abordar qualquer dificuldade com humildade, reconhecendo a possibilidade de erros humanos na transmissão ou interpretação, ou falhas no nosso entendimento.
2. Argumentos Indutivos
- Definição: Um argumento indutivo é aquele que parte de premissas específicas para chegar a uma conclusão geral, embora a conclusão seja provável e não necessariamente certa.
Exemplo Bíblico:
-Premissa 1: No Antigo Testamento, Deus protegeu e abençoou Israel quando o povo obedecia a Seus mandamentos (Deuteronômio 28:1-2).
- Premissa 2: No Novo Testamento, Jesus ensina que aqueles que seguem Seus mandamentos e permanecem Nele serão abençoados (João 15:7-8).
- Conclusão: Obedecer a Deus e seguir Seus mandamentos traz bênçãos e proteção em qualquer contexto.
Importância: O argumento indutivo aqui mostra que, com base em exemplos específicos da Bíblia, podemos generalizar que obedecer a Deus sempre traz bênçãos, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento. Essa conclusão, embora seja provável, depende da análise de vários exemplos bíblicos e da interpretação de cada contexto. Logo, perceba que o argumento indutivo é probabilístico.
3. Argumentos Abdutivos
- Definição: A abdução é um tipo de inferência onde se escolhe a melhor explicação para um conjunto de dados ou evidências. Diferente da indução e dedução, o argumento abdutivo busca a explicação mais plausível.
Exemplo Bíblico:
- Premissa 1: A tumba de Jesus estava vazia (Mateus 28:6).
- Premissa 2: As aparições de Jesus foram testemunhadas por muitas pessoas (1 Coríntios 15:6).
- Conclusão: A melhor explicação para esses eventos é que Jesus realmente ressuscitou dos mortos, como Ele predisse (Mateus 16:21).
Importância: A abdução é frequentemente usada na apologética cristã, particularmente em argumentos sobre a ressurreição de Jesus (criação do universo e outros eventos), onde os fatos são melhor explicados pela ressurreição literal.
A FALÁCIA DA PETIÇÃO DE PRINCÍPIO NA TEOLOGIA CRISTÃ
1. Definição da Petição de Princípio
- Definição: A petição de princípio, ou "begging the question", é uma falácia onde a conclusão que se busca provar já está assumida nas premissas. É um argumento circular.
2. Exemplo Bíblico:
- Argumento falacioso: "A Bíblia é verdadeira porque eu acredito que a Bíblia é verdadeira."
- Esse é um exemplo clássico de petição de princípio, em que a confiabilidade da Bíblia é assumida com base em uma crença pessoal, sem fornecer uma base externa para justificar a premissa.
3. Porque a crença pessoal não empresta autoridade à veracidade da Bíblia:
- A crença de uma pessoa na verdade da Bíblia, por mais sincera que seja, não torna a Bíblia verdadeira. A autoridade da Bíblia vem de sua origem divina e das evidências históricas, proféticas e lógicas que corroboram sua inspiração. A crença pode ser importante no âmbito pessoal, mas a veracidade de uma afirmação deve ser avaliada com base em sua correspondência com a realidade e em provas objetivas. Não se esqueça, sempre falo isso nas aulas de Apologética Cristã na Esteadeb: existe uma diferença abissal entre SABER que o Cristianismo é verdadeiro e DEMONSTRAR que o Cristianismo é verdadeiro. A petição de princípio é bastante recorrente quando o cristão tem clareza de que o Cristianismo é verdadeiro, mas não tem a mínima condição de fornecer razões, evidências e justificativas pelas quais pode fundamentar suas crenças.
4. Como Evitar a Petição de Princípio:
- A teologia cristã evita a petição de princípio ao construir argumentos baseados em evidências externas e racionais, como a arqueologia, a história e a filosofia. Por exemplo, a autenticidade da ressurreição de Jesus não é defendida apenas com base no texto bíblico, mas também em fontes históricas e evidências fora da Bíblia, como os escritos de Flávio Josefo.
5. Importância de Evitar Falácias:
- Ao evitar falácias como a petição de princípio, a teologia cristã pode apresentar um discurso mais robusto e defensável, especialmente no campo da apologética.
IDENTIFICANDO OUTRAS FALÁCIAS LÓGICAS COMUNS
A lógica nos ajuda a evitar erros de raciocínio e a construir argumentos sólidos. É crucial identificar falácias que muitas vezes enfraquecem o discurso, inclusive no contexto bíblico e teológico. Aqui estão algumas falácias comuns:
1. Falácia do Apelo à Autoridade (Argumentum ad Verecundiam)
- Definição: Esta falácia ocorre quando alguém apela à autoridade de uma pessoa ou instituição para validar uma afirmação, sem oferecer argumentos sólidos ou evidências.
- Exemplo Bíblico: "Os fariseus disseram: 'Nós somos discípulos de Moisés. Sabemos que Deus falou a Moisés, mas quanto a este homem (Jesus), não sabemos de onde ele vem'” (João 9:28-29).
- Os fariseus apelaram à autoridade de Moisés para rejeitar Jesus, sem considerar a legitimidade dos milagres e ensinamentos de Jesus.
Como evitar: Em vez de confiar apenas em autoridades, é importante apoiar argumentos com fatos e raciocínio sólido, mesmo que uma autoridade seja citada.
2. Falácia Ad Hominem
- Definição: O ataque pessoal (ad hominem) ocorre quando alguém ataca a pessoa que está fazendo um argumento, em vez de lidar com o conteúdo do argumento.
- Exemplo Bíblico: "Os judeus lhe responderam: 'Não temos razão em dizer que você é samaritano e está endemoninhado?'” (João 8:48).
- Em vez de responder às palavras de Jesus, os líderes religiosos o insultaram, atacando sua pessoa.
Eu tenho um exemplo bem interessante para ilustrar. Quando traduzi o capítulo 5 do livro de Dave Hunt, Que Amor é Este? A Falsa Representação de Deus no Calvinismo, e esse artigo foi publicado em diversos sites, os calvinistas começaram a atacar a pessoa de Dave Hunt (porque o capítulo desmantela a figura histórica de João Calvino). O que eles diziam sobre Dave Hunt? Que ele era fraco porque não era formado em teologia. Então, fui analisar as fontes utilizadas por Dave Hunt neste capítulo e percebi que ele fez 78 citações, inclusive de muitos calvinistas, mas ele tinha 5 citações principais:
I. Bernard Cottret, principal biógrafo de Calvino;
II. Philip Schaff, pastor e historiador calvinista;
III. Will Durant, historiador, autor da obra História da Civilização;
IV. Stefan Zweig, o historiador que analisou as atas da igreja de Genebra do século 16; e, por incrível que pareça,
V. João Calvino, em suas famosas Cartas Francesas.
Os calvinistas não precisavam atacar a pessoa de Dave Hunt, apenas provar que as fontes que ele citava não eram verdadeiras, o que não foi o caso, pois todas são legítimas.
3. Falácia Genética
- Definição: Esta falácia ocorre quando alguém tenta desacreditar uma ideia com base em sua origem ou fonte, em vez de considerar seus méritos ou argumentos.
- Exemplo Bíblico: "E Natanael disse-lhe: 'Pode vir alguma coisa boa de Nazaré?'” (João 1:46).
- Natanael inicialmente descartou a possibilidade de Jesus ser o Messias com base em sua origem, sem considerar quem Jesus realmente era.
Como evitar: Julgue uma ideia ou argumento com base em seus méritos, não em sua origem ou fonte.
4. Falsa Dicotomia
- Definição: Apresenta apenas duas opções quando podem existir outras.
- Exemplo: "Ou você acredita na Bíblia ou na ciência." Isso ignora a possibilidade de que ambas podem coexistir.
Quem recorre frequentemente à falácia da falsa dicotomia é o Dr. Marcos Eberlin, pois ele sempre deixa subentendido em seus discursos que só existem duas opções no que diz respeito à criação e à evolução, a saber: a Teoria Evolucionista (ateísta, materialista, naturalista) e o Criacionismo da Terra Jovem (a ideia de que o universo tem 6 mil anos). Isso, no entanto, não é verdade. Existem outras teorias criacionistas que levam em consideração uma interpretação literal do texto bíblico, mas que não acreditam que o universo tenha 6.000 anos. Temos uma aula no curso de Apologética Cristã que explica cada uma das teorias criacionistas, demonstrando que essa dicotomia é falsa.
5. Argumento do Espantalho
- Definição: Distorce o argumento do oponente para torná-lo mais fácil de atacar.
- Exemplo: "Os cristãos acham que tudo é fácil e não precisamos fazer nada; por isso, não precisamos trabalhar." Essa simplificação ignora a verdadeira mensagem do cristianismo sobre fé e obras.
SUGESTÃO DE EMENTA DE LÓGICA PARA UM CURSO DE TEOLOGIA OU PARA UM CRONOGRAMA DE ESTUDO PESSOAL
Curso: Lógica Aplicada à Teologia Cristã
Objetivo: Capacitar estudantes de teologia a pensar de maneira clara, crítica e coerente ao formular e defender doutrinas bíblicas, evitando falácias e raciocínios incorretos, e aplicando princípios lógicos no estudo e na prática da fé cristã.
1. Introdução à Lógica
- O que é lógica?
- A importância da lógica no estudo teológico.
- Tipos de raciocínio: dedutivo, indutivo, abdutivo.
2. As Leis Fundamentais da Lógica
- Lei da Identidade.
- Lei da Não Contradição.
- Lei do Terceiro Excluído.
- Lei da Causalidade.
3. Argumentos Dedutivos, Indutivos e Abdutivos na Teologia
- Definições e exemplos bíblicos.
- Aplicações no estudo teológico e apologética.
4. Falácias Lógicas Comuns e Como Evitá-las
- Petição de princípio.
- Falácia do Apelo à Autoridade.
- Ad Hominem.
- Falácia Genética.
-Falácia da Falsa Dicotomia.
- Falácia do Espantalho.
5. Lógica e Apologética Cristã
- Construção de argumentos sólidos para a defesa da fé.
- Como identificar e refutar argumentos falaciosos de céticos e ateus.
6. Estudo de Casos Bíblicos Aplicados
- Análise de debates e diálogos de Jesus e os apóstolos à luz da lógica.
- Exemplos práticos de uso da lógica na interpretação das Escrituras.
Conclusão
A lógica é essencial para o estudo da teologia cristã, pois nos ajuda a construir e defender argumentos sólidos baseados nas Escrituras. Ao usar os princípios dedutivos, indutivos e abdutivos, podemos compreender e comunicar as verdades bíblicas de forma mais clara e eficaz. Além disso, ao aprender a identificar falácias, como o apelo à autoridade, ad hominem e a falácia genética, podemos evitar erros de raciocínio que enfraquecem a defesa da fé.
Ao integrar a lógica ao estudo teológico, estamos cumprindo o mandamento de amar a Deus de todo o nosso entendimento (Mateus 22:37), e isso nos capacita a sermos defensores mais eficazes da verdade cristã em um mundo cada vez mais cético.
Literatura utilizada e sugerida:
1."Logic: A God-Centered Approach to the Foundation of Western Thought" - Vern S. Poythress
-Descrição: Explora como a lógica está fundamentada em Deus e sua revelação, sendo relevante para estudantes de teologia ao demonstrar a importância da lógica para a fé cristã.
2."Come, Let Us Reason: An Introduction to Logical Thinking"- Norman L. Geisler & Ronald M. Brooks
- Descrição: Introduz a lógica aplicada ao raciocínio teológico, abordando falácias comuns, categorização lógica e análise crítica, com exemplos do contexto bíblico.
3."Being Logical: A Guide to Good Thinking" - D.Q. McInerny
- Descrição: Uma introdução clara e acessível à lógica, com foco na argumentação e no pensamento crítico, aplicável no contexto da teologia para lidar com argumentos doutrinários.
4."Informal Logic: A Pragmatic Approach"- Douglas Walton
- Descrição: Um guia sobre lógica informal que trata da análise de argumentos do cotidiano, essencial para identificar falácias e aprimorar a habilidade de debate teológico.
5. "Introdução à Lógica" - Irving M. Copi e Carl Cohen
- Descrição: Um clássico no ensino da lógica, abrangendo tanto a lógica formal quanto a informal. Embora técnico, oferece uma sólida base para a análise de argumentos teológicos.
6. "Filosofia e Cosmovisão Cristã" - J.P. Moreland & William Lane Craig
- Descrição: Conecta a lógica com a filosofia e a teologia cristã, abordando como construir uma visão de mundo coerente e como a lógica ajuda a defender a fé cristã.
7."Lógica Elementar" - Newton da Costa e Décio Krause
- Descrição: Livro introdutório sobre lógica formal escrito por autores brasileiros, com uma abordagem didática para a análise de argumentos filosóficos e teológicos.
8. "Logical Fallacies: The Key to Proving Christians Wrong" - Matt Slick
- Descrição: Livro focado em identificar e refutar falácias lógicas, especialmente nas discussões sobre teologia e religião.
9. "Lógica para Teólogos" - João Virgilio Tagliavini
- Descrição: Voltado para estudantes de teologia, este livro introduz conceitos lógicos de forma acessível, ajudando na interpretação e argumentação teológica.
10. "The Philosophy of Logical Atomism" - Bertrand Russell
- Descrição: Embora não seja específico para a teologia, trata da filosofia da lógica, podendo ser aplicado em análises teológicas mais profundas.
11. "A Construção do Argumento" - Anthony Weston
- Descrição: Um guia prático para desenvolver e avaliar argumentos eficazes. Muito útil para estudantes de lógica, especialmente para aprimorar a clareza e coerência nos debates teológicos.
12."Enciclopédia de Apologética: Respostas aos críticos da fé cristã"- Norman Geisler
- Descrição: Uma obra de referência essencial que oferece uma defesa lógica e bem fundamentada da fé cristã. Serve como apoio ao estudo da lógica aplicada à apologética, oferecendo respostas sólidas a objeções comuns.
Essa lista reúne livros importantes para o estudo da lógica no contexto da teologia, incluindo fundamentos teóricos, guias práticos e referências apologéticas detalhadas.