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segunda-feira, 15 de julho de 2019

O argumento cosmológico Tomista

Por Tim Hsiao
O argumento cosmológico tomista tenta raciocinar a partir da existência de seres dependentes até a existência de Deus. De acordo com esse argumento, a existência atual de seres dependentes só pode ser explicada por um ser independente que os sustenta atualmente e ativamente. Podemos formular uma versão do argumento da seguinte forma:
Existem seres dependentes.
Se algo é um ser dependente, então sua existência continuada deve ser sustentada por outra coisa.
Se um ser dependente é sustentado por alguma outra coisa, então a cadeia de seres sustentados regride infinitamente ou termina em um ser independente que não é ele mesmo sustentado.
A cadeia de seres sustentados não pode regredir infinitamente.
Portanto, a cadeia de seres sustentados deve terminar em um ser independente que não é ele mesmo sustentado.
Vamos considerar as premissas.

Premissas 1 e 2
Um ser é dependente se sua existência continuada estiver condicionada a fatos externos a si mesmo. Após a reflexão, vemos que o mundo está cheio de exemplos de tais seres. Por exemplo, uma escultura de gelo é um ser dependente no sentido de que sua existência continuada é condicionada ao nível da temperatura. Se a temperatura subir acima do ponto de congelamento, a escultura derreterá e deixará de existir. Da mesma forma, você e eu somos seres dependentes, no sentido de que nossa existência continuada está condicionada a uma miríade de condições físicas, incluindo temperatura, pressão, entropia e as fortes forças nucleares que mantêm nossos átomos unidos. Se essas condições forem removidas ou radicalmente alteradas, deixaremos de existir.
Como esses exemplos mostram, se algo é dependente, então sua existência deve ser continuamente sustentada por outra coisa. Algo que é dependente não deixa de ser dependente. Enquanto permanecer no ser, continua a exigir uma causa para sustentar sua existência. Sua causa originária da existência pode deixar de existir, mas sua causa continuada de existência deve sempre existir ao lado dela. Assim, uma escultura de gelo pode continuar a existir se o seu escultor morrer, mas não pode continuar a existir se a temperatura certa não se sustentar. Da mesma forma, meus pais são minha causa originária e eu posso existir mesmo se eles morrerem, mas minha existência continuada depende de fatores como temperatura, pressão, entropia e as várias forças que unem os átomos e moléculas que me compõem. Se estes forem removidos, deixo de existir.
Aqui está outra maneira de ver este ponto: se algo é dependente, então não está na sua natureza existir [1]. Em outras palavras, não tem que existir. Seu “estado padrão” é a inexistência. Mas se existir, então deve haver algo externo a ele que justifique sua existência. Além disso, sua existência deve ser continuamente explicada por essa fonte externa de ser. Por quê? Bem, uma vez que a existência não faz parte de sua natureza, ele não tem em si a fonte de seu ser [2]. Um exemplo pode ajudar. Considere um fantoche. Não é da natureza do boneco se mexer. Mas se o boneco está de fato em movimento, então deve ser porque está sendo continuamente atendido por uma causa externa. Se essa causa externa parar de agir no fantoche, o fantoche deixará de se mover.
A existência é muito parecida. Como não é da nossa natureza existir, o fato de existirmos deve ser explicado por uma causa externa que continuamente nos sustenta no ser. Ao pensar sobre a existência, devemos lembrar que a existência não é um evento único. É um processo contínuo que ocorre ao longo do tempo. Enquanto existir algo dependente, sua existência deve ser sustentada por causas externas que trabalham para mantê-lo em funcionamento.
Premissas 3 e 4
Quando se trata das causas sustentadoras, ou todo o processo de sustentação da causação pára em algum lugar ou continua eternamente sem fim. Agora, poderíamos ser tentados a considerar a última alternativa, mas, após uma reflexão acurada, a idéia de que poderia haver uma regressão infinita de seres sustentados é racionalmente insustentável.
Eis o porquê: em qualquer cadeia de seres sustentados, cada membro é um ser dependente. Agora, como vimos anteriormente, os seres dependentes são tais que eles não têm o seu próprio poder para existir: eles devem receber continuamente esse poder por uma causa externa. Consequentemente, cada membro da cadeia deve possuir um poder causal derivado: eles devem primeiro receber existência antes de poderem transmiti-la a outros. Mas se cada membro da cadeia é assim, então nenhum membro da cadeia pode transmitir existência. Isso ocorre porque cada membro da cadeia requer algo que nenhum outro membro da cadeia possui. Não adiantará dizer que cada membro da cadeia obtém sua existência do membro precedente da cadeia, uma vez que a questão em mãos é como o poder de transmitir existência existe dentro de toda a cadeia quando nenhum membro tem esse poder inerentemente.
Esse problema não é evitado postulando uma cadeia infinitamente longa: adicionar mais seres dependentes não muda o fato de que eles não têm poder causal em si mesmos e de si mesmos. Considere uma série infinita de engrenagens. Não importa quantas engrenagens existam na série, elas nunca se moverão sozinhas. Isso ocorre porque não está dentro da natureza das engrenagens se mover por si mesmas: elas devem receber esse poder por algo fora da cadeia de engrenagens. Se elas estão se movendo, então, deve ser porque há uma causa agindo sobre ela de fora da série de engrenagens. Da mesma forma, um pincel com uma alça infinitamente longa não se moverá sozinho, nem uma série infinita de vagões se moverá sem um motor.
Tem que haver um ser independente fora da cadeia de seres dependentes para transmitir o poder causal inicial para iniciar toda a cadeia. Este ser deve necessariamente ser independente, pois de outra forma nos deparamos com o problema que acabamos de considerar. Este ser deve ter poder causal em sua própria natureza, de tal modo que não depende de mais nada. Além disso, dado que os seres dependentes devem ser continuamente sustentados na existência, este ser independente deve continuamente dar poder causal à cadeia de seres dependentes.
Premissa 5
Juntando tudo isso, a cadeia de seres sustentados deve terminar em um ser independente que não seja ele mesmo sustentado. Ficamos com um sustentador final de todos os seres dependentes. Nas palavras do apóstolo Paulo, é um ser em que “vivemos e nos movemos e existimos”.
Mas por que este ser deve ser Deus? A razão é simples: o ser independente descrito pelo argumento é aquele cuja natureza é existir. Já que sua natureza é existir, não pode estar faltando nada, já que carecer de algo é a falta de algum tipo de existência. Ele deve, em outras palavras, possuir existência máxima. Mas possuir existência máxima é possuir todas as propriedades positivas (por exemplo, poder, conhecimento e bondade) em sua extensão máxima, enquanto não carece de nada. Portanto, o ser independente descrito pelo argumento também deve ser perfeito, pois é completo com relação ao seu ser.
Como Deus é, por definição, um ser perfeito (isso é exatamente o que queremos dizer com Deus), segue-se do argumento de que Deus existe.
Notas:
[1] da prova existencial de Aquino em De Ente et Essentia.
[2] Além disso, não pode causar sua própria existência porque isso exigiria que existisse antes que existisse, o que é uma autocontradição.
Fonte:
Tradução Walson Sales.