por Walson Sales
A relação entre ciência e teologia tem sido um ponto de discussão e até de tensão ao longo da história, especialmente quando se consideram as explicações que ambas as disciplinas oferecem para a origem do universo, a vida e o ser humano. No entanto, é possível abordar essa questão de forma construtiva ao considerar alguns princípios que podem orientar um entendimento mais harmônico entre elas. Robert Bowman, em seu curso "Introduction to Apologetics", oferece quatro princípios fundamentais que iluminam essa relação e ajudam a resolver conflitos comuns entre as duas áreas. Este artigo expandirá esses princípios, oferecendo uma reflexão mais profunda sobre as implicações teológicas, filosóficas e científicas de cada um deles.
1. Ciência Estuda a Natureza, Teologia Estuda a Revelação Divina
O primeiro princípio que Bowman destaca é a distinção fundamental entre as duas disciplinas. A ciência estuda a natureza e o mundo físico, enquanto a teologia estuda as Escrituras e a revelação de Deus. Embora ambas busquem a verdade, elas lidam com objetos diferentes: a ciência analisa os fenômenos naturais, enquanto a teologia interpreta os textos sagrados e a natureza divina revelada através deles.
Reflexão Teológica: A Bíblia não é um manual científico, mas é uma fonte confiável de revelação divina. Como nos ensina o teólogo Paul Tillich, a teologia busca entender o “último sentido da realidade” (Teologia Sistemática, p. 12), enquanto a ciência busca entender o funcionamento do mundo físico. Ambas as disciplinas podem se complementar, mas não devem ser confundidas.
Implicações Filosóficas: A distinção entre os objetos de estudo das duas áreas leva a uma análise crítica sobre como integramos a ciência e a teologia. Ao interpretar os textos sagrados, devemos ter em mente que o conhecimento científico pode esclarecer aspectos da criação, mas não substitui ou anula a revelação espiritual que se encontra nas Escrituras.
2. A Infalibilidade da Palavra de Deus
O segundo princípio de Bowman é que Deus não pode mentir ou enganar, e isso se reflete na infalibilidade da Sua palavra. A Bíblia é verdadeira e fidedigna, e, portanto, tudo o que ela diz pode ser confiado. No entanto, é importante reconhecer que, ao interpretar as Escrituras, devemos estar atentos ao contexto e ao significado original dos textos. Um exemplo citado por Bowman é Colossenses 1:17, que pode ser mal interpretado se lido de maneira superficial, sugerindo erroneamente que Jesus foi um ser criado, o que não é o caso.
Reflexão Teológica: A Bíblia deve ser lida e interpretada com cuidado, considerando o contexto histórico, literário e teológico. O teólogo John Stott, em "A Mensagem da Carta aos Colossenses" (p. 73), afirma que os textos devem ser entendidos à luz da totalidade das Escrituras, e não isoladamente.
Implicações Filosóficas: A filosofia da interpretação, ou hermenêutica, é crucial nesse ponto. Devemos ser humildes em nossa abordagem e reconhecer que nossa interpretação das Escrituras pode ser falível. Como nos ensina Hans-Georg Gadamer em "Verdade e Método" (p. 15), a interpretação está sempre sujeita ao horizonte de quem interpreta, o que exige um esforço constante de reavaliação e humildade.
3. Ciência e Teologia São Falíveis
O terceiro princípio que Bowman aborda é a falibilidade tanto da ciência quanto da teologia. Ambas as disciplinas são tentativas humanas de interpretar a realidade — a ciência, a realidade natural, e a teologia, a realidade espiritual e divina. Como os humanos são falíveis, também o são as nossas interpretações dos dados científicos e das Escrituras.
Reflexão Teológica: A teologia é uma disciplina humana, e, portanto, está sujeita a erros e distorções. A história da igreja está cheia de exemplos de interpretações teológicas errôneas que foram corrigidas ao longo do tempo. Isso nos ensina a importância de uma reflexão contínua e um diálogo saudável entre a teologia e as outras áreas do conhecimento, especialmente a ciência.
Implicações Filosóficas: A falibilidade humana nas interpretações nos leva a um ponto crucial da filosofia da ciência: o conceito de “revisão constante”. Thomas Kuhn, em "A Estrutura das Revoluções Científicas" (p. 78), fala sobre como a ciência avança por meio de paradigmas que são constantemente desafiados e revisados. Da mesma forma, a teologia deve estar aberta a novas interpretações, especialmente quando confrontada com descobertas científicas.
Uma Reflexão Importante Sobre a Interação Entre Bíblia e Ciência
Aqui cabe abrir um parêntese, pois o tema é extremamente delicado para nós, crentes na inspiração, inerrância e autoridade das Escrituras Sagradas.
A primeira reflexão necessária é que a Bíblia inspirada não pode mudar. Seus textos são imutáveis, infalíveis e supremamente autoritativos. No entanto, existem aspectos que a Bíblia afirma categoricamente, de forma clara e sem ambiguidades, e outros que demandam interpretação cuidadosa. Devemos sempre abordar o texto à luz do princípio hermenêutico de que "a Bíblia interpreta a si mesma". Além disso, é essencial considerar os diferentes contextos em que a revelação bíblica está inserida: imediato, distante, paralelo, revelacional (abrangendo tanto a revelação geral quanto a especial), bem como os contextos profético, histórico, geográfico, cultural, linguístico, social, moral, racional e lógico.
Outro ponto a ser destacado é que a interação entre Bíblia e ciência tem ocasionado revisões na forma como interpretamos certos textos bíblicos, assim como algumas descobertas científicas têm sido impactadas por dados presentes nas Escrituras. Essa relação, longe de comprometer a autoridade bíblica, enriquece nossa compreensão tanto da revelação divina quanto da criação.
Vamos a alguns exemplos históricos que ilustram essa interação:
1. O movimento dos corpos celestes e a perspectiva fenomenológica da Escritura
Até a chamada "Revolução Científica" (termo com nuances interpretativas), toda a Cristandade acreditava que a Terra era o centro do universo. Tal crença baseava-se, em parte, no relato de Josué, que descreve o sol parando no céu (Josué 10:12-13). Ora, se o sol "parou", concluiu-se que ele seria o astro em movimento ao redor da Terra.
Contudo, os estudos de Nicolau Copérnico, seguidos pelas evidências apresentadas por Galileu Galilei, demonstraram que o sistema solar é heliocêntrico, ou seja, os planetas, incluindo a Terra, orbitam o Sol. Diante disso, muitos se perguntaram: "Estaria o relato bíblico errado?"
A resposta foi elucidada pelo próprio Copérnico, que afirmou que o texto de Josué foi escrito sob uma perspectiva fenomenológica. O autor sacro descreveu o evento tal como foi observado – uma abordagem comum na literatura antiga – e não como seria analisado por critérios científicos modernos. Essa compreensão ajustou a disciplina da hermenêutica bíblica, destacando a importância de considerar quem fala no texto e a perspectiva adotada – seja fenomênica (observacional) ou numênica (totalizante).
Hoje, entendemos que expressões como "o sol nasce" ou "o sol se põe" são descrições fenomenológicas, baseadas no ponto de vista do observador. Não comprometem a verdade das Escrituras, mas refletem a maneira humana de perceber os fenômenos naturais.
2. A criação do universo e o Big Bang
Outro exemplo marcante é a descoberta de que o universo teve um início absoluto – um evento singular que trouxe à existência os quatro elementos fundamentais do nosso cosmos: tempo, matéria, espaço e energia. Essa descoberta, consolidada pela teoria do Big Bang, está em perfeita harmonia com a declaração de Gênesis 1:1:
"No princípio [tempo], Deus criou [do nada], os céus [espaço] e a terra [matéria]."
Até essa descoberta, a visão predominante na ciência era a de que a matéria era eterna e o universo não havia sido criado. A Bíblia, porém, há mais de 3.500 anos, já afirmava algo que a ciência só recentemente corroborou.
Reflexões Finais
Esses dois exemplos ilustram como ciência e teologia podem interagir de forma produtiva. O que aprendemos? Que a Bíblia permanece inerrante e inspirada, e que os dados da ciência, quando corretamente interpretados, jamais entram em contradição com as verdades reveladas por Deus. A questão crucial está na interpretação – tanto do texto bíblico quanto dos dados científicos.
Dessa forma, a interação entre ciência e teologia deve ocupar nossa atenção, inteligência e esforços. Que possamos, com humildade e zelo, prosseguir nessa jornada de investigação e descoberta, honrando o Criador em todas as coisas.
4. A Interconexão Entre Ciência e Teologia
O quarto e último princípio que Bowman expõe é a interação entre ciência e teologia. Embora ambas lidem com diferentes aspectos da realidade, elas podem lançar luz uma sobre a outra. A Bíblia fala sobre a criação, a origem da vida, o universo e a natureza humana, e a ciência também investiga essas mesmas questões. Logo, é possível que as duas disciplinas se complementem, desde que entendamos suas áreas de competência e limitação.
Reflexão Teológica: A teologia oferece respostas sobre o "porquê" das coisas: Por que Deus criou o universo? Qual é o propósito da criação? A ciência, por sua vez, lida com o "como" da criação: Como as estrelas se formaram? Como a vida surgiu? Ambas as áreas podem ser vistas como explorando diferentes dimensões da mesma realidade criada por Deus.
Implicações Filosóficas: A interação entre ciência e teologia também levanta questões sobre epistemologia — como conhecemos a verdade. O filósofo Alvin Plantinga, em "Warranted Christian Belief" (p. 42), argumenta que crenças religiosas podem ser epistemicamente justificadas de maneira similar a crenças científicas, quando bem fundamentadas. Assim, a ciência e a teologia não precisam entrar em conflito, mas podem ser entendidas como formas complementares de buscar a verdade.
Conclusão
A relação entre ciência e teologia não precisa ser marcada por um antagonismo irreconciliável. Os quatro princípios apresentados por Robert Bowman fornecem uma base sólida para entender como essas disciplinas podem interagir de maneira produtiva. A ciência estuda a natureza de Deus, e a teologia estuda Sua revelação nas Escrituras. Ambas são falíveis, mas confiáveis em seus próprios domínios, e ambas lidam com a mesma realidade, apenas sob perspectivas diferentes. Quando interpretadas corretamente, ciência e teologia podem se complementar, proporcionando uma visão mais rica e abrangente da criação e do Criador.
O desafio está em reconhecer os limites e as áreas de competência de cada disciplina, bem como em adotar uma postura humilde diante das interpretações falíveis, seja no campo científico ou teológico. Ao fazer isso, podemos enriquecer nossa compreensão do mundo e de Deus, caminhando em direção a uma síntese que reconhece e celebra a verdade que ambas as áreas, em suas falibilidades, estão tentando alcançar.