Há três razões principais por que muitos acadêmicos modernos acreditam que milagres não acontecem. Em primeiro lugar, alguns acreditam que a ciência refuta os milagres. A mais famosa enunciação dessa convicção vem do acadêmico do Novo Testamento e teólogo alemão, Rudolf Butmann, quando declarou que "o conhecimento e domínio que o homem tem do mundo avançou a tal ponto, em razão da ciência e da tecnologia, que não mais é possível que alguém defenda seriamente a visão de mundo do Novo Testamento'.
Os povos antigos simplesmente não tinham o entendimento das leis universais de causa e efeito que nós temos, e por isso acreditavam no que nós não podemos crer.
Em segundo lugar, outros admitem a possibilidade do miraculoso em teoria, mas insistem que , na pratica, sempre haverá uma probabilidade mais alta de que uma explicação naturalista se responsabilize pelo misterioso. A clássica exposição deste ponto de vista vem do filosofo escocês do século XVIII, David Hume, que defendeu essa afirmação enfatizando quão frequentemente a declaração de testemunhas confiáveis pode estra equivocada, quão frequentemente pessoas ingênuas e crédulas caem presas de interpretações equivocadas de eventos incomuns. Hume adotou um uniformitarianismo filosófico, isto é, declarando que uma pessoa não pode atribuir uma causa a um evento que não observou nem vivenciou diretamente ( nem obteve a informação de alguém que observou ou vivenciou o evento).
Finalmente, um terceiro argumento apela para os aparentes paralelos na antiga religião e mitologia. Historias similares eram contadas sobre os deuses e deusas gregos e romanos. Quase contemporâneos de Jesus, por exemplo, Apolônio, no mundo grego e Hanina bem Dosa ou Honi, o que faz chover, no mundo judeu, são considerados como tendo realizado milagres, alguns deles assombrosamente similares aos primeiros prodígios e maravilhas cristãos. Portanto, esse argumento tenta sugerir que nos interpretamos mal o gênero literário das historias de milagres bíblicos, que jamais teriam pretendido registrar fatos sérios, mas seriam relatos fictícios designados a ensinar lições teológicas. Classicamente estruturada nos meados dos séculos XIX por David Strauss, esta é hoje em dia a explicação dominante para as historias de milagres da Bíblia, entre o ramo mais cético dos acadêmicos. Cada um dos três argumentos merece uma resposta.
Respostas
Em resposta a reinvindicação cientifica, é importante enfatizar que em uma era pós-Einstein, pós- Heisenberg, os filósofos da ciência são cada vez menos dogmáticos sobre o que pode ou não acontecer, reconhecendo que a ciência, por definição , é o estudo do que é repetível, e por isso não pode avaliar a existência divina. Se Deus , por definição, é um ser sobrenatural que criou o universo, então nós devemos aceitar a possibilidade de que Ele ocasionalmente interrompa as leis cientificas normais de causa e efeito, para criar o que chamamos de milagre. Curiosamente, mesmo nesta era altamente tecnológica e cientifica, a substancial maioria dos norte-americanos adultos ainda crê em milagres, porque respostas dramáticas a orações e curas físicas instantâneas e inexplicáveis continuam a acontecer com excessiva frequência para que se possa negá-las. Por outro lado, devemos nos lembrar de que, já no período do Novo Testamento, as pessoas sabiam que os mortos normalmente não ressuscitam, e que os doentes não se curam instantaneamente. Muito frequentemente , nos declaramos a ingenuidade dos povos primitivos de maneira que simplesmente não são fieis a historia.
Embora ainda encontre adeptos, a objeção filosófica foi refutada a mais de três séculos. O testemunho de pessoas confiáveis ainda deve ser levado em consideração, mesmo se o que elas descrevem parece inacreditável. Algumas pessoas são ingênuas, mas não todas, e nem todas ao mesmo nível. Algumas certamente estão procurando milagres, e podem acreditar que os encontraram, por meio de algum processo de "cumprimento de desejos". Mas os céticos endurecidos também foram convertidos a fé cristã por causa dos milagres que decididamente não estavam procurando. E o uniformitarianismo prova: pelo seu critério, ninguém que viva os trópicos, em uma época diante da comunicação global e tecnológica moderna, teria qualquer razão para crer no gelo! Além disso, o uniformitarianismo marcara um determinismo antropológico ; isto é, ele não deixa espaço para que o livre-arbítrio humano crie uma nova causa para um evento jamais imaginado antes.
Quanto aos paralelos com outras religiões antigas, não é provável que sejam responsáveis por gerar as historias de milagres contidas nos Evangelhos e no livro de Atos. Os mitos clássicos grego-romanos eram sobre deuses e deusas que jamais viveram vidas humanas verdadeiras na terra. Nas raras ocasiões em que os milagres eram atribuídos a heróis humanos endeusados, como Asclépio ( embora mesmo então haja debates se este homem realmente existiu), ainda eram pessoas de séculos passados cujos retratos cresceram ao nível de lendas detalhadas somente depois de centenas de anos. Os milagres que aconteceram nos tempos do Novo Testamento em santuários dedicados a Asclépio provavelmente podem ser explicados pelo que hoje seria chamado de processos psicossomáticos. Apolônio de Tyana viveu depois da época de Cristo e a composição dos Evangelhos e do livro de Atos, de modo que as suas supostas curas e ressurreições não podem ter influenciado os primeiros relatos cristãos. Hanina teve milagres de curas atribuídos a ele, mas somente por meio da oração, ao passo que Cristo e os apóstolos ordenavam que as pessoas curadas diretamente, e elas realmente ficavam curadas. O único milagre atribuído a Honi, como sugere o seu apelido, foi ter feito chover, um tipo de milagre que jamais é retratado nos Evangelhos ou no livro de Atos. Mas, dada a fé cristã de que Deus realizou milagres por intermédio de judeus fieis, e de que Satanás pode realizar falsos milagres, não há razão necessariamente para rejeitar todas as histórias antigas de outros eventos aparentemente sobrenaturais.
Livro: Questões cruciais do Novo Testamento (Craig L. Blomberg)
Via Fabiana Ribeiro.