Compilado por Walson Sales
O período da Reforma Protestante ocorre entre 1453, ano da queda de Constantinopla, e 1648, fim da guerra dos trinta anos, que envolveu quase todas nações europeias, abrange cerca de dois séculos. O ano que assinala o começo da Reforma é 1517. Na manhã de 31 de outubro daquele ano Martinho Lutero afixou nas portas da Catedral de Wittenberg, Alemanha, um pergaminho que continha noventa e cinco teses ou declarações quase todas relacionadas com a venda de indulgências que denunciava como falsa essa prática e ensino.
As duas fases que antecederam a Reforma: a preparação interna e a preparação externa. Conforme já é de conhecimento geral, em épocas anteriores ao período de Martinho Lutero, muitas vozes reformadoras se levantaram dentro da igreja, ao custo da própria vida, contra os desvios doutrinários, eclesiais, éticos, morais e comportamentais do clero. Esses são conhecidos como os Movimentos de Protesto e/ou os Pré-Reformadores.
A preparação interna: Movimentos de Protesto e/ou os Pre-Reformadores. Uma das principais causas do fracasso da Igreja daquela época foi o descuido por parte de seus líderes para com o povo que a compunha. Os sacerdotes acomodados se davam por satisfeitos com o que prescrevia o rito latino o qual nem o povo e às vezes nem eles mesmo entendiam. Não devemos pensar que o povo ficou de todo calado diante de tanto desprezo sofrido sem lançar os seus protestos e condenação à vida acomodada e pecaminosa do clero. No início do século XII surgiram vários movimentos de oposição à atitude do clero e ao estado moral da Igreja por parte de vários homens.
Cláudio de Turim. Viveu entre os séculos VIII e IX , tendo morrido no ano 832. Foi bispo em Turim, grande cidade do Norte da Itália. Discípulo de Agostinho na Teologia, opôs-se, entretanto, ao sacerdotalismo. Cria no sacerdócio universal dos crentes (sem necessidade de mediadores, santos, sacerdotes); Tirou as imagens das igrejas que estavam sob sua jurisdição; Condenou o hábito da invocação dos santos; Não aprovou o costume das orações pelos mortos. Para que tenhamos uma ideia do valor de suas posições, é bom que lembremos que o Sétimo Concílio Ecumênico, realizado em Nicéia no ano 787, havia oficializado o culto às imagens.
Os Cataristas. Uma grande força de protesto contra a impureza da Igreja. Foi um poderoso partido religioso que se expandiu grandemente no fim do século XII alcançando o seu apogeu durante o século XIII. Na verdade era uma Igreja que possuía seu próprio ministério, sua organização, seu credo, seus cultos e seus sacramentos. Os Cataristas se espalharam pela Itália, França, Espanha, Países Baixos e Alemanha. Foram mais fortes no sudeste da França, onde foram chamados Albigenses (da cidade de Albi).
Os Valdenses. Os Valdenses fundaram uma ordem de evangelistas que viajavam pregando ganhando adeptos. Foi um movimento de protesto quanto a situação reinante na Igreja (1170) liderados por Pedro Valdo, um comerciante de Lyon, na França. Esse movido pelo ensino do capítulo 10 de Mateus começou a distribuir todo o seu dinheiro entre os pobres vindo a tornar-se um evangelista itinerante. À ele juntaram-se grandes multidões que faziam frente à Igreja espiritualmente enfraquecida. Foram excomungados pelos papas da época mas ao final da idade média estavam fortemente organizados. Ainda que perseguidos pela inquisição papal continuaram sempre ativos no ensino do Evangelho e na distribuição de manuscritos parciais das Escrituras.
Arnaldo de Brescia. Roma (1155). Discípulo de Abelardo , pregava que a Igreja não devia ter propriedades; que o governo civil pertencia ao povo; que Roma devia ser liberta do papado. Ele foi enforcado, a pedido do Papa Adriano IV.
Os Irmãos. Eram muito parecidos com os Valdenses. Possuíam uma fé muito simples e eram conhecidos pela vida santa que viviam. Nada tinham com a Igreja romana e seu clero. Realizavam suas reuniões falando a língua do povo; Apreciavam a leitura da Bíblia e possuíam muitas cópias de manuscritos de tradução da Bíblia ou de algumas das suas partes. As sociedades dos "Irmãos" se espalharam pela Europa, correspondendo-se e realizando trabalho em conjunto missionário muito ativo, porém em segredo, por causa das perseguições. Eram numerosos entre os camponeses e operários das cidades, particularmente na Alemanha.
Pedro de Bruys e Henrique de Lausane. O mais importante desses movimentos teve lugar no sudeste da França sob a chefia de Pedro de Bruys e Henrique de Lausane. Eles se opunham à superstições dominante na Igreja, a certas formas de culto e a imoralidade do clero. Este movimento chamado "Petrobrusssiano" e "Henriquianos", desenvolveu-se por uma vasta região, e muita gente de todas as camadas sociais a eles aderiram, abandonando as Igrejas oficiais. Tanto Pedro de Bruys quanto Henrique de Lausane, viveram no inicio do século XII. Suas doutrinas eram as mesmas. O Cristianismo deveria ser simples, mas poderoso no efeito sobre os homens; salvação pela fé; rejeitavam o batismo infantil; eram contra o uso de imagens no culto; a ceia era um memorial; insistiam na autoridade da Bíblia sobre os pais da Igreja. Pedro de Bruys foi queimado vivo em 1124 e Henrique de Lausane morreu na prisão em 1148.
John Wycliffe (ca. 1329-1384). Professor de Oxford que desafiou a autoridade do Papa, traduziu a Bíblia para o inglês. Queixas: Jesus, não o Papa era o cabeça da Igreja. A autoridade eclesiástica estava saturada de ganância e imoralidade e precisava de reforma. Colocou a autoridade da Bíblia acima da autoridade da Igreja. Se opôs a Transubstanciação, portanto, desafiando o direito da Igreja de reter a salvação. Condenou o Purgatório. Condenado em 1382. Teve os ossos desenterrados e queimados.
John Huss (ca. 1373-1415). Professor de filosofia na Universidade de Praga que buscou reformar a doutrina e as práticas da Igreja Católica. Queixas: Cristo, não o Papa, é o cabeça da igreja. A Simonia é imoral. Desafiou a venda de indulgências. Exigia uma reforma para a vida do clero. A comunhão pode ser administrada por leigos. Condenado e queimado na fogueira.
SAVONAROLA (1452-1498). Wycliffe e Huss foram estigmatizados como hereges que colocaram a Bíblia como o primeiro padrão da autoridade; Savonarola, porém, estava mais interessado na reforma da Igreja em Florença. Depois de se fazer monge dominicano em 1474, foi designado para Florença alguns anos depois ele procurou reformar o Estado e a Igreja na cidade, mas sua pregação contra a vida desregrada do papa provocou a sua morte por enforcamento. A Igreja porém, enquanto instituição, manteve cerrados os seus ouvidos à essa onda de protestos no sentido de corrigir os seus erros. Sua única resposta foi a Inquisição através da qual mandava matar os que falavam contra ela e não se retratassem. Tal atitude vaticinou a sua própria condenação no tempo e na história.
O Ápice da Reforma: A Ascensão do grande Reformador Alemão Martinho Lutero
O reformador nasceu numa família humilde em 10 de novembro de 1483 em Eislebem, na província de Mansfelf, Alemanha. Costumava afirmar: sou filho de camponeses. A educação que recebeu em casa era reta e rigorosa fato que contribuiu para sua formação e o preparou para a grande aventura de sua vida, anos mais tarde. Aos dezoito anos, foi, por ordem de seu pai, para a Universidade de Erfurt estudar direito. Enquanto buscava anelo para sua alma passava os dias vagueando pensativo na biblioteca da universidade, ali se dá o seu primeiro encontro com uma Bíblia, escrita em latim.
Depois dessa longa peregrinação espiritual Lutero finalmente convenceu-se de que a salvação é pela graça, mediante a fé. Nascia o reformador. Lutero, agora amparado nas Escrituras, levanta protestos contra a venda de indulgências e contra toda teologia que se encontrava por detrás dela. Sua teologia, fundamentada no entendimento que agora possuía da Palavra de Deus rapidamente se desenvolveu em direções que entravam em conflito com vários temas da teologia tradicional.
PRINCIPAIS CAUSAS DA REFORMA
A venda de indulgências;
As 95 Teses;
A Queima da Bula Papal.
Exsurge Domine é a bula pontifícia emitida pelo Papa Leão X em 15 de junho de 1520 em resposta às 95 teses de Martinho Lutero e aos seus escritos sucessivos. ... O prazo final de 10 de dezembro de 1520 foi o dia em que Lutero queimou a sua cópia da bula juntamente com os volumes do Código de Direito Canônico.
PRINCÍPIOS DA RELIGIÃO REFORMADA
Bíblia, o lema era: Somente a Escritura; somente Cristo, somente a fé; somente a graça; somente a Deus a glória;
Pessoal, o relacionamento com Deus é acessível a todos;
Espiritual, é possível o homem relacionar-se diretamente com o Deus.
PRINCIPAIS RESULTADOS DA REFORMA
Tradução da Bíblia na língua do povo;
Todos têm acesso a Palavra;
Restauração de princípios bíblicos;
O sacerdócio universal de todos os crentes.
As 95 Teses de Lutero – desafio de Lutero na introdução das teses
Com um desejo ardente de trazer a verdade à luz, as seguintes teses serão defendidas em Wittenberg sob a presidência do Rev. Frei Martinho Lutero, Mestre de Artes, Mestre de Sagrada Teologia e Professor oficial da mesma. Ele, portanto, pede que todos os que não puderem estar presentes e disputar com ele verbalmente, façam-no por escrito. Em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo. Amém.
As 95 Teses de Lutero – principais pontos
6. O papa não tem o poder de perdoar culpa a não ser declarando ou confirmando que ela foi perdoada por Deus; ou, certamente, perdoados os casos que lhe são reservados. Se ele deixasse de observar essas limitações, a culpa permaneceria.
27. Pregam doutrina humana os que dizem que, tão logo tilintar a moeda lançada na caixa, a alma sairá voando [do purgatório para o céu].
82. Por exemplo: Por que o papa não esvazia o purgatório por causa do santíssimo amor e da extrema necessidade das almas – o que seria a mais justa de todas as causas –, se redime um número infinito de almas por causa do funestíssimo dinheiro para a construção da basílica – que é uma causa tão insignificante?
Literatura consultada e recomendada:
BERCOT, David W. (Editor). A Dictionary of Early Christian Beliefs: A Reference Guide to More Than 700 Topics Discussed by the Early Church Fathers. Peabody, Massachusetts: Hendrickson Publishers, 2012
CAIRNS, Earle E. O Cristianismo Através dos Séculos: Uma História da Igreja Cristã. (Tradução Israel Belo de zevedo). 3. Ed. Revisada e ampliada. São Paulo: Vida Nova, 2008
CAMPENHAHAUSEN, Hans von. Os Pais da Igreja: a vida e a doutrina dos primeiros teólogos cristãos. 3. Ed. (Tradução Degmar Ribas Júnior). Rio de Janeiro: CPAD, 2007
FRANGIOTTI, Roque. História das Heresias (Séculos I – VII): Conflitos ideológicos dentro do Cristianismo. São Paulo: Paulus, 1995
GONZALEZ, Justo L. História Ilustrada do Cristianismo (2 Volumes). (tradução Hans Udo Fuchs, Key Yuasa. 2. ed. rev. com roteiro de leitura. São Paulo: Vida Nova, 2011.
GONZALEZ, Justo L. Uma História do Pensamento Cristão (3 Volumes). (tradução Paulo Arantes, Vanuza Helena Freire de Mattos). São Paulo: Cultura Cristã, 2004
HUNT, Dave. Que Amor é Este? A Falsa Representação de Deus no Calvinismo. (Tradução Cloves Rocha e Walson Sales). 1ª edição. São Paulo: Editora Reflexão, 2015
MONTEIRO, Laércio. A Saga do Cristianismo (3 Volumes). Maceió, AL: Edições Catavento, 2002
OLIVEIRA, Raimundo de. Seitas e Heresias: Um Sinal do Fim dos Tempos. 23ª edição. Rio de Janeiro: CPAD, 2002
OLSON, Roger E. História da Teologia Cristã: 2000 anos de tradição e reformas (traduçâo Gordon Chown). São Paulo: Editora Vida, 2001.
PELIKAN, Jaroslav. A Tradição Cristã: Uma História do Desenvolvimento da Doutrina (4 volumes); (tradução de Lena Aranha, Regina Aranha). São Paulo: Shedd Publicações, 2014.
SOARES, Esequias. Credos e Confissões de Fé: Breve Guia Histórico do Cristianismo. 1. ed. Recife: Editora Beréia, 2013.
SHELLEY, Bruce L. História do Cristianismo: uma obra completa e atual sobre a trajetória da igreja cristã desde as origens até o século XXI. (tradução Giuliana Niedhardt). 1. ed. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2018.
Observação: Além das referências aqui aludidas e recomendadas, utilizei material do professor Robespierre Machado e do Curso de História da Igreja da Credo House – Reclaimind the Mind Ministries: Six Events that Shaped Christianity;