Por
Francis J. Beckwith
[Capítulo
quinze do livro:Passionate Conviction: Contemporary Discourses on Christian Apologetics,
editado por Paul Copan e William Lane Craig]
Obs.: “Traduzindo
trechos e buscando editoras interessadas na publicação”
Participei
de várias discussões públicas sobre a questão do aborto. Inevitavelmente, meu
oponente ou um membro da platéia fará a afirmação: “Não gosta do aborto? Não aborte”,
seguido de aplausos empolgantes de membros da mesma audiência. Essa afirmação,
embora comum, revela não apenas um profundo mal-entendido sobre a natureza do
debate acerca do aborto, mas também uma confusão sobre o que significa dizer
que algo é moralmente errado.
O
culpado, acredito, é o relativismo moral - a visão de que, quando se trata de
questões de moralidade, não há certo ou errado, absoluto ou objetivo; regras
morais são apenas preferências pessoais e / ou o resultado da orientação
cultural, sexual ou étnica de alguém. Portanto, escolher um aborto - como
escolher um automóvel, um local de férias ou uma sobremesa - é apenas uma
questão de preferência. Algumas pessoas gostam de Häagen Daz; outros gostam de
aborto - cada um na sua. Assim como é errado julgar o gosto de outra pessoa por
sorvete, é errado julgar as escolhas reprodutivas de outros e pedir que seja
previsto em lei esse julgamento.
Muitas
pessoas, no entanto, vêem o relativismo como algo necessário para promover a
tolerância, reprimir o julgamento e promover a inclusão; pois pensam que se
alguém acredita que a posição moral de alguém está correta e a do outro incorreta,
isso significa que essa pessoa tem a mente fechada e é intolerante.
Argumentarei neste capítulo que não apenas os argumentos a favor do relativismo
falham, mas também que o próprio relativismo não pode viver de acordo com sua
própria regra; pois o relativismo é promovido por seus proponentes como a única
visão correta sobre a moralidade e, portanto, implica em intolerância (se entendido
corretamente), pois é um ato de julgamento e de exclusivismo.
O
Cristianismo ensina que normas morais objetivas se aplicam a todas as pessoas,
em todos os lugares, e em todos os tempos. O relativismo diz que não existem
tais normas. Se o relativismo estiver incorreto, o Cristianismo não pode ser
descartado baseado apenas no argumento de que a fé Cristã defende normas morais
objetivas. Assim, uma crítica ao relativismo desempenha um papel importante em
apoio à fé Cristã.
Relativismo Moral e Duscurso Moral[1]
O
relativismo moral obscureceu a capacidade de muitos de compreender a natureza
das reivindicações morais. Algumas pessoas em nossa cultura frequentemente
confundem reivindicações de preferência com reivindicações morais ou reduzem as
últimas às primeiras. Para entender o que quero dizer com isso, considere duas
afirmações:[2]
1.
Eu gosto de sorvete de baunilha.
2.
Matar pessoas sem justificativa é errado.
A
primeira afirmação é uma reivindicação de preferência, pois é uma descrição do
gosto subjetivo de uma pessoa. Essa não é uma afirmação normativa. Não é uma
reivindicação sobre o que se deve ou não deve fazer. Não está dizendo: "Já
que eu gosto de sorvete de baunilha, o governo deve obrigar você a tomar
sorvete de baunilha também" ou "Todos no mundo também deveriam gostar
de sorvete de baunilha". Uma reivindicação subjetiva de preferência não
diz nada sobre o que alguém deve pensar ou fazer. Por exemplo, se alguém
dissesse: "Eu gosto de torturar crianças por diversão", isso não nos
diz nada sobre se é certo ou errado torturar crianças por diversão.
A
segunda alegação, no entanto, é diferente. Tem pouco ou nada a ver com o que alguém
possa gostar ou não. De fato, pode-se preferir matar outra pessoa sem
justificativa e ainda saber que é moralmente errado fazer isso. Esta afirmação
é uma reivindicação moral. Essa não é uma afirmação descritiva, pois ela não
nos diz o que, por que ou como as coisas são, ou como a maioria das pessoas de
fato se comportam e / ou pensam. Tampouco é uma reivindicação de preferência,
pois não nos diz qual pode ser a preferência subjetiva de alguém ou como alguém
prefere se comportar e / ou pensar. Pelo contrário, ela é uma afirmação sobre o
que as pessoas devem fazer, o que pode ser contrário ao modo como as pessoas
realmente se comportam e / ou como preferem se comportar.
Infelizmente,
a defesa do relativismo moral tornou difícil para muitas pessoas em nossa
cultura distinguir entre reivindicações de preferência e reivindicações morais.
Em vez de ponderar e lutar com argumentos a favor e contra uma perspectiva
moral específica, as pessoas às vezes reduzem a discordância a uma questão de
"preferência pessoal" ou "opinião subjetiva". Por exemplo,
alguns que defendem a posição de que se escolha ou não o aborto, às vezes dizem
aos que são pró-vida: “Não gosta de aborto? Então não aborte.” Esta instrução
reduz o debate sobre o aborto a uma reivindicação de preferência. Ou seja, a
objetividade moral correta ou errada do aborto (isto é, se envolve a morte
injustificada de um ser que é plenamente humano) é declarada sem um argumento plausível
ou como algo sem relevância. Mas isso é claramente um erro, pois aqueles que se
opõem ao aborto o fazem porque acreditam que o nascituro, durante quase toda a
gravidez de uma mulher, é um membro de pleno direito da comunidade humana e que
é prima facie errado, tanto objetiva quanto universalmente, matar um ser assim.
Por esse motivo, quando uma pessoa pró-vida ouve um defensor da ideia de se
permitir que o aborto seja apenas uma questão de escolha lhe dizer que, se ela
não gosta do aborto, ela não precisa abortar, isso soa a ela como se a defensora
do aborto estivesse dizendo: "Não gosta de assassinato? Então não mate
pessoas inocentes.”
É
compreensível que o defensor da vida, comprometido com normas morais objetivas,
ache essa retórica desconcertante e pouco convincente. É claro que muitos
defensores sofisticados da política do aborto também são oponentes do
relativismo moral.[3] Mas parece que, no debate popular, os defensores da escolha
do aborto tendem a reduzir a questão do aborto a uma questão de preferência e,
portanto, parecem ter sido mais afetados pelo relativismo moral do que foram seus
oponentes. (Mas eles não são completamente afetados, pois apelam aos
"direitos fundamentais", os quais são tipicamente baseados em alguma
moralidade objetiva.)[4] Os argumentos dos defensores da vida podem ser falhos,
mas o defensor da escolha do aborto não critica esses argumentos falhos quando
ele, por engano, transforma um sério desacordo moral em um debate sobre
preferências.
Argumentos à Favor do Relativismo Moral
Dois
argumentos são frequentemente usados para defender o relativismo moral. O
primeiro é o argumento das diferenças culturais e individuais, e o segundo é o
argumento da tolerância.
1.
O argumento das diferenças culturais e individuais. Nesse argumento, o
relativista conclui que não há normas morais objetivas porque culturas e
indivíduos discordam sobre questões morais. Para defender essa premissa, o
relativista geralmente cita vários exemplos, como diferenças transculturais e
intraculturais, sobre a moralidade das práticas sexuais, aborto, guerra e pena
de morte. Nas palavras de Hadley Arkes, um oponente do relativismo moral: “Em
uma sociedade, uma viúva é queimada na pira funerária de seu marido; em outra,
ela se queima na praia de Miami. Em uma sociedade, as pessoas reclamam com o
chef sobre a carne assada; em outra, elas devolvem o rosbife e comem o chef.”[5]
Há pelo menos cinco problemas com esse argumento.
Primeiro,
o relativismo não se segue de uma discordância. O fato de as pessoas discordarem
de algo não significa que não há verdade sobre o assunto. Por exemplo, se você
e eu discordarmos da questão de saber se a Terra é redonda, nossa discordância
certamente não seria prova de que a Terra não tem uma forma. O fato de um
skinhead (um tipo de jovem neo-nazista) e eu discordarmos sobre a questão de
tratarmos as pessoas com igualdade e justiça não é certamente motivo suficiente
para concluir que igualdade e justiça não são verdades morais objetivas. Mesmo
que indivíduos e culturas não possuam valores em comum, não decorre daí que
ninguém esteja certo ou errado sobre o que é a verdade moral. Ou seja, poderia
haver um indivíduo ou cultura equivocados, como Adolf Hitler e a Alemanha
nazista.
Se
o mero fato de discordância fosse suficiente para concluir que normas objetivas
não existem, teríamos que acreditar que não há uma posição objetivamente
correta sobre questões como escravidão, genocídio e abuso sexual de crianças;
pois o dono de escravos, o maníaco genocida e o pedófilo, têm uma opinião que
difere da opinião daqueles que condenam suas ações. No final, discordância moral
não prova nada.
Segundo,
a discordância conta contra o relativismo. Suponha, no entanto, que o
relativista, apesar do fracasso lógico de seu argumento, atenha-se às suas propostas
e sustente que a discordância sobre normas objetivas comprove que o relativismo
é correto. Mas isso não vai funcionar. Pois o relativista estabeleceu um
princípio –que discordância significa que não há verdade - que desvenda o seu
próprio argumento. Afinal, alguns de nós acreditam que o relativismo é uma
visão equivocada. Em outras palavras, discordamos do relativista sobre a
natureza da moralidade. Acreditamos que existem normas morais objetivas,
enquanto o relativista não. Mas, de acordo com o próprio princípio do
relativista - discordar significa que não há verdade - ele deveria abandonar
sua opinião de que o relativismo é a posição correta. E para piorar a situação
para o relativista, seu princípio é uma proposição para a qual não há acordo
universal e, portanto, por suas próprias razões, o relativismo deve ser
rejeitado. Como Arkes ressalta, "minha discordância estabelece que a
proposição [isto é, discordância significando que não há verdade] não desfruta
de um consentimento universal e, pelos próprios termos da proposição, isso deve
ser suficiente para determinar sua própria invalidez".[6]
Terceiro,
a discordância é superestimada. Embora as pessoas e as culturas discordem sobre
questões morais, não decorre daí que elas não compartilhem os mesmos princípios
ou que não haja normas morais vinculativas para todas as nações em todos os
tempos e em todos os lugares. Tomemos, por exemplo, os julgamentos das bruxas
de Salém. Em 1692, na colônia de Massachusetts, quase três dúzias de cidadãos
(principalmente mulheres) foram condenados à morte como punição por
supostamente praticar bruxaria.[7] Nós não executamos bruxas hoje, mas não
porque nossos princípios morais mudaram. Antes, a razão pela qual não
executamos bruxas é porque não acreditamos, como alguns dos moradores de Salém
no século XVII acreditavam, que a prática da bruxaria tem um efeito fatal na
comunidade. Mesmo que se acredite, como eu, que os julgamentos e execuções
dessas supostas bruxas foram travestidas de justiça, com base em evidências
frágeis e acusações falsas alimentadas pela histeria,[8] o princípio a que os defensores
dos julgamentos apelaram parece, prima facie, corretos: as comunidades e seus
líderes devem apoiar e aplicar políticas que promovam o bem público. Afinal,
suponha que tenhamos boas evidências de que a prática da bruxaria tenha afetado
as pessoas da mesma maneira que a fumaça de cigarro do fumante afeta o não-fumante.
Alteraríamos as práticas para levar isso em consideração. Poderíamos montar espaços
para não-bruxas em restaurantes e proibir o lançamento de feitiços em voos de
aviões interestaduais. O resultado disso é que o avanço do bem público é um
princípio de governo justo que compartilhamos com os moradores de Salém do
século XVII, mas temos boas razões para acreditar que eles estavam de fato
errados sobre o efeito da bruxaria na conquista desse bem e / ou que a
liberdade religiosa promove melhor o bem público do que a coerção religiosa
(mesmo que alguém tenha boas razões para acreditar que a prática da bruxaria
não seja realmente algo bom).[9]
Considere
novamente a questão do aborto. A sabedoria convencional diz que o debate moral
e legal sobre o aborto é uma disputa entre duas facções que defendem sistemas
de valores incomensuráveis. Mas a sabedoria convencional está enganada, pois
essas facções defendem muitos princípios morais em comum.
a.
Cada lado acredita que todas as pessoas humanas possuem certos direitos,
independentemente de seus governos protegerem esses direitos. É por isso que
ambos os lados apelam para o que cada um acredita ser um direito fundamental. O
defensor da vida apela à "vida", enquanto o advogado da escolha do
aborto apela à "liberdade" (ou "escolha"). Ambos acreditam
que um regime constitucional, para ser justo, deve defender seus direitos
fundamentais.
b.
Cada lado acredita que sua posição exemplifica melhor o valor fundamental de
seu oponente. O defensor da escolha do aborto não nega que a "vida" tenha
valor, mas argumenta que o apelo de sua posição à liberdade humana é um
ingrediente necessário pelo qual um indivíduo pode buscar a vida mais plena e
completa possível.
Por
outro lado, o advogado pró-vida não evita a "liberdade". Ele acredita
que toda a liberdade humana é pelo menos limitada pelo direito de outra pessoa
à vida. Por exemplo, alguém tem o direito de buscar livremente qualquer
objetivo que considere consistente com a sua felicidade, como assistir a um
jogo de basquete do Los Angeles Lakers. Não se tem, no entanto, o direito de
perseguir livremente esse objetivo em detrimento da vida ou da liberdade do
outro, como atropelar pedestres com o carro para que possa chegar ao jogo a
tempo. E, é claro, o advogado pró-vida argumenta que os nascituros são pessoas
com pleno direito à vida. E, como o ato de aborto geralmente resulta na morte
dos nascituros, o aborto, com poucas exceções, não é moralmente justificado e, por
esse motivo, deve ser ilegal.
Os
defensores da escolha do aborto não negam que as pessoas humanas tenham direito
à vida. Eles apenas acreditam que esse direito à vida não se estende aos
nascituros, porque os nascituros, segundo eles, não são membros de pleno
direito da comunidade humana e / ou não têm o direito de usar o corpo da mãe
contra sua vontade. Os pró-vida, por outro lado, não negam que as pessoas
tenham a liberdade de fazer escolhas que acreditam serem do seu interesse. Eles
apenas acreditam que essa liberdade não implica o direito de escolher o aborto;
pois tal escolha entra em conflito com a vida, liberdade e interesses de outro
ser humano (o feto), que é indefeso, fraco e vulnerável e tem uma reivindicação
natural dos cuidados de seus pais, tanto no pré quanto no pós-natal. Assim, depois
de tudo, o debate sobre o aborto não é realmente sobre sistemas morais
conflitantes. Afinal, imagine que um político pró-vida dissesse o seguinte em
um discurso de campanha: “A plataforma do meu partido defende o direito da
mulher de interromper a gravidez, se e somente se, isso não resultar na morte
de seu filho ainda não nascido”. A discordância sobre tal plataforma não seria
sobre a moralidade de matar seres humanos; seria sobre a questão metafísica de
se o humano não nascido é incluído nessa categoria.
Quarto,
consequências absurdas decorrem do relativismo moral.
a.
Se não há normas morais objetivas que se apliquem a todas as pessoas em todos
os tempos e lugares, então certos julgamentos morais, como os seguintes, não
podem ser universalmente verdadeiros: Madre Teresa era moralmente melhor que
Adolf Hitler; o estupro é sempre errado; e é errado torturar bebês por
diversão. Mas negar que esses julgamentos não sejam universalmente verdadeiros
parece absurdo. Pois parece haver alguns julgamentos morais absolutamente
corretos, independentemente do que as culturas ou os indivíduos possam pensar.
b.
Se o relativista afirma que a moralidade é relativa ao indivíduo, o que
acontece quando as moralidades individuais entram em conflito? Por exemplo,
suponha que a moralidade de Jeffrey Dahmer permita que ele canibalize seu
vizinho, mas seu vizinho não concorde. O que o relativista sugeriria que seja
feito neste caso, uma vez que, de acordo com essa forma de relativismo, a
moralidade de ninguém seja, em princípio, superior a qualquer outra? Além
disso, se a vida moral não passa de um reflexo dos gostos, preferências e
orientações individuais das pessoas, não podemos dizer aos jovens que é
moralmente errado mentir, roubar, trapacear, fumar, abusar de drogas, matar
seus recém-nascidos, e abandonar a escola mesmo que esses comportamentos possam
ser consistentes com os gostos, preferências e / ou orientações pessoais dos
alunos.
c.
Mesmo que o relativista faça uma afirmação mais modesta de que a moralidade não
é relativa ao indivíduo, mas à cultura do indivíduo, de que alguém só é
obrigado a seguir os ditames da sociedade, outros problemas se seguem.
Em
primeiro lugar, a posição do relativista cultural é auto-refutável. Uma reivindicação
é auto-refutável quando ela é inconsistente consigo mesma. Por exemplo, se eu
dissesse: "Não posso me comunicar", isso seria auto-refutável, pois,
na verdade, eu estaria lhe comunicando a alegação de que não posso me
comunicar.
Como
o relativismo cultural se auto-refuta? O defensor do relativismo cultural
sustenta que não há normas morais objetivas e universais e, por essa razão,
todos os indivíduos devem seguir as normas morais de sua própria cultura. Mas o
relativista cultural está fazendo uma reivindicação moral absoluta e universal
- ou seja, que os indivíduos são moralmente obrigados a seguir as normas morais
de sua própria cultura. Portanto, se essa norma moral é absoluta e universal, o
relativismo cultural é falso. Mas se essa norma moral não é absoluta nem
universal, o relativismo cultural ainda é falso; pois nesse caso eu não teria
uma obrigação moral de seguir as normas morais da minha cultura.
Em
segundo lugar, pelo fato de cada um de nós pertencer a várias
"sociedades" ou "culturas" diferentes, qual delas deve ser
seguida quando elas entrarem em conflito? Por exemplo, suponha que uma mulher
chamada Carla seja moradora de um bairro liberal de luxo em Hollywood,
Califórnia, freqüente uma igreja Cristã e seja sócia de um prestigiado
escritório de advocacia. Em sua vizinhança, ter um caso de adultério é
considerado ser uma pessoa "esclarecida", e aqueles que não perseguem
tais uniões são considerados puritanos reprimidos. Em sua igreja, no entanto, o
adultério é condenado como pecaminoso, enquanto em seu escritório de advocacia
o adultério não é incentivado nem desencorajado. Suponha ainda que Carla opte
por cometer adultério atrás do escritório da empresa com um companheiro da
igreja, Winston, que reside em um bairro conservador em que o adultério é
condenado. O escritório, ao que parece, fica ao lado da igreja, bem como
precisamente a meio caminho entre o bairro de Carla e o bairro de Winston. Não fica
claro qual sociedade é moralmente relevante.[10]
Em
terceiro lugar, não pode haver progresso moral ou reformadores morais. Se a
moralidade é redutível à cultura, então não pode haver progresso moral real. A
única maneira de dizer que uma cultura está melhorando ou progredindo é se
houver normas morais objetivas que não dependam da cultura da qual uma
sociedade possa se aproximar. Mas se o que é moralmente bom é apenas o que a
cultura diz ser moralmente bom, então podemos dizer apenas que as normas
culturais mudam, não que a sociedade esteja progredindo ou melhorando. No
entanto, parece, por exemplo, que a abolição da escravidão e o estabelecimento
de direitos civis dos afro-americanos nos Estados Unidos foram exemplos de
progresso moral. Além disso, aqueles que lideraram esses movimentos, os
reformadores morais, como William Wilberforce, Harriet Beecher Stowe e Martin
Luther King Jr., não poderiam ter sido moralmente corretos se o relativismo
cultural for verdadeiro. Como J. P. Moreland observa:
Os
reformadores morais, por definição, mudam o código de uma sociedade,
argumentando que esse código é, de alguma forma, moralmente inadequado. Mas se
o relativismo [cultural] é verdadeiro, um ato é certo se, e somente se, estiver
no código de uma sociedade; portanto, o reformador é por definição imoral (já
que ele adota um conjunto de valores fora do código da sociedade e tenta mudar
esse código de acordo com esses valores). ... Qualquer visão moral que implique
isso é certamente falsa.[11]
Assim,
para permanecer consistente, o relativista cultural deve negar que possa haver
algum progresso moral real ou quaisquer reformadores morais reais. Pois tais
julgamentos pressupõem a existência de normas morais reais, objetivas.
2.
O argumento da tolerância. Muitas pessoas vêem o relativismo como necessário
para promover a tolerância, o não julgamento e a inclusão; pois eles pensam que
se você acredita que sua posição moral está correta e que os outros estão
incorretos, você tem uma mente fechada e intolerante. Eles geralmente baseiam
essa premissa nas diferenças bem conhecidas de opinião sobre a moralidade entre
culturas e indivíduos. Assim, o relativista moral abraça a visão de que não se
deve julgar outras culturas e indivíduos, pois isso seria intolerância. Há pelo
menos três problemas com esse argumento, os quais sustentam que a tolerância (se
entendida corretamente) e o relativismo são na verdade incompatíveis entre si.
Primeiro,
a tolerância apóia a moralidade objetiva, não o relativismo. Se todos devem ser
tolerantes, então a tolerância é uma norma moral objetiva. E, portanto, o
relativismo moral é falso. Então, ironicamente, o chamado à tolerância pelos
relativistas pressupõe a existência de pelo menos uma norma não-relativa,
universal e objetiva: a tolerância. Além disso, a tolerância pressupõe que há
algo de bom em ser tolerante, como poder aprender com outras pessoas com quem
discordamos ou transmitir conhecimento e sabedoria a essa pessoa. Mas isso
pressupõe valores morais objetivos - ou seja, que conhecimento e sabedoria são
coisas boas. Além disso, a tolerância pressupõe que alguém possa estar correto
sobre sua perspectiva moral. Ou seja, parece que parte da motivação para
advogar a tolerância é incentivar as pessoas a estarem abertas à possibilidade
de que alguém possa obter a verdade e a percepção (incluindo a verdade e o
insight moral) de outra pessoa que a possua. Se for esse o caso, existem
verdades morais objetivas que se podem aprender.
Além
disso, a tolerância pressupõe um julgamento moral do ponto de vista de outra
pessoa. Ou seja, só posso tolerar as ideias que considero erradas. Não sou tolerante
com o que concordo; Eu apoio o que concordo. E não sou tolerante com aquilo
pelo qual não tenho interesse (por exemplo, futebol profissional europeu); Eu
apenas tenho negligência benigna por isso. (Ou seja, não me importo de nenhum
modo.) Considere o seguinte exemplo. Suponha que eu diga a um amigo que
acredito que a homossexualidade é imoral. E suponha que meu amigo exija que eu
seja tolerante com homossexuais na minha comunidade. Se eu aceitar esse
conselho e optar por ser civil, respeitoso e gentil com gays e mulheres com
quem tenho contato, ao mesmo tempo em que julgar suas práticas sexuais como
imorais, parece que eu estaria sendo realmente tolerante. Mas suponha que
alguém diga que meu julgamento sobre a homossexualidade como algo imoral ainda me
transforme em um "intolerante". Nesse ponto, devido meu entendimento sobre
"tolerância", não tenho ideia do que devo fazer. Pois se eu mudar meu
ponto de vista sobre a homossexualidade e disser que não é imoral ou que não
tenho opinião (ou seja, tenho uma negligência benigna como no exemplo do
futebol acima), não posso ser tolerante; pois só posso tolerar o que acredito
estar errado ou equivocado. Por outro lado, se julgar a posição de outra pessoa
como errada ou equivocada o torna intolerante, então a pessoa que julga minha
avaliação negativa da homossexualidade é, pela própria definição dessa pessoa,
intolerante. Mas isso é um absurdo. Pois se tolerância significa que não se
deve julgar uma visão como moralmente errada, então das duas, uma: para ser
consistente, deve-se abraçar a visão ou ter uma negligência benigna por ela. Se
for esse o caso, então a tolerância perdeu seu significado e é simplesmente uma
fachada para tentar envergonhar e coagir os outros a não discordar publicamente
(e / ou talvez em particular) da posição controversa e disputada sobre a
sexualidade humana. Ironicamente, este é um exemplo de intolerância (como
tradicionalmente entendido). Assim, parece-me que o apelo à tolerância, uma vez
que tenhamos uma compreensão clara de seu significado, é inconsistente com o
relativismo.
Segundo,
o próprio relativismo é uma posição de mente fechada e intolerante. Afinal, o
relativista afirma dogmaticamente que não há verdade moral. Para ilustrar isso,
considere um diálogo (baseado livremente em uma conversa da vida real) entre
uma professora do ensino médio e sua aluna Elizabeth.[12] A professora instrui
a turma: “Bem-vindos, alunos. Este é o primeiro dia de aula e, por isso, quero
estabelecer algumas regras básicas. Primeiro, como ninguém tem a verdade sobre
moralidade, você deve ter a mente aberta para as opiniões de seus colegas.”
A
professora olha para a mão levantada de Elizabeth, que pergunta: “Se ninguém tem
a verdade, essa não é uma boa razão para eu não dar ouvido aos meus colegas?
Afinal, se ninguém tem a verdade, por que devo perder meu tempo ouvindo outras
pessoas e suas opiniões? Qual é o objetivo? Somente se alguém tem a verdade,
faz sentido ter a mente aberta. Você não concorda?
“―Não,
eu não concordo. Você está reivindicando saber a verdade? Isso não é um pouco
arrogante e dogmático?”
"De
modo nenhum. Pelo contrário, acho dogmático e arrogante afirmar que nenhuma
pessoa na Terra sabe a verdade. Afinal, você conheceu todas as pessoas no mundo
e as interrogou exaustivamente? Caso contrário, como você pode fazer essa
afirmação? Além disso, acredito que é realmente o oposto de arrogância dizer
que alterarei minhas opiniões para se encaixar com a verdade sempre e onde quer
que a encontre. E se eu achar que tenho boas razões para acreditar que sei a
verdade e gostaria de compartilhá-la com você, por que você não me ouviria? Por
que você colocaria em descrédito automaticamente minha opinião antes que ela
fosse proferida? Eu penso que deveríamos ouvir a opinião de todos.”
"Este
deve ser um semestre interessante."
Outro
aluno deixa escapar: "Não é essa a verdade", provocando risos na
classe.
Terceiro,
o relativismo é crítico, exclusivista e partidário. Isso pode parecer uma coisa
estranha de se dizer, já que o relativista gostaria que você pensasse que seu
ponto de vista é sem julgamento, inclusivista e neutro quando se trata de
crenças morais. Mas considere o seguinte: (a) O relativista diz que se você
acredita na verdade moral objetiva, você está errado. Conseqüentemente,o
relativismo é crítico. (b) Daí se segue que o relativismo está excluindo suas
crenças da esfera das opções legítimas. Assim, o relativismo é exclusivista. E
(c) pelo fato do relativismo ser exclusivista, todos os não-relativistas
automaticamente não são membros do partido do "pensamento correto".
Então o relativismo é partidário.
A
tolerância só faz sentido dentro da estrutura de uma ordem moral, pois é dentro
dessa estrutura que se pode justificar moralmente tolerar algumas coisas sem
tolerar outras. Pois a tolerância sem uma estrutura moral ou tolerância
absoluta leva a um relativismo dogmático e, portanto, a uma intolerância a
qualquer ponto de vista que não abrace o relativismo. Não é de admirar que, em
um clima de "tolerância", qualquer pessoa que defenda que exista uma
ordem moral objetiva à qual a sociedade deva se submeter seja recebida com
desprezo.
Raciocinando sobre Questões Morais
A
moralidade é claramente mais que mero raciocínio, assim como a arquitetura é
mais que mera matemática. Pode-se compreender imediatamente, assim como
apreciar a virtude moral de Madre Teresa ou a elegância monumental da Torre
Eiffel sem ter estudado a filosofia moral de Thomas Reid ou dominado geometria
e cálculo. No entanto, assim como não se pode construir a Torre Eiffel sem
dominar certas disciplinas matemáticas, não se pode atribuir o rótulo de justo
ou correto ao ponto de vista de alguém sem oferecer justificativa para sua retidão.
A
lógica do raciocínio moral faz parte integrante de nosso discurso desde que os
seres humanos ocupam a terra. Essa lógica agitou almas, envergonhou pecadores,
moveu nações, energizou movimentos sociais e nos proporcionou uma gramática
potente em inúmeras áreas da vida pública e privada. Considere apenas um
exemplo, embora muitos outros possam ser selecionados para nossos propósitos.
Em
sua tentativa fracassada de 1858 de obter uma cadeira no Senado dos EUA em
Illinois, Abraham Lincoln se engajou em uma série de debates públicos com seu
oponente democrata, Stephen A. Douglas. Entre os muitos tópicos em que eles
discutiram, estava a questão de saber se os territórios dos EUA deveriam ser
autorizados pelo governo federal a permitir a escravidão, se assim o
desejassem. Douglas sustentou que, embora acreditasse que a escravidão fosse
algo errado (ou seja, ele se opunha a escravidão), ele não estava disposto a
exigir que o governo federal eliminasse a escravidão; pois fazê-lo seria violar
o princípio da soberania popular (ou seja, que as maiorias locais deveriam ter
permissão para votar em tais questões, livres de toda e qualquer restrição
federal).[13] Mas, como Lincoln destacou apropriadamente:
Quando
o juiz Douglas diz que "não se importa se a escravidão for votada à favor
ou contra sua liberação", ... ele não pode argumentar logicamente se vê
algo de errado na escravidão. ... Ele não pode dizer que veria logo um erro
votar à favor ou contra. Quando o juiz Douglas diz que quem quer que seja a
comunidade ou os que querem escravos, eles têm o direito de tê-los, ele é
perfeitamente lógico se não houver nada de errado com a escravidão; mas se você
admitir que a escravidão é um erro, ele não pode dizer logicamente que alguém
tem o direito de cometer um erro.[14]
Lincoln,
um homem prático com sabedoria incomum, compreendeu uma verdade conceitual
importante que muitas vezes não é compreendida por aqueles como Douglas, que
inadvertidamente tropeçam na arena do raciocínio moral e pensam que estão em
outro lugar: alegar que algo está errado é reivindicar que é inadmissível, mas
inexoravelmente se seguiria dessa verdade que não se pode reivindicar que se
tem o direito de fazer o errado, pois isso significaria que o não admissível é
permitido.[15] Ou, como Arkes afirma: “Quando chegamos ao reconhecimento que
qualquer ato está na classe do erro ... a lógica desse reconhecimento nos
proíbe de tratar esse ato por uma questão meramente de gosto pessoal ou de
escolha particular.”[16]
Em
notas que ele havia preparado para si, Lincoln forneceu outro exemplo de
raciocínio moral baseado em princípios ao avaliar os tipos de argumentos que
seus contemporâneos apresentaram para defender a escravidão do negro pelos
brancos:
Você diz que A. é branco e B. é preto. Então
é a cor: o mais claro tem o direito de escravizar o mais escuro? Cuidado. Por
essa regra, você deve ser escravo do primeiro homem que encontrar, com uma pele
mais clara que a sua.
Você não quer dizer exatamente a cor? - Você
quer dizer que os brancos são intelectualmente superiores aos negros e,
portanto, têm o direito de escravizá-los? Tome cuidado novamente. Por essa
regra, você deve ser escravo do primeiro homem que encontrar, com um intelecto
superior ao seu.
Mas, digamos, é uma questão de interesse; e,
se puder te interessar, você tem o direito de escravizar outro. Muito bem. E se
a ele puder interessar, ele tem o direito de escravizar você.[17]
Lincoln
estava argumentando que, se aplicássemos os argumentos à favor da escravidão
aos futuros e atuais proprietários de escravos, brancos, então estabelecemos
premissas que podem ser empregadas pelo governo para minar os direitos de todos
os seres humanos sob sua autoridade.[18] Pois as premissas dos argumentos
pró-escravidão contêm proposições que apelam para níveis de propriedades que
não têm peso moral - cor, intelecto e interesse - quando se trata da questão da
igualdade humana. A avaliação de Lincoln desses argumentos é um exemplo
impressionante de raciocínio moral.
Conclusão
O
relativismo moral é um fracasso filosófico. Os dois principais argumentos à
favor do relativismo moral - o argumento da discordância e o argumento da
tolerância - são seriamente falhos de várias maneiras. Devido o fracasso do
relativismo moral, parece razoável acreditar em moralidade objetiva. Além
disso, existe uma lógica do raciocínio moral que tem sido empregada por
inúmeras pessoas ao longo dos tempos com o objetivo de proporcionar aos seus
concidadãos clareza moral e / ou justificativa moral.
* Este capítulo é
adaptado do capítulo “Why I Am Not a Relativist?”, do livro Why I Am a Christian, editado por Norman
L. Geisler e Paul Hoffman (Grand Rapids, Mich.: Baker, 2001). O capítulo dois
do meu livro Defending Life: A Moral and
Legal Case against Abortion Choice (New York: Cambridge University Press,
2007) também é adaptado de uma obra de 2001, mas difere pouco do presente
capítulo, que editei levemente para se encaixar no propósito dos editores.
____________________
Fonte:
BECKWITH, Francis J. Is Morality Relative?In COPAN, Paul; CRAIG, William Lane
(General Editors). Passionate Conviction: Contemporary Discourses on Christian Apologetics.
Nashville, Tennessee: B&H ACADEMIC, 2007.
Tradução
Walson Sales.
____________________
Notas:
[1] As ideias e argumentosdestetrechoforammoldadossignificantementepor
Hadley Arkes no livro, First Things: An
Inquiry into the First Principles of Morals and Justice (Princeton, N.J.:
Princeton University Press, 1986), 20-22.
[2]
A obra de Arkes (ibid.) Foi fundamental para me ajudar a entender melhor as
diferenças entre as duas declarações.
[3] Veja, porexemplo, David Boonin, In Defense of Abortion (New York:
Cambridge University Press, 2003), 13-14.
[4] Para umaavaliação da
aparenteincoerênciadestaposição, vejaHadley Arkes, Natural Rights and the Right to Choose (New York: Cambridge
University Press, 2002).
[5] Arkes, First Things, 149.
[6] Ibid., 132.
[7] VejaTim Sutter, “Salem Witchcraft: The Events and
Causes of the Salem Witch Trials” (2003), The Salem Witch Trials (Web site) at
http://www.salemwitchtrials.com/salemwitch-craft.html (12 July 2006).
[8]
Ibid.
[9]
Digo o último porque me parece que se certas tradições religiosas podem ter
justificativa racional, não seria irracional para os crentes nessas tradições
legitimamente julgar certas práticas (por exemplo, bruxaria) como más sem
criminalizar a prática. Para
algunsargumentosinteressantessobre a racionalidade de
certastradiçõesreligiosas, vejaAlvin Plantinga, Warranted Christian Belief (New York: Oxford University Press,
2003); e Francis J. Beckwith, William Lane Craig, and J. P. Moreland, eds., To Everyone an Answer: A Case for the
Christian Worldview (Downers Grove, Ill.: InterVarsity, 2004).
[10] J. P. Moreland ofereceumailustração similar, J.
P. Moreland, Scaling the Secular City
(Grand Rapids: Baker, 1987), 92.
[11]
Ibid., 243.
[12]
Este diálogo é apresentado de maneira levemente diferente em Francis J.
Beckwith and Gregory P. Koukl, Relativism:
Feet Firmly Planted in Mid-Air (Grand Rapids: Baker, 1998), 74.
[13]Arkes, First
Things, 24.
[14]The
Collected Works of Abraham Lincoln, ed. Roy P. Basler (New Brunswick, N.J.:
Rutgers University Press, 1953), 3: 256—57, comocitadoemArkes, First Things, 24.
[15]Arkes, First
Things, 24—25.
[16] Ibid., 25.
[17]The Collected
Works of Abraham Lincoln, 2:222, comocitadoemArkes, First Things, 43—44 (emphasis in original).
[18]Arkes, First
Things, 43.