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domingo, 2 de março de 2025

Modernismo e Pós-modernismo: Uma Jornada do Iluminismo à Reconfiguração Contemporânea

Por Walson Sales

O modernismo e o pós-modernismo representam marcos distintos na evolução do pensamento ocidental, cada um refletindo contextos históricos, culturais e filosóficos próprios. Enquanto o modernismo, enraizado no iluminismo, busca a razão, a objetividade e a verdade universal, o pós-modernismo emerge como uma resposta crítica, desafiando essas noções e enfatizando a relatividade, a pluralidade e a desconstrução de narrativas hegemônicas. Esta distinção fundamental entre os dois movimentos permite uma compreensão mais profunda das transformações ideológicas que moldam a sociedade contemporânea.

Modernismo: Uma Revolução no Pensamento Ocidental

O Modernismo representa um marco significativo na história do pensamento ocidental, desafiando tradições estabelecidas e inaugurando novas formas de entender o mundo. Esse movimento, que teve suas raízes na Era do Iluminismo, trouxe à tona uma série de questionamentos sobre a autoridade, a religião, a natureza humana e a razão. Com a transição do pensamento medieval para o moderno, a visão de mundo se transformou radicalmente, e essa mudança continua a reverberar na contemporaneidade.

A Era do Iluminismo e o Surgimento do Modernismo

A Era do Iluminismo, que se iniciou no século XVII, foi um período em que a razão e a ciência começaram a ganhar destaque sobre a fé e a tradição. Filósofos como René Descartes, com sua busca pela certeza e pela fundamentação do conhecimento, ajudaram a moldar uma nova perspectiva. Antes de Descartes, a visão de mundo era dominada pela autoridade bíblica e pela centralidade de Deus no universo. Com o iluminismo, novas ideias começaram a emergir, desafiando a estrutura de crenças que havia sustentado a sociedade por séculos.

Desafios à Autoridade Tradicional

Um dos aspectos mais notáveis do Modernismo é o questionamento das crenças estabelecidas. A fé em Deus, antes inabalável, passou a ser discutida por pensadores como Baruch Spinoza e David Hume, que abriram espaço para o agnosticismo e o ateísmo como opções viáveis. Esse movimento não apenas relativizou a autoridade religiosa, mas também incentivou uma reavaliação do papel da razão humana. A autonomia da razão tornou-se um princípio fundamental, sugerindo que a crença deveria ser sustentada apenas por evidências racionais e não por dogmas.

A Reavaliação da Natureza Humana

Outro desafio importante surgiu em relação à noção do pecado original. Pensadores como John Locke promoviam uma visão mais otimista da natureza humana, considerando os indivíduos como agentes morais capazes de cumprir as demandas éticas. Essa mudança de paradigma refletiu uma transição de uma visão pessimista, onde os humanos eram vistos como pecadores diante de um Deus irado, para uma compreensão mais positiva da humanidade, dotada de potencial para o bem.

A Crítica à Escritura

A confiança nas Escrituras, que antes era universalmente aceita tanto por católicos quanto por protestantes, também começou a ser questionada. O trabalho de pensadores como Spinoza e Jean LeClerc minou a crença na inerrância bíblica, levando a um ceticismo em relação à autoridade das Escrituras. Isso abriu espaço para uma crítica mais ampla às tradições religiosas e à forma como elas influenciavam a moralidade e a sociedade.

O Papel da Ciência e do Excepcionalismo Europeu

Além das críticas à religião e à moralidade, o iluminismo também celebrou os avanços da ciência, considerando-os como fundamentais para o progresso humano. A ideia de que a civilização europeia, especialmente a inglesa, era o ápice da realização humana, refletiu um sentimento de excepcionalismo que permeou o pensamento ocidental. Essa crença na superioridade europeia influenciou não apenas a filosofia, mas também a política e a cultura, moldando a trajetória do modernismo.

Desfecho

O Modernismo, alicerçado na Era do Iluminismo, trouxe consigo uma série de mudanças fundamentais que transformaram o pensamento ocidental. Ao desafiar a autoridade da religião, reavaliar a natureza humana e celebrar a razão e a ciência, esse movimento estabeleceu as bases para um novo paradigma que ainda influencia a sociedade contemporânea. A busca por uma compreensão mais racional e crítica do mundo continua a ser uma característica marcante da era moderna, preparando o terreno para os desafios e debates que emergiriam com o pós-modernismo.

Pós-modernismo: Desafios e Reconfigurações do Pensamento Contemporâneo

O pós-modernismo surge como uma resposta crítica e complexa ao modernismo, refletindo as incertezas e pluralidades da sociedade contemporânea. Enquanto o modernismo se fundamentava na crença na razão, na objetividade e na possibilidade de alcançar verdades universais, o pós-modernismo desafia essas premissas, propondo uma visão de mundo mais fragmentada e relativista. Aqui, exploraremos as principais características do pós-modernismo e seu impacto nas esferas intelectual, cultural e social.

Características Principais do Pós-modernismo

O pós-modernismo é um movimento multifacetado que pode ser melhor compreendido em relação ao modernismo. Suas características centrais incluem uma crítica ao otimismo iluminista em relação à razão e à objetividade, bem como um ceticismo em relação às narrativas abrangentes que moldaram a compreensão da realidade.

1. Ceticismo em Relação à Razão

Uma das premissas fundamentais do pós-modernismo é a rejeição da confiança iluminista na razão humana. Ao contrário da busca cartesiana pela certeza, o pós-modernismo argumenta que a certeza é, na verdade, uma ilusão. A ideia de que podemos ter acesso a verdades absolutas é questionada, sugerindo que a probabilidade deve substituir a certeza como nosso objetivo epistemológico final.

2. O Observador Situado

O conceito de que somos observadores neutros é uma ficção. O pós-modernismo enfatiza que nossa perspectiva é influenciada por preconceitos, limitações humanas e contextos sociais. O entendimento do mundo é, portanto, sempre parcial e situado, distorcido por nossas experiências e visões de mundo.

3. A Linguagem como Ferramenta Política

A linguagem, em vez de ser um meio transparente de acessar a realidade, é vista como uma ferramenta política e, às vezes, instável. Essa perspectiva questiona a ideia de que a comunicação é um reflexo fiel da verdade, apontando para as nuances e ambiguidades que a linguagem pode carregar.

4. A Construção da Verdade

Os pós-modernos são céticos em relação à ideia de uma realidade objetiva a ser descoberta. Eles argumentam que a verdade é uma construção social, moldada por contextos históricos e culturais. Essa visão é reforçada pelo trabalho de Thomas Kuhn, que ilustra como a ciência é permeada pela subjetividade humana.

5. A Rejeição do Eu Duradouro

O modernismo pressupunha a existência de um eu estável e duradouro. Os pós-modernos, por outro lado, rejeitam essa noção, considerando o eu como uma construção efêmera e multifacetada. Essa visão sugere que, em vez de um eu coerente, somos uma coleção de qualidades e experiências, sem um núcleo metafísico que as possua.

6. A Crítica às Narrativas Abrangentes

O pós-modernismo também se opõe às metanarrativas, grandes histórias que buscam explicar a totalidade da experiência humana, como o marxismo ou o cristianismo. Essas narrativas são vistas como opressivas e, portanto, devem ser rejeitadas. Essa crítica abre espaço para uma multiplicidade de vozes e perspectivas, mas também levanta questões sobre a ausência de um fio condutor comum.

7. A Ilusão da Objetividade

Historicamente, havia uma crença na objetividade metodológica em disciplinas como a história e as ciências sociais. O pós-modernismo contesta essa ideia, afirmando que os pesquisadores não conseguem transcender completamente suas circunstâncias e subjetividades.

8. A Natureza da Verdade

Com a ascensão do pós-modernismo na década de 1960, pensadores como Richard Rorty desafiaram a noção de que a verdade existe de forma objetiva e pode ser descoberta. Em vez disso, a verdade é vista como uma construção terapêutica, útil para lidar com os desafios da existência humana.

9. Limitações da Razão Humana

O otimismo iluminista sobre a capacidade da razão é radicalmente questionado. O pós-modernismo argumenta que a razão é limitada e deve ser circunscrita, rejeitando a ideia de que podemos alcançar uma compreensão total e abrangente da realidade.

Epílogo

O pós-modernismo representa uma ruptura significativa em relação ao modernismo, desafiando suas premissas centrais e propondo uma nova forma de entender o mundo. Essa corrente de pensamento nos convida a refletir sobre a complexidade da experiência humana, a pluralidade de perspectivas e as limitações de nossa própria razão. Através de uma análise crítica e equilibrada dos princípios pós-modernos, podemos apreciar sua relevância no contexto atual, reconhecendo tanto suas contribuições quanto suas limitações. O diálogo entre modernismo e pós-modernismo continua a moldar nosso entendimento do mundo contemporâneo e das verdades que buscamos.

Bibliografia Consultada e Sugerida

Modernismo

1. Hobsbawm, Eric J. A Era das Revoluções: Europa 1789-1848. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

2. Hegel, Georg Wilhelm Friedrich. Fenomenologia do Espírito. São Paulo: Editora 34, 2000.

3. Adorno, Theodor W.; Horkheimer, Max. A Dialética do Esclarecimento. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985.

4. Lyotard, Jean-François. A Condição Pós-Moderna. Rio de Janeiro: José Olympio, 1984.

Pós-modernismo

 1. Baudrillard, Jean. Simulacros e Simulação. São Paulo: Editora Escuta, 1995.

2. Foucault, Michel. A Ordem do Discurso. São Paulo: Editora Mandarim, 1995.

3. Rorty, Richard. A Filosofia e o Espelho da Natureza. São Paulo: Editora Unesp, 1999.

4. Kuhn, Thomas S. A Estrutura das Revoluções Científicas. São Paulo: Editora Perspectiva, 1976.

5. Lyotard, Jean-François. O Pós-Moderno Explicado às Crianças. São Paulo: Editora 34, 1996.

 Obras Complementares

1. Eco, Umberto. O Nome da Rosa. São Paulo: Companhia das Letras, 1986.

2. Jameson, Fredric. Pós-modernismo, ou a Lógica Cultural do Capitalismo Tardio. São Paulo: Editora Ática, 1991.

3. Harvey, David. A Condição Pós-Moderna: Uma Pesquisa sobre as Origens do Mudança Cultural. São Paulo: Edusp, 1992.

4. Bhabha, Homi K. A Localização da Cultura. São Paulo: Editora UFMG, 1998.

Essa bibliografia abrange uma variedade de perspectivas sobre modernismo e pós-modernismo, proporcionando uma base sólida para uma compreensão mais aprofundada desses movimentos.

Obras Cristãs em Refutação ao Modernismo e Pós-modernismo

1. Kuyper, Abraham. A Raiz da Ciência. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2013.

2. Plantinga, Alvin. Warranted Christian Belief. Oxford: Oxford University Press, 2000.

3. Van Til, Cornelius. A Survey of Christian Epistemology. Phillipsburg: P&R Publishing, 1969.

4. MacIntyre, Alasdair. Após a Virtude. São Paulo: Editora Loyola, 1990. (Embora não estritamente cristão, aborda a ética em um contexto filosófico que refuta o pós-modernismo).

5. Carson, D. A. The Gagging of God: Christianity Confronts Pluralism. Grand Rapids: Zondervan, 1996.

Essas obras oferecem uma perspectiva cristã que desafia as premissas do modernismo e do pós-modernismo.

domingo, 31 de maio de 2020

A Moralidade é Relativa?*


Por Francis J. Beckwith

[Capítulo quinze do livro:Passionate Conviction: Contemporary Discourses on Christian Apologetics, editado por Paul Copan e William Lane Craig]
Obs.: “Traduzindo trechos e buscando editoras interessadas na publicação”

Participei de várias discussões públicas sobre a questão do aborto. Inevitavelmente, meu oponente ou um membro da platéia fará a afirmação: “Não gosta do aborto? Não aborte”, seguido de aplausos empolgantes de membros da mesma audiência. Essa afirmação, embora comum, revela não apenas um profundo mal-entendido sobre a natureza do debate acerca do aborto, mas também uma confusão sobre o que significa dizer que algo é moralmente errado.
O culpado, acredito, é o relativismo moral - a visão de que, quando se trata de questões de moralidade, não há certo ou errado, absoluto ou objetivo; regras morais são apenas preferências pessoais e / ou o resultado da orientação cultural, sexual ou étnica de alguém. Portanto, escolher um aborto - como escolher um automóvel, um local de férias ou uma sobremesa - é apenas uma questão de preferência. Algumas pessoas gostam de Häagen Daz; outros gostam de aborto - cada um na sua. Assim como é errado julgar o gosto de outra pessoa por sorvete, é errado julgar as escolhas reprodutivas de outros e pedir que seja previsto em lei esse julgamento.
Muitas pessoas, no entanto, vêem o relativismo como algo necessário para promover a tolerância, reprimir o julgamento e promover a inclusão; pois pensam que se alguém acredita que a posição moral de alguém está correta e a do outro incorreta, isso significa que essa pessoa tem a mente fechada e é intolerante. Argumentarei neste capítulo que não apenas os argumentos a favor do relativismo falham, mas também que o próprio relativismo não pode viver de acordo com sua própria regra; pois o relativismo é promovido por seus proponentes como a única visão correta sobre a moralidade e, portanto, implica em intolerância (se entendido corretamente), pois é um ato de julgamento e de exclusivismo.
O Cristianismo ensina que normas morais objetivas se aplicam a todas as pessoas, em todos os lugares, e em todos os tempos. O relativismo diz que não existem tais normas. Se o relativismo estiver incorreto, o Cristianismo não pode ser descartado baseado apenas no argumento de que a fé Cristã defende normas morais objetivas. Assim, uma crítica ao relativismo desempenha um papel importante em apoio à fé Cristã.

Relativismo Moral e Duscurso Moral[1]

O relativismo moral obscureceu a capacidade de muitos de compreender a natureza das reivindicações morais. Algumas pessoas em nossa cultura frequentemente confundem reivindicações de preferência com reivindicações morais ou reduzem as últimas às primeiras. Para entender o que quero dizer com isso, considere duas afirmações:[2]
1. Eu gosto de sorvete de baunilha.
2. Matar pessoas sem justificativa é errado.
A primeira afirmação é uma reivindicação de preferência, pois é uma descrição do gosto subjetivo de uma pessoa. Essa não é uma afirmação normativa. Não é uma reivindicação sobre o que se deve ou não deve fazer. Não está dizendo: "Já que eu gosto de sorvete de baunilha, o governo deve obrigar você a tomar sorvete de baunilha também" ou "Todos no mundo também deveriam gostar de sorvete de baunilha". Uma reivindicação subjetiva de preferência não diz nada sobre o que alguém deve pensar ou fazer. Por exemplo, se alguém dissesse: "Eu gosto de torturar crianças por diversão", isso não nos diz nada sobre se é certo ou errado torturar crianças por diversão.
A segunda alegação, no entanto, é diferente. Tem pouco ou nada a ver com o que alguém possa gostar ou não. De fato, pode-se preferir matar outra pessoa sem justificativa e ainda saber que é moralmente errado fazer isso. Esta afirmação é uma reivindicação moral. Essa não é uma afirmação descritiva, pois ela não nos diz o que, por que ou como as coisas são, ou como a maioria das pessoas de fato se comportam e / ou pensam. Tampouco é uma reivindicação de preferência, pois não nos diz qual pode ser a preferência subjetiva de alguém ou como alguém prefere se comportar e / ou pensar. Pelo contrário, ela é uma afirmação sobre o que as pessoas devem fazer, o que pode ser contrário ao modo como as pessoas realmente se comportam e / ou como preferem se comportar.
Infelizmente, a defesa do relativismo moral tornou difícil para muitas pessoas em nossa cultura distinguir entre reivindicações de preferência e reivindicações morais. Em vez de ponderar e lutar com argumentos a favor e contra uma perspectiva moral específica, as pessoas às vezes reduzem a discordância a uma questão de "preferência pessoal" ou "opinião subjetiva". Por exemplo, alguns que defendem a posição de que se escolha ou não o aborto, às vezes dizem aos que são pró-vida: “Não gosta de aborto? Então não aborte.” Esta instrução reduz o debate sobre o aborto a uma reivindicação de preferência. Ou seja, a objetividade moral correta ou errada do aborto (isto é, se envolve a morte injustificada de um ser que é plenamente humano) é declarada sem um argumento plausível ou como algo sem relevância. Mas isso é claramente um erro, pois aqueles que se opõem ao aborto o fazem porque acreditam que o nascituro, durante quase toda a gravidez de uma mulher, é um membro de pleno direito da comunidade humana e que é prima facie errado, tanto objetiva quanto universalmente, matar um ser assim. Por esse motivo, quando uma pessoa pró-vida ouve um defensor da ideia de se permitir que o aborto seja apenas uma questão de escolha lhe dizer que, se ela não gosta do aborto, ela não precisa abortar, isso soa a ela como se a defensora do aborto estivesse dizendo: "Não gosta de assassinato? Então não mate pessoas inocentes.”
É compreensível que o defensor da vida, comprometido com normas morais objetivas, ache essa retórica desconcertante e pouco convincente. É claro que muitos defensores sofisticados da política do aborto também são oponentes do relativismo moral.[3] Mas parece que, no debate popular, os defensores da escolha do aborto tendem a reduzir a questão do aborto a uma questão de preferência e, portanto, parecem ter sido mais afetados pelo relativismo moral do que foram seus oponentes. (Mas eles não são completamente afetados, pois apelam aos "direitos fundamentais", os quais são tipicamente baseados em alguma moralidade objetiva.)[4] Os argumentos dos defensores da vida podem ser falhos, mas o defensor da escolha do aborto não critica esses argumentos falhos quando ele, por engano, transforma um sério desacordo moral em um debate sobre preferências.

Argumentos à Favor do Relativismo Moral

Dois argumentos são frequentemente usados para defender o relativismo moral. O primeiro é o argumento das diferenças culturais e individuais, e o segundo é o argumento da tolerância.
1. O argumento das diferenças culturais e individuais. Nesse argumento, o relativista conclui que não há normas morais objetivas porque culturas e indivíduos discordam sobre questões morais. Para defender essa premissa, o relativista geralmente cita vários exemplos, como diferenças transculturais e intraculturais, sobre a moralidade das práticas sexuais, aborto, guerra e pena de morte. Nas palavras de Hadley Arkes, um oponente do relativismo moral: “Em uma sociedade, uma viúva é queimada na pira funerária de seu marido; em outra, ela se queima na praia de Miami. Em uma sociedade, as pessoas reclamam com o chef sobre a carne assada; em outra, elas devolvem o rosbife e comem o chef.”[5] Há pelo menos cinco problemas com esse argumento.
Primeiro, o relativismo não se segue de uma discordância. O fato de as pessoas discordarem de algo não significa que não há verdade sobre o assunto. Por exemplo, se você e eu discordarmos da questão de saber se a Terra é redonda, nossa discordância certamente não seria prova de que a Terra não tem uma forma. O fato de um skinhead (um tipo de jovem neo-nazista) e eu discordarmos sobre a questão de tratarmos as pessoas com igualdade e justiça não é certamente motivo suficiente para concluir que igualdade e justiça não são verdades morais objetivas. Mesmo que indivíduos e culturas não possuam valores em comum, não decorre daí que ninguém esteja certo ou errado sobre o que é a verdade moral. Ou seja, poderia haver um indivíduo ou cultura equivocados, como Adolf Hitler e a Alemanha nazista.
Se o mero fato de discordância fosse suficiente para concluir que normas objetivas não existem, teríamos que acreditar que não há uma posição objetivamente correta sobre questões como escravidão, genocídio e abuso sexual de crianças; pois o dono de escravos, o maníaco genocida e o pedófilo, têm uma opinião que difere da opinião daqueles que condenam suas ações. No final, discordância moral não prova nada.
Segundo, a discordância conta contra o relativismo. Suponha, no entanto, que o relativista, apesar do fracasso lógico de seu argumento, atenha-se às suas propostas e sustente que a discordância sobre normas objetivas comprove que o relativismo é correto. Mas isso não vai funcionar. Pois o relativista estabeleceu um princípio –que discordância significa que não há verdade - que desvenda o seu próprio argumento. Afinal, alguns de nós acreditam que o relativismo é uma visão equivocada. Em outras palavras, discordamos do relativista sobre a natureza da moralidade. Acreditamos que existem normas morais objetivas, enquanto o relativista não. Mas, de acordo com o próprio princípio do relativista - discordar significa que não há verdade - ele deveria abandonar sua opinião de que o relativismo é a posição correta. E para piorar a situação para o relativista, seu princípio é uma proposição para a qual não há acordo universal e, portanto, por suas próprias razões, o relativismo deve ser rejeitado. Como Arkes ressalta, "minha discordância estabelece que a proposição [isto é, discordância significando que não há verdade] não desfruta de um consentimento universal e, pelos próprios termos da proposição, isso deve ser suficiente para determinar sua própria invalidez".[6]
Terceiro, a discordância é superestimada. Embora as pessoas e as culturas discordem sobre questões morais, não decorre daí que elas não compartilhem os mesmos princípios ou que não haja normas morais vinculativas para todas as nações em todos os tempos e em todos os lugares. Tomemos, por exemplo, os julgamentos das bruxas de Salém. Em 1692, na colônia de Massachusetts, quase três dúzias de cidadãos (principalmente mulheres) foram condenados à morte como punição por supostamente praticar bruxaria.[7] Nós não executamos bruxas hoje, mas não porque nossos princípios morais mudaram. Antes, a razão pela qual não executamos bruxas é porque não acreditamos, como alguns dos moradores de Salém no século XVII acreditavam, que a prática da bruxaria tem um efeito fatal na comunidade. Mesmo que se acredite, como eu, que os julgamentos e execuções dessas supostas bruxas foram travestidas de justiça, com base em evidências frágeis e acusações falsas alimentadas pela histeria,[8] o princípio a que os defensores dos julgamentos apelaram parece, prima facie, corretos: as comunidades e seus líderes devem apoiar e aplicar políticas que promovam o bem público. Afinal, suponha que tenhamos boas evidências de que a prática da bruxaria tenha afetado as pessoas da mesma maneira que a fumaça de cigarro do fumante afeta o não-fumante. Alteraríamos as práticas para levar isso em consideração. Poderíamos montar espaços para não-bruxas em restaurantes e proibir o lançamento de feitiços em voos de aviões interestaduais. O resultado disso é que o avanço do bem público é um princípio de governo justo que compartilhamos com os moradores de Salém do século XVII, mas temos boas razões para acreditar que eles estavam de fato errados sobre o efeito da bruxaria na conquista desse bem e / ou que a liberdade religiosa promove melhor o bem público do que a coerção religiosa (mesmo que alguém tenha boas razões para acreditar que a prática da bruxaria não seja realmente algo bom).[9]
Considere novamente a questão do aborto. A sabedoria convencional diz que o debate moral e legal sobre o aborto é uma disputa entre duas facções que defendem sistemas de valores incomensuráveis. Mas a sabedoria convencional está enganada, pois essas facções defendem muitos princípios morais em comum.
a. Cada lado acredita que todas as pessoas humanas possuem certos direitos, independentemente de seus governos protegerem esses direitos. É por isso que ambos os lados apelam para o que cada um acredita ser um direito fundamental. O defensor da vida apela à "vida", enquanto o advogado da escolha do aborto apela à "liberdade" (ou "escolha"). Ambos acreditam que um regime constitucional, para ser justo, deve defender seus direitos fundamentais.
b. Cada lado acredita que sua posição exemplifica melhor o valor fundamental de seu oponente. O defensor da escolha do aborto não nega que a "vida" tenha valor, mas argumenta que o apelo de sua posição à liberdade humana é um ingrediente necessário pelo qual um indivíduo pode buscar a vida mais plena e completa possível.
Por outro lado, o advogado pró-vida não evita a "liberdade". Ele acredita que toda a liberdade humana é pelo menos limitada pelo direito de outra pessoa à vida. Por exemplo, alguém tem o direito de buscar livremente qualquer objetivo que considere consistente com a sua felicidade, como assistir a um jogo de basquete do Los Angeles Lakers. Não se tem, no entanto, o direito de perseguir livremente esse objetivo em detrimento da vida ou da liberdade do outro, como atropelar pedestres com o carro para que possa chegar ao jogo a tempo. E, é claro, o advogado pró-vida argumenta que os nascituros são pessoas com pleno direito à vida. E, como o ato de aborto geralmente resulta na morte dos nascituros, o aborto, com poucas exceções, não é moralmente justificado e, por esse motivo, deve ser ilegal.
Os defensores da escolha do aborto não negam que as pessoas humanas tenham direito à vida. Eles apenas acreditam que esse direito à vida não se estende aos nascituros, porque os nascituros, segundo eles, não são membros de pleno direito da comunidade humana e / ou não têm o direito de usar o corpo da mãe contra sua vontade. Os pró-vida, por outro lado, não negam que as pessoas tenham a liberdade de fazer escolhas que acreditam serem do seu interesse. Eles apenas acreditam que essa liberdade não implica o direito de escolher o aborto; pois tal escolha entra em conflito com a vida, liberdade e interesses de outro ser humano (o feto), que é indefeso, fraco e vulnerável e tem uma reivindicação natural dos cuidados de seus pais, tanto no pré quanto no pós-natal. Assim, depois de tudo, o debate sobre o aborto não é realmente sobre sistemas morais conflitantes. Afinal, imagine que um político pró-vida dissesse o seguinte em um discurso de campanha: “A plataforma do meu partido defende o direito da mulher de interromper a gravidez, se e somente se, isso não resultar na morte de seu filho ainda não nascido”. A discordância sobre tal plataforma não seria sobre a moralidade de matar seres humanos; seria sobre a questão metafísica de se o humano não nascido é incluído nessa categoria.
Quarto, consequências absurdas decorrem do relativismo moral.
a. Se não há normas morais objetivas que se apliquem a todas as pessoas em todos os tempos e lugares, então certos julgamentos morais, como os seguintes, não podem ser universalmente verdadeiros: Madre Teresa era moralmente melhor que Adolf Hitler; o estupro é sempre errado; e é errado torturar bebês por diversão. Mas negar que esses julgamentos não sejam universalmente verdadeiros parece absurdo. Pois parece haver alguns julgamentos morais absolutamente corretos, independentemente do que as culturas ou os indivíduos possam pensar.
b. Se o relativista afirma que a moralidade é relativa ao indivíduo, o que acontece quando as moralidades individuais entram em conflito? Por exemplo, suponha que a moralidade de Jeffrey Dahmer permita que ele canibalize seu vizinho, mas seu vizinho não concorde. O que o relativista sugeriria que seja feito neste caso, uma vez que, de acordo com essa forma de relativismo, a moralidade de ninguém seja, em princípio, superior a qualquer outra? Além disso, se a vida moral não passa de um reflexo dos gostos, preferências e orientações individuais das pessoas, não podemos dizer aos jovens que é moralmente errado mentir, roubar, trapacear, fumar, abusar de drogas, matar seus recém-nascidos, e abandonar a escola mesmo que esses comportamentos possam ser consistentes com os gostos, preferências e / ou orientações pessoais dos alunos.
c. Mesmo que o relativista faça uma afirmação mais modesta de que a moralidade não é relativa ao indivíduo, mas à cultura do indivíduo, de que alguém só é obrigado a seguir os ditames da sociedade, outros problemas se seguem.
Em primeiro lugar, a posição do relativista cultural é auto-refutável. Uma reivindicação é auto-refutável quando ela é inconsistente consigo mesma. Por exemplo, se eu dissesse: "Não posso me comunicar", isso seria auto-refutável, pois, na verdade, eu estaria lhe comunicando a alegação de que não posso me comunicar.
Como o relativismo cultural se auto-refuta? O defensor do relativismo cultural sustenta que não há normas morais objetivas e universais e, por essa razão, todos os indivíduos devem seguir as normas morais de sua própria cultura. Mas o relativista cultural está fazendo uma reivindicação moral absoluta e universal - ou seja, que os indivíduos são moralmente obrigados a seguir as normas morais de sua própria cultura. Portanto, se essa norma moral é absoluta e universal, o relativismo cultural é falso. Mas se essa norma moral não é absoluta nem universal, o relativismo cultural ainda é falso; pois nesse caso eu não teria uma obrigação moral de seguir as normas morais da minha cultura.
Em segundo lugar, pelo fato de cada um de nós pertencer a várias "sociedades" ou "culturas" diferentes, qual delas deve ser seguida quando elas entrarem em conflito? Por exemplo, suponha que uma mulher chamada Carla seja moradora de um bairro liberal de luxo em Hollywood, Califórnia, freqüente uma igreja Cristã e seja sócia de um prestigiado escritório de advocacia. Em sua vizinhança, ter um caso de adultério é considerado ser uma pessoa "esclarecida", e aqueles que não perseguem tais uniões são considerados puritanos reprimidos. Em sua igreja, no entanto, o adultério é condenado como pecaminoso, enquanto em seu escritório de advocacia o adultério não é incentivado nem desencorajado. Suponha ainda que Carla opte por cometer adultério atrás do escritório da empresa com um companheiro da igreja, Winston, que reside em um bairro conservador em que o adultério é condenado. O escritório, ao que parece, fica ao lado da igreja, bem como precisamente a meio caminho entre o bairro de Carla e o bairro de Winston. Não fica claro qual sociedade é moralmente relevante.[10]
Em terceiro lugar, não pode haver progresso moral ou reformadores morais. Se a moralidade é redutível à cultura, então não pode haver progresso moral real. A única maneira de dizer que uma cultura está melhorando ou progredindo é se houver normas morais objetivas que não dependam da cultura da qual uma sociedade possa se aproximar. Mas se o que é moralmente bom é apenas o que a cultura diz ser moralmente bom, então podemos dizer apenas que as normas culturais mudam, não que a sociedade esteja progredindo ou melhorando. No entanto, parece, por exemplo, que a abolição da escravidão e o estabelecimento de direitos civis dos afro-americanos nos Estados Unidos foram exemplos de progresso moral. Além disso, aqueles que lideraram esses movimentos, os reformadores morais, como William Wilberforce, Harriet Beecher Stowe e Martin Luther King Jr., não poderiam ter sido moralmente corretos se o relativismo cultural for verdadeiro. Como J. P. Moreland observa:
Os reformadores morais, por definição, mudam o código de uma sociedade, argumentando que esse código é, de alguma forma, moralmente inadequado. Mas se o relativismo [cultural] é verdadeiro, um ato é certo se, e somente se, estiver no código de uma sociedade; portanto, o reformador é por definição imoral (já que ele adota um conjunto de valores fora do código da sociedade e tenta mudar esse código de acordo com esses valores). ... Qualquer visão moral que implique isso é certamente falsa.[11]
Assim, para permanecer consistente, o relativista cultural deve negar que possa haver algum progresso moral real ou quaisquer reformadores morais reais. Pois tais julgamentos pressupõem a existência de normas morais reais, objetivas.
2. O argumento da tolerância. Muitas pessoas vêem o relativismo como necessário para promover a tolerância, o não julgamento e a inclusão; pois eles pensam que se você acredita que sua posição moral está correta e que os outros estão incorretos, você tem uma mente fechada e intolerante. Eles geralmente baseiam essa premissa nas diferenças bem conhecidas de opinião sobre a moralidade entre culturas e indivíduos. Assim, o relativista moral abraça a visão de que não se deve julgar outras culturas e indivíduos, pois isso seria intolerância. Há pelo menos três problemas com esse argumento, os quais sustentam que a tolerância (se entendida corretamente) e o relativismo são na verdade incompatíveis entre si.
Primeiro, a tolerância apóia a moralidade objetiva, não o relativismo. Se todos devem ser tolerantes, então a tolerância é uma norma moral objetiva. E, portanto, o relativismo moral é falso. Então, ironicamente, o chamado à tolerância pelos relativistas pressupõe a existência de pelo menos uma norma não-relativa, universal e objetiva: a tolerância. Além disso, a tolerância pressupõe que há algo de bom em ser tolerante, como poder aprender com outras pessoas com quem discordamos ou transmitir conhecimento e sabedoria a essa pessoa. Mas isso pressupõe valores morais objetivos - ou seja, que conhecimento e sabedoria são coisas boas. Além disso, a tolerância pressupõe que alguém possa estar correto sobre sua perspectiva moral. Ou seja, parece que parte da motivação para advogar a tolerância é incentivar as pessoas a estarem abertas à possibilidade de que alguém possa obter a verdade e a percepção (incluindo a verdade e o insight moral) de outra pessoa que a possua. Se for esse o caso, existem verdades morais objetivas que se podem aprender.
Além disso, a tolerância pressupõe um julgamento moral do ponto de vista de outra pessoa. Ou seja, só posso tolerar as ideias que considero erradas. Não sou tolerante com o que concordo; Eu apoio o que concordo. E não sou tolerante com aquilo pelo qual não tenho interesse (por exemplo, futebol profissional europeu); Eu apenas tenho negligência benigna por isso. (Ou seja, não me importo de nenhum modo.) Considere o seguinte exemplo. Suponha que eu diga a um amigo que acredito que a homossexualidade é imoral. E suponha que meu amigo exija que eu seja tolerante com homossexuais na minha comunidade. Se eu aceitar esse conselho e optar por ser civil, respeitoso e gentil com gays e mulheres com quem tenho contato, ao mesmo tempo em que julgar suas práticas sexuais como imorais, parece que eu estaria sendo realmente tolerante. Mas suponha que alguém diga que meu julgamento sobre a homossexualidade como algo imoral ainda me transforme em um "intolerante". Nesse ponto, devido meu entendimento sobre "tolerância", não tenho ideia do que devo fazer. Pois se eu mudar meu ponto de vista sobre a homossexualidade e disser que não é imoral ou que não tenho opinião (ou seja, tenho uma negligência benigna como no exemplo do futebol acima), não posso ser tolerante; pois só posso tolerar o que acredito estar errado ou equivocado. Por outro lado, se julgar a posição de outra pessoa como errada ou equivocada o torna intolerante, então a pessoa que julga minha avaliação negativa da homossexualidade é, pela própria definição dessa pessoa, intolerante. Mas isso é um absurdo. Pois se tolerância significa que não se deve julgar uma visão como moralmente errada, então das duas, uma: para ser consistente, deve-se abraçar a visão ou ter uma negligência benigna por ela. Se for esse o caso, então a tolerância perdeu seu significado e é simplesmente uma fachada para tentar envergonhar e coagir os outros a não discordar publicamente (e / ou talvez em particular) da posição controversa e disputada sobre a sexualidade humana. Ironicamente, este é um exemplo de intolerância (como tradicionalmente entendido). Assim, parece-me que o apelo à tolerância, uma vez que tenhamos uma compreensão clara de seu significado, é inconsistente com o relativismo.
Segundo, o próprio relativismo é uma posição de mente fechada e intolerante. Afinal, o relativista afirma dogmaticamente que não há verdade moral. Para ilustrar isso, considere um diálogo (baseado livremente em uma conversa da vida real) entre uma professora do ensino médio e sua aluna Elizabeth.[12] A professora instrui a turma: “Bem-vindos, alunos. Este é o primeiro dia de aula e, por isso, quero estabelecer algumas regras básicas. Primeiro, como ninguém tem a verdade sobre moralidade, você deve ter a mente aberta para as opiniões de seus colegas.”
A professora olha para a mão levantada de Elizabeth, que pergunta: “Se ninguém tem a verdade, essa não é uma boa razão para eu não dar ouvido aos meus colegas? Afinal, se ninguém tem a verdade, por que devo perder meu tempo ouvindo outras pessoas e suas opiniões? Qual é o objetivo? Somente se alguém tem a verdade, faz sentido ter a mente aberta. Você não concorda?
“―Não, eu não concordo. Você está reivindicando saber a verdade? Isso não é um pouco arrogante e dogmático?”
"De modo nenhum. Pelo contrário, acho dogmático e arrogante afirmar que nenhuma pessoa na Terra sabe a verdade. Afinal, você conheceu todas as pessoas no mundo e as interrogou exaustivamente? Caso contrário, como você pode fazer essa afirmação? Além disso, acredito que é realmente o oposto de arrogância dizer que alterarei minhas opiniões para se encaixar com a verdade sempre e onde quer que a encontre. E se eu achar que tenho boas razões para acreditar que sei a verdade e gostaria de compartilhá-la com você, por que você não me ouviria? Por que você colocaria em descrédito automaticamente minha opinião antes que ela fosse proferida? Eu penso que deveríamos ouvir a opinião de todos.”
"Este deve ser um semestre interessante."
Outro aluno deixa escapar: "Não é essa a verdade", provocando risos na classe.
Terceiro, o relativismo é crítico, exclusivista e partidário. Isso pode parecer uma coisa estranha de se dizer, já que o relativista gostaria que você pensasse que seu ponto de vista é sem julgamento, inclusivista e neutro quando se trata de crenças morais. Mas considere o seguinte: (a) O relativista diz que se você acredita na verdade moral objetiva, você está errado. Conseqüentemente,o relativismo é crítico. (b) Daí se segue que o relativismo está excluindo suas crenças da esfera das opções legítimas. Assim, o relativismo é exclusivista. E (c) pelo fato do relativismo ser exclusivista, todos os não-relativistas automaticamente não são membros do partido do "pensamento correto". Então o relativismo é partidário.
A tolerância só faz sentido dentro da estrutura de uma ordem moral, pois é dentro dessa estrutura que se pode justificar moralmente tolerar algumas coisas sem tolerar outras. Pois a tolerância sem uma estrutura moral ou tolerância absoluta leva a um relativismo dogmático e, portanto, a uma intolerância a qualquer ponto de vista que não abrace o relativismo. Não é de admirar que, em um clima de "tolerância", qualquer pessoa que defenda que exista uma ordem moral objetiva à qual a sociedade deva se submeter seja recebida com desprezo.

Raciocinando sobre Questões Morais

A moralidade é claramente mais que mero raciocínio, assim como a arquitetura é mais que mera matemática. Pode-se compreender imediatamente, assim como apreciar a virtude moral de Madre Teresa ou a elegância monumental da Torre Eiffel sem ter estudado a filosofia moral de Thomas Reid ou dominado geometria e cálculo. No entanto, assim como não se pode construir a Torre Eiffel sem dominar certas disciplinas matemáticas, não se pode atribuir o rótulo de justo ou correto ao ponto de vista de alguém sem oferecer justificativa para sua retidão.
A lógica do raciocínio moral faz parte integrante de nosso discurso desde que os seres humanos ocupam a terra. Essa lógica agitou almas, envergonhou pecadores, moveu nações, energizou movimentos sociais e nos proporcionou uma gramática potente em inúmeras áreas da vida pública e privada. Considere apenas um exemplo, embora muitos outros possam ser selecionados para nossos propósitos.
Em sua tentativa fracassada de 1858 de obter uma cadeira no Senado dos EUA em Illinois, Abraham Lincoln se engajou em uma série de debates públicos com seu oponente democrata, Stephen A. Douglas. Entre os muitos tópicos em que eles discutiram, estava a questão de saber se os territórios dos EUA deveriam ser autorizados pelo governo federal a permitir a escravidão, se assim o desejassem. Douglas sustentou que, embora acreditasse que a escravidão fosse algo errado (ou seja, ele se opunha a escravidão), ele não estava disposto a exigir que o governo federal eliminasse a escravidão; pois fazê-lo seria violar o princípio da soberania popular (ou seja, que as maiorias locais deveriam ter permissão para votar em tais questões, livres de toda e qualquer restrição federal).[13] Mas, como Lincoln destacou apropriadamente:
Quando o juiz Douglas diz que "não se importa se a escravidão for votada à favor ou contra sua liberação", ... ele não pode argumentar logicamente se vê algo de errado na escravidão. ... Ele não pode dizer que veria logo um erro votar à favor ou contra. Quando o juiz Douglas diz que quem quer que seja a comunidade ou os que querem escravos, eles têm o direito de tê-los, ele é perfeitamente lógico se não houver nada de errado com a escravidão; mas se você admitir que a escravidão é um erro, ele não pode dizer logicamente que alguém tem o direito de cometer um erro.[14]
Lincoln, um homem prático com sabedoria incomum, compreendeu uma verdade conceitual importante que muitas vezes não é compreendida por aqueles como Douglas, que inadvertidamente tropeçam na arena do raciocínio moral e pensam que estão em outro lugar: alegar que algo está errado é reivindicar que é inadmissível, mas inexoravelmente se seguiria dessa verdade que não se pode reivindicar que se tem o direito de fazer o errado, pois isso significaria que o não admissível é permitido.[15] Ou, como Arkes afirma: “Quando chegamos ao reconhecimento que qualquer ato está na classe do erro ... a lógica desse reconhecimento nos proíbe de tratar esse ato por uma questão meramente de gosto pessoal ou de escolha particular.”[16]
Em notas que ele havia preparado para si, Lincoln forneceu outro exemplo de raciocínio moral baseado em princípios ao avaliar os tipos de argumentos que seus contemporâneos apresentaram para defender a escravidão do negro pelos brancos:
Você diz que A. é branco e B. é preto. Então é a cor: o mais claro tem o direito de escravizar o mais escuro? Cuidado. Por essa regra, você deve ser escravo do primeiro homem que encontrar, com uma pele mais clara que a sua.
Você não quer dizer exatamente a cor? - Você quer dizer que os brancos são intelectualmente superiores aos negros e, portanto, têm o direito de escravizá-los? Tome cuidado novamente. Por essa regra, você deve ser escravo do primeiro homem que encontrar, com um intelecto superior ao seu.
Mas, digamos, é uma questão de interesse; e, se puder te interessar, você tem o direito de escravizar outro. Muito bem. E se a ele puder interessar, ele tem o direito de escravizar você.[17]
Lincoln estava argumentando que, se aplicássemos os argumentos à favor da escravidão aos futuros e atuais proprietários de escravos, brancos, então estabelecemos premissas que podem ser empregadas pelo governo para minar os direitos de todos os seres humanos sob sua autoridade.[18] Pois as premissas dos argumentos pró-escravidão contêm proposições que apelam para níveis de propriedades que não têm peso moral - cor, intelecto e interesse - quando se trata da questão da igualdade humana. A avaliação de Lincoln desses argumentos é um exemplo impressionante de raciocínio moral.

Conclusão

O relativismo moral é um fracasso filosófico. Os dois principais argumentos à favor do relativismo moral - o argumento da discordância e o argumento da tolerância - são seriamente falhos de várias maneiras. Devido o fracasso do relativismo moral, parece razoável acreditar em moralidade objetiva. Além disso, existe uma lógica do raciocínio moral que tem sido empregada por inúmeras pessoas ao longo dos tempos com o objetivo de proporcionar aos seus concidadãos clareza moral e / ou justificativa moral.
* Este capítulo é adaptado do capítulo “Why I Am Not a Relativist?”, do livro Why I Am a Christian, editado por Norman L. Geisler e Paul Hoffman (Grand Rapids, Mich.: Baker, 2001). O capítulo dois do meu livro Defending Life: A Moral and Legal Case against Abortion Choice (New York: Cambridge University Press, 2007) também é adaptado de uma obra de 2001, mas difere pouco do presente capítulo, que editei levemente para se encaixar no propósito dos editores.

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Fonte:
BECKWITH, Francis J. Is Morality Relative?In COPAN, Paul; CRAIG, William Lane (General Editors). Passionate Conviction: Contemporary Discourses on Christian Apologetics. Nashville, Tennessee: B&H ACADEMIC, 2007.
Tradução Walson Sales.
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Notas:
[1] As ideias e argumentosdestetrechoforammoldadossignificantementepor Hadley Arkes no livro, First Things: An Inquiry into the First Principles of Morals and Justice (Princeton, N.J.: Princeton University Press, 1986), 20-22.
[2] A obra de Arkes (ibid.) Foi fundamental para me ajudar a entender melhor as diferenças entre as duas declarações.
[3] Veja, porexemplo, David Boonin, In Defense of Abortion (New York: Cambridge University Press, 2003), 13-14.
[4] Para umaavaliação da aparenteincoerênciadestaposição, vejaHadley Arkes, Natural Rights and the Right to Choose (New York: Cambridge University Press, 2002).
[5] Arkes, First Things, 149.
[6] Ibid., 132.
[7] VejaTim Sutter, “Salem Witchcraft: The Events and Causes of the Salem Witch Trials” (2003), The Salem Witch Trials (Web site) at http://www.salemwitchtrials.com/salemwitch-craft.html (12 July 2006).
[8] Ibid.
[9] Digo o último porque me parece que se certas tradições religiosas podem ter justificativa racional, não seria irracional para os crentes nessas tradições legitimamente julgar certas práticas (por exemplo, bruxaria) como más sem criminalizar a prática. Para algunsargumentosinteressantessobre a racionalidade de certastradiçõesreligiosas, vejaAlvin Plantinga, Warranted Christian Belief (New York: Oxford University Press, 2003); e Francis J. Beckwith, William Lane Craig, and J. P. Moreland, eds., To Everyone an Answer: A Case for the Christian Worldview (Downers Grove, Ill.: InterVarsity, 2004).
[10] J. P. Moreland ofereceumailustração similar, J. P. Moreland, Scaling the Secular City (Grand Rapids: Baker, 1987), 92.
[11] Ibid., 243.
[12] Este diálogo é apresentado de maneira levemente diferente em Francis J. Beckwith and Gregory P. Koukl, Relativism: Feet Firmly Planted in Mid-Air (Grand Rapids: Baker, 1998), 74.
[13]Arkes, First Things, 24.
[14]The Collected Works of Abraham Lincoln, ed. Roy P. Basler (New Brunswick, N.J.: Rutgers University Press, 1953), 3: 256—57, comocitadoemArkes, First Things, 24.
[15]Arkes, First Things, 24—25.
[16] Ibid., 25.
[17]The Collected Works of Abraham Lincoln, 2:222, comocitadoemArkes, First Things, 43—44 (emphasis in original).
[18]Arkes, First Things, 43.

segunda-feira, 22 de julho de 2019

HERANÇAS PARA SOCIEDADE

Conservadorismo Bíblico X Niilismo e Relativismo Moral.
Na presente era comumente ouvimos a afirmativa de que a Bíblia não passa de um compêndio de documentos humanos e portanto, não serve como normativa para vida. Outros, advogam que muitos dos princípios bíblicos não se coaduna com a realidade da nossa época, pelo fato de ter sido ela escrita a muito tempo.
Pensamentos deste tipo resultam, dentre outras coisas, de uma predominância na absorção da mentalidade secular, que erroneamente tem interpretado os escritos bíblicos pelos "olhos míopes" do secularismo.

Como que um crivo mental estivesse instalado em suas mentes, essas pessoas criaram um muro de resistência diante dos argumentos judaico-cristãos, sem ao menos pondera-los. Sendo assim, facilmente fogem pela tangente quando confrontados por esses.
Apesar das muitas e importantes evidências históricas, científicas e proféticas da Bíblia, muitas pessoas ainda insistem em desacredita-la, e sequer usam o pensamento crítico de forma honesta, ao refletir sobre a contribuição do conservadorismo bíblico na formação moral de um indivíduo e os reflexos benéficos disso na sociedade.

O relato bíblico nos revela que devemos a nossa existência a ação criadora de um Deus que possui um padrão de caráter elevado de justiça e moralidade (Lv 19.2). Ainda, o relato da Queda (Gn 3.1-24) nos mostra que existe uma propensão humana para o mal (Rm 7.15-25). O Senhor Jesus com sua forma singular de simplificar questões complexas, resumiu isso ao afirmar que " o que sai do homem, é isso que contamina o homem (Mc 7.20).
Do outro lado temos as ramificações do niilismo e relativismo moral, que honestamente, tem causado muito mal-estar na sociedade hodierna. O niilismo considera que as crenças e valores tradicionais são infundados, sem sentido e utilidade para as pessoas. O relativismo moral, por sua vez, despreza a universalidade de valores. Ambos, principiam de filosofias que desprezam a revelação bíblica da natureza pecaminosa do homem e acaba descambando em falsas suposições de que, sem a regeneração advinda da mensagem do Evangelho de Cristo a sociedade pode ter êxito fundamentada apenas em estruturas humanas sociais e políticas. Todavia, na prática, vemos que não é bem assim, como de forma inteligente foi ilustrado na vinheta cômica "Outland":
"No primeiro quadro, o pinguim Opus e seus amigos estão precariamente equilibrados em um triciclo à beira de um precipício.
Por toda a sua volta há sinais de advertência: Perigo! Pare! Um cartaz de um médico chefe diz: "Mergulhar de precipícios é prejudicial a saúde". Mas os personagens ignoram os avisos e continuam, inclinando- se para baixo. O triciclo tomba, naturalmente, e todos eles voam. Na lama, Opus estende a mão e exige: " Rápido! Saúde pública grátis ilimitada"
(COLSON; PEARCEY, 2001, p.53).

Aplicando esta ilustração em termos abrangentes, a negação dos valores judaico-cristãos e a aceitação de comportamentos autônomo como, por exemplo, a libertinagem sexual dos jovens, a legalidade das drogas, a defesa do suicídio e aborto e as mais diversas formas de ruptura familiar, tem resultado em grandes prejuízos para a sociedade, que acaba pagando uma alta conta por gerações.
O problema é que todo esse relativismo não fornece base para uma sociedade ordeira e segura. Uma vez que esta, só pode ser sadia se formada por pessoas moralmente responsáveis. Quando o homem não se fundamenta na lei moral e universal da qual a Palavra de Deus revela, não se encontra sentido para uma vida de virtudes, conforme a Bíblia elucida e com base nela argumenta Sales:

"Pessoas não vêm de processos sem valores impessoais, sem consciência, não guiados com o passar do tempo. Um Deus bom, pessoal, autoconsciente e com propósito provê o contexto natural e necessário para a existência de pessoas humanas valiosas, moralmente responsáveis e detentoras de direitos.
Pessoalidade e moralidade estão necessariamente conectadas. Valores morais estão enraizados na pessoalidade. Sem Deus, um ser pessoal, nenhuma pessoa - e assim nenhum valor moral - existiria absolutamente" (SALES, 2016, p.112).

Para os que afirmam que o conservadorismo moral bíblico são antiquados para a sociedade moderna, é só observar o contexto bagunçado da mesma que a isso afirma. 
Conhecer e honrar os princípios morais de Deus para o homem, foi e sempre será o caminho mais seguro que irá ressoar, de forma positiva, nos mais diversos ramos da sociedade.

Por Fabiana Ribeiro.

domingo, 7 de julho de 2019

*A questão da Verdade versus Relativismo*

Por que o dito relativismo ético e religioso representa um oponente a doutrina cristã? 
No Evangelho de João capitulo 14 e versículo 6 temos: "Disse-lhe Jesus: Eu sou o caminho a verdade e a vida, ninguém vem ao Pai, senão por mim”. Aqui está o cerne da nossa fé cristã. Como dito nas Sagradas Escrituras, a verdade liberta ( Jo 8.32).

Vejamos a afirmação de Edith Theresa Hedwing Stein: “quem busca a verdade, busca a Deus, mesmo sem saber”. De origem judia, Edith foi a primeira mulher a defender uma tese de filosofia na Alemanha. Foi discípula de Edmund Husserl, fundador da fenomenologia. Declarava-se ateia, e até à adolescência ia para sinagoga, mais por atenção a sua mãe do que por convicção religiosa. Possuidora de uma inteligência singular e uma abertura de coração para a verdade, ao receber pela primeira vez uma literatura cristã, intitulada “O livro da Vida”, teria dito sobre o Cristianismo: “aqui está a verdade”.
Anos depois, perseguida pela Alemanha Nazista, foi presa defendendo sua fé e levada para os campos de concentração de Auschwitz. Ecoam as palavras de Edith Stein: “quem procura a verdade, procura a Deus, seja isso evidente ou não para essa pessoa ”.
Os filósofos gregos são a prova de que podemos chegar ao conhecimento de Deus apenas com o uso da nossa razão. Sem a revelação bíblica, mas partindo da busca pela verdade, chegaram a conclusão de que o universo só poderia ser fruto de uma “causa incausada”, ou seja, uma causa primeira que causou todas as coisas, mas que nunca foi causada. Essa causa primeira ou “causa das causas”, seria Deus.

Sócrates, inclusive, teria feito uma oração ao Deus desconhecido, “causa das causas”, para que tivesse piedade dele.
Por que alguns filósofos gregos chegaram ao conhecimento de um Deus uno, infinito, absoluto, indizível, espírito, simples, eterno, “causa de todas as causas”, sem a revelação das Sagradas Escrituras?
Por que uma ateia como Edith Stein descobriu a Deus apenas investigando a verdade?
A resposta é que aqueles que buscam a verdade de coração sincero encontrarão a Deus, pois Deus é a verdade.

Portanto o Relativismo se mostra antagônico a fé cristã, quando prega que a partir do pressuposto da afirmação de que existe uma verdade vinculada e válida, na própria história, na pessoa de Jesus Cristo e na fé do seu Evangelho, é considerado um fundamentalismo que se apresenta como um autêntico atentado contra o espírito moderno e como ameaça ao bem principal, ou seja a tolerância e a liberdade.
Livro: A Cristofobia no Século XXI- Entendendo a perseguição aos cristãos no terceiro milênio. (Daniel Chagas Torres)
Via Fabiana Ribeiro.

terça-feira, 25 de junho de 2019

O que é verdade pra você não é verdade pra mim (Relativismo)

Por Paul Copan
"Além dessa linha está bem" está bem, diz o relativista. "Contanto que você guarde suas opiniões para si mesmo, então vamos todos nos dar bem" Mas será que o relativista está além da linha quando ele diz pra você?
Imagine uma múltipla colisão de carros em um cruzamento movimentado perto de sua casa. É uma ocorrência que não deve ser difícil de imaginar. Ela pode, de fato, acontecer bem perto de sua casa, como foi comigo e minha família, em junho de 1997. Agora estenda ainda mais a sua imaginação. Suponha que nós vivemos em um mundo de processos menos felizes. Em vez de todas as partes silenciosamente trocarem as licenças e as informações do seguro e irem se afastando sem admitir até mesmo uma pequena parte da culpa, cada um corre para o cruzamento para explicar o seu lado da história: "Você puxou na minha frente!" "Mas eu tinha o direito de passagem”. Você não sabe que sinal vermelho significa parar? Pedestres que testemunharam o acidente do meio-fio inseriram o que viram. Um caminhoneiro com uma visão elevada, dominante do cruzamento pesa dentro da conversa. Então talvez a parte culpada dá um passo a frente: "Bem, na verdade, a culpa foi minha. Eu estava falando no celular do meu carro. Eu não estava prestando atenção ao que eu estava fazendo. Eu causei o acidente."
Para todos o debate pós-acidente, quando um policial chega e começa a tomar notas, uma verdade será clara: um acidente aconteceu. E com o tempo, as outras verdades serão determinadas. Em última análise, uma descrição do acidente surgirá que corresponde à realidade.
Nós vivemos nossas vidas contando com a crença de que existe uma verdade objetiva - se só nós podemos encontrá-la. Nós reunimos evidências; pesamos a credibilidade e veracidade, fazemos julgamentos difíceis. No final, nós chegamos muito próximo da verdade.
Nós podemos fazer afirmações verdadeiras que descrevem com precisão razoável como os eventos realmente aconteceram. (Ou, fornecer a evidência certa, podemos determinar a verdade a respeito de se o carro que comprei foi um limão,[1] ou como nossas decisões mais importantes na vida estavam certas ou erradas, ou se Deus é real.) Acreditamos que se tivéssemos um helicóptero sobre cada cruzamento e uma câmera de vídeo dentro de cada carro - para ver quem está ao telefone, ou fazendo a barba, ou aumentando o volume - podemos até descobrir a verdade sobre 'acidentes'.
A verdade é mais do que a nossa comunicação subjetiva de um acidente de carro. Ela tem existência objetiva. Ela tem aplicação universal.
Verdade é verdade - mesmo que ninguém saiba
Verdade é verdade - mesmo que ninguém admita
Verdade é verdade - mesmo que ninguém concorde com ela
Verdade é verdade - mesmo que ninguém a siga
Verdade é verdade - mesmo que ninguém, mas Deus a mantém totalmente
Embora algumas autoridades locais desistiram de tentar descobrir de quem é a culpa por acidentes de carro (daí o seguro 'sem culpa'), se importa com a verdade. E quando as estacas são levantadas - quando a criança atravessar a rua e for atropelada e morta, por exemplo – descobrir a verdade torna-se essencial. Circunstâncias graves nos lembra que a dificuldade de encontrar a verdade não é desculpa para não procurar.
Insira o relativista. Para o relativista, nenhum "fato" são reais em todos os tempos e lugares. Ele argumenta que, porque o ponto de vista de todos é diferente, não podemos nunca saber o que realmente aconteceu no local do acidente. Na verdade, as fortes crenças do relativista dizem que, dada a natureza escorregadia do que o resto de nós chamam erroneamente de "verdade", não podemos até mesmo resolver sobre o fato de que o acidente realmente aconteceu.
Então, algumas pessoas chamadas “relativistas” nunca responderiam a pergunta de Pilatos “O que é a verdade?” dizendo que cada pessoa decide o que é verdade pra eles. Jesus diz que Ele é a verdade para todos e não somente verdade para mim.
O que uma pessoa ponderada poderia dizer em resposta?
· Se minha crença é verdade somente pra mim, então porque a sua crença não é verdade somente pra você? Você não está dizendo que você quer me fazer acreditar na mesma coisa que você acredita?
· Você diz que nenhuma crença é verdade para todos, mas você quer que todos acreditem no que você crê.
· Você está fazendo reivindicações universais que o relativismo é verdadeiro e o absolutismo é falso. Você não pode no mesmo fôlego dizer: 'Nada é universalmente verdadeiro "e" Meu ponto de vista é uma verdade universal’. O Relativismo falsifica si mesmo. Ele afirma que há uma posição que é verdade - o relativismo!
· Você está aplicando sua visão a todos, mas a si mesmo. Você espera que os outros acreditem em seus pontos de vista (a "falácia de se auto-excetuar”).
Tradução: Walson Sales
Fonte:
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[1] Nota do tradutor: Limão, para o Americano quer dizer que ele fez um mau negócio, dentro desse contexto. Serve para dizer se uma coisa é ruim.

domingo, 2 de junho de 2019

A Lucidez Cristã em Meio a Licenciosidade de Uma Sociedade Cética e Relativista.

Cada vez mais cresce o número de pessoas que desprezam qualquer noção real de lei. Todavia, quando inquirimos tais opiniões, chegamos a conclusão comum entre essas pessoas, a conclusão de que para elas não há absolutos. Logo, para eles tudo é relativo.
A aplicação desse conceito na prática, leva a banalização de questões inegociáveis para o bem pessoal e coletivo, tais como a ordem, a família, a preservação da integridade dos homens nos mais variados aspectos, desde a concepção da vida e pureza da criança, a moralidade na construção do caráter e coisas semelhantes. A negação de tudo isso tem contribuído para uma sociedade caótica, formada por pessoas com muitas deformidades e isso é evidenciado pelo número crescente de divórcios, banalização da prática do aborto, erotização de crianças, libertinagem entre os jovens, uso deliberado de drogas até a negação do inegável: as diferenças biológicas e físicas entre homens e mulheres.
Para o cristão não é assim. Ele sabe e leva a sério o fato de que Deus existe, e ele tem um caráter. E existem coisas que estão fora dos seus mandamentos e princípios. Princípios esses, que Deus nos deu como expressão do seu caráter afim de orientar a criação de forma ordeira. Portanto, existem absolutos, e isso é inegociável.
A não participação de práticas e modismos relativistas pelos cristãos, nem de longe passa pela ideia de alienação, como muitos relativistas os taxam. É sim, um claro exemplo de deliberada lucidez, como bem argumentou o apóstolo Paulo : " Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas as coisas convêm. Todas as coisas me são lícitas, mas eu não me deixarei dominar por nenhuma delas" ( 1 Co 6.12).
A realidade da consciência e comprometimento com a pessoa de Deus é a fonte inspiradora da prazerosa conduta moral no cristianismo, como bem pontua o teólogo e filósofo Paul Copan:
" Antes, começamos com o valor( o bom caráter de Deus), e terminamos com valor ( seres humanos portadores da imagem divina com responsabilidade moral e direitos). Um bom Deus preenche efetivamente o abismo entre o " é" e o " dever". O valor existe desde o início; ele está enraizado em um bom Deus , auto-existente" ( COPAN, 2011, p.252).

Por Fabiana Ribeiro.

sábado, 1 de junho de 2019

A Verdade é objetiva

Paul Copan faz uma analogia sobre o relativismo e cabe bem aqui. Ele menciona que se um dia alguém se deparar com um grande acidente envolvendo muitos carros, mesmo que ninguém assuma a culpa, sempre haverá um culpado. Mesmo se as autoridades de transito não conseguirem encontrar o verdadeiro culpado e ninguém mais se importar, a seguradora irá se importar em encontrar a verdade. A verdade é objetiva, assim como os valores morais. Copan se expressa assim:
A verdade é mais do que a nossa comunicação subjetiva de um acidente de carro. Ela tem existência objetiva. Ela tem aplicação universal.
Verdade é verdade - mesmo que ninguém saiba;
Verdade é verdade - mesmo que ninguém admita;
Verdade é verdade - mesmo que ninguém concorde com ela;
Verdade é verdade - mesmo que ninguém a siga;
Verdade é verdade - mesmo que ninguém, apenas Deus a mantenha totalmente (COPAN, 2009, p. 20).
Fonte:
COPAN, Paul. True for You, But Not for Me: Overcoming Objections to Christian Faith. Revised edition. Minneapolis, Minnesota: Bethany House, 2009
By Walson Sales.

quarta-feira, 17 de abril de 2019

Valores universais e o relativismo das culturas.

Por André Holanda
Quando falo sobre a universalidade dos valores morais, muitos alunos sempre discordam afirmando que "nenhuma cultura tem o direito de impor os seus valores morais aos outros", "Cada cultura não deveria ser julgada por ninguém de fora. Isto seria xenofobia, etnocentrismo, etc", "A moral ocidental judaico-cristã (do homem/macho branco) não pode ser imposta aos outros povos", "Temos de aceitar o perspectivismo ou o lugar-de-fala de cada um", etc.
Sendo assim, para os multiculturalistas ou relativistas éticos, por exemplo, não temos o direito de condenar os povos africanos que mutilam geniltalmente as meninas. Também não deveríamos criticar os muçulmanos por praticarem sexo com meninas de oito ou nove anos de idade. Não podemos nos opor à prática de tribos indígenas que sepultam um bebê gêmeo vivo ou um bebê que nasceu deficiente. Nem poderíamos nos opor ao apedrejamento público de mulheres no mundo muçulmano. "Nossa cultura não tem o direito de julgar as demais". "É a cultura deles, respeite". Para os relativistas morais, não existe, então, algo que deva ser considerado universalmente errado a combatido por todos nós, a despeito da cultura de cada povo.
Para mim a resposta é muito simples e óbvia: pergunte o que a vítima acha do que está sendo feito à ela. Se a menina de oito ou nove anos de idade que vai ser obrigada a ser desvirginada por um homem de cinquenta ou sessenta anos tivesse o direito de escolher diferente, o que ela faria? Se a menina que está sendo mutilada pudesse escolher não ser mutilada, o que vc acha que ela escolheria? Se o bebê indígena que vai ser enterrado vivo pudesse falar, ele imploraria pela sua vida? Se a jovem, que vai ser apedrejada até a morte por não ter coberto o rosto, pudesse ser perdoada, o que ela escolheria?
Indo além: Nessas culturas, quem violenta quer ser violentado? Quem mutila quer ser mutilado? O pajé quer ser enterrado vivo? O líder muçulmano quer ser apedrejado no lugar da moça? Duvido. Nenhum deles quer! Portanto, pelo menos por causa das vítimas, há alguns valores morais válidos universalmente (como, por exemplo, o direito a permanecer vivo e o direito a não ter o seu corpo ferido por outrem) que devem ser seguidos por todos em qualquer época, em qualquer cultura e em qualquer lugar. E, há práticas que são sempre erradas, mesmo que todas as culturas as considerem certas.